Tudo o que está em jogo
14 No campo de futebol
Ela se senta na arquibancada e o observa secar o suor do rosto com uma toalha. Provavelmente não é proposital por parte dele, mas… é algo que a distrai um pouco. Mas que coisa! Ochako nunca viu o Kirishima original dessa forma, será que é porque ele emana uma energia um tanto diferente da desse aqui?
É, com certeza. O Kirishima verdadeiro é mais… ele parece alguém que poderia ser da família dela, tipo um primo ou mesmo um irmão mais velho. Ela já foi dupla dele em alguns exercícios em sala de aula, tanto práticos quanto teóricos, e jamais teve qualquer sensação estranha em ficar perto dele, mesmo quando os exercícios físicos requeriam certo contato, ela nunca ficou constrangida com uma mão na parte mais baixa de suas costas ou ter que segurá-lo pelos quadris enquanto ativava sua Gravidade Zero e ele o Endurecimento, criando assim um combo com alto poder de destruição. Vai ver é porque os dois são muito semelhantes nesse ponto: quando envolvidos em algo que os faz mostrar tudo do que são capazes, não há espaço para se acanhar com toques próximos demais, o Kirishima parece obstinado a provar que é capaz de muito mais do que imaginam tanto quanto ela.
Também pode ser porque o ruivo desse mundo tem uma pequena mania, e essa mania é flertar. Se ele faz porque acha divertido vê-la corar ou se porque realmente acha que vai conseguir algo com isso, é difícil dizer, o fato é que é muito difícil para ela conciliar a imagem do Kirishima original, com seu jeito fraternal e completamente desprovido de segundas intenções, com o desse Kirishima, o fato de eles serem idênticos em aparência, claro, não ajuda em nada.
— Eu… não devia ter gritado com você. — independente de tudo, é necessário que isso seja dito — Me desculpa.
— Acho que nunca te vi daquele jeito. — ele coça a nuca — Foi, hã… — e desvia o olhar, corando.
— Foi o quê?
— N-nada, só foi… eu fiquei meio empolgado, sei lá. Você brava foi… diferente.
Ela não entende o que ele está querendo dizer, o que importa é que contradiz o que aparece na tela do celular dela.
— Ei-kun, eu sei que te magoei. Tá tudo bem, pode falar.
— Você não me magoou, O-chan. É só que… vendo você daquele jeito dizendo que pode se virar sozinha, o jeito que você me segurou… por um minuto, parecia que… parecia que eu não te conhecia mais.
Oh não…
Oh não! Ele não pode nem sonhar que essa não é a “O-chan” que conhece mesmo, o garoto já está magoado, se descobrir que está diante de uma impostora, sendo tão protetor da garota que gosta tanto… e o que aconteceria se ele descobrisse que é tudo um jogo? Que nada disso é real?
— B-bom, eu… eu posso estar mudando um pouco, fiz… fiz novas amizades, a gente tá crescendo, então… talvez eu não seja a mesma O-chan que era quando a gente se conheceu — e aqui, ela acha a brecha perfeita para inserir um assunto sobre o qual está morrendo de curiosidade — ...ou a O-chan do acidente.
Ele arregala os olhos, como se não esperasse por isso.
— Eu espero que você nunca mais volte a ser a O-chan do acidente mesmo, eu… eu nunca mais quero que nada daquilo aconteça de novo. — ele diz decididamente — Você… achei que você preferia não falar mais sobre isso.
— Bom, eu… não posso ficar fugindo do passado pra sempre. — é uma fala muito, mas muito brega. Porém quando dita em voz alta, Ochako percebe que se aplica perfeitamente à situação dela. Não dá para avançar nessa rota se ela não souber exatamente o que aconteceu, e como o acidente influenciou na relação da protagonista com esse personagem. Ela precisa conhecer um passado que pode até não ser seu, mas deveria considerar como se fosse. Pensando cuidadosamente em como fazê-lo falar sem dar na cara de que não faz ideia do que aconteceu, Ochako fica séria ao olhá-lo diretamente — Você sabe que eu não te culpo, né?
— Mas eu sim, O-chan. Sua mãe tava contando comigo pra ficar de olho em você, mas… eu era otário, você lembra — não, não lembra — fui na do Bakugou e… quase não pulei a tempo naquela lagoa.
Ok, calma. Ele realmente deu muita informação em uma única frase. O acidente foi um afogamento, ok. O Kirishima estava vigiando-a a pedido da mãe dela — porque aparentemente essa garota não pode ficar um minuto sozinha sem que algo que a faça correr risco de morte aconteça, e nem a própria mãe confia nela para se cuidar — e o… Bakugou? Ele foi na do Bakugou? Foi pra onde?
— Não tinha como você prever que algo aconteceria… e o Bakugou-kun-
— O Bakugou é um imbecil! Ele tinha inveja de eu ter uma amiga menina. — ele afirma como quem não permite qualquer discussão — E se é pra gente ser sincero, eu não gostei de te ver conversando com ele, O-chan.
Ah… então a intimidade não está baixa por conta da gritaria dela, na verdade, o problema não chega nem a ser ela, é o… Bakugou? Então eles… eles já foram amigos? Ou… em algum momento, o Kirishima não odiava o loiro com tanta intensidade, pelo menos.
— Ei-kun, nós estamos no clube de teatro, vez ou outra eu vou ter que conversar com ele, mesmo que nem queira muito às vezes também. — ela diz com certa sinceridade, ainda meio magoada com o loiro pelo lance de ontem.
— Ele… ele não presta, O-chan.
— Você… você vai ter que confiar em mim, sabe? — ela limpa a garganta, percebendo que não vai conseguir arrancar mais sobre o tal acidente agora, mas ok, Ochako já tem pistas — Você pode confiar em mim, por favor?
Ele cora, chegando até a amassar a latinha de suco na forma como parece ficar surpreso com o pedido dela.
— Eu… só se você confiar em mim também.
— Claro. — é sincero, Ochako sabe que a preocupação dele é genuína e, observando sob a ótica dele, perfeitamente válida.
Não dá pra ganhar se ela não ceder um pouco. E talvez não seja tão ruim já que ele cedeu também. É assim que funciona numa amizade em que duas pessoas eventualmente discordam sobre algo e não chegam a uma conclusão definitiva.
É assim que ela se entende com o Kirishima original.
***
— Vou só trocar de sapato, Ei-kun! — ela informa, correndo para dentro do prédio da escola em direção ao armário de sapatos, Ochako de fato precisa trocá-los para poder ir embora, mas também é meio que um pretexto para olhar no celular com mais calma e checar se conseguiu melhorar a intimidade.
33%. Não tá tão perto dos 50% quanto estava antes, mas já é um progresso. Mesmo assim, Ochako ainda sente uma certa… decepção por tudo que disse a ele aparentemente não ter sido o grande catalisador dessa queda de intimidade. Isso quer dizer que… o que ela disse sobre poder se virar não surtiu efeito nenhum em como ele a enxerga? O papo do coiote ainda vai continuar? Será que…
Ao abrir seu armário, Ochako encontra algo além dos sapatos: um embrulho plástico com um… um pãozinho! Daqueles que ela planejava comprar hoje mais cedo!
Ela abre um sorriso, pensando se poderia ter sido a Tsu que deixou isso aqui, a garota aparentou uma certa preocupação com ela naquela hora. Será que… oh, será que a Tsu é… “tsundere”, como o Bakugou explicou? Ela só finge que não se importa, mas na verdade está preocup-
Tem um bilhetinho colado na parte de trás do embrulho, Ochako nota quando vira o plástico:
“Só pra deixar bem claro: eu não ia olhar debaixo da sua saia mesmo. Sou melhor que isso.”
Ah, Bakugou.
A sensação inicial é de decepção, ela realmente queria que tivesse sido a Tsu. Depois Ochako sente um pouco de raiva, porque o que raios o Bakugou tá pensando? E então ela entende: é um pedido de desculpas. Ou o mais próximo que vai conseguir de um vindo dele.
Isso é… surpreendente por vários motivos, mas nem tanto, Ochako sabe que ele nunca olharia debaixo da saia dela mesmo. Mas ele usar quase as mesmas palavras que ela significa que sabe que a garota tem razão. Isso somado ao fato de que se deu ao trabalho de comprar um pãozinho — tentar ganhar o perdão dela com comida é uma tática extremamente inteligente — escrever um bilhete e guardar no armário dela. Claro que Ochako preferia um pedido de desculpas mais direto, feito pessoalmente e com a palavra “desculpa” sendo dita em voz alta, mas… isso é bom também.
Sem contar no que está implícito no resto da mensagem: Bakugou a respeita. Isso vem desde muito antes desse jogo, ele a respeita desde que Ochako se lembra de interagir diretamente com o loiro. E é isso que o difere completamente do vilão desse jogo, ou de qualquer outro vilão.
Ele a respeita.
***
— Vejo que você e o Kirishima-san voltaram a conversar. — a Yaomomo aponta na hora do almoço, servindo-se de seu bentô. Ochako não teve que enfrentar o frenesi da multidão comprando comida na cantina graças ao pãozinho que ganhou do Bakugou, o que colabora bastante no aumento de seu bom humor.
— É, a gente se entendeu. — em partes, mas pelo menos não está mais ignorando-o — Eu, hã… eu não imaginava que o acidente mexia tanto com ele… — Ochako joga verde, tentando descobrir mais sobre o que aconteceu, ela achou por bem não ficar cutucando o Kirishima para não ficar muito evidente o quanto não faz ideia de qual é a história, também porque parece ser um assunto que o magoa de verdade. Então o jeito é ir se esgueirando como pode, já que a outra parte envolvida na história, o Bakugou, deve ter tanta noção de qual é a desse personagem com o vilão quanto ela própria — Sabe, ele… continua tendo muita raiva do Bakugou-kun…
— Bom, o Bakugou-san também teve sua parcela de culpa, até onde eu sei.
— Ah… e… até onde seria? — ela se inclina para falar mais baixo — Até onde você sabe? É que eu… eu não lembro de muita coisa daquele dia, e… e o Ei-kun prefere não falar sobre isso, mas eu… eu realmente preciso saber.
— Isso está relacionado aos boatos sobre você ter sido vista com o Bakugou-san? — ela a olha por cima dos óculos — Você está inclinada a perdoá-lo?
— P-perdoar? Eu… — ela não sabe nem o que ele fez — N-não sei, eu só… queria mais explicações, às vezes parece que todo mundo sabe de um monte de coisas da minha vida que eu não sei. — tal qual a protagonista de um jogo — Seria bom ter um pouco de noção, só.
— Compreendo… bom, eu não sei de todos os detalhes, tudo aconteceu um pouco antes do período letivo começar ano passado, como você bem se lembra — não lembra, mas ok — Os problemas entre o Bakugou-san e o Kirishima-san já vinham desde o fundamental, creio eu que por conta dos times de futebol de colégios rivais, então houve aquele festival e o Bakugou-san incitou o Kirishima-san a competir em algo que não sei o que era, e… bom… creio que você sabe sobre o que aconteceu depois melhor do que eu.
Não exatamente, mas já é o suficiente para ligar os pontos. Os dois garotos cultivavam uma certa rivalidade em campo que acabou se estendendo para fora dele, e, de alguma maneira, o Kirishima a largou para competir com o Bakugou e ela se afogou em uma lagoa. Há algumas pontas soltas, mas já dá pra entender o básico.
Assim como o Deku, o Kirishima tem um problema pessoal com o vilão do jogo, que, sendo o vilão, realmente fez algo pra despertar todo esse ódio.
Enquanto isso, a protagonista, que é ela, é só vítima das circunstâncias. O Kirishima se culpa pelo acidente por ter optado dar atenção para o vilão, e tornou-se superprotetor de sua amiga e vizinha por conta disso. Ok, então ele não é zeloso sem motivo — quer dizer, Ochako acha que ele exagera, mas ela também não sabe qual foi a gravidade desse acidente, portanto fica difícil julgar — mas o Bakugou que o ruivo conhece não é o mesmo Bakugou que está aqui agora.
E mais importante, Ochako não é a menina inocente e atrapalhada que precisa ser protegida. Bom, ok… um pouco atrapalhada, sim…
Então o que fazer?
Por mais que não goste muito dessa opção pois parece que ela está cedendo em algo que não deveria, é necessário manter certa distância do Bakugou por enquanto, ele é seu “guru” no jogo e tal, mas é importante que eles não sejam vistos juntos por alguns dias, só pra despistar.
E agora ela precisa focar no Kirishima, mostrar a ele que está ao seu lado, que confia nele e que merece que o ruivo retribua a confiança.
— Sim, eu… eu lembro… — ela mente para a Yaoyorozu — o Ei-kun… é um bom amigo.
Sendo assim, Ochako precisa livrá-lo dessa culpa.
***
O caminho de volta pra casa é recheado com a voz sempre animada do garoto de dentes pontudos, mesmo com o estranhamento que eles tiveram recentemente, o Kirishima parece disposto a deixar aquilo pra trás e agir como vem agindo desde o primeiro dia nesse jogo. É reconfortante, de certo modo.
Mas é também um pouco enervante, pois Ochako quer dizer algo e simplesmente não consegue uma brecha em meio ao falatório dele sobre aulas, provas e o treino no futebol, todos os assuntos sendo mencionados com extrema paixão, ele é tipo o extremo oposto da Tsu desse mundo, que mantém um tom de voz estoico praticamente o tempo todo. Ah… ela sente tanta falta dos “ribbit” pontuando as frases de sua melhor amiga… ela sente falta de sua melhor amiga, ponto.
Aliás, é estranho como essa protagonista está majoritariamente cercada por garotos, a tendência é que se tenha mais proximidade com meninas, mas nesse mundo, Ochako só se vê às voltas com a Jirou e a Yaomomo de vez em quando, é até difícil dizer que são suas “melhores amigas”.
O melhor amigo dela é o Kirishima, ao que tudo indica, e até dá pra ver o porquê: a protagonista parece ser mais tímida, enquanto ele é extrovertido e alegre, pessoas assim costumam se atrair mesmo. E mesmo que tenha alguns problemas com certas atitudes do garoto, é facilmente entendível porque alguém gostaria de ser amigo dele.
E se eles são amigos, Ochako não deveria se sentir desconfortável em tomar a iniciativa.
— Ei-kun-
— O-chan, você vai fazer alguma coisa nesse fim de semana?
Oh… oh, isso é… será que ele vai chamá-la pra um encontro? Mas a barrinha de intimidade nem está tão alta, o garoto ainda deve estar preocupado por conta do Bakugou, ele não… não deve estar a fim, né?
— Hum… não. — mas em todo caso, ela está disponível.
— Opa! Então você topa sair no sábado?
Ah é… ele é bastante direto. Mesmo sendo o que ela esperava e até desejava ouvir dele, Ochako não contém o rubor lhe subindo pelas bochechas, um encontro… com o Kirishima? Isso nunca lhe passou pela cabeça, ela suspeita que nem o próprio Kirishima verdadeiro alguma vez em sua vida já pensou em sair num encontro, ele é tão dedicado a treinar e… ser másculo, é impossível vê-lo em um ambiente romântico com quem quer que seja, trazendo flores ou indo a um restaurante… só imaginar a faz querer rir.
Mas esse não é o Kirishima verdadeiro, então talvez ele seja, sim, capaz de conduzir um encontro de maneira extremamente confiante e até sedutora, o pensamento a deixa constrangida e curiosa em igual proporção.
— Ah, pode ser! — ela sorri.
— Legal! Eu chamei o Midoriya-kun também, mas ele falou que precisa estudar e tal. — ele chamou o Deku? Isso é… isso faz seu coração se encher de afeto, pois mostra que ruivo realmente tem consideração pela ideia dela de o Deku fazer mais amigos, mas também a faz pensar que, se é algo em que o garoto de cabelos verdes poderia ter se envolvido, então talvez não seja um encontro romântico…
É compreensível, já que em teoria eles não estão nesse nível, mas Ochako tinha um pouco de esperança que fosse algo nesse sentido, pois assim ela conseguiria elevar a intimidade mais rápido, e também porque… bom, a ideia de ele estar odiando-a não a agrada, é meio estranho estar se sentindo decepcionada por não ter esse garoto arrebatadoramente apaixonado por ela? Sim, muito. E ainda assim, é como a garota se sente.
— Que pena, mas… tenho certeza que vai ser divertido!
— Ah, vai sim! — ele concorda e sorri — Bom, então… tá marcado! No sábado depois do almoço, tenta não usar saia ou vestido, ok?
— Hum? — ela inclina a cabeça, surpresa com o pedido, mais surpresa ainda por ser um pedido e não uma ordem.
— É que… não me entenda mal, a gente vai fazer umas coisas que… é melhor você estar de shorts. — ele coça a cabeça e desvia o olhar, mas ainda é possível ver como lança um olhar furtivo para a saia dela.
— Ok… — ela concorda, agora meio desconfiada.
— Então tá! — ele ergue a voz, parece estar um tiquinho nervoso — Boa noite, O-chan.
E quando chega em casa e é recebida por sua mãe, Ochako chega a considerar questioná-la sobre o acidente a fim de saber mais, mas talvez não hoje, é melhor esperar pra ver o que acontece nesse encontro-não-encontro.
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