Tudo o que está em jogo
22 Na bicicleta
É possível se sentir desconfortável por outra pessoa? Porque é assim que Ochako se sente enquanto observa a Tsu conduzindo sua bicicleta junto desse grupinho que é um tanto improvável estar reunido assim, mesmo que a deixe bastante contente. O Deku e o Kirishima conversam animadamente, enquanto isso, ela anda junto da Yaomomo em silêncio, provavelmente a garota mais alta se sente no dever de manter uma conversa cordial com a Tsu, já que ambas são da mesma sala, mas… o máximo que aconteceu foi elas comentando sobre os deveres de casa, e depois o que se estabeleceu foi um incômodo silêncio, e mesmo que estejam todos andando juntos, é visível que a garota de cabelos verdes anda um pouco mais atrás, visivelmente deslocada desse grupo.
— Por que você começou a trabalhar na sorveteria? — mas surpreendentemente, é a própria Tsu que quebra o gelo, questionando-lhe diretamente.
— Ah bom… eu precisava de um dinheirinho extra, então… — ela mente — Lembrei que você comentou que o local tava com pouco pessoal, aí achei que seria uma boa oportunidade, é um lugar bom pra se trabalhar, né?
— Não é ruim.
— Uhum. Você tá lá há quanto tempo, Asui-san?
— Uns seis meses.
— Ah sim… e você gosta?
— Não é questão de gostar ou não, eu preciso trabalhar. — não soa tão ríspido, mas Ochako entende a dureza dessa situação.
— Entendo, teve uma vez que eu peguei um bico de verão de entregar folhetos de uma cat café. Eu tinha que ficar sorrindo, debaixo de um solzão, usando uma tiara com orelha de gatinhos, era bem vergonhoso, eu não gostava muito… mas tinha gente que me falava que devia ser o máximo trabalhar num lugar cheio de gatinhos fofinhos. — seria, se ela pudesse ficar no café com eles, mas não era essa a função da garota dos panfletos.
— Quê? Quando foi isso, O-chan? Não lembro de você já ter trabalhado antes. — o Kirishima interrompe sua conversa com o Deku.
Opa! Ela falou de algo sobre si mesma no mundo original, isso nunca aconteceu com a protagonista no jogo.
— Foi… foi bem rápido, eu não aguentei uma semana no trabalho. — a garota tenta contornar.
— Ahhh entendi. Poxa, que pena! Queria ter te visto com as orelhas de gatinho… — ela cora diante de um comentário tão atrevido.
— Você… haha, era bem ridículo! Aposto que só queria ver pra tirar sarro de mim! — Ochako desvia da cantada como pode.
— Hahaha, pode crer! Ia até tirar foto pra nunca te deixar esquecer! — ele retruca de maneira zombeteira, mas o fato de querer tirar foto dela com orelhinhas de gato tem implicações bastante sugestivas, e se não passaram despercebidas por ela, então também não passaram pelas outras duas garotas e talvez nem pelo Deku, que parece ser o mais inocente.
— Bom, que bom que você não viu, então. — ela responde, bem sem graça — Nosso uniforme na sorveteria é fofinho, né, Asui-san? — e tenta desesperadamente incluir a Tsu na conversa.
— É muito chamativo. — é o que ela se limita a responder, abraçando o próprio corpo.
— Pô, mas ficou legal em vocês. — o Kirishima comenta, e o rubor que sobe pelas bochechas da Tsu chega a ser muito bonitinho.
— Sim, eu também gosto! — o Deku concorda, sorrindo.
— Obrigada… — e a garota de cabelos verdes responde quase num sussurro. Ai, isso é tão… ela é tão… fofa! Nem parece a garota passiva agressiva acusando-a de estar manipulando o Kirishima ou algo assim aquele dia na biblioteca.
— Acho que nunca te vi assim fora da escola, Asui-senpai… — o Deku comenta — Você está em algum clube?
— No de tradições culturais, mas temos poucos membros.
— Ah sim… que pena.
— Não acho, não gosto de grupos grandes, então acho melhor.
— Eu também me sinto mais confortável em grupos menores. — a Yaomomo reflete — Eu gostaria de ter entrado no clube de tradições culturais, mas fui eleita vice-presidente e acabei perdendo a oportunidade, que lástima, não?
— Acho que sim. — a Tsu meio que dá de ombros — Por que estão sendo legais comigo? — e pergunta de repente.
— Perdão?
— Acho que além dela, nunca conversei com nenhum de vocês. — ela aponta vagamente para a Yaomomo — Por que estão tentando me incluir?
— Ah, porque… — Ochako quer responder, mas também não tem certeza porque seus amigos se mostraram tão receptivos à presença dela. Principalmente o Kirishima, que afirmou achar a garota “esquisita” e não demonstrou muito interesse em qualquer aproximação antes.
— Amiga da Ochako é nossa amiga também. — e é justamente ele quem dá a resposta como se fosse a coisa mais óbvia do mundo. Agora quem fica envergonhada é ela, pois isso é bastante… gentil por parte dele. Como fez com o Deku, ele abriu espaço por entender que é alguém que Ochako se importa.
Ai ai… isso é lindo, mas também a coloca numa situação complicada, pois um: mostra o quanto ele quer agradá-la e deixá-la feliz, dois: é algo tão perceptível que qualquer um notaria, inclusive a Tsu.
— Nós não somos amigas. — Ochako diz.
— Uraraka-san, isso é…
— Oh…
— Bom, é que eu…
— Mas eu queria que a gente fosse. — ela diz, olhando diretamente para a garota de olhos opacos — Um dia, quem sabe? — e dá de ombros também enquanto volta a andar, tentando mostrar que não está tentando pressioná-la em busca de uma resposta só porque elas estão na frente do Kirishima e de outras pessoas.
A escolha é toda da Tsu, no fim. Não dá pra impor seu poder de protagonista aqui, e Ochako nem quer.
***
O passeio no parque foi bem tranquilo, a Tsu continuou meio deslocada enquanto Ochako e a Yamomo procuravam um assunto que desse pra incluí-la, a garota de cabelos verdes não pareceu muito engajada, apenas respondeu monossilabicamente a tudo que elas ou os garotos perguntavam ou comentavam, mas… deu pra notar que ela não estava completamente desconfortável, chegando até a sorrir quando o Kirishima ofereceu um suco que comprou pra ela.
Ao voltar pra casa, a morena checou o celular e se deparou com ótimos 22% de intimidade, o que significa que está havendo um progresso, mesmo que ela não esteja nem perto de ajudar a Tsu a alcançar seu objetivo de conquistar o Kirishima. E, se é pra ser honesta consigo mesma, Ochako nem sabe se quer que isso aconteça…
Não é… não é ciúmes, ela saberia se fosse, talvez a garota esteja projetando demais as versões reais de seus dois colegas, e na cabeça dela, a Tsu e o Kirishima são incompatíveis, Ok, opostos podem se atrair, tipo a Yaomomo e a Kyoka desse mundo — e de certa forma, as do mundo original também — mas existem pessoas que são tão diferentes que simplesmente não combinam, e esses dois são assim, na visão dela. O que será que faz a Tsu se atrair por ele? Tá bom que o ruivo é bonito, gente boa, tem presença e certo magnetismo que poderiam ser irresistíveis, e… é ok, não é difícil de entender porque ela se atrairia por ele.
Mas… ainda assim, é tão esquisito! A Tsu de seu mundo é tão alheia a coisas assim, ela poderia muito bem ser alguém que nunca vai namorar por completa falta de vontade ou de interesse, mas também poderia ser alguém que, do nada, surgiria de mãos dadas com alguém e anunciaria, com sua expressão corriqueiramente neutra, que está namorando… só nunca seria com o Kirishima, e disso Ochako tem absoluta certeza, ela conhece a amiga bem o suficiente pra cravar isso de maneira resoluta.
Então é, ela está tendo um pouco de dificuldade de visualizar esse casal se formando, vai ver por isso não se sente tão inclinada a ajudar a fazer acontecer… é, deve ser isso.
— Posso perguntar quando você começou a gostar dele? — mas querendo ou não, ela precisa trabalhar nisso, então aqui está ela tentando entender a situação enquanto elas preparam os pedidos dos clientes.
— Você já perguntou, né? — ela retruca, mas nem soa irritado, é mais como se estivesse cansada — Foi na primeira semana, ele me ajudou a carregar alguns papéis até a sala dos professores. Foi… foi engraçado porque ele nem sabia onde era a sala dos professores. — ela parece querer segurar a risada.
— É bem a cara dele… — Ochako concorda, rindo levemente.
— Então meu anel prendeu no meu cabelo. — ela mostra o dedo, onde dá pra se ver um anel de sapinho, parecido com o que ela tem no pingente de celular — E ele me ajudou a tirar. É engraçado que um garoto como aquele pudesse ter gestos tão delicados. — a garota fala como se tivesse entrado em um mundo particular enquanto relembra dessa interação que realmente soa muito fofa, o tipo de coisa que talvez fizesse a Ochako do primeiro ano, mais impressionável e volátil, apaixonar-se também — Eu sei que é bobo e que ele nem deve se lembrar, mas… eu nunca esqueci.
É provável que ele não lembre mesmo, tanto que nem mencionou nada sobre isso quando falou dela, isso é… isso é triste, e Ochako sente certa pena. Não ser correspondida deve doer bastante.
— Não acho bobo. — é o máximo que ela pode responder.
— E você?
— Eu?
— Quando decidiu que não gostava dele?
— Ah… olha, eu gosto dele, ele é meu amigo, e eu-
— Você me entendeu. — ela a interrompe — Se você o rejeitou, é porque não gosta dele.
— Bom, sim… eu… eu não sei dizer ao certo, só… quando ele se declarou, eu percebi que realmente não era o que eu queria com ele. Somos amigos e… acho que ficamos melhor assim.
— Você nunca… nem pensou nele assim?
— Ah, eu… um pouco. — ela pensa em contar sobre o dia em que o viu só de cueca, mas… melhor não — Mas não é nada comparado em tê-lo como amigo. Você viu, né? Ele é um bom amigo.
— Sim, eu vi. — ela assente — Mesmo com você andando com aquele garoto Bakugou, que quase quebrou a perna dele-
— A história não é bem essa. — agora é ela que interrompe — Por favor, Asui-san, não fale com tanta certeza sobre o que você não sabe.
Isso parece pegá-la de surpresa.
— Você muda sempre que esse garoto é mencionado.
— O que isso quer dizer?
— Não sei, me diz você.
Esse assunto labiríntico lhe deixa levemente irritada, fazendo-a lembrar da discussão na biblioteca. Antes que possa advertir a garota que está passando dos limites mais uma vez, ela é interrompida pelo sininho que anuncia que alguém adentrou a sorveteria.
— E aí? Voltei.
— Kyoka-chan! Bem-vinda de volta — Ochako abre um enorme sorriso — Desculpa não poder te receber melhor, mas eu… — ela aponta para o uniforme e para o espaço em geral.
— Ah, tá tranquilo! Só passei pra dar oi e ver que o que a Yaomomo falou era verdade. Você tá trabalhando mesmo, hein?
— Será que eu fico ofendida por isso parecer uma surpresa tão grande?
— Talvez sim, nunca te imaginei trabalhando, pra ser sincera. — é impossível não notar a Tsu segurando um sorriso ao seu lado. Hum, então é assim? — Bom, só passei pra te ver, tô indo nessa, preciso ensaiar!
— Nossa, mas já? Você acabou de voltar da turnê, não?
— É sim, mas a gente tá pra lançar disco novo, tô indo mostrar uma demo de um negocinho que fiz, inclusive.
— Incrível! E você não tá nervosa?
— Um pouquinho, por isso passei aqui pra te dar um oi e me acalmar. — ela assume com a maior tranquilidade do mundo, e… uau, é que realmente não soou como um flerte nem nada, mas Ochako inveja o jeito descolado dessa garota — Eu queria ter chegado mais cedo pra dar uma enrolada aqui, mas preciso ir agora.
— Sim, por favor, não se atrase.
— Haha, não vou não, a gravadora é tipo, a uns dois quarteirões daqui. Eu chego rapidinho! — ela sorri — Bom, vou nessa! Até mais! — e se retira.
— Como vocês ficaram amigas? — a Tsu pergunta enquanto lava alguns copos no balcão.
— Oh… — e… Ochako não sabe! Como a protagonista poderia ter se tornado amiga dessa garota? — Eu… a gente tá na mesma classe, e ela sempre me ajudava quando um garoto me incomodava. — ela se lembra da primeira vez em que interagiu com essa personagem, quando a Kyoka lhe salvou de um inconveniente e insistente Monoma… se não foi assim que elas viraram amigas, é pelo menos como Ochako acha que deveria ter sido.
— Entendi. — é o que ela se limita a comentar. A morena imagina que ela esteja lhe julgando internamente, pensando como pode alguém estar sempre dependendo de outros pra tirá-la de enrascadas, e… é, ok, talvez Ochako já esteja um pouco paranoica por conta do jeito estoico da garota.
Melhor voltar a trabalhar e não deixar seu cérebro se sobrecarregar com cada mínima interação que tem com ela. E é exatamente o que a protagonista desse jogo faz, anotando, preparando e levando pedidos pelo tempo que ainda tem no expediente. Essa rotina de ter um trabalho de meio período está sendo ótima, pois Ochako sente que seu dia está sendo bem mais produtivo do que apenas ficar na escola de manhã, no clube de teatro à tarde, e qualquer outra loucura que acontece nesse jogo durante ou depois disso.
A ideia do emprego lhe pareceu arriscada, e ela já imaginava que o Todoroki a repreenderia, mas não, ele foi compreensivo e pediu para que ela não deixasse de estudar suas falas — o que Ochako vem fazendo — e, no fim, engajar-se nessas atividades faz com que a garota sinta que tem um propósito maior do que só conquistar rapazes. É quase como ter sua vida normal, só que sem os treinos com a individualidade e todas as aventuras que apenas se pode ter no curso de heróis. E sim, ela morre de saudades disso, mas… ter uma vida de uma estudante colegial como se vê nesses jogos ou em mangás de romance é… é legal também. Os problemas parecem mais palpáveis, e é legal não se preocupar com um vilão maluco destruindo a cidade só de vez em quando.
Mas… não é como se não houvesse problemas aqui…
— Mocinha, eu achei isso aqui caído lá fora. — um NPC se aproxima e lhe entrega um pequeno objeto roxinho, e quando Ochako o pega e o vira, encontra o nome da Kyoka escrito com o que parece ser esmalte. É um pendrive.
— Oh… obrigada! — ela continua olhando-o curiosamente e se aproxima do balcão.
— O que é isso? — a Tsu pergunta.
— Ah, é um pendrive, acho que a Kyoka-chan deixou cair quando estava aqui, amanhã eu entrego pra ela.
— Mas ela precisa disso aí agora, não?
— Hum?
— Ela não disse que ia apresentar uma música para a gravadora? Deve estar nesse pendrive.
— Oh… — ela agora segura o objeto como se possuísse algum poder mágico — Oh! Mas se a música estiver aqui, então ela não vai conseguir mostrar!
— Pois é.
— M-mas… mas então… ah, eu vou ligar pra ela! — Ochako puxa seu celular, mas a Kyoka não atende, ela manda uma mensagem, mas o sinal de visualizado nem aparece. Celular maldito que só funciona quando é importante pro entedo do jogo! — Ah não… e agora?
— Fique calma, nosso expediente já está acabando. Você pode levar para ela.
— Sim, mas eu... eu não sei se vai dar tempo… — ela disse que ficava a dois quarteirões, pode não ser muito, mas pode não dar tempo também — Você me empresta sua bicicleta?
— O quê?
— Sua bicicleta, você me-
— Eu te ouvi.
— Então você empresta? — Ochako se aproxima, fazendo sua melhor cara pidoncha. Costuma funcionar com a Tsu verdadeira quando quer um gole do suco dela. Com essa Tsu… bom, não dá pra saber, ela só vira o rosto.
— Você sabe andar de bicicleta?
— Sei, sim! — já faz um bom tempo que ela não anda, mas dizem por aí que é algo que nunca se esquece, né?
Bom, é mentira. Assim que elas são liberadas do expediente e vão até lá fora, Ochako tenta se equilibrar na bicicleta e só faz passar vergonha. A Tsu assiste a tudo com atenção e com o que parece ser um pouco de perplexidade.
— Você não sabe andar de bicicleta! — bom, isso tá bastante claro mesmo… Ochako olha pra ela em desespero enquanto segura o pendrive, ganhando um breve suspiro da garota de cabelos verdes, que coloca seu capacete e sobe na bicicleta — Vamos, então.
— O quê?
— Não sei se vão me receber nessa gravadora já que eu nem conheço a Jirou-san direito, então você precisa vir junto. Vamos logo.
Ela tem mil perguntas sobre essa gentileza repentina da garota, mas… realmente está com pressa, então apenas assente e sobe na garupa da bicicleta esverdeada.
— Muito obrigada, Asui-san, eu nem sei como-
— Você não está de capacete, então tente ficar quieta e- — ela para de falar quando Ochako a agarra pela cintura, segurando-se firmemente. Vai protegê-la caso algo de ruim aconteça? Não. Mas se lhe passa uma sensação de segurança? Com certeza! — C-certo… vamos.
E assim elas avançam pelas ruas em uma velocidade moderada, mas bem mais rápido do que Ochako conseguiria se tivesse apenas saído correndo, os cabelos da garota batem em seu rosto devido ao vento, e o cheiro de eucalipto é extremamente real, já que é idêntico ao da Tsu original. Ela está com tanta saudade da amiga, de como se sente em paz perto dela, de como sabe que pode dizer qualquer coisa, até as que a fazem soar não muito gentil, e tudo que receberá em troca é compreensão, porque é assim que a Tsu é, trata-lhe com honestidade, maturidade e um respeito diferente, como se a entendesse em sua natureza mais profunda.
— Você é uma pessoa muito legal, Asui-san.
— H-hã?
— Por me ajudar mesmo me odiando. Obrigada.
— Eu… eu não odeio você. Ódio é uma palavra muito forte, e eu não a usaria com você. — bom, isso tanto soa afetuoso quanto indiferente, e Ochako não sabe bem o que pensar — Além do mais, não tenho nada contra a Jirou-san, mesmo que a ache um pouco grossa às vezes, não tenho porque não ajudar.
— Você sabe que também não é a pessoa mais educada, né?
— Ora, mas eu… humpf. — ela faz um barulhinho engraçado de resignação — Você também não é muito gentil.
— Acho que não, hahaha. De todas nós, acho que só a Yaomomo é a mais civilizada… bom, só até a Kyoka-chan começar a provocá-la, aí ela perde a linha um pouco também.
— Ah. — ela faz uma curva, fazendo com que Ochako agarre-a ainda mais firme — Então elas não se gostam muito?
— Hã? Não, muito pelo contrário! Elas se adoram! Elas… você pode guardar segredo? Eu acho que elas se gostam.
— Ué, se elas são amigas, então devem se gostar.
— Não, você não entendeu! Elas… se gostam… tipo… como você gosta do Ei-kun.
— Ah, e como você do Bakugou?
— QUÊ? — ela quase cai da bicicleta, recebendo um olhar gélido por cima do ombro em retaliação — N-não! Q-quer dizer, eu não gosto do Bakugou-kun, eu não! Mas a Kyoka-chan e a Yaomomo, elas… elas sim se gostam! — Ochako sente seu rosto ferver, tentando imaginar de onde a garota poderia ter tirado isso.
— Mas elas… são garotas.
— Hã… são sim.
— Então elas não se gostam desse jeito.
— Ué, por que não?
— Porque são garotas, as duas.
— Sim. — Ochako acena com a cabeça levemente — E o que é que tem?
— Garotas não podem gostar de garotas… desse jeito.
— Lógico que podem, Asui-san! — a morena fica espantada com um comentário tão preconceituoso, pois é algo incabível para alguém como a Tsu… mesmo que ela não seja a verdadeira Tsu, ainda é um comentário incabível! Claro que duas garotas podem se gostar!
— Podem?
— Ué, lógico que podem! Por que não poderiam?
— Não sei, eu só… nunca pensei nisso. — ela dá de ombros, e parece uma resposta muito sincera, como se ela realmente jamais tivesse pensado nisso, não que seja contrária à ideia, ela só… não tem esse conhecimento.
Porque é a personagem de um jogo de namoro heterossexual, a programação desse universo é achar que garotas só podem ficar com garotos… que visão antiquada! Em que ano esse jogo foi criado? Deve ter essa informação no encarte, Ochako vai dar uma olhada mais tarde…
Agora ela precisa se concentrar na sua missão de entregar o pendrive para a Kyoka, que passa correndo por elas na direção contrária e-
— Kyoka-chan! — a morena grita assim que vê a garota, ela para e se vira, correndo em direção a elas quando vê o pendrive roxinho que Ochako balança.
— Ah, não acredito que vocês- Muito obrigada!
— A gente veio o mais rápido que pôde, espero que dê tempo!
— Vai, sim, eu consegui uns minutinhos! Valeu mesmo, Ocha! — ela dá um sorriso sincero e aliviado — Você também, Asui.
— Não foi nada demais.
— Longe disso, vocês me salvaram! Nem sei como agradecer!
— Não se preocupe com isso! Você faria o mesmo por mim!
— Bom, isso com certeza. Por isso… já sei como retribuir! Vocês tão com tempo livre? — Ochako e Asui se entreolham e acenam com a cabeça, confusas e levemente desconfiadas — Legal, então entrem comigo!
— Na sua gravadora?! M-mas… mas…
— Nós não viemos com a intenção de atrapalhar.
— Sei disso, por isso vocês vão entrar e assistir nossa apresentação da demo, tem uns lanchinhos também. Bora lá!
— Ah, sério? — Ochako se encontra empolgada com a ideia, tanto por poder ver a amiga em seu nicho quanto pelos lanchinhos, verdade seja dita.
— Eu realmente não acho que-
— Vâmo logo, Asui! — a Kyoka não abre margem pra discordância, e as três se encaminham ao prédio da gravadora.
Com certeza não era o jeito que Ochako imaginava terminar esse dia, mas longe dela achar ruim.
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