Tudo o que está em jogo
35 Na mansão
É uma mansão.
O Todoroki original também vive em uma casa enorme, Ochako teve a chance de conhecê-la recentemente, no aniversário do garoto. Não se pode dizer que foi uma festa, tava mais pra uma reuniãozinha amigável, o que importa é que teve muita comida boa e que a irmã do Todoroki, Fuyumi, é uma anfitriã incrível, super gentil e acolhedora. Ela até chegou a oferecer quartos de hóspedes para os convidados da reuniãozinha caso não quisessem voltar para os dormitórios naquela noite fria. Nem Ochako nem nenhum de seus colegas aceitou a tremenda gentileza, então o luxo e a elegância do quarto em que poderia ter passado a noite ficou só na imaginação.
Esse Todoroki também vive em uma casa suntuosa, a diferença é que é uma mansão no estilo ocidental, o do mundo original vive em uma casa tradicional japonesa, ambas igualmente impressionantes no tamanho e na beleza. Essa aqui parece algo saído de um daqueles reality shows sobre socialites estrangeiras, a fachada sustentada por duas lacunas em arquitetura romana e é tudo branco, muito branco. Havia um joguinho que a Mina e a Tooru curtiam que tinha uma mansão parecida com essa, esse foi o único detalhe marcante que Ochako guardou do tal jogo além da sinopse estranha: uma garota acorda em uma mansão e descobre estar morando com sete lindos rapazes, todos eles querem se casar com ela… ou todos eles eram vampiros, ou todos eram vampiros querendo casar, alguma coisa assim…
— Bem vinda, senhorita. — um senhor grisalho vestindo um fraque escuro se curva solenemente diante dela assim que abre a porta — O mestre Todoroki já irá recebê-la, tenha a bondade de esperar na sala. Há algo que gostaria de beber?
— Ah… não, obrigada. — Ochako recusa meio no susto, ela mal havia prestado atenção na pergunta, muito absorta em admirar o lustre de cristal pendendo do teto e a decoração opulenta da sala onde fica acomodada.
— Fique à vontade e não hesite em me chamar caso precise de algo, senhorita. — o mordomo faz mais uma mesura e se retira cordialmente.
Sozinha e se sentindo um tanto pequena na enorme sala, Ochako olha para si mesma e se pergunta se deveria ter escolhido uma roupa melhor, o vestido azul claro é mais chique do que qualquer coisa que ela teria no mundo original, mas ainda parece simplório demais em contraste com o lugar que está no momento. Mesmo que não tenha certeza que isso é um encontro da rota, ela se esforçou em parecer minimamente apresentável, só que agora não tem certeza de que conseguiu nem isso.
Ela só espera que isso não renda pontos a menos na intimidade com o Todoroki, intimidade essa que está estacionada em 32% e não sai disso, claro, ela não se empenhou em agradá-lo desde que ele revelou estar ciente do jogo, não seria diferente, mas ainda assim, Ochako fica surpreendentemente frustrada por não ter feito nada desde então que pudesse derreter o coração do presidente do clube de teatro.
A garota revira os olhos e retorce a boca pra si mesma em escárnio, não acreditando que está mesmo incomodada por não ser capaz de agradar um cara a quem não quer agradar, e que aparentemente nem está preocupado em ser agradado.
— Quem é você? — uma voz grossa, muito mais grossa que a do Todoroki, preenche a enorme sala, Ochako se vira com tudo e não contém a surpresa em ver essa figura aqui: cabelos vermelhos, ombros largos, uma silhueta gigante e imponente, a única coisa que lhe falta na imagem que ela está acostumada a associá-lo são as chamas contornando seu rosto e corpo.
— Endeavor… — ela sussurra.
— O quê?
— Ah, perdão! — Ochako se curva, pensando que se individualidades não existem aqui, então não há heróis, logo ele não é o Endeavor e nem tem nada a ver com esse nome. Como era o nome verdadeiro do herói número 1 mesmo? Enji…? — Perdão, senhor. Sou Uraraka Ochako, sou secundanista no colégio Sentaku e kohai do seu filho. É uma honra conhecê-lo.
— Não diga que também está naquele clube de teatro. — Ela não sabe o que responder, pois sim, está. Mas ele faz soar como se não quisesse ouvir nada em relação a isso, então a garota se ergue e acena levemente com a cabeça — O que o Shouto está pensando se preocupando tanto com essa perda de t-
— Estou compondo meu currículo com atividades complementares, como é exigido de todas as faculdades para as quais estou prestando. — o Todoroki surge no alto da escada espiralada com corrimão dourado.
— Só há uma em que você precisa entrar, e um clube de teatro não acrescentará muito para ser aceito.
— Isso se eu quisesse entrar para a faculdade que o senhor escolheu. — ele rebate. Oh não… isso é quase um déjà-vu.
Quando esteve na casa do Todoroki do mundo original, houve um momento em que o clima ficou meio estranho, e foi exatamente quando o Endeavor chegou. Ochako nunca tinha visto o herói número 1 pessoalmente até então, e ficou impressionada com o quanto ele era grande, nada diferente do que tinha visto na TV.
O herói das chamas era tão intimidador quanto ela imaginou também, causando um silêncio cortante quando botou o pé dentro de casa e examinou cada um dos presentes na reuniãozinha de aniversário do filho. A única pessoa que ousou reagir foi o irmão do Todoroki, Natsuo, que fez um “tsk” e resmungou algo sobre o pai não ter sido convidado. O Endeavor desejou boa noite, disse que estava contente em ver que o filho tinha convidados, estendeu um pacote na direção do garoto híbrido enquanto disse um breve “Feliz aniversário” e foi embora. Foi bem chato.
O clima entre pai e filho nesse mundo também não parece dos melhores, e Ochako sente o mesmo desconforto que sentiu naquela noite, a diferença é que logo o Bakugou fez um comentário sobre a comida, o Kirishima apontou que ele estava sendo grosseiro, e todo mundo logo esqueceu a visita curta do Endeavor para tirar sarro da falta de gentileza do loiro. Até o Todoroki ofereceu seus próprios comentários e pareceu estar se divertindo, não demonstrando nenhum incômodo com a cena que acontecera antes. Agora não tem Bakugou e sua grosseria cômica para desanuviar o clima pesado nessa sala elegante.
— Agora não é hora para discutir isso. — o homem decide secamente.
— Nenhuma hora é, até porque não há o que discutir. Não vou fazer a faculdade que o senhor quer. — Ochako chegaria a achar cômica a maneira formal em que ele fala enquanto é extremamente desrespeitoso com o próprio pai, mas ela está muito desconfortável para achar qualquer coisa — Você aí, o que está fazendo? Venha logo. — leva um segundo para que ela entenda que o Todoroki está falando com ela.
— Ah, eu… — ao passar pelo Endeavor que não é Endeavor, ela se curva rapidamente mais uma vez e sobe as escadas praticamente de dois em dois degraus para não ter que ficar nem mais um segundo sob o fogo cruzado.
— Deixe a porta aberta, Shouto. — o homem dá uma olhada neles lá no alto e vira-se de costas.
A resposta do Todoroki é um barulhinho de desdém, acenando com a cabeça para que ela o acompanhe.
— Caso esteja se perguntando: não, ele não está ciente de que é um jogo como eu. — o garoto explica enquanto eles andam por um longo corredor decorado com obras de arte e enormes vasos delicadamente pintados.
— Ah… imaginei. — ela não tinha imaginado nada, nem tinha pensado nisso, mas sabe-se lá porquê, não quer que ele pense que ela não teria a perspicácia de notar esse fato.
— A discussão é sempre essa, ele não gosta que o filho esteja no clube de teatro e quer que eu vá para uma faculdade de direito ou algo assim.
— É um tema bem comum nessas histórias… eu acho. — e então ela pensa em algo — Ah, mas… ele sempre tem essa aparência?
— Não, eu não me lembro bem como ele se parecia da última vez em que tivemos uma jogadora aqui, mas tenho certeza que não era um homem tão grande e com uma cara daquela. Você conhece mesmo alguém daquele jeito no seu mundo?
— Sim, hã… aquele é o pai do Todoroki Shouto do meu mundo mesmo. Ele é um herói profissional, tem um poder de chamas e é… o maior de todos os heróis atualmente.
— Ah, então faz sentido. — ele a olha por cima do ombro — Acho que começo a entender porque você é assim, todos no seu mundo parecem ser um tanto excêntricos.
— “Assim”? — ela ergue uma sobrancelha — Eu sou assim como?
— Já disse, “excêntrica”.
— Ah, eu sou excêntrica? — Ochako dá uma leve risada — E o presidente do clube de teatro que mora numa casa de boneca e sai falando coisas do tipo “eu vou te disciplinar” é o quê?
— É só a configuração do meu personagem.
— Não deixa de ser excêntrico, as pessoas não falam assim na vida real, sabia?
Ochako não sabe o que está fazendo falando assim com ele. Vai ver ela achou que por o garoto estar em casa, ele estaria mais confortável e tranquilo, então ela não teria que se preocupar tanto, mas daí pra ser tão atrevida é outra história. Ela já tá se empolgando demais.
O garoto para de andar e se vira para ela, olhando-a daquele jeito de quem pode estar tentando intimidá-la ou seduzi-la, talvez um pouco dos dois.
— E você está sentindo falta de um toque de realidade, é por isso que não se apaixonou por nenhum dos pretendentes?
— Oh… é, eu não… — Ochako nunca havia pensado nisso, será que não consegue se impressionar com esses jogos porque sabe que eles estão muito distantes do que realmente é um relacionamento? Quer dizer, não que ela saiba exatamente do que um relacionamento de verdade consiste, nunca teve nenhum nesse sentido, o único com o qual já teve alguma proximidade foi… — Bom, é que… eu penso nos meus pais, não os daqui, os de verdade, e… eu acho que, se algum dia eu precisar e quiser um amor desses, eu… iria querer o que eles têm. Eu acho.
— Você não parece ter muita certeza disso.
— É que… não é algo que eu penso a fundo. Eu tenho muitas coisas pra me preocupar no meu mundo, então essa parte da minha vida não é minha prioridade, e eu… — ela se interrompe, sentindo que partilhar isso já é um pouco demais.
— Você? — ele questiona, encarando-a como se tivesse olhos de raio-X.
— Eu não sei se eu sou… — ela balança a cabeça, procurando a palavra — ...alguém por quem alguma pessoa se apaixonaria.
Ele fica em silêncio por um segundo.
— E o que te faz pensar isso?
— Não sei, é que… no meu primeiro ano, eu gostava muito de um garoto, o Midoriya desse mundo é inspirado nele, e… não sei, eu sempre senti que por causa das minhas escolhas pro meu futuro, ser do jeito que eu sou nunca… sei lá, atrairia esse garoto, ou qualquer outro.
É estranho falar isso em voz alta, até porque é um pensamento que Ochako nunca chegou a concluir consigo mesma. Não que ela tenha autoestima baixa ou nada assim, a garota está bem ciente de suas qualidades, mas também está ciente de seus defeitos: ela é sensível, às vezes meio volátil, faz coisas por impulso sem pensar o bastante, fica com ciúmes muito fácil, pode ser rancorosa… nada disso é atraente, e ela não pode culpar nenhum garoto que ache essas coisas fatores para se afastar dela, o primeiranista que se declarou pra ela antes dessa loucura toda começar nem a conhece direito, e vai ver é isso que a deixa tão inclinada a rejeitá-lo.
— Mas isso não faz sentido. — o garoto diz por fim.
— O quê?
— Isso que você disse. Como você pode achar que não atrairia alguém? Você vem fazendo isso desde o minuto em que surgiu nesse mundo.
— Oh, mas isso é… é porque é o que tem que acontecer, né? Eu sou a protagonista, é natural que os outros personagens-
— Mas você não é nada como a protagonista, você joga conforme suas próprias regras e ainda fez os pretendentes se apaixonarem, então… por que não se dá mais crédito?
— Você… tá tentando me animar, senpai?
— Não tenho porque querer animá-la, então não. — ele dá de ombros — Só estou falando o que penso mesmo.
— Claro… — ela dá uma risadinha, tentando disfarçar o quanto as observações dele lhe deixaram envergonhada.
— Chega de brincadeira, vamos ao trabalho.
Eles chegam ao fim do corredor e adentram uma sala à esquerda. Ochako estava esperando uma imitação da sala de ensaios da escola, com paredes espelhados e um chão de madeira lustrosa, mas sente seu corpo tensionar ao ver a grande cama com colchas azuis escuras e detalhes em branco, a escrivaninha na parede oposta, e mais duas portas, uma deve ser a do banheiro — porque claro, o quarto é uma suíte — e a outra… talvez o closet? É, é bem provável, isso é bem cara de casa de rico.
Não que importe, porque ela está simplesmente no quarto dele! Isso é… ela não esteve no quarto de nenhum de seus pretendentes até aqui! Na verdade, Ochako nunca esteve no quarto de um garoto, tirando aquela vez da competição dos dormitórios, mas… em nenhum momento ela ficou sozinha com algum menino em seus aposentos, isso é tão… pessoal, íntimo e…
— Hã… você precisa pegar alguma coisa aqui primeiro, senpai?
— Não, vamos ensaiar aqui hoje. Vamos fazer a cena em que a protagonista está na maca e conversa com o Henry.
— Ah… — ela responde sem saber o que dizer. Bom… faz sentido que precise estar deitada para poder começar a cena, mas… tem mesmo que ser aqui?
A julgar pela cara dele, tem sim. Então lá vai ela andando até a lateral da cama e deitando-se toda desconcertada, Ochako fica de barriga pra cima e apoia os dois braços nas laterais de seu corpo, quem olhá-la pode pensar que ela acaba de morrer ali, com certeza seu corpo está duro como o de um cadáver.
— É só minha cama, não precisa agir como se eu estivesse deitado aí ao seu lado.
— C-como é que- — ela se ergue em choque.
— Isso, mantenha essa energia. — ele instrui — Você está viva. — e Ochako reconhece essa fala do roteiro.
— Sim… Henry?
— Você se lembra de mim?
— Não, mas eu… imaginei que só você poderia vir me ver. Eu não conheço mais ninguém… e acho que ninguém me conhece.
— E se eu não for o Henry?
— Mas… você é.
— Como pode ter tanta certeza?
— Porque… por causa da… disso. — ela finge que tem a carta em mãos — Foi você que escreveu isso pra mim, não foi, Henry?
Eles seguem o ensaio, Ochako vai se permitindo envolver pela atuação a ponto de logo esquecer seu desconforto de estar sobre a cama do Todoroki com ele a poucos centímetros dela enquanto ambos interpretam uma cena intensa que envolve confissões amorosas e alguns toques. No geral, ela acha que está um pouco mais desenvolta, mas…
— Você ainda está hesitante. — o Todoroki discorda, dando seu veredicto quando eles encerram suas falas.
— O-o quê?
— Qual o problema? — ele para e pensa um pouco — Sou eu?
— Não, eu não… não tem problema nenhum com você, senpai.
— Bom, então seria você? Não sei se você entende, mas o Festival é daqui a alguns dias, e você não está nem próxima do nível em que precisa estar. — ele dá um suspiro enfastiado — Acho que você não compreende a importância dessa peça.
— Ei, calma lá, eu… eu ent-
— Pra você é só um jogo, eu entendo. Mas minha história e tudo que eu sou depende disso, e aqui está você não levando isso minimamente a sério.
— M-mas… Todoroki-senpai, você… você sabe que é só um jogo também, se eu não for bem na peça, o que de pior pode acontecer? — além de um bad ending que só a atrasaria nesse mundo por mais um tempo.
— Não é porque eu estou ciente do jogo que muda a importância da história pra mim. Eu preciso me destacar, preciso mostrar para aquele homem lá embaixo meu valor, eu… — ele se detém, bufando — Eu realmente não deveria ter me revelado, agora você leva tudo na brincadeira.
— Eu tô levando a sério, senpai. E… desculpa, mas… por que você sente necessidade de provar alguma coisa para aquele homem se sabe que ele não é seu pai mesmo?
— Como eu disse, você parece não ter noção da importância da história. — ele rebate friamente — Pode ir, encerramos por hoje.
— Mas…
— Não estamos sendo produtivos. — ele se afasta da cama — Tire um tempo hoje para refletir.
Ochako quer perguntar “sobre o quê?”, mas sente que está pisando em ovos com essa mudança de humor súbita dele. Essa peça é realmente importante para o garoto e, pelo que ela entendeu, tem a ver com querer contrariar a figura que seria o pai dele nesse mundo. Ela compreende que o senpai tenha seus objetivos e queira conquistá-los, isso faz parte da programação dele, mas não consegue entender o porquê.
Sem graça e um pouco frustrada, a garota se recolhe, sentindo-se meio mal quando chega em casa e já puxa o celular para ver se a intimidade caiu.
Ochako fica ainda mais decepcionada consigo mesma quando sente certo alívio em ver que não caiu, afinal, ela o magoou de toda forma.
E aqui está ela, preocupada somente com o jogo.
***
Ok, ela vai se desculpar com o Todoroki. Mesmo que não tenha certeza do que exatamente fez de errado, Ochako irá pedir desculpas e garantir ao garoto que se preocupa com a peça, talvez não tanto quanto ele, mas se preocupa em algum nível.
Ugh, isso faz parecer que ela não está sendo sincera, e o garoto vai perceber na hora, mas o que mais há de se fazer?
Então aqui está ela, no clube de teatro um pouco antes do horário designado, Ochako anda pela coxia e observa o grande salão vazio quando acende as luzes.
E então ela ouve um barulho estranho vindo de detrás de uma das grandes e pesadas cortinas.
Cautelosa, a garota se aproxima e a puxa com tudo, acaba não sendo um movimento muito rápido pois a cortina é pesada. Mas é o suficiente para ela dar de cara com o Bakugou observando uma das paredes de tijolos.
— Bakug-
— Shh! — ele ordena, e ela não gosta muito disso, mas não consegue não obedecer enquanto o encara apalpando as paredes de um jeito estranho. O que ele tá fazendo? — Vem aqui.
— O que-
Ele não responde, apenas segue andando e faz um vago gesto para que ela o siga. Ochako franze o cenho e acaba acompanhando-o, um pouco por curiosidade, um pouco por querer brigar com ele por tratá-la desse jeito. Mas antes que ela possa, o Bakugou empurra um tijolo na parede, e com isso, ela se abre. Sem pensar duas vezes, Ochako se lança para segurá-lo antes que seja puxado, mas acaba ela mesma sendo atraída pela força da parede.
E no momento seguinte, ela e Bakugou estão caindo na escuridão.
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