Cazuza sentia um frio na barriga ao rever as montanhas e o mar azulado cintilado por uma quinta-feira ensolarada no Rio de Janeiro. Da janela do avião, com sua mãe e o Zeca ao lado, prestes a pousar no Galeão, os olhos marejados a lagrimas, ele estava ansioso para tomar um banho de mar em águas brasileiras, reencontrar velhos amigos de noitada, e, aproveitando a melhora significativa, beber, fumar, transar, \"estar ativo na vida\", como disse ao Zeca na saída do hospital de Boston. E, principalmente, o mais esperado, a sua volta aos palcos. Cantar para um público, sentir o calor da plateia acompanhando suas músicas. Chegou em casa feliz \"como nunca havia estado antes\", pensou.

No sábado acordou de manhã, tomou café com os pais na mesa; planejavam encontros para à noite, o advertiam de drogas lícitas evitando citar as ilícitas. Cazuza falava ao telefone, insistindo, reclamando aos amigos, integrantes de sua, então, ex banda Barão Vermelho.

- Porra, Frejat! Você diz que é meu brother e não vem me dá um abraço? Tá me enrolando... Foda-se as entrevistas! Cheguei na quarta e ninguém apareceu... Telefonema, telefonema... O que é um telefonema de \"boas vindas\" na frente de um abraço carnal? Vai estar no show hoje à noite? NÃO? Puta que o pario. Adeus.

Desligou na cara do Frejat e xingou os motoristas dos carros que juntaram atrás do seu que empatava a saída dos veículos. Dé ofereceu a garrafa de whisky e seguiram à praia do Recreio junto com Bebel, Ângela Rô Rô e Ney.

Cazuza arrancava olhares de homens e mulheres. Este sorria para todos enquanto Ney, andava atrás com o seu ciúme enrustido.

Sentia-se chateado pela decepção com os amigos da banda; os considerava irmãos do peito que nunca, jamais abandonaria uns aos outros; concretizou a parceria eterna numa noite em que, bêbados e drogados, fizeram furos nos dedos afim de fazerem um pacto de sangue, mesmo correndo o risco de pegarem alguma doença ou a terrível praga da Éra: AIDS.