Tudo o que não superamos
21 Depois
A luz da manhã entrou devagar.
Suave. Quase tímida.
Cortando o quarto em tons claros.
Chan abriu os olhos.
Sem pressa.
Por um segundo… ele só ficou ali.
Sentindo.
Até virar o rosto.
E ver.
Hanna.
Ao lado dele. Tranquila.
Respiração calma.
Real.
E foi ali… que algo apertou no peito.
Uma lembrança. Outra manhã. Outro tempo. Outro final.
Ele acordando…
E ela não estando mais lá.
Só o vazio.
Só o silêncio errado.
Só… ausência.
Chan fechou os olhos por um instante.
Respirou fundo.
Mas quando abriu de novo… ela ainda estava ali.
E aquilo… era diferente.
Deliciosamente estranho.
Quase inacreditável.
Um canto do lábio dele subiu.
Pequeno. Mas sincero.
Ele se aproximou. Devagar.
Como se ainda tivesse medo de quebrar o momento.
O braço envolveu ela.
Com cuidado. Puxando de leve.
Hanna se encaixou naturalmente.
Como se fosse o lugar certo.
Sempre tivesse sido.
Chan ficou ali.
Sem pressa.
Sem pensar no depois.
Só… presente.
O rosto próximo ao dela.
Observando.
Guardando cada detalhe.
Como se quisesse ter certeza.
Dessa vez… ela não iria desaparecer.
Ele não tentou acordar.
Não disse nada.
Só esperou.
Queria isso.
Queria ser a primeira coisa que ela visse.
Não como cobrança.
Mas como escolha.
Como presença.
Como alguém que… finalmente… ficou.
O quarto em silêncio.
O mundo lá fora começando.
Mas ali dentro… pela primeira vez em muito tempo… tudo estava exatamente onde deveria estar.
Luz entrando pela janela.
Silêncio confortável.
Hanna se mexeu primeiro.
Virou o rosto…e viu ele ali.
Chan.
E um sorriso escapou sem esforço.
— Bom dia…
A voz ainda carregava sono.
Ele não respondeu de imediato.
E por um segundo…só ficou olhando.
Como se confirmasse.
— Bom dia — respondeu, baixo.
Hanna se levantou.
Sem pressa.
— Vou fazer café pra gente.
Virou levemente, já animada.
— Leite com morango… você ainda gosta, né?
Chan soltou um pequeno sorriso.
— Ainda.
Ela assentiu.
— Eu lembro.
Simples. Mas cheio de passado.
Ela saiu do quarto.
Passos leves.
E a cozinha ganhou vida.
Som de louça. Água correndo. Coisas simples.
Coisas… de casa.
Chan ficou na cama por alguns minutos.
Olhando o teto.
Respirou fundo.
E levantou.
No banheiro, a água caiu.
Quente. Constante.
E ali… sem distração… veio.
A noite anterior.
Os detalhes. O toque. O beijo.
A forma como tudo se encaixou… como se nunca tivesse se quebrado.
Ele fechou os olhos.
— Isso é bom demais…
Murmurou.
Mas o pensamento não parou ali.
Nunca para.
— Mas…
Ele passou a mão no rosto molhado.
A respiração mudou.
Mais pesada.
— Isso não resolve tudo.
A verdade veio seca.
Sem emoção bonita.
Só… real.
— A gente ainda tem isso…
Ele encostou a testa na parede fria do box.
— Mas e o resto?
Silêncio.
— Eu ainda não sei…
Pausa. — se a gente tem futuro.
A palavra pesou.
Futuro.
Porque passado… eles tinham demais.
Mas futuro… era outra história.
E então veio o ponto mais difícil.
— Confiança…
Ele abriu os olhos.
— Isso eu não tenho ainda.
Não nela.
Não completamente.
E admitir isso… doía mais do que a saudade.
Porque sentimento sem confiança… não se sustenta.
A água continuava caindo.
Mas não limpava aquilo.
Na cozinha… Hanna sorria sozinha.
Cortando morangos.
Montando algo simples… mas cheio de intenção.
Como quem tenta construir um começo.
Sem saber… que no outro cômodo… ele ainda estava tentando decidir se esse começo era seguro ou perigoso demais.
A cozinha estava viva.
Cheiro doce no ar. Morangos cortados com cuidado.
Hanna ajeitava tudo.
Simples.
Mas feito com intenção.
Ela colocou os copos na mesa.
E sorriu sozinha.
Por um segundo… parecia fácil.
Chan apareceu na porta.
Cabelo ainda úmido.
Expressão… controlada.
— Já tá pronto — ela disse, leve.
Ele assentiu. Sentou. Pegou o copo. Deu um gole.
— Tá bom.
Curto. Correto.
Mas… frio demais.
Hanna observou.
Sem encarar direto.
Mas sentindo. Porque mulher sente.
Antes de qualquer palavra. Antes de qualquer gesto claro.
Ela pegou um morango.
Provou.
Fez uma leve careta.
— Hm…
Olhou pra ele.
— Acho que não tá doce.
Pausa.
— Quer outra coisa?
Não era sobre o morango.
Nunca foi.
Chan levantou o olhar.
— Não.
Simples.
— Tá ótimo.
Mentira educada.
Ela assentiu devagar.
Aceitando. Mas não acreditando.
Silêncio.
Pesado.
Diferente do de antes.
Chan apoiou o copo.
— Eu preciso ir.
Direto. Sem rodeio.
Hanna ergueu o olhar.
— Já?
Baixo. Sem cobrança.
Mas sentindo.
— É.
Ele passou a mão na nuca.
— Eu não dormi no dormitório.
Pausa.
— Preciso chegar cedo.
Outra pausa.
— Não quero levantar rumores sem necessidade.
A frase caiu. Fria. Correta. Distante.
Hanna ficou em silêncio por um segundo.
O olhar dela mudou. Quase nada.
Mas o suficiente.
— Claro.
Ela disse.
Controlada.
— Faz sentido.
Ela se levantou.
Recolheu o prato. Como se fosse só mais uma manhã.
Como se não tivesse sido diferente.
Chan observou.
Sentiu.
Mas não voltou atrás.
Porque também estava se protegendo.
E isso… afasta.
Mais do que briga.
— A gente se fala.
Frase padrão. Vazia.
Hanna assentiu.
— Se fala.
Sem olhar direto.
Ele hesitou. Por um segundo.
Quase disse algo. Quase voltou.
Mas não.
Virou.
E saiu.
A porta fechou.
E o som… ecoou mais do que devia.
Hanna ficou parada.
Por alguns segundos. Ou minutos.
Difícil dizer.
O apartamento voltou ao silêncio.
Mas não era o mesmo de antes.
Era vazio.
Ela olhou para a mesa.
O café intacto.
Os morangos ali.
Perfeitos. E inúteis.
Ela se aproximou devagar.
Pegou um. Mordeu.
Dessa vez sem cuidado.
Fez uma leve careta.
— É…
Sussurrou.
— Não tá doce.
Mas agora… não era mais sobre o gosto.
Ela apoiou as mãos na bancada.
Respirou fundo.
E o peito apertou. Forte.
Porque ela entendeu.
Não precisava de explicação.
Não precisava de palavras.
Ela sentiu.
Ele estava ali.
Mas não por inteiro.
Ainda não.
Talvez… nem conseguisse estar.
Hanna fechou os olhos.
— Claro que não… Um riso baixo.
Sem humor.
— Não depois do que eu fiz.
A verdade veio. Sem maquiagem. Sem defesa.
Ela passou a mão pelo rosto.
Tentando se recompor.
Mas a dor… não era de agora.
Era antiga.
Só tinha acordado de novo.
— Será que você nunca vai me perdoar de verdade…?
A pergunta saiu no ar.
Sem resposta.
Porque não dependia só dela.
E isso… era o pior.
Ela poderia ficar.
Poderia tentar.
Poderia amar.
Mas confiança… não se exige.
Se constrói.
E às vezes… não volta inteira.
Hanna puxou a cadeira.
Sentou. Olhou pra frente. Perdida. Não no amor. Mas no caminho.
Porque amar… ela ainda sabia.
Mas agora… ela precisava aprender outra coisa: esperar.
Sem saber se no fim… valeria a pena.
O dormitório estava silencioso.
Manhã cedo.
Chan entrou. Passos baixos. Mas não passou despercebido.
I.N. já estava acordado.
Sentado.
— Hyung…
Olhou de cima a baixo.
— Dormiu fora?
Não era acusação. Nem malícia. Só curiosidade.
Chan parou por um segundo.
Depois assentiu.
— Dormi.
Simples.
I.N. aceitou.
Sem pressão.
— Já tomou café?
— Já.
Resposta rápida demais. Mas passou.
— Vou me trocar… temos ensaio mais tarde.
— Tá — I.N. respondeu.
Sem insistir.
Chan seguiu pelo corredor.
Entrou no quarto. Fechou a porta.
E aí… o silêncio voltou.
Mas agora… sem distração.
Respirou fundo.
E ela veio.
Hanna.
Na cozinha.
O sorriso leve.
O cuidado no gesto.
E depois… o olhar.
Mudando. Percebendo. Sentindo.
Ele fechou os olhos.
— Droga…
Baixo.
Porque ele sabia.
Sabia exatamente o que tinha feito.
Frio. Distante. Calculado.
E necessário.
Ou pelo menos… era o que ele dizia pra si mesmo.
Ele sentou na beira da cama.
— Ela sentiu…
Não era dúvida. Era certeza.
Hanna sempre sentiu.
Antes de qualquer palavra.
Antes de qualquer explicação.
E mesmo assim… ele não voltou atrás.
Porque o outro lado… era pior.
Ele apoiou os cotovelos nos joelhos.
Olhar perdido.
— Eu não posso…
Pausa.
— dar uma coisa que eu não tenho.
A verdade veio.
Sem enfeite. Sem consolo.
— Confiança…
Ele soltou um ar pesado.
— Isso não volta de um dia pro outro.
E nem de uma noite.
Por mais perfeita que tenha sido.
Por mais real que tenha sido.
Ele levantou o olhar.
— Não vai ser como antes.
E pela primeira vez… isso não soou só como medo.
Soou como certeza.
Porque eles não eram mais os mesmos.
E talvez… nem devessem ser.
Mas então… o outro pensamento veio.
Mais baixo. Mais perigoso.
— Mas ainda é ela.
E isso… complicava tudo.
Chan ficou em silêncio.
Sem resposta. Sem plano.
Ele não queria se machucar de novo.
Mas talvez… já estivesse acontecendo.
Na agência Hanna já estava em um novo projeto em parceria, uma nova coreografia para o grupo novato. Ela está empolgada trabalhar sempre foi um lugar seguro, um apoio ficar sem tempo para pensar em outras coisas ou em Chan.
O ensaio terminou mais tarde do que o previsto.
Suor. Cansaço.
Respiração pesada.
Hanna bateu palma uma última vez.
— Bom trabalho hoje.
O grupo se curvou.
Gratos.
Ela assentiu.
Profissional.
Mas por dentro… vazia.
Assim que ficaram sozinhos, um dos coreógrafos se aproximou.
— Você pegou pesado hoje.
Ela deu de ombros.
— Eles precisam disso.
Pausa.
— E eu também.
Ele percebeu.
Mas não comentou.
— Vai ficar?
— Não.
Ela pegou a garrafa.
— Já fiz demais por hoje.
Mentira.
Porque quando parava… pensava.
E pensar… era o problema.
Ela saiu da sala.
Corredores conhecidos.
Mas naquele dia… pareciam longos demais.
Passos firmes.
Respiração já controlada.
Virou o corredor—
E parou.
No fim… vozes conhecidas.
Risadas. Soltas.
Os meninos do Stray Kids.
E no meio deles… Chan.
De costas.
Falando animado. Gesticulando. Rindo.
Rindo de verdade.
Leve.
Sem aquele peso no olhar.
Sem aquela pausa antes de responder.
Ali… ele era só ele.
Hanna ficou parada.
Sem fazer barulho.
Observando.
E aquilo… bateu estranho.
Porque com eles… ele era fácil.
Natural.
Com ela… nunca.
Não como antes.
Ela desviou o olhar por um segundo.
Respirou fundo.
— Entendi…
Baixo.
Só pra si.
Quando olhou de novo… ele ainda sorria.
E aquilo apertou mais.
Não era ciúme.
Era ausência.
Porque aquele lado dele… ela não tinha mais.
Ou talvez… fosse justamente ela quem tirava isso dele.
O pensamento veio seco.
— Pra ele… eu sou um peso.
Sem drama. Só constatação.
E por isso… doeu mais.
Ela ajeitou a bolsa no ombro.
Endireitou a postura.
E seguiu.
Passou por eles.
Sem parar. Sem chamar.
Como alguém que não pertence àquela cena.
Chan não virou.
Não naquele momento.
E isso… ficou.
Grudado.
Hanna continuou andando.
Mas agora… não era só distância física.
Era um passo a mais pra longe dele.
Mesmo sem querer.
Ela passou. Discreta.
Mas não invisível.
— Hanna-ssi — um deles chamou, educado.
Ela parou só o suficiente.
Um aceno leve com a cabeça.
Um sorriso pequeno. Profissional.
Seguiu.
Foi o bastante.
Chan percebeu.
Na hora. Virou rápido.
Olhar direto nela.
Tempo curto. Mas suficiente.
Ela não parou. Não desacelerou. Só seguiu. Passos firmes.
Como quem sabe exatamente o que está fazendo.
Ou como quem está tentando não sentir.
Por um segundo… pareceu que ela esperava.
Que ele fosse atrás.
Que chamasse. Qualquer coisa.
Mas ele não foi.
Ficou ali. Parado.
Observando ela se afastar.
Passo por passo.
Até dobrar o corredor.
Sumir.
Silêncio. Curto. Mas estranho.
— Hyung?
A voz chamou.
Ele piscou.
Como se voltasse.
— Hm… — respondeu automático.
Virou de volta.
Retomou a conversa.
Riu no momento certo.
Falou no momento certo.
Como se nada tivesse acontecido.
Mas não era nada. Nunca era.
Porque por dentro… veio.
Um frio no estômago.
Leve.
Mas incômodo.
Difícil de ignorar.
Ele passou a mão na nuca.
Disfarçando.
— Continua — disse pra um dos membros.
Mas a cabeça… já não estava ali.
Ela mexia com ele.
Mesmo sem falar.
Mesmo sem olhar.
Mesmo sem fazer nada.
Só existir já era o bastante.
Só ouvir o nome dela… já mudava tudo.
E aquilo… era o tipo de coisa que ele mais queria evitar.
E menos conseguia.
Hanna não parou.
Nem naquele dia. Nem depois.
Mas algo mudou. Não foi brusco. Não foi dramático.
Foi decisão.
Silenciosa.
Enquanto caminhava pelo corredor, o pensamento veio claro.
— Chega.
Não de sentimento.
Mas de insistência.
Ela respirou fundo.
— Eu não vou mais correr atrás.
Simples.
Porque correr atrás de algo… que talvez nem exista mais… cansa.
E humilha.
E ela já tinha feito demais.
Sentido demais. Esperado demais.
O peito ainda doía. Claro que doía.
O sentimento dela era real.
Inteiro.
Mas… e o dele?
Ela parou por um segundo.
Não fisicamente.
Por dentro.
— Ele quer mesmo isso…?
A pergunta ficou.
Pesada.
Porque não era falta de sentimento.
Era falta de direção.
E isso… desgasta mais.
— Ou ele só tá com medo de perder de vez?
Ela fechou os olhos por um instante.
Porque conhecia ele.
Sabia que Chan sentia.
Mas sentir… não basta.
Nunca bastou.
Ela abriu os olhos.
E ali… decidiu.
— Eu vou fazer a minha parte.
Pausa.
— Como profissional.
Frio? Talvez.
Necessário? Com certeza.
Porque se não podia ter ele por inteiro… não aceitaria metade.
Nem dúvida.
Hanna ajeitou a postura.
Queixo levemente erguido.
Olhar firme.
— Disciplina.
Palavra simples.
Mas que salvava.
Ela voltou para a sala de ensaio.
E quando a música começou…ela já não era mais a mesma.
Não menos apaixonada.
Mas mais consciente.
Mais… protegida.
E, pela primeira vez desde que voltou, não estava esperando ele dar um passo.
Fale com o autor