Tudo por Um Olhar
1 Prólogo
Tudo por um Olhar
Por Jujuba de Azevedo
“Deus, condenado eu fui,
A forjar o amor no aço do rancor.
E a transpor as leis mesquinhas dos mortais.
[...]
Luz da minha vida,
Pedra de alquimia,
Tudo que eu queria.
Renascer das cinzas.”
(Fênix, Jorge Vercillo)
Prólogo
Ser um rei católico em um mundo islâmico é difícil.
Vivemos em guerra contra os mulçumanos liderados por Saladino. E tudo por quê?
Por Jerusalém?
Por Deus?
Sinceramente, vivo nesse inferno a tanto tempo que começo a achar difícil crer em Deus.
Minha atual descrença não se deve somente a lepra, essa doença funesta que devora minha carne, mas a loucura que domina os homens que chegam a Jerusalém. Não pode ser uma terra abençoada como o cardeal insistentemente afirma. Se há alguma benção aqui, então devo gritar rua afora que além de leproso, também estou cego. De um lado, vejo mulçumanos derramarem sangue cristão em nome de Alá e do outro, tem os Templários derramando sangue árabe; são crianças, velhos, mulheres, homens. Matam todos em nome de Cristo, de Deus. E, no fim, ambos chamam essa matança abominável de “À vontade de Deus”, ou ainda, de “Guerra-Santa.”
Pois lhes digo: não vejo nada de santo ou de Deus nisso.
Por mim abandonaria Jerusalém, deixaria essa terra enlouquecedora de homens para os que tanto a querem. Mas como Baldwin IV, rei, não posso fazer nada além de tentar manter a paz entre os sarracenos e cristãos, da melhor maneira possível.
Não fui sempre dominado por essa descrença e constante sensação de que eu e todos que moram dentro desses “benditos” muros fomos abandonados por Deus.
Há alguns anos, eu amei uma mulher que, para mim, era a máxima prova de que Deus existe. Sua pele morena, seus grandes e expressivos olhos negros, seu longo e ondulado cabelo preto que lhe caía na forma de uma sedosa corrente de cachos emoldurando seu rosto de traços exóticos, seus lábios carnudos e vermelhos como morangos, seu corpo de formas delicadas, a voz aveludada. Dona de uma sede de conhecimento incomum em mulheres árabes. Não podia existir um ser tão gracioso se não houvesse um Deus para criá-lo, imaginá-lo, moldá-lo e cobri-lo de encantos suficientes para amaciar, domar, os corações mais indômitos.
Forjada sob o abrasador sol desértico, seu nome era Safira. Irmã mais nova de Saladino, meu velho inimigo.
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