Tudo se Ajeita, menos a Morte
7 Capítulo 7
O semblante estava cansativo de quem andou, andou e não chegou onde desejava. Esclerótica vermelha de quem bebeu, óculos dependurados, olhos que enxergavam além, que não mais o encarava.
- Cazuzaaaa, a gente tá indo pra Lapa. Vamo\'bora?! Desviou os olhos do outro por um segundo para responder que não. Caio já lhe dava as costas. Frejat não o viu, deu uma tapinha nas costas do amigo e já ia saindo.
- Espera! Avançou um passo ameaçando tocá-lo no pulso. Caio seguiu o gesto infalso da mão que quase lhe tocara.
Cazuza o chamou hesitante para o apartamento dele. Não sabia mas queria velar o corpo que hoje aparentava frágil.
Entraram no carro e seguiram em silêncio durante o trajeto.
Caio estava presente em corpo e a cabeça, onde?, se perguntou Cazuza na sua simplicidade de quem não entende a fadiga do outro.
Entraram e a visita enfim levantou os olhos para olhar o apartamento escuro com móveis brancos refletidos pela luz de fora.
E aquele dono gentil oferecendo colo a um estranho que quase o comera uma vez.
Trouxe um cálice com vinho tinto. Beberam. Sabiam que o silêncio poderia reinar enquanto não houvesse a obrigação de ter uma conversa artificial.
Cazuza sentou ao lado de Caio no sofá que imediatamente estendeu-se.
Vê-lo ali deitado no seu colo de olhos fechados, a mão firme segurando o cálice, lhe doía novamente no peito.
Uma magia de estarem deitados no sofá, um ao lado do outro, ouvindo Billie Holiday, brincando com os dedos uns dos outros.
Cazuza o beijou nos olhos, na boca de suave, a língua passeava sobre o lábio inferior duma boca que continha um sorriso de alívio.
- Eu quero você. Disse em meio de um sussurro e a língua de Caio que entrava na sua boca.
Se não tivesse concentrado no toque que lhe causava um prazer singular, teria notado que era a paz e o amor que sentia em segundo. A criança havia encontrado o brinquedo favorito, no molde e tamanho perfeito.
Caio estava completando além do corpo onde um cabia no outro. Completava o espaço onde Cazuza sempre quis encontrar o que procurava sem saber.
E o perfume remoto de flores de jasmim entrava nos pulmões satisfeitos varrendo todo um mal que fumaça um dia causou.
Os dois sabiam que estavam vivendo um romance dos poemas de Vinícius de Moraes, onde é possível amar intensamente numa única só noite para amanhã encontrar outra bela mulher e amá-la como se fosse a primeira e a última.
Tomaram todo o cuidado em colocar a camisinha. Um queria proteger o outro.
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