Tudo o que não superamos

6 Aqueles Que Continuam


O tempo dentro da agência passava estranho.

Rápido e lento ao mesmo tempo.

Dias viravam semanas em meio a ensaios, avaliações e noites mal dormidas. E antes que Hanna percebesse, mais um ano tinha passado.

Yoo Minseo depois de dois anos já havia desistido, decidiu se dedicar aos estudos, e Hanna, agora, já não parecia perdida nos corredores de Seoul.

Os professores sabiam o nome dela.

Os managers cobravam mais.

As trainees novatas olhavam Hanna do mesmo jeito que ela observava os veteranos antes.

E Bang Chan…

Chan parecia mais cansado.

Mais maduro.

Mais pressionado.

Dezoito anos.

Naquele mercado cruel, isso já começava a soar “velho” pra trainee masculino.

Ele tinha visto grupos serem formados sem ele.

Projetos falharem.

Promessas desaparecerem.

Mesmo assim continuava treinando como alguém agarrado pela última ponta do sonho.

Então veio a notícia.

Um novo projeto de debut.

Avaliações fechadas.

Possível line-up masculino.

E o nome de Chan estava na lista preliminar.

Hanna quase gritou quando soube.

— Eu sabia! Eu sabia!

Ela pulou no braço dele no corredor da empresa sem se importar com quem estava olhando.

Chan soltou uma risada surpresa tentando equilibrar os dois.

— Yah, cuidado!

— Você conseguiu!

— Ainda não.

Mas mesmo dizendo isso…

os olhos dele brilhavam.

E Hanna percebeu imediatamente.

Ele estava com medo de acreditar.

Porque aquela não era a primeira vez que chegava perto.

Talvez fosse justamente isso que tornava tudo mais pesado.

Naquela noite eles ficaram até tarde na sala de prática.

Só os dois.

A cidade brilhando fria do lado de fora das janelas enormes.

Hanna estava sentada no chão mexendo distraidamente nos cadarços do tênis enquanto observava Chan andar de um lado pro outro.

Ele claramente não conseguia parar quieto.

— Você tá me deixando nervosa também.

— Desculpa.

Ele passou a mão no cabelo já bagunçado de tanto estresse.

— E se eu estragar tudo dessa vez?

— Você não vai.

— Hanna.

Ela levantou os olhos pra ele.

Chan raramente mostrava insegurança daquele jeito.

Mas naquela noite ela conseguia enxergar o peso inteiro dos últimos anos nas costas dele.

As noites sem dormir.

As rejeições.

O medo de ficar pra trás.

— Eu tô cansado de quase conseguir.

A frase saiu baixa.

Crua.

E aquilo apertou o peito dela.

Porque Hanna sabia.

Sabia quantas vezes ele treinou lesionado.

Quantas músicas produziu sozinho madrugada adentro.

Quantas vezes ouviu:

“Você ainda precisa melhorar.”

Mesmo já sendo absurdamente bom.

Ela levantou devagar e foi até ele.

— Olha pra mim.

Chan suspirou mas obedeceu.

— Você merece essa chance.

Ele desviou os olhos imediatamente.

Como sempre fazia quando alguém elogiava ele de verdade.

— Merecer não significa conseguir.

Hanna ficou alguns segundos em silêncio.

Então segurou a mão dele.

Simples assim.

Quente.

Firme.

— Então consegue por raiva.

Aquilo arrancou uma risada nasal dele.

— Isso foi estranhamente motivador.

— Eu sou muito sábia.

— Você é dramática.

— E você tá surtando.

— Tô mesmo.

Ela sorriu pequeno.

Depois puxou ele pela manga do moletom até o chão.

— Senta antes que você abra um buraco no piso andando pra lá e pra cá.

Chan acabou sentando ao lado dela encostado no espelho.

Silêncio confortável outra vez.

Os dois olhando a cidade lá fora.

Então Hanna falou baixinho:

— Eu acho que você vai debutar.

Chan virou o rosto lentamente pra ela.

E pela primeira vez em muito tempo…

pareceu acreditar um pouquinho também.

O dia da avaliação final deixou a agência inteira elétrica.

Ninguém falava alto.

Ninguém ria muito.

Todo mundo sabia o que estava em jogo.

Hanna passou o treino inteiro distraída, olhando o relógio entre uma música e outra. O coração acelerava mais por Bang Chan do que por ela mesma.

Porque dessa vez parecia certo.

Parecia finalmente a hora dele.

Cinco anos.

Cinco anos treinando até a madrugada.

Cinco anos vendo gente entrar e sair.

Cinco anos ouvindo:

“Continue trabalhando mais.”

E agora, aos dezoito, Chan já estava perigosamente perto da idade em que empresas começam a perder interesse em trainees masculinos.

Enquanto isso Hanna estava há quase três anos ali.

Três anos que pareceram dez.

Ela sabia exatamente o quanto ele queria aquilo.

Mas no fim da tarde os rumores começaram.

Sussurros nos corredores.

Portas fechando.

Managers andando rápido.

E então alguém comentou baixinho perto da máquina de bebidas:

— Escolheram outro trainee.

O mundo pareceu ficar silencioso por um segundo.

Hanna sentiu o estômago afundar.

— O quê?

As meninas olharam pra ela sem jeito.

— O Chan… não entrou.

Ela ficou parada.

Imóvel.

Como se o cérebro tivesse recusado entender aquilo.

Depois pegou o celular imediatamente.

Ligou.

Nada.

Mensagem:

“Chan, onde você tá?”

Sem resposta.

Outra ligação.

Nada.

O treino seguinte virou borrão. Hanna errou passos pela primeira vez em meses porque a cabeça estava em outro lugar.

“Droga…”

Ela saiu assim que acabou.

Perguntou pra um trainee.

Depois pra outro.

Até ouvir alguém dizer:

— Acho que vi ele indo pra praça perto do rio.

Já era noite quando Hanna encontrou a praça movimentada em Seoul.

Luzes de lojas.

Ônibus passando.

Casais rindo.

Música de rua ao longe.

E no meio daquele movimento inteiro…

lá estava ele.

Capuz preto cobrindo metade do rosto.

Sentado sozinho num banco.

Cabeça baixa.

Os cotovelos apoiados nos joelhos enquanto observava as pessoas indo e vindo como alguém distante do próprio corpo.

Hanna parou alguns passos atrás dele.

O peito apertou na mesma hora.

Porque Chan parecia…

vazio.

Ela se aproximou devagar.

— Ei.

Nenhuma reação.

Só depois de alguns segundos ele levantou os olhos.

E aquilo quase destruiu ela.

Porque não tinha raiva.

Nem choro.

Só cansaço.

Cansaço puro.

Hanna sentou ao lado dele sem pedir licença.

O vento frio bagunçou os cabelos dela enquanto o silêncio crescia entre os dois.

Finalmente ela falou:

— Você sumiu.

Chan soltou uma risada fraca pelo nariz.

Sem humor nenhum.

— Queria ficar sozinho um pouco.

— Então por que veio pra um lugar cheio de gente?

Ele observou a multidão atravessando a praça.

— Porque aqui ninguém liga.

Aquilo doeu.

Muito.

Hanna apertou as mangas do moletom entre os dedos.

— Eu achei que dessa vez…

— Eu também.

A resposta veio imediata.

Baixa.

Quebrada.

Chan apoiou a cabeça nas próprias mãos.

— Cinco anos, Hanna.

Ela ficou em silêncio.

— Cinco anos vendo todo mundo indo embora ou debutando enquanto eu continuo preso no mesmo lugar.

As luzes da cidade refletiam fracas nos olhos cansados dele.

— Talvez eles estejam certos.

— Não fala isso.

— E se eu simplesmente não for bom o bastante?

Hanna virou o rosto rápido pra ele.

Porque aquela frase parecia absurda vindo justamente de Bang Chan.

O garoto que treinava até o amanhecer.

Que ajudava os outros.

Que produzia música escondido.

Que nunca desistia.

— Você acredita mesmo nisso?

Chan demorou pra responder.

E isso já foi resposta suficiente.

O peito dela apertou tanto que chegou a irritar.

Então Hanna segurou o braço dele com firmeza.

— Olha pra mim.

Ele hesitou.

Mas olhou.

E ela viu.

Pela primeira vez desde que o conheceu…

Chan parecia perto de quebrar.

— Você sabe qual é a diferença entre você e todo mundo aqui?

Ele soltou uma risada cansada.

— Eu fracasso mais vezes?

— Não. — A voz dela saiu firme. — Você continua mesmo depois.

Silêncio.

O vento frio atravessou a praça movimentada enquanto pessoas desconhecidas passavam sem notar os dois adolescentes sentados ali tentando segurar os próprios sonhos despedaçados.

Então Hanna falou mais baixo:

— Você me ensinou isso.

Chan desviou os olhos imediatamente.

Porque às vezes as palavras certas machucam mais que as erradas.

Eles ficaram ali por muito tempo.

Sem pressa.

Sem tentar consertar nada.

Às vezes tristeza grande demais não precisa de conselho.

Só de companhia.

A praça continuava cheia em Seoul:

gente rindo,

ônibus passando,

casais caminhando,

luzes refletindo no asfalto úmido.

E no meio daquela cidade enorme, Hanna e Bang Chan apenas dividiam silêncio.

Chan parecia menos pesado aos poucos.

Não melhor.

Só… menos sozinho.

Em certo momento Hanna encostou a cabeça no ombro dele distraidamente, cansada demais pra perceber. Chan ficou imóvel por um segundo.

Depois apenas relaxou.

Os dois olhando o movimento da rua como se tentassem respirar fora da pressão da agência por algumas horas.

Então o alarme do celular dela tocou.

Estridente.

Os dois quase se assustaram.

Hanna pegou o aparelho e fez uma careta imediatamente.

— Ah, droga…

Toque de recolher.

Ela desligou o alarme suspirando.

— Eu preciso voltar.

Chan olhou a hora no celular dele também.

Tarde.

Muito tarde.

Os dormitórios femininos e masculinos ficavam em lados opostos da cidade, e mesmo cansado daquele jeito ele levantou primeiro.

— Vamos.

— Chan, você não precisa—

— Preciso.

A resposta veio automática.

Como se nem fosse opção deixar ela voltar sozinha naquela hora.

Então os dois seguiram pelas ruas frias da cidade.

O caminho foi silencioso na maior parte do tempo.

Mas confortável.

Hanna caminhava com as mãos escondidas dentro das mangas do moletom enquanto Chan andava ao lado dela de capuz ainda baixo.

Em algum momento ela olhou de lado pra ele.

Mesmo destruído emocionalmente…

ele ainda estava preocupado com ela.

Aquilo apertou o peito dela de um jeito estranho.

Quando finalmente chegaram perto do dormitório feminino, Hanna parou perto da entrada iluminada.

As luzes automáticas do prédio deixavam os dois pálidos e cansados.

Por alguns segundos nenhum deles falou nada.

Então Chan enfiou as mãos nos bolsos do moletom e soltou o ar devagar.

— Obrigado por ter vindo ficar comigo.

A voz saiu baixa.

Honesta.

Hanna balançou a cabeça de leve.

— Eu só não queria que você se sentisse sozinho.

Os olhos dele levantaram lentamente pra ela.

E alguma coisa mudou naquele instante.

Pequena.

Silenciosa.

Mas mudou.

Porque naquele lugar cheio de competição, falsidade e gente pensando apenas em sobreviver…

Hanna tinha escolhido ficar.

Mesmo quando ele estava quebrado.

Mesmo quando não havia nada pra oferecer em troca.

Chan desviou os olhos primeiro, soltando uma risada pequena pelo nariz.

— Você é perigosa sabia?

Ela franziu a testa.

— Hm?

— Faz as pessoas se acostumarem com você.

O coração dela tropeçou de leve.

Só por um segundo.

Então Hanna tentou esconder isso revirando os olhos dramaticamente.

— Nossa, que frase de drama coreano.

— Você vive assistindo.

— E você também.

— Touché.

Os dois sorriram pequenos.

Cansados.

Quase destruídos.

Mas ali.

Então Hanna deu um passo pra trás em direção à entrada.

— Vai descansar um pouco, Chan.

Ele assentiu devagar.

Mas antes que ela entrasse, chamou baixo:

— Hanna.

Ela virou.

Os olhos dele estavam diferentes agora.

Mais suaves.

— Obrigado por não desistir de mim hoje.

E aquilo…

aquilo ela levou pro quarto junto com o frio da madrugada e o coração estranhamente apertado.

Depois daquela noite na praça, alguma coisa mudou entre eles.

Nada óbvio.

Nenhuma confissão.

Nenhum grande momento dramático.

Só pequenas mudanças silenciosas.