Tudo que Vai Volta Ii
22 Capítulo 22
Notas iniciais
Foi como uma bomba. Eu estava sentada na minha cadeira de chefe na ponta da extensa mesa enquanto o pessoal começava a se arrumar em seus lugares. Cruzei minhas pernas e esperei. Foi quando a Júlia, a menina que ocupa agora meu antigo cargo e a quem eu invejo por ter a mesma garra que eu deixei pra trás, falou algo que fez minha cabeça pesar.
- O fim da banda My Chemical Romance. – Ela disse como o tema da nova edição. Na capa havia uma foto da banda como se estivesse rasgada separando cada integrante, e então aquela notícia que ainda me fazia sentir um choque na barriga, a banda tinha chegado ao fim.
- A banda realmente acabou? – Perguntou alguém que nem reconheci a voz por que estava muito distraída pensando se eu seria a causa disso tudo. – Não acredito... – A pessoa retornou após ouvir a confirmação da Júlia que havia conseguido uma entrevista com o guitarrista.
E o Gerard, onde ele estava agora? Fiquei imaginando onde ele estaria até que me pediram opinião sobre a capa; eu tive que voltar ao trabalho. Fazia quase duas semanas que eu não aparecia na empresa. Para minha mãe não desconfiar eu sempre saia de casa, mas nunca conseguia entrar na empresa. Era horrível ter que trabalhar sabendo que sua mãe estava condenada à morte. Seria muito egoísmo da minha parte fingir que nada disso estava acontecendo, assim como minha mãe me pediu. Mas com o tempo, uma parte de mim foi se conformando. Às vezes me acho tão má por pensar desse jeito de agora, mas é como se eu já tivesse aceitado o fato de que mais dias ou menos dias irei perder minha mãe. Nada que eu possa fazer, nem todo o dinheiro do mundo, conseguirá evitar isso. Então voltei ao trabalho.
Claudia andava insistentemente ao meu lado enquanto eu ia ao banheiro. Havia milhares de recados pra me dar por causa da minha ausência.
- Está me ouvindo? – Ela perguntou do lado de fora do reservado. Aquilo me tirava a concentração, eu conseguia ver seus pés por baixo da porta. Minha bexiga doía a ponto de explodir.
- To. – Respondi pra ver se ela se afastava, mas ela continuou parada falando sem parar. Acabei fazendo com ela ali mesmo.
Quando voltei pra sala eu tranquei a porta com várias voltas, mesmo sabendo que uma seria o suficiente. Eu não queria ouvir mais ninguém. Me sentei à mesa e escondi meu rosto com as mãos querendo gritar pra extravasar, mas se eu fizesse isso com certeza em alguns segundos estariam colocando minha porta abaixo achando que houvesse algum ladrão aqui dentro. Nos últimos dias tudo que preenchia meus pensamentos era a doença da minha mãe; Eu vivia procurando pela internet se havia alguma cura, pelo menos algum tratamento que fizesse prolongar a vida dela, mas não encontrei exatamente nada, o que era péssimo. Mas hoje ele tinha voltado. Não que eu não pensasse no Gerard nos outros dias, mas eu me esforçava pra esquecê-lo só que agora sabendo sobre o fim da banda, algo doía dentro de mim, uma sensação de que nunca iria vê-lo, um desespero me batia, ele não podia fazer isso, a banda era tudo pra ele, e também o único meio de eu ainda saber sobre ele. Ele teria casado com a Jasmine e resolveu se afastar pra eu não ficar sabendo mais sobre a vida deles? Só pode ser isso!
Senti as lágrimas quentes se aglomerarem nos meus olhos e então respirei fundo a fim de evitá-las, foi quando eu vi aquela revista sobre a mesa, a mesma que me apresentaram na sala de reunião. Eu sempre recebia uma cópia em minha sala para eu analisar; e lá estava aquela notícia em letras absurdas sobre o fim do MCR. Senti a mesma coisa que antes, meu estômago embrulhou. No momento seguinte eu estava com a revista em mãos, folheando as páginas a procura da entrevista, nem me dei o trabalho de olhar na primeira folha em que página ela se encontrava, em algumas viradas lá estava a foto da capa, só que menor com uma entrevista logo abaixo do guitarrista. Havia uma foto pequena dele com cara de desolado no final da folha no canto esquerdo. Bem ao lado desta havia uma tirinha com uma foto do Gerard e da Jasmine juntos. Eu respirei fundo e me preparei pro que leria. Eu já sabia o que encontrar, então esperei estar pronta pra confirmar minhas intuições.
“O relacionamento de Gerard, vocalista do My chemical Romance, e de Jasmine, irmã do baterista da banda, terminou dias antes dele anunciar o fim da banda. Em contato com a nossa revista ela nos contou que não sabe sobre o paradeiro dele e foi bastante hostil ao falar a respeito dele. Pelo jeito a coisa não terminou bem entre eles”.
Eu repreendi meu sentimento de esperança florescendo em meu interior. Ele terminou com a Jasmine como disse que iria fazer, mas isso não queria dizer nada. Eu o expulsei da minha vida e ele se foi, eu nem sabia pra onde. Talvez se eu ligasse pro celular dele... Me lembrei! Ele mudou de número depois que terminamos alguns meses atrás. E se eu fosse até a casa dos pais deles? Eles com certeza devem ter noticias dele. Mas pra que eu iria fazer isso? Afastá-lo, não era isso que eu pretendia fazer? Ele está escondido em algum lugar que eu não sei, justamente ou até melhor do que eu queria, eu não posso sair por aí a procura dele. O que ele ia achar disso?
Peguei minha bolsa e me levantei. Não ficaria mais no trabalho. Eu precisava tomar um ar. A Claudia me encheu de perguntas como se fosse minha chefe, eu precisava colocá-la no lugar dela algum dia, ou talvez ela esteja certa em querer me ajudar. Por sorte o elevador estava vazio. Eu detestava vir toda apertada, até pra respirar era difícil por eu ser tão baixa. Sortudo são os altos por terem todo o ar pra eles enquanto nós os baixo ficamos afobados. Droga! O elevador parou. Estava tão bom ficar sozinha, aproveitava pra me olhar no espelho, estava reparando em quanto as rugas iam aumentando na minha testa.
OK, hoje deve ser meu dia de sorte, pra não dizer o contrário.
- Oi. – Disse o rapaz alto e ruivo entrando no elevador.
- Oi. – Respondi sem graça.
A porta do elevador se fechou. Estava tudo silencioso demais para meu gosto. Eu deveria me desculpar por não ter ligado pra ele remarcando nosso encontro pra outro dia, ou por ignorar as centenas de ligações que ele fazia pro meu celular?
Ele se inclinou na minha direção, mas não pra me agarrar, mas pra apertar um dos botões a minha frente. Numa situação normal eu ficaria tranqüila, mas ele apertou o enorme botão vermelho que fez o elevador parar. Eu virei meu rosto na direção dele com espanto. Ele ia se vingar de mim ou o que?
- A gente pode conversar?
- Tem que ser dentro do elevador? – Eu perguntei assustada.
- OK. – Ele apertou o botão novamente e o elevador voltou a descer.
Ficamos em silêncio até o elevador atingir o térreo. Esperamos sair do prédio, então paramos distantes da porta.
- Você não atende as minhas ligações, estou tentando falar com você há dias, anda me evitando, nunca mais comprou seu capuchinno. O que está acontecendo?
Engoli seco. Eu não podia contar nada pra ele, o que eu inventaria?
- Estive ocupada demais.
- Não podia retornar quando não estivesse ocupada? – Ele insistiu.
- OK. Wallace. É... eu ando tendo alguns problemas familiares, entende? Eu não pude retornar, estava ocupada resolvendo N coisas, mas eu te peço desculpas.
Ele olhou rapidamente para a cafeteria do outro lado da rua, acho que pra ver se alguém estava vendo ele ali fora do trabalho.
- Tudo bem, então... não vamos mais sair, é isso? – Ele perguntou com pressa em seu tom desapontado.
Eu o encarei sem palavras. Ele era um rapaz tão bonito e simpático e eu não sentia nenhuma atração por ele, a não ser física, é claro. Por que eu não podia me apaixonar por ele? Por que eu ainda tinha que amar o Gerard depois de tanto tempo e de tudo que sofri por ele? Natasha, sua sádica.
Em alguns segundos considerei alguns pontos daquela situação: Wallace era lindo, isso eu já disse, era sexta-feira, eu precisava sair pra me distrair e talvez a idéia dele de me levar a um parque fosse o que eu estava precisando. Seria divertido e útil. Por que não aceitar?
- Hoje está bom pra você? – Eu perguntei furtiva.
- Hoje? – Ele perguntou indeciso, mas aceitou logo em seguida como se tivesse medo de que eu mudasse de idéia. – Ótimo. Eu te encontro às oito aqui.
- Ótimo. – Eu respondi um pouco desapontada. O que eu esperava dele, que viesse me buscar de carro em casa? Se bobeasse ele não tinha nem idade pra tirar carteira de motorista. Brincadeira. Ele tinha idade com certeza. Mas não ganhava o suficiente pra comprar um carro. Talvez quando estivéssemos com alguns meses de namoro eu o presenteasse com um carro, eu poderia até colocá-lo na minha empresa. OK. Eu estou viajando agora.
- Então a gente se vê mais tarde. – Ele parecia nervoso e eu soube o porquê alguns segundos depois quando ele me beijou. Foi um beijo inesperado e bom, muito bom. Pode alguém que ama outra pessoa gostar de um beijo roubado? Ele segurava meu rosto delicadamente enquanto enroscava sua língua na minha. Uma sensação maravilhosa fazia minha barriga formigar. Eu cambaleei quando ele me largou. Estava zonza e satisfeita como fazia tempo não me sentia assim. Eu não soube o que dizer quando terminamos aquele beijo. Ele sorria contente quando se virou pra atravessar a rua. Eu não conseguia conter tamanha felicidade também. Por um momento eu me senti viva. Não que eu não estivesse antes, mas eu estava tão acabada com tantos problemas, sem prazer nenhum e agora eu não conseguia conter a alegria contagiante em meu corpo. Peguei um táxi e quando cheguei em casa até a Kate reparou.
- Está contente. O que aconteceu?
- Vou sair com o Wallace hoje.
- Wallace? – Ela fez um esforço pra lembrar. – Ah, o atendente?
- Gerente. – A corrigi indo em direção a escada. Eu precisava escolher uma roupa. Kate levantou-se do sofá e me seguiu até o quarto. Joguei minha bolsa na cama e abri o meu armário.
- Ainda pensam em ir ao parque?
- Acho que sim. Eu quero, mas ele não comentou pra onde íamos.
- Quer ajuda com a roupa?
- Não precisa. Já sei exatamente o que vestir. — Eu disse animada puxando os cabides com a roupa que eu vestiria naquela noite.
Peguei um táxi e pedi que ele me deixasse em frente a empresa. O Wallace já estava lá quando cheguei, esperando perto da porta. Eu desci e paguei ao taxista o valor cobrado. Quando me virei percebi o olhar quase emocionado do rapaz ao me avistar. Me vesti adequadamente para a ocasião. Nada de salto por que estávamos indo a um parque – pelo menos era o que eu achava já que foi o que combinamos da primeira vez -, então calcei um tênis sapatilha branco. Estava usando a minha saia cigana bege clara e uma camisetinha de malha branca justa no corpo. Conforme eu caminhava na direção dele, meus longos cabelos castanhos esvoaçavam, eu preferi deixá-lo solto, ele era meu grande charme. Quando me aproximei ele não pareceu resistir e me roubou outro beijo como fez mais cedo. Eu não me incomodei nem um pouco, o beijo era ótimo, eu quase podia ouvir os sinos badalarem.
- Você está um espetáculo. – Ele me disse com os lábios próximos ao meu ouvido. Os cabelos da minha nuca se arrepiaram violentamente, sendo um pouco dolorido.
- Obrigada. – Eu o beijei levemente nos lábios e estendi minha mão pra que ele pegasse. Por sorte naquela hora não havia mais ninguém na empresa, o prédio já estava escuro e trancado, então não teria ninguém pra registrar aquele momento e fazer fofocas na segunda-feira. Wallace e eu caminhamos alguns minutos decidindo aonde iríamos, eu propus o parque e foi pra lá que nos dirigimos. Eu nunca me diverti tanto naquele ano como naquele dia. Andamos em todos os brinquedos que podíamos andar. Wallace era o máximo. Ele era engraçado e um doce de homem, ele até ganhou um urso pra mim na barraca de tiro. A Jessy ia adorar. Falando na minha filha, eu não disse nada sobre ela pra ele enquanto conversávamos. Decidi que contaria no segundo encontro, naquele dia eu queria curtir e me esquecer um pouco de tudo. No final fomos para a roda gigante enquanto dividíamos um algodão doce rosa. Quando nosso banco ficou parado no alto contemplamos a vista de mãos dadas e nos beijamos ao monte. Foi super romântico. Era até inacreditável pra mim que tudo aquilo estivesse acontecendo. O Wallace era tão maduro pra idade dele. Ele me disse sua idade assim que chegamos ao parque e não foi por que eu perguntei, ele tinha vinte e um. Quando saiamos do parque era como se já nos conhecêssemos a anos. Nós riamos e falávamos alto sobre assuntos engraçados. Paramos na porta do parque enquanto terminávamos a conversa. Eu esperava que a noite se prolongasse, mas não seria eu a tomar a frente e convidá-lo pra irmos ao apartamento dele, certo? Então eu esperei, pacientemente, enquanto ele terminava de contar sobre um dia de trabalho e quando ele terminou eu sorri docemente fitando seus lábios vermelhos por causa do meu batom. Eu não agüentei e ri ao reparar isso.
- O que foi? – Ele perguntou risonho.
- Sua boca está com meu batom.
- Sério? – Ele passou a mão pra tirar.
- Vem cá. Deixa que eu tiro pra você. – Eu me aproximei e o beijei e de vez em quando lambia seus lábios fazendo cócegas nele. – Sabor morango. – Eu disse sobre o batom. Nós rimos, então ele ficou mais sério.
- Quer ir ao meu apartamento?
Eu não respondi, sorri travessa e o puxei pela mão sem saber em qual direção ficava o apartamento dele. Descobri que estávamos indo pra direção errada quando ele me perguntou pra onde estávamos indo e eu respondi que pro apartamento dele.
Quando ele abriu a porta do apartamento já estávamos nos atracando apressados. Ele mal teve como fechar a porta comigo em seu pescoço. Ele a empurrou com o pé que bateu violentamente. Abri minhas mãos deixando o urso e a bolsa caírem ao lado do sofá em que me deitei logo em seguida. Ele estava por cima de mim, deslizando suas mãos em minha coxa, suspendendo minha saia enquanto me beijava. Ele agarrou minha calcinha puxando-a pra baixo. Eu suspendi um pouco o quadril pra ajudá-lo a tirá-la. Alguns segundos depois ele estava me levando a loucura com seus dedos ágeis. Fazia tanto tempo, que eu sentia que não iria agüentar por muito tempo sem chegar ao ápice. Ele me beijava intensamente. Decidi retribuí-lo e passei minhas mãos nos braços másculos dele, desci até o seu abdômen de tanque e quando senti o cinto dele o agarrei para desafivelá-lo. Ele sorriu com aprovação e voltou a me beijar. Suas mãos agora apalpavam meus seios. Ele desceu os lábios pelo meu pescoço e eu joguei minha cabeça pra trás curtindo os mimos. Foi quando a porta do apartamento se abriu e ouvimos alguém falando. Wallace recuou rapidamente ficando de joelho sobre o sofá e eu tentava arriar minha saia toda atrapalhada pelo nervosismo. O menino de cabelos negros parou de falar no celular e nos olhos assustado. Ele voltou a falar no celular dizendo que ligaria depois pra pessoa do outro lado da linha e então voltou a nos encarar. Eu devia estar roxa de vergonha.
- Wallace, o que está fazendo aqui? – Ele perguntou surpreso.
Meus olhos se arregalaram. Como assim o que ele estava fazendo ali, aquele não era seu apartamento? Se não era, onde estávamos? Eu virei meu rosto em sua direção esperando uma explicação.
- OK. – Wallace disse nervoso. E sem me dar explicações se levantou e com uma mão no ombro do rapaz o encaminhou até o lado de fora do apartamento fechando a porta.
Que vergonha! Eu, Natasha, uma mãe, fui pega me esfregando com um garoto anos mais novo que eu no apartamento de sei lá quem, por um desconhecido que me viu praticamente nua. Ta, ele não deve ter visto nada além das minhas coxas, mas mesmo assim. Ele sabe o que eu estava fazendo aqui e se algum dia me encontrar na rua, como é que eu fico? Por que essas coisas têm que acontecer comigo? Eu só me meto em roubada. Eu puxei minha calcinha que estava pelos meus tornozelos e a vesti.
Não, não é possível. Só pode ser um mal entendido. O Wallace não mentiria pra mim e me traria pra um lugar que não fosse seu apartamento, certo? Eu estava tão envolvida com o momento que nem havia reparado em o quanto esse apartamento parece um chiqueiro, tem tanto troço sujo sobre a mesa e roupa jogada pelo chão.
A porta se abriu me acordando dos pensamentos, então me toquei de que estava esparramada no sofá toda desarrumada. Me sentei direito e esperei o Wallace falar alguma coisa, dar alguma explicação. Eu não falaria nada até que ele me explicasse tudo. O menino de cabelos negros não voltou com ele. Ele se sentou ao meu lado e passou as mãos nas pernas, nervoso. OK, eu disse que não diria nada, mas eu não estava mais agüentando aquele silêncio.
- O que está acontecendo?
- Me desculpa. – Ele disse somente, com cara de culpado.
- Quem era aquele garoto, e por que ele perguntou o que você estava fazendo aqui, no seu apartamento?
Ele hesitou enquanto estava em duvida se me contava olhando pra mim ou pra outro ponto menos intimidador.
- Eu não moro aqui. – Ele explicou sem graça.
- Ah, meu Deus! – Eu gemi envergonhada tapando meu rosto.
- Eu havia pedido o apartamento emprestado pro Tony quando marcamos da primeira vez de nos encontrarmos e não devolvi a chave por que ele tinha ido viajar, então eu não achei que ele fosse chegar hoje.
Eu balancei a cabeça rindo daquela situação. Era ridículo o que eu estava passando, era como se eu ainda fosse uma adolescente.
- Então você não mora aqui? – Eu quis confirmar, aliás, eu estava bastante curiosa pra saber onde ele morava pra ele ter me levado pra outro lugar. Eu já fazia idéia.
- Eu moro com os meus pais. Do outro lado da cidade.
Eu ri mais uma vez. Ele me olhava espantado.
- Não liga não. Não estou rindo de você só da situação.
Ele começou a achar graça e eu fiquei séria.
- Não é pra você rir. – Eu o avisei. – Você tem idéia do quanto é constrangedor pra mim? Como eu vou encarar aquele garoto agora?
- Ele não ligou nem um pouco. Ele entendeu e disse que vai esperar lá fora enquanto terminamos. O Tony é um cara legal.
- Terminamos o que? Não acha que vou “terminar” o que começamos, né? – Eu disse com sarcasmo.
- Gata, relaxa. – Argh! Como eu detestei seu cinismo ao me chamar por gata. – Vai dar tudo certo. Ele está no celular com a namorada enquanto isso. Ele nem vai nos ouvir. É só não fazermos barulho.
- O que? – Eu perguntei enojada. O que ele estava pensando? Não ia rolar mais nada, eu queria era fugir dali o mais rápido possível, só estava criando coragem antes de passar pelo tal do Tony do lado de fora. Eu ia dar uma bela bronca nele quando ouvi meu celular tocar. - Meu celular está tocando. – Eu o informei abrindo minha bolsa. Olhei no visor identificando quem me ligava e era de casa. No mesmo instante atendi. – Alô.
- Natasha, oi, é a Kate.
- Aconteceu alguma coisa? – Perguntei preocupada.
- Primeiro fica calma, não é nada demais, a Jessy está com um pouquinho de febre, eu estava pensando se não era melhor levá-la ao hospital, por isso estou te ligando pra te pedir pra vir casa agora e então eu vou com você. Mas não precisa ficar preocupada.
- Como não vou ficar preocupada? – Eu resmunguei fechando minha bolsa e colocando-a no ombro antes de me levantar. – Eu já estou indo praí.
- Natasha, venha com calma.
- Ta, eu já estou indo.
Desliguei meu celular e olhei pro idiota do Wallace que estava me encarando esperando que eu dissesse alguma coisa.
- Eu tenho que ir.
- Mas por quê? Ainda está cedo.
- É a minha filha, ela está com febre.
- Sua o que? – Ele gritou assustado. – Não, você não pode ter uma filha.
- E por que não? – Eu perguntei enquanto guardava meu celular.
- Olha, não me leve a mal, mas eu não saio com mulheres que portam kit, se é que você está me entendendo.
- Então você também não me leve a mal, mas eu não saio com caras que ainda não saíram da barra da saia da mãe. – Ele me olhou incrédulo, mas eu não disse mais nada, dei as costas – antes peguei o urso, pelo menos estava levando alguma recompensa pela péssima noite -, e saí pela porta daquele chiqueiro de apartamento. O dono do apartamento estava do lado de fora esperando pra entrar. Ele me deu uma longa olhada analisando meu corpo e eu amarrei minha cara o encarando o que surtiu efeito e ele virou o rosto sem graça.
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