Tudo que vem tem que ir
2 Capítulo 2
Notas iniciais
— Papai? – Freddie disse se aproximando
— Oi, amigo – Steve disse abrindo os olhos e em seguida voltando a poltrona ao normal para ficar sentado
— Não consigo dormir – Freddie se sentou no sofá e Steve se levantou e sentou do lado dele
— É, eu também não – Steve olhou pro garoto que estava do seu lado olhando para algum ponto fixo na sala – Freddie, filho... Quando a sua avó me contou o que estava acontecendo com ela, você ainda estava no hospital se recuperando e eu havia decidido que não era o ideal você saber, porque você estava lá, sem o movimento da suas pernas e eu tenho certeza que você estava mais preocupado do que demonstrava. Eu só não queria te sobrecarregar com tanta coisa, porque a nossa vida já tenta fazer isso por si só, e quanto menos informações assim, menos preocupado você iria ficar. E menos retraído também. – Steve explicou e Freddie se virou pra ele, vendo então os olhos vermelhos do pai
— E depois? Por que quando eu saí do hospital não me contou?
— Não demorou para que você se envolvesse em um caso, e depois ter tido aquele problema na escola. Você só tem 13 anos filho, e por mais que eu vejo você tratando as coisas com muita seriedade e maturidade, eu quero que você cresça com uma infância mais normal possível. Você passou por muito e eu não achei justo te sobrecarregar com mais uma coisa – Steve explicou e Freddie o olhava atentamente – A questão é, eu sempre vou fazer tudo pensando no melhor pra você, filho. Eu sei que temos algumas regras, sei que eu violei uma delas te escondendo isso e você tem o direito de estar bravo, você tem todo o direito nisso, mas eu quero que você saiba que tudo, tudo que eu escolho fazer é porque eu te amo
— Eu sei que faz, pai... Mas eu queria ter sabido disso, porque... Porque, porque eu... Eu poderia ter mostrado a ela que eu aprendi alguns truques de mágica
— Você aprendeu truques de mágica? – Steve disse surpreso
— Sim, eu... Eu reparei como ela fazia, é ilusão de ótica... Eu ia fazer no show de talentos da escola para ela ver – Steve suspirou quando o filho revelou
— Eu... Me desculpa, eu não sabia... Não sabia que você tinha aprendido a fazer mágica
— Tudo bem, pai
— Ei, de verdade... Eu sinto muito por ter tirado isso de você – O menino acenou com a cabeça – Me desculpa mesmo, eu... Desculpa
— Tá tudo bem, pai. Eu prometo. – O menino assegurou mas logo apareceram algumas lágrimas nos olhos dele e Steve se aproximou mais e o apertou em um abraço
— Tudo bem – Steve disse esfregando a mão de baixo pra cima nas costas dele
— Não, não está tudo bem... – Freddie disse em um tom abafado e abraçando Steve o mais forte que podia enquanto as lágrimas eram derramadas
— Mas vai ficar, eu prometo que vai ficar – Steve disse ainda acariciando as costas do filho – Eu estou com você, eu te peguei – Steve disse consolando Freddie
— Pai? – O menino disse quebrando o silêncio após se acalmar um pouco – Me desculpa, pelo que eu fiz hoje e por ter dito que você não amava a vovó – Freddie se virou para olhar pra Steve
— Não se preocupe com isso, tá tudo bem garoto
— Não, você não me criou daquele jeito, eu não fui gentil e fiquei tão bravo não prestei atenção que além de minha avó era sua mãe. Eu sei que ela não foi a melhor mãe pra você e pra tia Mary, mas você gostava sim dela, eu sei... Você amava ela porque ela era sua mãe e não foi justo o que eu disse... E eu te deixei chateado
— Você está certo, filho. Eu amava ela sim, e pode ser que tínhamos algumas desavenças, mas eu a amava, e eu posso ter ficado chateado, mas já está tudo bem, fico feliz que tenha vindo para conversar comigo
— Por que as pessoas vão embora, pai?
— Amigo, olha... As pessoas vão embora porque é assim que é a vida, não tem como mudar, é o ciclo da vida
— Então não deveria ter doenças, porque aí a vovó não iria ficar doente e ela não iria morrer assim. Um dia vou fazer um remédio que as pessoas vão tomar e nunca vão ficar doentes
— Oh garoto – Steve disse e sorriu fraco pro filho e colocou um dos braços ao redor do pescoço do filho e o trazendo para perto
— Isso é injusto, né? Ninguém deveria perder a mãe ou o pai. Pelo menos eles, eles tinham que ser pra sempre – Freddie disse agarrando a camisa de Steve e escondendo o rosto nela quando novas lágrimas surgiram, assim como as de Steve – As pessoas que a gente ama deveriam ser pra sempre – Freddie disse em um tom abafado
— Eu concordo, filho... – Steve disse baixinho enquanto abraçava o filho e lágrimas escorriam nos seus olhos – Você tem toda razão, amigo – Steve disse beijando o topo da cabeça do garoto
— Pai eu escutei uma parte de sua conversa com o Danno – Freddie disse baixinho
— Você? Freddie, já falamos sobre isso – Steve disse o afastando e secando suas próprias lágrimas
— Eu só quero dizer que aquilo que você disse, aquilo sobre destruir o que toca, aquilo não é verdade, você sabe né?
— Freddie, não vamos falar sobre isso, cara
— Não, eu estou falando sério, você não destrói o que toca pai, isso é um absurdo, você... Como o Danno falou, você faz de tudo pra proteger as pessoas, tudo que aconteceu não é sua culpa, pai, você não tem que assumir toda a responsabilidade do mundo pra você
— Freddie, eu não... Eu não quero conversar sobre isso
— Você não destrói o que toca – Freddie disse e fez uma pausa – Nós temos que ir ver a tia Mary e a Joan, elas também devem estar tristes, como a gente, você não acha?
— É, eu acho que estão
— E somos a família delas, nós temos que ir e estar lá com elas, temos que nos apoiar um no outro por que é isso que a família faz
— Você tem razão, carinha – Steve sorriu fraco pro filho – Amanhã faremos uma visita, tudo bem pra você?
— Sim, tudo bem – Freddie respondeu e deitou a cabeça no peito de Steve – Estava sendo uma vida de uma família normal – Freddie falou baixo
— O que quer dizer?
— Ter a vovó aqui, parecíamos uma família normal. Nos almoços de domingo, ir à praia, tomar sorvete, jogar xadrez com ela, a ver fazendo mágica... Eu não quero dizer que eu não gosto de nossa vida, de nossa família, eu amo, amo tudo que fazemos juntos, mas era diferente com a vovó... Não sei dizer o porque, mas era diferente e eu gostava disso
— Você tem razão, não temos o que se pode chamar de família normal, e isso é complicado, foram muitas coisas que aconteceram no passado e eu tô tentando colocar esse trem nos trilhos e eu espero que tudo fique normal e que mais ninguém seja afetado pelo passado dessa família, não quero isso para o seu futuro nem pro da Joan
— Ela aqui, com a gente me fez sentir que tudo ia ser normal, que ela não iria mais fazer as coisa que ela fazia, e que ela estaria presente em todos natais, nos meus aniversários, nos dias de ação de graças e todos esses feriados importantes – Freddie suspirou – Mas sempre foi nós dois, e somos família do mesmo jeito, e somos a melhor família do mundo – Freddie deu um sorriso pra Steve
— É, nós somos – Steve disse o envolvendo em um novo abraço
— Eu já sinto falta dela – O menino disse baixinho
— Eu sei, eu também – Steve respondeu no mesmo tom – Escuta, eu tenho algo que você pode gostar, amigo – Steve disse se levantando e caminhando até a TV e Freddie o olhou
— O que é?
— Eu tenho alguns vídeos caseiros, sabe, quando eu fui pra Annapolis, eu levei uma pequena fita comigo, lá tinha pequenos filmes caseiros, tinha todo mundo, minha mãe, meu pai, Mary e eu... E quando eu sentia saudade, eu assistia em uma televisão que tinha em meu dormitório... Assistir ajudava a diminuir a dor, sabe? Ter a lembrança de coisas boas...
— Posso ver um desses vídeos?
— Claro, vamos lá – Steve disse conectando o HD na televisão e acessando os arquivos pessoais, entrando então em um dos vídeos. Ele se sentou novamente ao lado do filho no sofá e deu play.
— Isso é o que?
— Meu aniversário, estavam todos na ilha, foi um bom dia
— Isso foi no nosso quintal? Parece diferente
— Sim, hum, realmente está diferente, hein? Agora tem muito brinquedo lá fora
— Quem é aquele no canto? Aquele perto do Danno.
— Esse era o Toast, ele tinha sido o primeiro caso que Danny pegou quando chegou na ilha, desde então, viraram amigos. E ele era um ótimo hacker
— Ele também morreu?
— Sim
— Olha a Grace! Como ela era pequena! Olha as trancinhas dela!
— É... O tempo passou rápido – Steve sorriu olhando pra garotinha na tela da televisão
— E você, pai? Onde você está?
— Vou aparecer logo – Steve olhou pro filho, que olhava a televisão vidrado
— A vovó, olha ela! – Freddie sorriu feliz, e Steve sorriu ao ver que o filho sorria – O tio Chin e a tia Kono – Freddie sorriu – Você, papai – Freddie se virou pra Steve quando ele viu o pai sair de dentro de casa vendado, quando se virou novamente para a televisão, viu Catherine saindo de dentro da casa com Steve – Minha mãe... – Ele falou baixinho – Não sabia que tinha vídeos com ela
— Bom, ela aparece em um ou outro vídeo, ela não estava sempre na ilha para as comemorações
— Podemos ver outro depois desse? Com ela?
— Sim, podemos sim, mas só mais um. Já está tarde e você precisa dormir um pouco
— O velório é amanhã cedo?
— Não tem velório, Freddie – Steve disse em um tom mais baixo e o garoto se virou pra ele
— Porque eles não deixaram eu dizer adeus? – O garoto disse baixinho
— Sobre isso... Olha, há alguns anos... É, a Dóris, ela... Ela precisou fingir a própria morte, porque, porque muitas coisas aconteceram no passado e ela precisou fingir, tivemos o funeral naquela época, e por isso, por isso ela não pode ter um novo funeral agora
— E se ela fingiu de novo? Será que ela está em perigo?
— Dessa vez não, amigo... Dessa vez não – Steve disse olhando pro filho, que ficou em silêncio
— Isso é muito injusto, isso é errado, eles não podem fazer isso
— Infelizmente podem sim, amigo – Steve falou pro garoto que já havia virado novamente para a televisão.
Depois que terminou mais um vídeo, Freddie subiu as escadas para vestir seu pijama enquanto Steve fechava a casa e ativava o alarme. Quando terminou, passou pelo quarto do filho, que já estava deitado
— Boa noite, Freddie
— Pai, fica comigo até eu dormir?
— Claro, eu fico sim – Steve disse entrando no quarto e se sentando na beirada da cama
— Obrigado pelos vídeos, estou me sentindo um pouco melhor
— Sempre que quiser, que precisar, você pode vê-los, ok? – Freddie assentiu e eles ficaram em silêncio por uns instantes até Freddie quebrá-lo
— Não quero mais participar do Show de Talentos...
— Tem certeza?
— Sim, não vai ter mais graça... Eu iria pra ela ver
— Bom, eu gostaria de te ver fazendo mágica, e acho que sua avó também iria gostar se ela tivesse aqui
— Eu não sei, pai...
— Você não tem que fazer nada que não queira, ok? Mas depois, se você puder, se você quiser, quero que me mostre um truque
— Tudo bem – O menino ficou em silêncio novamente e em seguida começou a soluçar, logo ele se sentou porque o soluço estava incomodando, já que estava deitado
— Tudo bem, filho, tudo bem – Steve disse o trazendo para perto e o abraçando
— É ruim
— Eu sei, eu sei que é – Steve disse o dando o apertando firme no abraço – Mas vai melhor, com o tempo, vai melhorar
— Promessa?
— Promessa. – Steve levantou a coberta e o menino se deitou – Você tem que dormir, ok? Já está muito tarde, e você teve um dia muito cheio, precisa descansar um pouco. Tudo bem? – Steve o cobriu
— Boa noite, pai
— Boa noite, amigo – Steve disse descansando a mão levemente no ombro do filho, que estava deitado de lado virado pra ele. Não demorou muito pra que Freddie dormisse, Steve ficou alguns minutos ainda ali e logo se levantou – Tenha bons sonhos, meu amor... Amanhã vai ser melhor do que hoje. Boa noite. – Ele beijou o lado da cabeça do filho. Não se preocupe filho, nós vamos ficar bem. Sempre ficamos. Pensou Steve e saiu do quarto depois de dar uma última olhada no garoto que dormia profundamente.
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