Tudo o que está em jogo
17 No vestiário
Se antes assistir aos treinos do Kirishima lhe deixava se sentindo um tanto esquisita ao admirá-lo na forma como o corpo dele se move quando está fazendo chutes a gol e tal, agora só a deixa com uma sensação ruim no estômago.
Bem parecido com o que foi no momento em que conseguiu os 100% de afinidade na rota anterior com um garoto que claramente não estava bem e buscando nos sentimentos por ela um escape para seus próprios demônios, Ochako sente em seu íntimo que terá que tomar uma decisão que determina se o final dessa rota será bom ou ruim muito em breve, no tal jogo que acontecerá amanhã, para ser mais precisa. E isso a apavora.
Ela vinha se divertindo com ele, apesar de alguns desentendimentos, a presença solar do garoto lhe agrada, é bem menos sufocante que a do Deku, e ok… talvez ela estivesse se atraindo por ele ao menos num nível físico. O Kirishima desse mundo é bonito, muito bonito. Tem um corpo incrível, uma voz gostosa de se ouvir, um sorriso iluminado e olhos brilhantes que tanto lhe conferem algo de muito malicioso quanto ingênuo ao mesmo tempo. Bom… isso porque ele é igual ao Kirishima original, mas a questão é que a atração dela é toda por essa versão do jogo, e… ah, como é desagradável assumir pra si mesma algo que o Bakugou disse: ela estava gostando da atenção que o ruivo lhe dá. Mesmo que não saiba flertar de volta, mesmo que fique morrendo de vergonha, tem sido meio divertido.
Ou estava, porque o garoto basicamente já se confessou dizendo que abriria mão de uma tremenda oportunidade em sua vida apenas para não se afastar dela. E isso é um tipo de responsabilidade que Ochako não pode aceitar pra si, pois um: ela não é a garota que ele pensa, não é a melhor amiga dele que provavelmente acharia essa atitude dele muito bonita e romântica. Dois: Ochako não está apaixonada por ele.
Aceitar a confissão que está por vir seria dizer “sim” pra algo com o qual ela não concorda nem jamais concordou. Rejeitar a confissão significa bad ending, e considerando o que sabe do personagem, ela não tem ideia do que poderia ser, ele pode ser meio autoritário e apresentar traços de possessividade, mas… não é no mesmo jeito do Deku, então provavelmente não iria ao extremo de machucar a ela ou a ele mesmo. O ruivo também poderia… achar que ela o culpa pelo acidente — mesmo que ela já tenha dito que não — e descontar no Bakugou por achar que isso também é culpa dele?
Nossa, o Bakugou… é, com certeza o Kirishima poderia achar que o problema é o loiro, ele a viu conversando com o garoto algumas vezes, deve ter sentido que ela não partilha do mesmo ódio e que isso pode significar que tem algum afeto pelo Bakugou.
E se ele fizer algo de ruim ao loiro… não, mas ele nunca… mas se ele fizesse, poderia responder legalmente, o que arruinaria o resto de seu ensino médio e, consequentemente, seu futuro. É possível, não? Alguns jogos das meninas tinham consequências assim nos bad endings, com algo ruim não necessariamente acontecendo à protagonista, mas ao pretendente com quem ela não conseguiu se entender.
Ai, não… pior que quanto mais ela pensa, mais lhe parece possível que seria algo assim.
Mas Ochako não entende tanto assim, então precisa da opinião de alguém mais versado nesses joguinhos, ela precisa do Bakugou. E já que arrastá-lo pra lugares escondidos parece não ser tão discreto o quanto pensou, ela acaba por tomar uma decisão mais extrema, para não dizer caótica. Mais cedo, ela cruzou com o loiro no clube de teatro e, da maneira mais inconspícua que julgou possível, passou um bilhetinho pra ele. Ela não chegou a observá-lo para ver a reação, mas tem certeza que a mensagem “Me encontra nas arquibancadas depois que acabar aqui” causou certo estranhamento.
Então lá foi ela assistir ao treino do Kirishima e esperar pelo Bakugou, fazer algo errado em espaço aberto é tão ruim quanto fazer as coisas escondido, mas pelo menos ela evita burburinhos. Se o Kirishima vir o Bakugou aqui, paciência, Ochako dará um jeito de provar sua lealdade, mas no momento, ela realmente precisa falar com o loiro.
E mesmo que tenha feito tudo de maneira muito frugal, ela deve ter conseguido passar um pouco de urgência, pois o Bakugou realmente aparece depois de um tempo, ela se sentou bem no fim de uma das arquibancadas, e o garoto fica em pé, bem ao lado dela, eles mantêm uma distância respeitável, e talvez olhando de longe, pode parecer que são duas pessoas que nem se conhecem nem interagem, apenas interessadas em assistir ao treino do time de futebol da escola.
— Eu acho que essa rota acaba amanhã. Eles têm um grande jogo, minha intimidade continua subindo, então… acho que ele vai se confessar.
— Hum. — ele não diz mais nada, e mantém seus olhos tão fixos no campo que Ochako chega a achar que ele realmente está interessado no treino.
— E-eu… o que você acha que acontece… se eu não aceitar? N-não que… não que eu não vá, mas… qual seria o bad ending dele?
— Ele tem um jogo importante amanhã, deve ter a ver com isso.
— Com o jogo? — ela o olha — Ah… eu achei que teria a ver com você.
— Acho que não, você já fez uma boa cena no centro de escalada aquele dia. — ele murmura — Então deve ter a ver com o jogo, ele vai pipocar em algum lance importante porque você deu um toco nele, alguma merda assim.
— Ele… se ele for mal no jogo, pode não despertar a atenção de olheiros, então pode ficar aqui na escola comigo. — isso parece estalar na cabeça dela — E aí ele perde a garota que gosta e a oportunidade de ganhar uma bolsa pro futebol.
— Não sei que papo é esse, mas é, o bad ending dele tem cara de ser alguma coisa que fode mais com ele do que com você.
— Sim, eu… eu pensei nisso também.
— Se pensou, já sabe o que tem que fazer, Cara de Lua.
Ela não responde, pois dizer em voz alta parece ser a confirmação de algo que Ochako realmente não quer nem pode fazer.
— O-chan, e aí? — o ruivo se aproxima com uma garrafa d’água em mãos, seu sorriso se desfaz quando vê o Bakugou parado a alguns metros dela — Acho bom você estar aqui pra pedir desculpa pra ela, imbecil.
Oh, isso é… isso é uma reação bem mais controlada do que as que ele teve antes, qualquer menção ao Bakugou parecia engatilhar nele todo o ódio possível, mas agora o Kirishima é no máximo frio. É um progresso, o que significa que o Bakugou, mais uma vez, estava certo. Algo mudou entre eles depois dos acontecimentos no centro de escalada, e Ochako deveria estar aliviada, talvez até contente, afinal, suas escolhas naquele dia causaram essa mudança, mas… curtir essa pequena vitória é meio difícil no momento.
— Ele já pediu. — ela confirma de maneira mecânica — Está tudo bem, Ei-kun.
— Hum, melhor mesmo. O-chan, vou só trocar e a gente vai embora junto, beleza? — ele volta a sorrir animadamente, dando-lhe as costas.
— Tem um chute ali que você não tá acertando quando tá batendo escanteio. — o ruivo se vira ao ouvir a voz do Bakugou, é impossível para ela não se virar em surpresa também.
— Como é que é?
— Tá querendo fazer gol olímpico?
— Humpf! Que te interessa isso?
— Porra nenhuma, só tô falando. Tenta chutar com a parte exterior do pé, os três últimos dedos.
Do que ele tá falando? Ochako o encara, mas o garoto mantém seus olhos fixos no ruivo, que coça a cabeça e olha pro campo como se… como se realmente estivesse considerando o que o Bakugou disse.
— Tipo trivela?
— Igual uma trivela. — o loiro revira os olhos, mas Ochako acha que só ela percebeu — De chapa não tem como mesmo. — assim que tiver a chance, ela irá perguntar ao Bakugou onde aprendeu esses termos de futebol, ele fala com tanta confiança que até ela, que não faz ideia do que se trata, consegue entender o que ele aponta.
— Tsk, é que trivela é… — ele coça a cabeça mais uma vez, e só então parece se dar conta de que essa conversa está se estendendo de maneira amistosa por tempo demais — Eu não pedi sua opinião, otário! Você nem tá mais no time pra ficar dando palpite!
— E por que é que eu fui expulso mesmo? — diferente dela tentando jogar verde para descobrir o que aconteceu no passado, o Bakugou parece perguntar algo para o qual já tem resposta, como se quisesse que o Kirishima confessasse algo.
— Não foi culpa minha, não fui eu que espalhei o boato da perna.
— Mas não desmentiu também. Você só me queria fora do time, não é? — ele ergue uma sobrancelha.
— Acho melhor você calar sua boca. — ele fecha o punho e cerra os dentes.
Ochako já se põe em posição pra segurar o Bakugou, mas o garoto não avança, pelo contrário, ele se vira e balança uma mão em sinal de desdém, como se essa briga não valesse seu tempo.
Provavelmente não vale mesmo. O que quer que tenha sido isso aqui, é para que a protagonista tenha um momento importante com seu pretendente.
— Do que ele estava falando, Ei-kun? — ela faz soar não muito acusatório, apenas curioso.
— Nada não, O-chan, coisa de homem. — ele dá de ombros.
— Ah sim, deve ser demais pro meu cérebro de menina entender. — Ochako responde com o cinismo pingando em suas palavras.
— N-não, não é assim! Eu só… ugh, aquele idiota do Bakugou só complica minha vida. — ele resmunga — Você… você sabe, é aquela história sobre ele ter tentado quebrar minha perna num treino aí.
Ah, isso… a Jirou comentou com ela casualmente em algum momento bem no começo desse jogo, ela tinha até se esquecido disso porque muita coisa aconteceu de lá pra cá, na época isso lhe deixou chocada, pois ainda não sabia qual era a função do Bakugou no jogo e que, como vilão, seria algo que ele poderia fazer.
Mesmo agora, Ochako ainda não consegue ver o vilão fazendo isso.
— Sim…
— Bom, então… não foi bem isso que aconteceu. A gente entrou numa dividida aí, sim. Mas… não foi tão sério assim. E aí… eu posso ter exagerado pra que ele se ferrasse.
— Ei-kun…
— Ele já arrumava muita encrenca, O-chan, ia acabar sendo expulso do time de qualquer jeito, eu só adiantei as coisas. Mas… o cara nunca gostou de futebol, ele mesmo me falou quando ainda jogava no time lá da outra escola no fundamental, então…
— Então você acha que é ok deixar o garoto levar uma fama ruim por algo que não fez?
— Ele já tinha uma fama ruim, O-chan.
— E piorá-la é bom pra quê? — ela cruza os braços, notando como o garoto abaixa os olhos, ele está mesmo envergonhado.
— Você tá decepcionada comigo, não tá?
— Eu… — não é bem essa a palavra, Ochako sabe que garotos e suas rivalidades normalmente envolvem os dois lados exagerando e ninguém tendo plena razão. Nesse mundo, o Bakugou é um vilão, tudo que ele faz é automaticamente considerado errado, mas na vida real, as coisas são um pouco mais complicadas, e essa situação lhe parece algo bastante real, complexo até — Obrigada por ser honesto comigo.
— S-sempre! Na verdade, eu… já tava pensando em te contar isso, desde o nosso encontro no sábado, eu… fiquei com aquilo de “ser másculo” na cabeça e… percebi que ser honesto é bem másculo.
Nossa… o que ela disse teve tanto impacto assim?
— É, sim. — a garota afirma, um tanto surpresa.
— Sim, então, eu… eu vou ser um homem do qual você se orgulhe, O-chan, eu… — ele suspira — A gente pode conversar antes do jogo amanhã?
— A-antes do jogo? Não pode ser depois? — ela tenta.
— Ah, é que… não, precisa ser antes. — ele decide daquele jeito que não abre muita margem pra discussão — Por favor?
— Eu… Tudo bem.
Mas não dá pra fugir.
***
A pedido dele, Ochako chegou mais cedo do horário no qual o jogo está marcado. Ela avança pelo campo enquanto observa alguns NPCs já se aglomerando nas arquibancadas, devem ser um tipo de torcida organizada ou algo assim. Sabendo que ninguém vai questionar ou impedi-la, Ochako desce as escadarias que dão pro vestiário, seu estômago se contorcendo em nervosismo diante do que está pra acontecer, e o pior não é isso, o pior é não saber o que fazer.
Ela ficou pensando nisso e gostaria de ter conversado com o Bakugou, mas… se aceitar a confissão dele, é possível que eles realmente comecem a namorar? Porque depois de ter dispensado o Deku, ele continua se lembrando dos eventos de sua rota, então… e se acontecer o mesmo com o Kirishima? Como ela vai poder avançar pelas rotas que faltam namorando? Nenhum deles vai querer saber dela, e o Kirishima já é ciumento, imagina se a garota desse motivo pra alimentar a possessividade dele…
É uma preocupação real, mas também uma desculpa para tentar fugir pela tangente. Mesmo que não saiba como funciona exatamente, Ochako já entendeu que é exatamente esse o ponto: não tem um padrão para funcionamento, o jogo funciona como bem entende. Ou melhor, funciona como alguém bem entende, as regras vão mudando, quebrando-se e remontando baseado em… essa é a parte que ela não sabe.
Então sim, talvez seja possível que ela aceite a confissão e amanhã possa começar uma nova rota como se nada tivesse acontecido, na verdade, é bem provável que seja isso que aconteça. E se é assim, ela poderia dizer “sim”, fingir que está tudo bem com ele depositando toda a esperança de um futuro em uma garota que nem conhece direito, e partir pra outra sem culpa.
É, é isso que ela tem que fazer.
— O-chan! — ele está sentado em um banco, e se levanta rapidamente quando a vê surgir — Ei, tá tudo bem?
— S-sim. — ela sorri — Sim, Ei-kun.
— Se você tá com vergonha de estar aqui, pode ficar tranquila, os caras do time ainda não chegaram. Somos só você e eu aqui.
— A-ah, tudo bem… — Ochako dá uma risadinha sem-graça, ela poderia comentar que é justamente isso que lhe deixa nervosa, mas ele entenderia mal.
Ou bem, vai saber.
— Haha, e como você mesma disse, você também não é tão inocente assim, né? — o ruivo dá uma risada relaxada, aparentemente gostando como ela cora — Eu… eu não sei o que aconteceu com você desde que caiu na escada, mas… você mudou bastante, O-chan.
— Ei-kun-
— E eu… ainda gosto muito de você. Eu… venho penando pra te entender, mas… gosto de você independente de tudo, eu… eu te amo, O-chan. — a boca dela fica seca — Eu sei que… eu sei que esse não é o melhor lugar pra falar isso, sei que não é o melhor momento também, mas… eu te amo, eu te amo já tem muito tempo.
— Ei-k- Eijirou… por que você… por que você quis se confessar agora?
— Oi?
— Por que antes de um jogo tão importante?
— Ahh, porque eu… porque… — ele continua sorrindo, mas parece ser meio mecânico, como se estivesse rindo para preencher a conversa na falta de uma resposta. Ele não sabe o porquê — eu só… tô nervoso com o jogo de hoje, e… acho que é em parte por causa disso, eu… queria te falar isso há um tempo, e tá muito difícil eu me segurar, Ochako, então… melhor falar agora, né?
— Ou talvez você esteja nervoso com o jogo porque… porque é importante, porque vão ter olheiros e você pode ser notado, não é?
— Ah, é… isso também, mas…
— Porque você é muito bom nisso, e você quer ser valorizado por isso. Todo mundo quer ser reconhecido por seus talentos, e receber uma daquelas propostas com bolsa para um colégio particular seria um grande reconhecimento.
— É, seria, mas… como eu disse, eu não faço questão disso não, eu… peraí, O-chan, por que você tá mudando de assunto? Eu acabei de me confessar pra você!
— Sim, e eu… eu fico muito lisonjeada, eu fico… eu fico feliz por saber disso, por saber que você gosta de mim mesmo comigo agindo diferente. Mas, Ei-kun… eu… eu não posso.
— Não pode? Não pode por quê? — ele arregala os olhos — O-chan, se isso é por causa da história da bolsa, nem é certeza que eu posso ganhar uma! E mesmo se fosse, eu não ia aceitar-
— Por minha causa?
— Bom, eu… sim, mas-
— Você não pode abrir mão de coisas incríveis por causa de outra pessoa. Ainda mais outra pessoa que- que não sente o mesmo. — ela respira fundo — O problema não é só você, Ei-kun, o problema também sou e-
— NÃO FALA ISSO! — seu grito ecoa pelo vestiário vazio — Você não é um problema, você é… você é minha vizinha, e… minha amiga que eu sempre preciso ficar de olho porque é estabanada, inocente e… alguém que eu preciso proteger.
— Eu não sou mais essa menina. — ela dá um sorriso em meio às lágrimas — E… e mesmo se eu fosse, ainda não justificaria você querer parar sua vida por minha causa.
— O-chan, eu não… — ele parece atordoado — eu não consigo me imaginar não te protegendo, eu não… eu não sei o que tá acontecendo, você… você ultimamente não precisa mais de mim, e eu tô- eu tô desesperado pra ter você ao meu lado de novo, eu tô- — e a olha, como se não pudesse falar essa palavra, afinal, ela não é muito máscula nem combina com um coiote.
— Com medo? — ele acena, seus olhos vermelhos brilham com lágrimas que ameaçam cair — Eu também tô com medo, acredite em mim, eu tô com medo o tempo todo, mas… as coisas estão mudando, Eijirou, nós estamos mudando, e… eu não acho que a gente vai ser feliz ficando junto só pra fugir dessas mudanças.
— Você não entende, eu não posso ter medo, eu sou- eu sou homem, eu preciso passar por cima dessas coisas.
— Não precisa, não. Você só precisa fazer aquilo que vai te fazer feliz, e… você vai acabar se decepcionando mais e mais quando perceber que eu não sou mais aquela garota que se afogou, e… ainda poderá ter deixado uma oportunidade de ouro passar, então… — ela hesita por um segundo, até que se decide, levando a mão ao rosto dele para que a olhe — Desculpe, Eijirou, minha resposta é não.
Eles se encaram no silêncio e má-iluminação do vestiário. Ela imagina que não precisa se preparar pra conter algum avanço dele, mas em todo caso, mantém-se em guarda. O garoto parece realmente perdido com a resposta dela, e Ochako sente muito por vê-lo assim, talvez ela devesse ter fraseado sua resposta de outra maneira, não é bom deixá-lo assim antes do jogo, ela deveria…
— Você… você tá tão crescida, e eu não consegui te acompanhar, Ochako.
— Isso não é verdade, você tá crescendo também. Você até… até me contou sobre aquele negócio do Bakugou-kun, isso também é crescer, sabia? — ela sorri, segurando-se pra não chorar — Nós dois estamos crescendo e mudando, e… vou entender se você achar que não dá pra gente ser amigo por causa d-
— Não, isso nunca! — ele leva as mãos aos punhos dela — Eu jurei pra você que serei um homem melhor, então não vou largar nossa amizade! — e diz de maneira muito decidida — Eu… eu quero continuar sendo seu amigo, eu não… eu sou homem o bastante pra tomar esse pé na bunda de cabeça erguida! — e isso a faz dar uma risadinha, ele faz o mesmo, mas dá pra perceber a leve tristeza de ambos.
— Ok, então você vai ser homem e dar o seu melhor nesse jogo, né? Independente de ter olheiros ou não, independente do que pode acontecer no futuro…?
— Eu vou! Nesse jogo e em todos os outros! É uma promessa! Você… você vai ficar pra assistir?
— Claro, né? — ela sorri — Vou gritar seu nome o tempo inteiro!
— Putz, O-chan, não fala uma coisas dessas… — ele cora e vira a cara — Bom, é melhor você… é melhor você ir, daqui a pouco a galera começa a chegar, não quero marmanjo nenhum te olhando só porque você entrou aqui, os caras acham que isso é motivo pra ficar secando, são todos coiotes!
— São mesmo… — ela concorda na brincadeira — Você vai mesmo ficar bem? — Ochako sabe que precisa sair, mas está com muito medo de deixá-lo sozinho e isso gerar um bad ending.
Mesmo que em seu íntimo, sinta que isso não vai acontecer. Ele parece tão… bem! Claro que está triste, ser rejeitado deve magoar muito, mas o ruivo aparenta estar tranquilo. Deve ter sido muito difícil pra ele, ao longo desses anos, sentir que deveria protegê-la de tudo e de todos por conta de um erro no passado, mas se ela já o perdoou pelo tal erro — que nem é bem culpa dele, na verdade — e deu indícios de ser alguém que não precisa ser protegida o tempo todo ao impedi-lo de brigar com o Bakugou e pegar aquela bola que ia acertá-la, além de tudo que rolou entre eles no centro de escalada, o garoto deve ter entendido que amizade não é sobre proteção incondicional, é sobre companheirismo.
E isso deve ser libertador pra ele.
Sim, Ochako tem certeza disso ao deixar o vestiário e verificar seu celular: 100% de intimidade com o ruivo.
Ela pode não ter ficado com o cara num sentido romântico, mas está aqui torcendo por ele, comemorando com orgulho quando ele faz um gol — de trivela, ela acha — e apoiando seu amigo.
O Bakugou lhe dirá que isso foi um final neutro, e ela terá que discordar, mesmo que não diga na cara dele.
Foi um ótimo final, o melhor possível.
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