Tudo o que está em jogo
13 No refeitório
Ochako mantém seu olhar fixo nas prateleiras, onde pãezinhos e bolinhos estão à mostra. Há uma multidão para comprar comida na hora do intervalo, e como a U.A. oferece as refeições de maneira bem mais organizada, dispondo de quase um buffet no qual os alunos só precisam formar fila e esperarem chegar sua vez, a garota não tem esse costume de enfrentar uma multidão para comprar comida, ainda mais uma multidão de rostos sem grande definição, que a olham, mas parecem não estar vendo nada, de fato.
Se tivesse sua individualidade, ela com certeza trapacearia um pouco, ativando a Gravidade Zero e flutuando até que conseguisse ter uma boa visão das prateleiras, mas sendo a garota relativamente baixa que é e sem poder usar suas habilidades, só lhe resta ficar na ponta dos pés e tentar ver algo em meio a esses NPCs.
Ela persiste, tentando passar pela multidão, mas quanto mais tenta, mais é engolfada pela horda de gente, Ochako procura usar seus ombros para afastá-los, mas alguém parece ter a mesma ideia e a empurra com o dobro de força, a garota esbarra em alguém e cai sentada, ouvindo risadinhas dos NPCs.
Uma mão se estende para ela, claro que se estende, esse parece mesmo o tipo de coisa que aconteceria para criar alguma interação amorosa com seu pretendente. A morena já revira os olhos, pronta para recusar o gesto do Kirishima que, apesar de gentil e válido, não é algo com o qual ela queira lidar agora. Ochako ainda estpa brava pela ceninha de ontem, incomodada como ele falou que ela “não entende” como se fosse uma criança, isso depois do Bakugou fazer um comentário extremamente estúpido, e pra quê? Pra criar alguma situação em que o Kirishima defende a honra dela, fazendo com que a garota se sinta grata e engate um romance? Isso é jogar baixo, e Ochako esperava mais do Bakugou, bem mais. Já do Kirishima, bom… ele é só um personagem, está fazendo o que é coerente para si, mas ela não está a fim de ser racional agora, Ochako quer ficar brava, não quer dar a mão ao Kirishima e…
… não é a mão do Kirishima. Nem ao menos se parece com a dele, essa é meio grande, mas... tem a pele mais lisa e clara, unhas redondinhas e… um anel de sapinho.
— Tsu- Asui-san. — ela não contém a surpresa, claro, afinal a garota quase nunca lhe dirige a palavra e, quando faz, é sempre bem ríspida. Não do mesmo jeito debochado do Monoma ou da secura do Todoroki, porque por mais que eles sejam meio grossos, parecem prestar atenção nela, já essa Tsu é só… indiferente.
Mas pelo menos não agora, ela está estendendo sua mão em um gesto raro, e seria muita burrice não aceitar.
— Você esbarrou em mim. — ela informa em tom meio áspero.
— A-ah, eu… me desculpa! Não foi de propósito! Eu só tava tentando comprar pão e aí me empurraram.
— E cadê?
— Hum, cadê o quê?
— Seu pão. Você disse que estava comprando.
— Eu tava “tentando”, não… não consegui.
— Ah. — ela fica olhando, e Ochako espera que ela diga algo a mais ou pergunte “então você não tem nada pra comer?”, uma parte muito otimista sua deseja que a garota até ofereça um pedaço do pãozinho que tem em mãos, mas… ela não diz nada, não está nem olhando-a mais, e sim para algum ponto mais alto acima da cabeça da morena.
— Você tá sem o que comer? — a pergunta que ela esperava da Tsu vem do Kirishima, que surge atrás dela, fazendo com que ela o reconheça pela voz.
— Não, eu estou bem. — ela o olha rapidamente por cima do ombro.
— Eu sei quando você tá mentindo, sabe? — Ochako se recusa a olhá-lo, e só o ouve suspirando. Um pãozinho avermelhado envolto em plástico surge em seu campo de visão, Kirishima está segurando-o por cima da cabeça dela. Talvez seria um gesto bonitinho se ela não estivesse brava, mas como Ochako está, parece só um lembrete simbólico do que ele disse antes sobre sempre estar lá para socorrê-la.
Péssimo.
— Não tô com fome. — ela diz, empurrando o pãozinho com muita dor no coração pois, um: Ochako está com fome, dois: a garota não devia estar o afastando, isso só vai fazer cair o nível de intimidade, que já está meio baixo, principalmente em comparação ao que estava antes.
Mas o que mais se pode fazer? Fingir que não está brava? Deixar passar que um garoto que se considera um grande amigo dela a trate como se não fosse capaz de dar um passo sem que homens venham correndo e babando pra cima dela? Não, né?
— Ok… — o tom dele indica vários graus de decepção, e a intimidade deve ter caído ainda mais agora. Os personagens com menos de 20% são mais frios, e como ela está mais ou menos por aí, é de se entender que o Kirishima não vai insistir pois também está magoado.
Ela não sabe bem o porquê, mas não consegue priorizar a mágoa dele em detrimento da dela agora.
Ochako bufa em meio à sensação de estar certa e errada ao mesmo tempo, e chega até a tomar um pequeno susto quando nota que a Tsu ainda está ali, seus grandes e opacos olhos observando-a.
— Você… posso te ajudar em alguma coisa, Asui-san?
— Vocês são amigos de infância, não são?
— Eu e o Ei-kun? Ah… sim, somos vizinhos desde o fim do Fundamental. — ela comenta, lembrando-se do que leu no encarte do jogo.
— Se você o chama de “Ei-kun”, devem ser bem íntimos.
— Ah… é, ele nem gosta que eu o chame de outro jeito, então… — ela coça a cabeça despreocupadamente.
— Entendi.
— Hum? — ela fica meio confusa com o interesse repentino da garota em sua vida, mas não é como se estivesse achando ruim, de maneira nenhuma.
— Nada. — a garota se afasta sem dizer mais nada, quebrando qualquer esperança que Ochako tinha de conseguir manter um diálogo mais longo com ela.
A garota puxa o celular e suspira, desanimada. A intimidade com a Tsu não aumentou.
E ela ficou sem pãozinho.
***
— Ai ai, você não tem jeito mesmo… — a Momo diz em um tom meio maternal enquanto separa algumas coisas que tem em seu bentô para dar para ela — Como vai aguentar as aulas e as atividades do clube se não comer nada?
— Eu ia comer, só não consegui comprar nada. — ela praticamente choraminga, aceitando o que a Momo coloca num guardanapo e lhe entrega — Obrigada, Yaoyorozu-san.
— Sem problemas, só se cuide melhor. — a garota de cabelos pretos se serve, incrível como essa versão da Yaomomo é igualmente refinada e altiva tal qual a original, a única diferença é o par de óculos de aros prateados que ela ostenta, e ostenta de maneira um tanto elegante, claro — É raro que sejamos só nós duas na hora do almoço.
— Ah sim, a Kyoka-chan está em turnê de novo, né? Deve estar de volta semana que vem. — Ochako fica muito curiosa em saber como a Kyoka ainda não pegou bomba, mas… deve ser uma daquelas coisas que só são possíveis nesses jogos.
— Sim, eu já deveria estar acostumada a não tê-la por perto recorrentemente, mas… ainda não consigo. — ela soa lamentosa, mas limpa a garganta e se recompõe — Além do mais, normalmente você almoça com o Kirishima-san, não?
— Ah… é, acho que sim. — ela retorce o lábio, meio incomodada, e surpreendendo-se quando a YaoMomo a encara com certo tédio.
— Certo, o que aconteceu?
— Hum?
— Uraraka-san, você e o Kirishima-san são bons amigos tais quais eu e a Kyoka, é notório que há algo errado entre vocês. E então? O que aconteceu?
— Ah, eu… — Ochako mexe na comida com seus hashis emprestados, pensando se poderia comentar com a Yaomomo sobre sua briga, e então percebe que não só poderia, como deveria. Esse convite para almoçar com ela deve ter acontecido só para isso, só para que ela expusesse seu drama com o garoto para uma de suas amigas próximas nessa história — ...eu só não gostei de algo que ele falou… eu… não gosto de algumas coisas que ele diz, na verdade.
— E você explicou a ele que não gosta?
— Sim… — ela explicou aos berros, por sinal — Mas ele… ele não entende, sabe? Parece que me vê como uma criança, como se eu fosse incapaz de pensar por mim mesma, eu… só fiquei meio cansada disso.
— Entendo… bom, desde que eu conheço vocês, ele sempre foi bem protetor, me remete a um irmão mais velho. Acredito que seja devido ao acidente que você sofreu, não?
Acidente? Espera aí, que acidente?
Ochako não tem ideia sobre do que isso se trata, não tinha nada sobre um acidente no encarte do joguinho que o Bakugou “contrabandeou” para esse mundo, um acidente com a protagonista? Quer dizer, outro além da queda nas escadarias no prólogo do jogo? Quando foi isso? E o que aconteceu, exatamente?
Ela está louca para saber, mas não pode sair perguntando, afinal, isso é algo do qual Ochako deveria estar ciente, é um momento marcante na história da protagonista e na do Kirishima, aparentemente. Mas a garota não tem as memórias e vivências da protagonista, ela não sabe como era a vida dela antes do prólogo, tudo que pode fazer é colocar as suas próprias e tentar não enlouquecer com essas versões alternativas de seus amigos e conhecidos.
— Você… você acha? — e ela também pode tentar sondar, arrancando o máximo de informações que conseguir.
— Naturalmente, imagino que ele se sinta culpado.
Por que… por que ele se sentiria culpado?
— Bom, eu… eu gostaria que ele não se sentisse se… se isso o faz achar que eu sou uma destrambelhada que não consegue fazer nada sozinha, ou que precisa estar sempre me protegendo, ele tem a vida dele e eu a minha.
— Compreendo, e mesmo dizendo tudo isso a ele, vocês ainda não conseguiram se entender?
— B-bom, eu… — ela desvia o olhar, meio sem graça — Eu não disse exatamente isso a ele, eu… — Ochako não abriu muito espaço para o diálogo, é bem verdade, mas é porque a situação já estava bem estressante, o Bakugou foi babaca e a deixou irritada, e mesmo que o Kirishima tivesse a melhor das intenções, também não foi legal o que ele disse — ...nós não conversamos direito...
Mas a solução não é evitar o garoto. Quanto mais ela pensa, mais percebe que só tem motivos para ir conversar com ele. Primeiro porque, mesmo que seja um personagem no jogo, Ochako sente uma certa simpatia por ele, talvez seja um pouco de transferência do quanto ela gosta do Kirishima original, mas também é por conta dele, o garoto pode ser condescendente e um tanto paternalista, mas é involuntariamente engraçado, irremediavelmente gentil e encantadoramente intuitivo por vezes. Sendo um personagem ou não, ele é um bom amigo.
Segundo porque Ochako não pode ficar com essa porcentagem baixa de intimidade, ela não sabe que tipo de bad ending poderia pegar, mas realmente não quer descobrir. Então mesmo que ainda esteja brava e não sinta que está totalmente errada, ela precisa engolir um pouquinho do orgulho e ir lá falar com o Kirishima.
Terceiro porque ela precisa saber do que se trata esse acidente e como influencia na história entre eles. Mesmo não sabendo ainda, ela já consegue entender o porquê de ele ter ficado tão desesperado na enfermaria, ainda no primeiro dia dessa loucura toda, e porque ele sente que deveria socorrê-la, mesmo que não precise e que ela consiga se virar.
— Bom, então… nesse caso, acho que você deveria conversar com ele apropriadamente, vocês me parecem ter uma ligação especial, não deveria comprometê-la por algo que pode ser resolvido com uma boa conversa.
Por incrível que pareça, Ochako concorda.
***
Ela não deveria estar evitando o Kirishima, mas nada a impede de ignorar o Bakugou solenemente. Não que ele tenha tentado falar com ela desde que Ochako foi para o clube de teatro para suas atividades — que, no momento, envolvem muitos exercícios de respiração e de marcação no palco, uma chatice pura — mas a garota notou alguns olhares um tanto incisivos por parte dele, como se estivesse tentando transmitir uma mensagem, qualquer que seja, ela realmente não quer saber agora, ainda muito irritada com o joguinho dele no dia anterior.
— Que diabos você tá fazendo? — o loiro pergunta assim que o Todoroki libera os atores das atividades do dia. O plano dela era sair o mais rápido possível, mas o Bakugou foi mais veloz ao encurralá-la bem próximo à coxia.
— Tentando jogar. Então, se você puder me dar licença, eu preciso encontrar o Kirishima-kun no clube de futebol — ela tenta passar, ele a impede, esticando um braço para bloquear sua passagem, o gesto a faz fuzilá-lo com o olhar.
— Por que essa cara de cu?
— E você ainda pergunta? Você… o que foi aquilo ontem à tarde?
— Aquilo o quê?
— “Vou olhar embaixo da saia dela”. — ela diz em uma imitação muito porca do tom dele — Você já arrumou briga com o Deku-kun sem motivo nenhum, não aprendeu a lição? Por que você quis arrumar confusão com o Kirishima-kun agora?
— Porque é o que o vilão faz, Cara de Lua!
— Mas não é o que você faria, é? — ela questiona, olhando-o assertivamente — Bakugou-kun, não tem como a gente fazer exatamente o que a protagonista e o vilão fariam, a gente nem conhece eles, não sabe como a vida deles deveria ser, não tem as memórias deles, então por que fazer algo que você normalmente não faria? Você… é melhor que isso. — ela não gostaria de elogiá-lo num momento em que está tão brava, mas sabe que uma massagem no ego do loiro é uma boa via para fazer seus argumentos passarem.
É difícil dizer se funcionou, pois o Bakugou a encara como se nunca tivesse escutado a voz dela antes, ele parece até um pouco surpreso.
— Tsk, você-
— O que acontece aqui? — o Todoroki puxa a cortina e os faz pularem, afastando-se um um do outro — Eu disse que havíamos encerrado por hoje, não disse?
— Sim, a gente só… o Bakugou-kun tinha uma dúvida sobre a… sobre as luzes, aí eu-
— Aí você explicou que não é da equipe de iluminação e quaisquer dúvidas que ele tenha devem ser dirigidas a eles? — ele pergunta de maneira ríspida — Estão dispensados.
— Sim, senpai. — ela consegue disfarçar o tom exasperado e realmente soa como uma resposta à ordem do presidente.
Ochako lança um rápido olhar na direção do Bakugou antes de se retirar.
O sol parece mais laranja que nunca enquanto Ochako se aproxima do campo de futebol onde considera ser o lugar mais óbvio para o time estar treinando, e de fato, lá estão eles, e o Kirishima se destaca não só por ter um rosto com expressões definidas, mas também pelas madeixas vermelhas espetadas em meio a garotos de cabelos pretos ou castanhos.
Ele também é um dos poucos que permanece treinando enquanto os outros jogadores estão sentados nos bancos ou na grama do campo mesmo, aparentemente despreocupados, alguns praticam embaixadinhas, mas parece ser mais por descontração mesmo. O Kirishima segue firme chutando bolas ao gol, a forma como o corpo dele se move para tentar chutes de diferentes ângulos é bastante… interessante, não tem um só músculo que não esteja trabalhando. Fora que a expressão séria e concentrada dele é bem diferente do que a garota já viu, tanto no Kirishima desse mundo quanto no original.
E então ele a nota observando-o, o rosto dele, já suado e ruborizado pelo esforço debaixo desse sol, consegue ficar tão vermelho quanto seu cabelo. O garoto dá uma breve corridinha típica de atletas na direção dela, e dá pra perceber o quanto ele está tentando evitar o olhar dela.
— Aqui. — Ochako oferece o que tem em mãos: um suco de melão do mesmo tipo que ele comprou pra ela no outro dia.
— Valeu. — ele acena com a cabeça e aceita.
— Ei-kun-
— O-chan- — eles dizem ao mesmo tempo e dão um sorriso sem-graça.
— Posso falar primeiro dessa vez?
— Pode.
— Eu… eu só quero que você saiba que… — ela sabe o que falar, mas está com medo da barrinha de intimidade cair mais, eles não estão numa boa, então qualquer coisa que ela diga pode soar muito pior do que gostaria — Ei-kun, eu…
— Cuidado! — uma voz masculina alerta ao longe, e Ochako só vê uma bola de futebol vindo em sua direção, pronta para acertar-lhe no rosto.
— O-chan, cuida- — o ruivo se move para empurrá-la para fora do caminho da bola, mas não é necessário, ela pode estar exausta dos exercícios no clube de teatro, mas ainda tem seus reflexos, então antes que a bola lhe acerte em cheio na cara, Ochako a pega com firmeza.
E sob o olhar meio impressionado do Kirishima, joga a bola de volta para o garoto sem rosto que quase a atingiu.
— A gente pode conversar, Ei-kun? Longe dessas bolas.
É… não é a melhor abertura para essa conversa, mas… ela tem que começar de algum lugar.
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