Tudo por vocês
5 Capítulo 4 — Tormenta
Notas iniciais
Há três semanas.
Olhou o seu reflexo na água, o que via não era algo muito agradável. Estava demasiadamente magricela, tanto que seus ossos dos ombros e do maxilar estavam exageradamente em evidência. Seu mento estava coberto por uma grossa camada de pelagem negra, a barba, algo que ele detestava. Suspirou pesadamente, precisava de um trato.
Retirou uma kunai da bolsa que esta presa a sua perna, e com movimentos sutis começou a deslizá-la por sua face, retirando toda a pelagem áspera de sua face. Ora ou outra comprimia os lábios, tentando abafar os gemidos de dor, causados pelos cortes feitos pela lâmina.
Após terminar de se barbear, retirou algumas peças de roupas, junto com seu tamanco de madeira e adentrou na água. O flúmen não era límpido e cristalino, mas também não emanava odores ou aparentava estar imundo. Era um flúmen qualquer, que lhe possibilitava ter líquido para se hidratar e para realizar a sua higiene, melhor que nada.
Depois de algum tempo se retirou dali, agora estava limpo e tinha pescado alguns peixes para o jantar. Postou-os sobre uma madeira próxima a margem direita do rio.
A medida que seu corpo foi secando, ele foi se vestindo, pois logo Naruto voltaria com algumas madeiras para fogueira, e não seria muito agradável estar seminu perto do loiro, afinal eles já tinham se beijado duas vezes, não queria uma terceira. Não que duvidasse da sua própria masculinidade, ele era homem com H maiúsculo, mas desconhecia a preferência do amigo.
Alguns minutos se passaram e o Uzumaki ainda não tinha voltado. Sua tarefa era muito simples, apenas encontrar alguns galhos secos e trazê-los para próximo do rio, onde eles haviam se estabelecido, mas nem isso o loiro conseguia fazer.
Sasuke desencostou-se de um tronco e suspirou pesadamente, graças ao ninja cabeça oca teria mais trabalho. Encaminhou-se em direção as árvores robustas e grandiosas, que possuíam galhos dançantes que obedeciam ao ritmo ditado pelo vento.
Estava prestes a entrar no breu de arvoredos, mas ouviu alguns barulhos vindo da mesma direção. Pegou a mesma kunai que usara já hoje e se pôs em posição de ataque. Logo os barulhos começaram a se intensificar, num mísero instante Sasuke escondeu-se nos galhos secos de uma cerejeira, e ali ficou até localizar o alvo.
Viu alguns arbustos, não muito longe dali, se mexerem. Bingo! Havia encontrado-o, seja o que quer que fosse. Num movimento rápido e preciso lançou a arma.
O barulho de folhas dançando e arbustos sacudindo-se, deram lugar a estrondos de galhos caindo, seguido por gritos estridentes.
— Droga! — Bufou o moreno.
Ele conhecia muito bem aquela voz, e tinha certeza que teria que aturá-la murmurando inúmeras reclamações por mais um bom tempo.
Desceu da cerejeira e rumou em direção a voz, não demorou muito para encontrar um Naruto caído, com uma kunai perfurando seu glúteo. Sentiu uma veia saltar em sua testa, isso só podia ser brincadeira.
— Teme seu maldito — esbravejou o Uzumaki.
— Você é um ninja ou o que? Vê se faz menos barulho da próxima vez, aí quem sabe a chance de ser perfurado por algo é menor — resmungou o Uchiha de mal humor, enquanto retirava a arma que perfurava a nádega do amigo, que por sua vez urrava. — Que diabos Naruto, mantenha-se calado.
— Você diz isso porque não é o seu bumbum que foi furado por um treco desses — reclamou o loiro.
Depois de muita reclamação por parte do Uzumaki e irritação por parte do Uchiha, finalmente eles pararam de discutir, não porque entraram no consenso, mas sim, porque o Jinchuuriki percebeu que sua fome era maior, muito maior que sua dor.
Logo ambos começaram a montar a fogueira, em seguida usaram uma das técnicas primitivas para fazerem fogo, já que o chakra não tinha voltado a fluir em seus corpos.
— Essa floresta é estranha… — disse o loiro de boca cheia.
— Hum…
— Você a olha daqui e vê todo essa escuridão, logo pensa “deve ser imensa”, mas na verdade ela é um tipo de camada…
— Camada? — Perguntou Sasuke.
— Sim, uma camada para proteger a vila que fica próxima daqui.
— Vila? Tem uma vila aqui perto? — O moreno quase se engasgou com um espinho do peixe que comia.
— Sim, a um raio de dois quilômetros ao norte — explicou-o.
— Você chegou a ir até lá Naruto?
— Observei-os de longe, não consegui identificar que vila era ao certo, na verdade não encontrei ninguém que usasse bandana para descobrir.
— Estranho, uma vila onde ninjas não usam bandanas… Deve ser nova ou um novo broto da aldeia do som — falou o moreno pensativo.
— Deve ser… — deu de ombros. — Mas, tem algo que eu achei meio estranho — Sasuke fitou-o com uma sobrancelha arqueada —, havia inúmeras pessoas correndo, para não sei aonde, enquanto falavam coisas estranhas como “Finalmente a Shingu voltou a florescer”.
— Shingu? — Indagou o moreno confuso. — Não seria Shinju?
— É isso mesmo! — afirmou Naruto. — As pessoas diziam que essa árvore aí tinha florescido, e que queriam muito ver o fruto proibido.
Naquele momento Sasuke ficou estático. Se suas suposições estivessem corretas, e ele tinha quase certeza de que estavam, os dois tinham um problemão diante de si. E para resolvê-lo seria necessário muito mais do que força física e raciocínio lógico, eles precisariam de ajuda externa, ou até mesmo divina.
Eu estava sentada sobre a maca, sobre meu colo estavam dois livros abertos, ambos falavam sobre as técnicas de ninjutsus. Como eu não podia sair do hospital, pedi para Ino pegá-los para mim na biblioteca. No início ela relutou um pouco, mas aleguei que tudo ali estava tedioso, e que precisava matar o tempo, então ela cedeu.
Duas semanas inteiras já tinham se passado desde a minha internação, isso segundo algumas enfermeiras que iam me medicar todos os dias. Tsunade e Shizune alternavam entre si para me avaliarem, e não davam indícios que me dariam alta tão cedo.
Há cinco dias levei um sermão de Tsunade, notei que ela relutava para não cair aos prantos.
— Você precisa entender Sakura, eles não vão voltar, não importa o que você faça — gritou-a.
— Eles vão voltar — impus minha voz, o que foi meio difícil, já que ela estava embargada.
— Não, não vão. Eles estão mortos Haruno Sakura, mortos! Por que você não coloca isso na sua cabeça? — Assim como eu ela lutava contra suas lágrimas.
— Porque isso é a mais pura mentira! Eles estão vivos, eu me encontrei com eles e me disseram para não perder a esperança, pediram a minha ajuda! — Argumentei.
— Sakura mortos não pedem ajuda! — Socou a mesinha que ficava próxima a porta, destruindo-a.
— Mas eles não estão mortos! — Relutei.
— Detesto admitir isso Sakura, mas creio que você está ficando louca.
Suas palavras foram tão frias e duras, que me cortaram por dentro. Não sei bem ao certo porque me senti assim, já que ela podia ter razão, pois aqueles Naruto e Sasuke podiam ser apenas invenção da minha mente, que tentava me proteger do pior. Mas ao mesmo tempo eles pareciam ser tão reais, estavam tão vivos, que me faziam duvidar de mim mesma.
Eu estava perdida no meu interior, tentando entrar no meu mais profundo pensamento, procurando encontrar respostas para as mais complexas perguntas, que eu ao menos sabia se tinham solução. Enquanto isso o meu eu oscilava entre o delírio e a lucidez.
Talvez, quando a ficha finalmente caísse e eu acordasse em um quarto branco, presa por uma camisa de força, eu percebesse que a voz da razão não foi de toda sensata, e que dessa vez ela tinha agido com tanta imprudência, quanto a emoção.
~~~ ♥ ~~~
Estava parada em pé ao lado do memorial, mas agora só tinha uma pedra com todos os nomes dos ninjas mortos na guerra gravados em si. Não havia estátua se quer ali, nem de Naruto ou Sasuke. Para ser mais exata elas foram substituídas por uma figura mais real dos dois, tão real que se assemelhava aos verdadeiros.
Cheguei mais perto e pousei minha mão sobre o rosto alvo e sereno de Sasuke. Era tão liso, estava tão quente, parecia com pele de verdade. Em seguida fitei seus olhos ébanos, tão brilhantes e vividos que acabaram me prendendo por alguns instantes.
Logo meu olhar desceu para os seus lábios rosados e ríspidos, machucados pelo tempo. Olhei-os por alguns minutos, até que fui tomada por uma coragem absurda, e num ato de loucura eu o beijei.
De fato eu devia estar me desconjurando, achando-me uma louca, pois certamente quem me visse acharia isso, mas não, eu não estava. Achei que beijar uma estátua seria algo mais gélido, sem emoção, mas aquilo estava sendo muito diferente. Aquele beijo era quente e acolhedor.
Assim que separei meus lábios dos seus agarrei a sua blusa e deitei minha cabeça em seus ombros, as lágrimas manavam das minhas esmeraldas, deixando em evidência a dor e a mágoa que atormentavam meu coração.
— Está sendo tão difícil superar isso… — minha voz soou embargada.
— Talvez você devesse procurar uma maneira de nos ajudar, em vez de ficar por aí beijando estátuas ou tentando se matar — uma voz grave e aveludada adentrara em meus ouvidos, mas o arrepio não foi causado por ela, e sim pelo braço que arrodeou a minha cintura, puxando-me para mais perto.
No momento em que percebi levei um susto, desvencilhei-me do braço que me prendia e empurrei a cópia falante de Sasuke para longe de mim, enquanto isso a cópia de Naruto caía na gargalhada.
— O que são vocês? — Perguntei com uma kunai em mãos. — Aonde estão Naruto e Sasuke, digo os verdadeiros.
Imediatamente a sócia loira se calou e sua face ganhou um ar de preocupação, enquanto isso a réplica de Sasuke revirava os olhos.
— Por que você é tão teimosa? — O moreno indagou irritado.
— Sakura-chan isso está ficando exaustante — falou Naruto.
— O que está sendo exaustante? — Perguntei.
— Entrar nos seus sonhos todas as noites e explicar as mesmas coisas… Que não estamos mortos e que precisamos da sua ajuda — Naruto sentou-se para por fim bufar frustrado.
— Tsunade fala o contrário e de bônus me chama de louca — eu estava com uma imensa vontade de bater em algo ou em alguém, aquela confusão interior estava me matando. — Sabiam que por causa de vocês eu estou com um quadro de depressão profunda, agressividade e alucinação?
— Louca e agressiva você sempre foi — alegou Naruto. — Mas só se tornou depressiva depois que o Teme saiu da vila, creio que o diagnóstico esteja certo.
Por um momento pensei em ir até ele para surrá-lo, mas no final acabei abraçando-o, pois só o verdadeiro Naruto seria tão burro a ponto de distorcer as coisas e falar o que lhe vem a mente de forma tão sincera.
— Eu acho que estou ficando mais louca que o normal… — murmurei. — Por favor, me deem um tempo para absorver tudo isso.
— Esse é o problema, não temos tempo, pois ele está contra nós — Naruto disse de forma estranha, causando-me medo e agonia.
— O jutsu do tempo, procure informações sobre ele, mas aviso desde já que você não irá encontrá-lo em livros de ninjutsu básico, pois ele é mais que isso.
Foram as últimas palavras que ouvi antes de tudo sumir.
~~~ ♥ ~~~
Acordei toda suada e assustada, minha respiração estava descompassada, minha vista embaçou-se por causa das lágrimas que insistiam em verter de meus olhos. O que diabos foi aquele sonho? Por aqueles dois idiotas insistem tanto em me perturbar a ponto de me deixarem conturbada?
— Sakura-san está tudo bem? — Senti alguém segurar as minhas mãos enquanto sentava-se do meu lado.
Ergui meu olhar choroso e avistei a doce e meiga Hinata. Ela estava tão acabada quanto eu, era evidente em seus olhos que ela passava horas chorando, que tivera inúmeras noites de insônia, tudo graças as consequências da maldita guerra, a qual tirou de nós pessoas importantes e nos deixou no mundo para viver em dor e solidão.
— Eu te entendo… — disse-a num sussurro — a dor em mim também está insuportável.
Notei a dor cristalina escorrer por seu rosto níveo, mas não senti pena ou dó, pois não era isso que ela queria. Hinata foi até mim porque me entendia e sabia que era recíproco, e nesse momento difícil apenas uma podia ajudar a outra.
Naquela tarde o tempo mudou da água pro vinho, num segundo era sol, no outro tempestade. No momento em que nos abraçamos as lágrimas verteram numa tentativa de renovar a alma e se livrar da dor. A tormenta que fluía das nuvens lá fora era tamanha, mas não nos assustava, porque sabíamos que era apenas os céus chorando conosco.
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