Tudo por ti
1 Capítulo Único
-Tudo bem, então. Amigos... Mais nada me redime. –disse Maurício. Do jeito que falou parecia sarcasmo, mas não era. Eram palavras friamente calculadas por um dissimulado. “Em mim não trago qualquer inocência, sou obrigado a aceitar essa bestial evidência.”
-Bom mesmo –respondeu Luana, aos prantos-, o que mais você poderia querer depois do que fez?
-Eu já te disse, querida; Eu não queria ter feito isso!
-Mentiroso!
-Não sou mentiroso!
-Mas mentiu!
-Menti...
-Você me mata!! Cada vez que mente, cada vez que me lembra disso.
-Eu não sou assassino...
-Mas não se importou em aprontar comigo sabendo que sou sensível. Sabendo que eu ia ficar assim.
-Eu não sou assim. Eu não fiz isso pra destruir nosso casamento, nem nada. Não gosto de ir contra conceitos e valores!
-Mas subiu aquelas malditas escadas, com aquela maldita mulher embalada em tecido vermelho, maquiada e armada em saltos altos. Seu cachorro!!!
-Não sou cachorro!
-Mas me traiu.
-Traí... Mas foi tudo por ti, por amor. –Maurício se lembrou da Mulher do quanto ela era maravilhosamente controladora e poderosa até que estejam entre quatro paredes, onde se torna uma mulher passiva e faz tudo que ele pede. Extremamente desconcertante. Lembrou da forma como ela estraçalhou sua paz apenas fitando-o por um instante. Porém ele sabia que tinha sido de uma imprudência brutal se entregar à Mulher levado por total demência e luxúria.
Foi imprudente, percebeu no final do êxtase, porque depois de oferecer sua beleza a amante o fez conhecer o terror, e ele provou de sua cruel frieza. Pensou na hora “Hoje eu não vou sofrer. Isso foi tudo muita e simples loucura. Esse amor tem que morrer, porque não sou mentiroso.”
-Mas eu me arrependo. –disse, mentindo novamente, na esperança de salvar o casamento- Não farei nunca mais, volta pra mim.
-Você é um mentiroso. –rebateu Luana, que já não era mais uma idiota com Maurício.
-Já me imagino, vagando pelas ruas sem você –“sem ela” corrigiu em sua mente, mas manteve em silêncio. Sabia que a perda das duas o abalava-, perguntando-me onde estou, caminhando a esmo. Um mísero farrapo humano à procura de mim mesmo.
Luana, cansada de escutar tanta besteira, e também sabendo que se ficasse mais era capaz de esquecer a traição e não mais ir embora, virou-se e saiu pela porta. Nenhum dos dois acreditava, mas ela não ia atravessá-la novamente.
“É isso, então? É assim que acaba?”, pensou Maurício. “Então eu clamo por liberdade. Liberdade para o coração de todos os seres da Terra possuídos por alguma paixão.”
Percebendo que a dor de perder Luana não seria tão fácil de superar quanto pensava -pois já estava maior que as expectativas e não parava de crescer-, pegou seu celular e ligou para a Mulher.
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