Tudo se Ajeita, menos a Morte
12 Capítulo 12
Resoluto do show, apareceu no amplo espaço reservado aos vips. Grande merda, xingou mentalmente quando ainda se encaminhava para lá. Foi tomado por gentes quando atravessou a porta. Mudou novamente de humor, para o mesmo que ostentava no palco.
Levantou os olhos para explorar o espaço. Ele. Caio se encontrava na outra extremidade, usava terno escuro, gravata afrouxada, mãos nos bolsos e estava rodeado de jovens. Então o coração, localizado no meio do peito, sob o osso esterno, ligeiramente deslocado para a esquerda, "escondido pedaço onde fica guardado o que se sente e o que se pensa sobre pessoas daquais se gosta", como escreveu Caio num conto, bateu ligeiramente — e involuntariamente — desvairado dentro dele. Podia senti-lo limpo, o cheiro da colônia, a boca meio amarga por café forte e cigarros. Encenou dias a dentro a sua volta. Tanto tempo que sentia certa agonia por a sua imagem começar a esfacelar na retina.
Cazuza ficou a observá-lo do vão da porta onde amigos apreenderam e tagarelavam em seu circuito. As vozes chegavam remotas. A imagem de Caio o paralisara temporariamente. Tão bonito desse ângulo. E aquelas férias no nordeste, quando? Ele estava presente no show? Ouvira a música?
Deixou os outros e foi abrindo espaço com as mãos até o outro lado, onde Caio já notara sua aproximação. Um segundo antes de caírem num abraço terno, olharam-se cúmplices, tanta saudade, sonhei com teu corpo, corações gritando silenciosamente. Eu te esperei, você está aqui, completamente blue, o cheiro familiar na curva do ombro com o pescoço, excitação efêmera, não solta da minha mão.
O burburinho dos adolescentes que chegara com Caio soava. Caio falou após se desprender do corpo do seu amante:
- Fui concebido em trazer essa gurizada. Apresentou-os.
- Ah — sorriu — vocês sim são o futuro dessa geração! Os adolescentes entorpecidos com a presença e simpatia do ídolo, contorceram-se em risos.
Cazuza foi carregado para outro canto, pessoas esperavam atenção. O olhar que deitou em Caio poderia comparar-se ao de uma criança que é retirada do colo da sua mãe para ir ao primeiro dia de aula na escola. Leu nos lábios do outro: no apartamento.
***
Caio riu deixando à mostra os dentes de um fumante legítimo. Tornou-se sério e, enquanto olhava a penumbra da sala, colocou entre as suas as mãos do Cazuza, e disse:
- E eu achando que não ia me deixar em ninguém enquanto escrevia em personagens minha própria solidão. Ninguém ia me amar e que talvez um dia até rodassem um filme meu, contando minha vida, a vida esquizofrênica de um escritor. É, achei um dia que fosse me tornar esquizofrênico. E depois voltava pensando: é solidão, é vazio, não haverá filme! Tinha vontade de chegar na cozinha e falar mãe-senta-aqui-sim-estou-bem-eu-queria-falar-Tem-uma-coisa-emergindo-já-morta-dentro-de-mim-e-me-sinto-cansado-e-pesado-demais-para-continuar-a-esperar-se-tornar-eminente. Tinha vontade de desesperar alguém comigo mas depois observando seus ágeis movimentos e a pele lisa de suor, notava a covardia de apontar a pessoa errada, se é que houvesse alguém disponível para tanto peso e cada um deveria ter suas tristezas próprias a remoer.
Calou-se um instante e prosseguiu:
- A morte era a única saída cega, pensava nela todos os dias como um amigo distante que se tem vontade de rever. Acho que, na verdade, nunca quis morrer. Tive chances de me matar, cometer um suicídio perfeito, me queimar, afogar, cortar, enforcar. Cheguei a perguntar em um mercado próximo se havia veneno de rato mas não tinha e fiquei me perguntando onde poderia encontrar. Sei que não cometeria o ato de comprar. Só estava testando meus limites. Depois, aos dezoito anos, o desejo insaciável por garotos aflorava meu corpo. Me via estendido ansiando por amor e sexo mas não queria me derramar assim, sem nenhum propósito, não o propósito da carne que é de fácil alcance, mas o da alma encontrando a outra, se misturando, se perdendo, se findando. As paredes com os quadros pintados enfeitavam a sala. E eu não encontrava nada de elegante, tudo ficava desajeitado, sem jeito quando me olhava no espelho. Nem um quadro, uma luz, uma cor, nada. Me entristecia com a falta de beleza no meu rosto, nem um quadro do pintor mais talentoso conseguia dar elegância. O que me deixava triste não era o passado ou o futuro, era aquele presente maligno e vazio que me perseguia o dia inteiro. Aí eu tentava tampar algum lugar, o buraco mais feio, feito a ferida com gaze, mas depois me deparava com um buraco se expondo, rindo de mim, me humilhando. Então desistia, não encontrava mais como lutar.
Virou a cabeça em sua direção, encarou-o nos olhos e falou:
-E agora você toma um pouco de mim, me bebe e me compõe uma música. Não sei se meu gosto é bom mas a música ficou linda.
Sorrio meio cansado daquela visita a sua alma turva. Fitou um canto escuro e vacilante terminou:
- Tenho medo do dia que eu vir à tona e perceber que você está tão dentro de mim que desesperadamente vou tentar tirá-lo. E não quero que você saia, não quero sair de você... É só um medo, entenda.
Cazuza segurava firme sua mão enquanto o ouvia. Encararam-se novamente, Cazuza lapidou:
- Eu quero ficar com você.
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