Tudo se Ajeita, menos a Morte
10 Capítulo 10
Chegou em casa à noite, o vazio já o esperava nítido no escuro da sala, olhou e qualquer coisa como não pertenço a esse lugar ou nesse espaço já houve alegria surgiu no olhar. As coisas pareciam escorrer monótona dentro dele, tudo silencioso e quieto feito criança que dorme sossegada, o tempo caseiro não era preciso, o tempo em casa nunca passava.
Não havia mais o encanto de chafurdar na solidão, na complexidade e dormir feito um abandonado não tinha mais sentido.
O estar só possuía agora um cheiro e uma lembrança.
Caio, em sua passagem, trouxera a magia e deiraxa todo o medo de morrer sozinho, de não ter quem amar, não dizer eu preciso de você quando à noite cair assustadora. Ele deixou respostas e mais e mais perguntas.
Não queria e não podia sair, na manhã seguinte começaria os ensaios para o show.
Enquanto ouvia Bob Dylan na vitrola, olhava, por entre a eterna fumaça de cigarros, os móveis que, num quadro dramático, os via puídos por um tempo escasso e não saberia explicar o porquê de quê de cada coisa.
Lembrou de um trecho de um dos livros do Caio que comprou logo após sua partida, algo como \"não compreendo como querer outro possa pintar como saída de nossa solidão fatal\", e o angustiava.
O corpo não reagia, as pernas estavam cansadas para levantar e tentar uma fuga de sí próprio. Desconhecia o poder mental onde o cérebro fatigava-se e não se calava o grito interno. Vontade de ir embora, encontrar a porta de emergência e sair sem rumo.
O telefone tocou. Sentiu-se quase aliviado com o barulho súbito, ainda estava vivo.
- Cazuza... A voz chegou confusa entre o burburinho de rua movimentada.
- Caio? Coração se sobressaltou.
- Você não esperava uma ligação minha... costumo escrever, mandar cartas... mas recordei que você é esquecido, então... liguei duas outras noites e você não estava... então...
A voz estava cortada, hesitante, como quem teme alguma reação, o rumor o deixava confuso, impaciente mas Cazuza ouviu claramente a voz dele, sentiu falta da voz dele falando e falando, porque falava muito. Caio falou mais alguma coisa e disse tchau. A linha do telefone estava correndo, ainda ficou parado por segundos com o aparelho no ouvido.
Carta?, pensou se encaminhando ao móvel onde ficava as correspondências que ele nunca conferia. Lá estava Caio em letras datilografadas.
\"Cazuza, querido, saudade de sua voz sibilante. Estive pensando em você, em cada canto. Encontrei meninos e meninas o idolatrando, chegavam até ter o seu jeito de rir, falar e me perguntei por que nunca reparei em você? E se a sua presença constante nas coisas é por culpa deles ou por culpa sua. Não sei responder. E penso e repenso e trepenso em você por aí. Tudo azul, completamente blue. Me sinto no verão da Europa, o sol aqui é fraquinho e tiro da mala os blusões que usava em Santiago. Logo mais vou no cinema, no escuro eu choro sempre. Acordei hoje com sua voz na rádio, os adolescentes ouviam alto e cantei e por você eu largo tudo, carreira, dinheiro e canudo. Desejo voltar logo. Vi por aqui que fará show no Circo Voador e me animei com a garotada, nós estamos trocando cultura, me indicaram Cazuza e eu, Clarice. Um deles descobriram um livro do Caio e repassou para os outros. Fiquei tão contente de ver nossa juventude tão animada para mudar as coisas. Fiquei no anonimato. Quero ver você. Tocar e cheirar e sentir seu gosto bom, a sua boca com o beijo guardado. Posso estar sendo precoce, sei que és diferente de mim mas acredito na nossa magia junta. E sinto prazer em sentir amor por outra pessoa. Nada muito adiantado, como dizer eu te amo, casar e ter filhos. Mas como querer ter alguém por perto. Deve ser estéril a certeza de quem vive sem amor. Estou torcendo para que esse marketing acabe logo e eu possa voltar ao Rio para te ver no show. Mas não sei. Se cuide, se prepare, me espere. Y besos muy calientes. Seu, Caio F.\"
Amou ternamente Caio em suas frases. Sorriu e chorou quando acabou de ler. Andou pela casa satisfeito. Serviu-se de vinho tinto ainda com o coração agitado. Releu sua carta e tinha orgulho em pensar Minha Carta. Pegou um lápis e escreveu no lado avesso da carta:
Completamente Blue
Tudo azul
Completamente blue
Vou sorrindo, vou vivendo
Logo mais, vou no cinema
No escuro, eu choro
E adoro a cena
Sou feliz em Ipanema
Encho a cara no Leblon
Tento ver na tua cara linda
O lado bom
Como é triste a tua beleza
Que é beleza em mim também
Vem do teu sol que é noturno
Não machuca e nem faz bem
Você chega e sai e some
E eu te amo assim tão só
Tão somente o teu segredo
E mais uns cem, mais uns cem
Tudo azul, tudo azul
Completamente blue
Tudo azul
Como é estranha a natureza
Morta dos que não têm dor
Como é estéril a certeza
De quem vive sem amor, sem amor
Mas tudo azul, tudo azul, tudo azul
Completamente blue
Tudo azul.
Fez letra e música mas ainda precisava de alguns retoques, queria opinião de outro profissional na melodia.
Dormiu com a intenção de adicionar Completamente blue nos ensaios afim de apresentar no show.
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