Fernando havia chegado ao apartamento a pouco mais de meia hora, assim que entrou em casa sentou-se na escrivaninha do quarto e começou estudar. Precisava estudar bastante para as provas finais da faculdade de direito, tinha sério receio de perder o semestre devido a carga de trabalho que teve no mês. Andava tão cansado que chegava a dormir no meio das aulas, porém esse era o único jeito de manter as contas da casa.

Ouviu a campainha da porta, quem quer que fosse haveria de desistir, não iria atender ninguém naquela noite, era o seu dia de estudo, nada iria perturbá-lo. Segundo toque da campainha, Fernando nem se preocupou, a pessoa desistiria mesmo. O terceiro toque não veio sozinho e sim acompanhado de quarto, quinto, sexto... E tantos outros que não paravam de vir. Fernando levantou-se da cadeira com extrema raiva e dirigiu-se a porta, quem o contrariou haveria de pagar pelo seu ódio.

Espiou pelo olho mágico e avistou Renata, logo ela que estava na mesma situação que ele! Iria ouvir poucas e boas dele, isso sim! Abriu e porta e já foi berrando para a garota:
— OLHA AQUI, RENATA, EU ESPERO QUE ISSO SEJA MUIT...
- Tá tá! Eu sei, cala a boca e me escuta! – Fernando assustou-se com atitude da garota, sua tentativa de extravasar sua raiva foi por água abaixo. – A caso é o seguinte, uma mulher caiu bem no meio na minha sala...
— Hã? – Fernando fez uma cara confusa.
- NÃO INTERROMPE! Então, ouça, uma garota caiu no meio da minha sala, agora ela ta lá desacordada! Eu não sei o que eu faço.
— Chama a ambulância. – Fernando já ia fechar a porta depois de falar a sua brilhante dedução quando Renata colocou o pé para evitar que o menino fechasse a entrada.
— Isso eu sei cabeção, mas tipo, ela pediu pra eu não ligar e eu sei lá to morrendo de medo agora.
— Ouxi, mas ela não tava desacordada? – Fernando ficou mais confuso ainda
— Ela tava, acordou por um momento reclamando da cabeça e depois desmaiou de novo, o que que eu faço?
— Sei lá, chama mesmo assim, ela não deve querer por que tem ficha na polícia.
— Mesmo assim, eu não sei, dá uma olhada nela pra mim, por favor?
— HÃ? O que eu? Mas eu nem sou médico. – Renata puxou Fernando pelo braço na tentativa de levá-lo para o seu apartamento.
— Sim, mas você não queria fazer medicina? Vem cá! – Fernando segurava-se na porta em oposição à garota.
— Você é maluca? Eu sempre quis fazer direito! Agora me larga. – Mesmo dizendo isso a mão de Fernando escorregou da porta, o que permitiu que a menina o leva-se para o seu apartamento.
— Afé! Pare com isso, eu sei muito bem que você aprendeu primeiro socorros. – Renata virou-se com o rosto sério para Fernando. Ele também ficou controlado e seguiu a garota, agora sem espernear.
Porém a calma de Fernando durou até o instante que ele entrou na sala da Renata:
— Porra! Que diabos aconteceu aqui?
— Qual parte do “uma garota caiu do meu teto” você não entendeu?
— O que? A menina desacordada caiu do seu teto? – Fernando olhou pasmo para Renata, a única reação da garota foi colocar a mão no rosto.
— Olha, vamos deixar isso pra lá! Vem logo ver ela, cuidado com as telhas.

Fernando ainda olhava atônito para os escombros enquanto era conduzido pelo braço por Renata, afinal, como aquela garota caiu bem ali? E pior, como ninguém do prédio ouviu o barulho da queda, devia ter feito um estardalhaço, principalmente pelo fato da construção ser antiga. Na verdade, a garota até teve sorte de para no primeiro andar, era pra ela ter parado no térreo, pois aquele piso de madeira se duvidasse era da época da Princesa Isabel.

Seu pensamento foi cortado com a simples visão da garota desacordada, ela era linda para uma maluca que havia caído do teto, seus cabelos eram a coisa mais exótica que Fernando havia visto, seu pele era de uma cor totalmente brilhante, era quase a mesma que a dela, mas tinha mais vida, mais maciez, ainda usava roupas pretas que ressaltavam ainda mais a beleza do seu corpo, uma saia-short e uma camisa curta. Ele ficou estonteado com tamanha beleza. Viu os lábios de Renata se mexer dizendo algo, mas não conseguia. Aquela garota atraia todos os seus sentidos, visão, audição, até mesmo o paladar... Precisava tocá-la, sentia que precisava, ela parecia tanto com uma, tinha que tateá-la para percebê-la como uma pessoa de carne e não porcelana.
— Ela esta bem, Nando?

Ele acordou, quando se deu conta estava com a mão alisando o rosto da jovem boneca, Renata estava bem ao seu lado, agachada, olhando-o preocupadíssima com a garota. Sentiu-se envergonhado por ter se excedido na frente da amiga, mas logo se recuperou, colocou a cabeça da desacordada apoiado nas pernas e começou a examiná-la. Havia feito um curso de primeiros-socorros para emergência, não era muita coisa, mas o suficiente para salvar pessoas de afogamentos.

Colocou a garota deitada na cama da Renata:
— Ela vai ficar bem?
— Sinceramente? – Renata acenou a cabeça, Fernando suspirou – Não faço idéia, pelo que eu pude ver ela só bateu cabeça forte mesmo, não tinha nenhum sinal de sangue, acho que um bom gelo na cabeça e uma cochila pode melhorar, mas nunca se sabe, vai que ela teve um traumatismo craniano?
— Hum, entendo, então o que eu faço?
— Leve-a pro hospital. – Respondeu Fernando, enquanto ia à cozinha pegar gelo.
— Mas eu não posso! Ela pediu! Tipo seria sacanagem! – Renata seguiu o garoto.
— Pelo amor de Deus, Renata! Estamos falando da vida de uma pessoa. – Fernando apesar do tom de voz colocava calmamente os cubos de gelos dentro duma bolsa d’água.
— Mas mesmo assim, vai que ela fica com ódio de mim e vem se vingar?
— Bem, então pensasse nisso antes de prestar socorro. – Respondeu secamente enquanto fechava a bolsa.

Foi então que Renata finalmente percebeu que poderia estar acobertando uma criminosa. Havia pensado na possibilidade de uma suicida louca, mas nunca psicopata! E se ela fosse uma ladra, talvez tenha se ferido na tarefa de assaltar a sua casa, mas pensando bem quem iria roubar algo naquele prédio velho? Além do mais seria muito mais fácil ir ao térreo do que subir no telhado pra roubar o primeiro andar. Mas como Fernando mesmo disse: “Nunca se sabe.”

Sentiu algo lhe segurando o seu cotovelo durante sua passagem pelo corredor em direção ao quarto. Fernando virou-se e deparou-se com Renata com um sorriso amarelo, a cara da garota estava apavora, ele já havia percebido o que lhe aguardava:
— Dorme aqui, por favor!!! – Os olhos dela encheram de lágrimas e clemências.

Notas finais
Se gostou deixe um review, se não deixe um também!!
Críticas construtivas sempre são bem vindas!
Erros é só reportar! ^^