Tudo o que ele sempre quis.
7 Sem ele não dá.
Notas iniciais
O filme era uma porcaria, León parecia estar adorando e quase nem piscava. Eu fazia de tudo. Olhava meu celular de 5 em 5 minutos, olhava minhas unhas, fuxicava minha bolsa e depois fazia tudo de novo. Até que aquilo começou a me irritar muito, e eu comecei ficar ansiosa demais, então eu disse a León que ia ao banheiro e sai dali. Fui para a área menos frequentada do shopping, onde ficavam umas pessoas bem esquisitinhas por sinal e me sentei ali.
–Hoje o dia foi bem divertido sabe Peter, eu me senti bem quando falei com os seus sócios. E adorei vir ao shopping com o León. Mas ele parece estar meio chateado comigo. –Eu disse. Tinha pegado esse costume de conversar com o Peter, ou melhor, conversar sozinha. Abri a minha bolsa e comecei a mexer no fundo dela, a procura de um dos meus meios de fugir da realidade. Achei um jogado no fundo da bolsa e o observei, eu que tinha jurado nunca pensar em usar aquilo, hoje me via louca se não usasse. Procurei depois um isqueiro e acendi o cigarro em minha mão, depois de aceso o levei até os lábios e dei uma tragada profunda sentindo a fumaça entrar e me acalmar.
–Com licença, pode me emprestar o seu isqueiro? –Uma menina me pediu. Ela era bem baixinha e tinha cabelos longos e pretos. Ela usava um casaco grande que praticamente a engolia tornando-a menor do que já era.
–Claro. –Eu disse e estendi o meu isqueiro a ela.
–Muito obrigada. A propósito meu nome é Mariana. –Ela disse.
–O meu é Violetta. –Eu disse.
–Pode me chamar de Lali. –Ela disse e se sentou ao meu lado.
–Pode me chamar de Vilu. Quantos anos tem?- Perguntei.
–Tenho 22. E você? –Ela perguntou.
–Tenho 23. Quer dar uma volta? –Eu perguntei.
–Pode ser. Por que você fuma? –Eu perguntei.
–Precisa ter motivo? –Ela perguntou.
–Bom, pelo menos eu tenho. –Eu disse.
–Bom, eu me sinto mais calma quando fumo. –Ela disse soltando a fumaça pelo nariz.
–É nisso eu concordo. –Eu disse.
–E bom, eu tenho alguns problemas bem grandes, e parece que eu encontrei conforto nisso. –Ela disse apontando para o cigarro em sua mão.
–Bom, eu comecei a fumar há pouco tempo. –Eu disse.
–Você deve ter problemas. –Ela disse me observando.
–Sim, eu tenho muitos deles. –Eu disse.
–Então não se sinta culpada por estar fazendo isso. –Ela disse e tragou o seu cigarro.
–Você tem algo misterioso no olhar sabia? Como se escondesse algo. –Eu disse.
–Eu escondo muitas coisas. Aprendi a guardar tudo para mim depois do meu último relacionamento. – Ela disse.
–Bom, não quero me meter. –Eu disse.
–Não está. Mas se não se importa eu gostaria de não falar sobre isso agora. –Ela disse.
–Tudo bem. –Respondi e voltamos a caminhar silenciosamente pelo shopping.
Demos quase duas voltas completas, e pela primeira vez não me senti desesperada por ter passado tanto tempo longe de León, meu coração às vezes batia um pouco descompassado, mas Lali era uma ótima distração. Quando percebi havia se passado uma hora que eu tinha deixado León dentro do cinema, ele devia estar desesperado, ainda mais depois do que aconteceu mais cedo.
–Lali, eu preciso encontrar o meu amigo. –Eu disse.
–Liga para ele. –Ela respondeu.
–Pode ser. –Eu disse e peguei o telefone discando o número de León, mas só dava caixa postal.
–Então? –Lali perguntou.
–Então que está dando caixa postal. –Eu disse bufando.
–Onde ele estava? –Ela perguntou.
–No cinema. –Respondi.
–Então vamos até lá, de repente ele está te esperando. –Ela disse e saiu caminhando em direção ao cinema, o que eu fiz foi segui-la.
Em frente ao cinema tinham muitas pessoas, todas muito eufóricas comentando animadamente sobre o filme que tinham acabado de assistir. Eu olhava atenciosamente para ver se via León até que sinto uma mão forte agarrar em meu braço.
–Quer me matar? –Ele disse me puxando para um abraço.
–Desculpa, é que eu sai e encontrei com a Lali. –Eu disse e apontei para a menina que estava parada em nossa frente.
–Tudo bem? –Ele disse cumprimentando ela.
–Tudo. –Ela disse sorrindo.
–Pensei que tinha te acontecido alguma coisa. –Ele disse e me apertou mais ainda.
–Eu estou bem. –Eu disse e ele me soltou e me olhou nos olhos.
–Tudo bem. –Ele disse e me deu um beijo na testa.
–Gente, eu vou indo. –Lali disse.
–Mas já Lali? –Eu disse.
–Tenho muitos problemas para resolver ainda. –Ela disse.
–Bom, não deixe de me ligar. –Eu disse, nós tínhamos trocado telefone.
–Tudo bem, eu ligo sim. –Ela disse e deu um tchauzinho para León e depois se foi.
–Onde a conheceu? –Ele perguntou.
–Aqui no shopping mesmo. –Eu disse.
–Onde? –Ele perguntou.
–No banheiro. –Respondi.
–Tudo bem. –Ele respondeu meio desconfiado. Isso mesmo, León não sabia que eu fumava, quer dizer ele desconfiava já que o cheiro que ficava na minha roupa era bem forte, mas nunca tinha visto e todas as vezes que ele me perguntou eu neguei, e como ele não tinha provas ele deixava passar.
–Vamos comer alguma coisa? –Perguntei.
–Vamos sim. –Ele disse e começamos a andar em direção a praça de alimentação. Ele andava do meu lado, mas não pegou a minha mão, e aquilo me agoniou, minha vontade era pegar a mão dele e entrelaçar a minha, mas não tinha coragem. Nunca tinha.
–Como foi o filme? –Perguntei.
–Muito bom. Pena que você se mandou. –Ele disse rindo.
–Do que está rindo? –Perguntei.
–Você ficou com medinho. Por isso deu no pé. –Ele disse gargalhando.
–Claro que não León. –Eu disse e me deixei rir também.
–Sim, garanto que vai ficar cheia de medinho de dormir sozinha hoje. –Ele disse.
–Que pena de mim. –Eu disse.
–Minha cama é sua cama gata. –Ele disse e riu.
–Que cantada barata León. –Eu disse.
–Eu sei, tenho que melhorar. –Ele disse e nossa comida chegou. Comemos em meio a gargalhadas e piadinhas sem graça de León.
–Vou ao banheiro, pode olhar minha bolsa? –Eu disse.
–Tudo bem. –Ele disse e eu fui. Depois de usar o banheiro parei de frente para o espelho, eu estava com uma aparência melhor, as olheiras tinham diminuído bastante e eu parecia um pouco mais viva. Retoquei o brilho dos meus lábios e voltei para a praça de alimentação. Encontrei León me encarando com um olhar decepcionado minha bolsa estava do lado dele e ele tinha um dos meus cigarros na mão.
–León eu... –Eu podia explicar, ou pelo menos tentar de milhões de maneiras, mas nada do que eu dissesse iria me justificar.
–Você disse que não usava isso. –Ele disse.
–Me perdoa. –Eu disse.
–Eu? Quem está destruindo sua vida é você mesmo. –Ele disse e se levantou, colocou minha bolsa em cima da mesa e pegou alguns cigarros que estavam no banco e jogou todos no lixo.
–Você jogou todos? –Eu perguntei.
–Sim, todos. Você está virando dependente dessa porcaria. –Ele disse.
–Claro que não. Eu só fumo quando estou ansiosa. –Eu disse séria.
–E me diz, quando você não está ansiosa? –Ele perguntou.
–León olha, eu não quero discutir com você. –Eu disse.
–Eu muito menos. –Ele disse e começou a caminhar para longe de mim.
–Aonde vai? –Comecei a segui-lo, não iria correr o risco de ficar como eu fiquei mais cedo.
–Embora. –Ele respondeu.
–E vai me deixar aqui? –Perguntei séria.
–Você está vindo atrás de mim, é só entrar no carro. –Ele disse. Aquilo me fez queimar por dentro, algo como raiva misturada com o medo de ser deixada de lado por ele, mas a raiva era bem maior. Apenas parei de caminhar e observei ele se afastar. As sensações de mais cedo voltaram, mas dessa vez eu tive o cuidado de não prender minha respiração, virei na direção contrária de León e forcei meus pés a se afastarem, eu não poderia viver dependente dele para sempre, e já estava na hora de acabar. Eu não sabia para onde estava indo, menos ainda o que iria fazer, só sei que andava rápido e sem tempo para pensar. Era como se o meu coração estivesse batendo no meu ouvido, eu ouvia ele tão perto que me agoniava. Eu só queria voltar a uns dias atrás e nunca ter começado a fumar, eu odiava decepcionar o León. Parei em frente a uma loja de roupas, eu tinha andado muito e sequer tinha percebido, entrei na loja e comecei a olhar as roupas como se fosse à coisa mais interessante do mundo, eu precisava me distrair. No fundo eu esperava que León voltasse e me levasse para o carro, mas pelo tempo que havia passado ele não faria isso. Quase uma hora se passou e então eu saí do shopping, já tinha dado mil voltas por ali e me distraído, embora eu estivesse agoniada por dentro por estar sozinha em um lugar pela primeira vez depois de tudo o que aconteceu. Eu parei no meio da rua e observei as pessoas, todas mergulhadas em seus problemas, eu nem de longe poderia imaginar o que passava na cabeça de cada um, mas de alguma forma, por menor que fosse o problema doía em cada um deles. Decidi que voltaria caminhando, eu não tinha nada a perder afinal, estava começando a escurecer ainda e o tempo estava frio, eu poderia me aquecer enquanto andava, ou então esfriar de vez, o que na verdade seria até bom, esfriar todas aquelas dores que me consumiam e que me faziam pensar coisas tão ridículas, esfriar todos os sentimentos que eu possuía, eu desejaria não sentir mais nada. Nunca mais. No meio do caminho começou a chover, que novidade não, o que eu poderia esperar de Londres. Por mais chuvosa que fosse eu amava a minha cidade, e todo o frio que continha nela, eu amava o frio, ele aquecia os corações, e as palavras também, claro que no meu caso era o contrário. Ele esfriava minha mente e tudo o que eu tinha a dizer. Cheguei em casa encharcada e tremendo, mas foi uma bela caminhada.
–Por que você não pegou um taxi? –León perguntou quando me viu entrando em casa encharcada.
–Quis vir caminhando. –Eu disse fria, no fundo eu tinha me chateado por ele ter me deixado lá, tudo bem eu estava errada, mas ele não podia ter me deixado lá.
–Está encharcada, vai acabar ficando doente. –Ele disse se aproximando.
–Eu posso me cuidar sozinha. –Eu disse e tentei parecer firme, mas com ele tudo era mais difícil, devia ser aqueles malditos olhos verdes, que me liam por completo e me decifravam sem dificuldades.
–Para de ser orgulhosa. –Ele disse.
–Eu já disse que me viro sozinha. –Eu disse e passei ao lado dele, quando eu estava quase chegando até as escadas ele segurou o meu braço.
–Me desculpe por ter te deixado lá, eu estava confuso. –Ele disse.
–Sem problemas. Agora me solta. –Eu disse, é claro que tinham problemas.
–Você não está falando sério. Está mentindo, está com raiva de mim. –Ele disse.
–E o que esperava? Você me deixou sozinha lá, mesmo depois do que aconteceu hoje. E se eu tivesse tido outra crise daquelas? –Eu disse.
–Eu não pensei nisso, eu estava confuso Violetta. Descobrir que você está fumando me arrebentou por dentro. –Ele disse.
–León olha, eu vou subir e vou tomar o meu banho, não quero brigar. –Eu disse e ele soltou o meu braço e eu subi. Tomei meu banho e depois corri para debaixo das cobertas, estava com um frio desesperador e quase incontrolável. Me cobri e me encolhi da melhor forma possível e nem isso passava o meu frio, escutei duas batidas e depois a porta se abriu.
–Eu te trouxe esse chocolate quente. –León disse.
–Obrigada. –Eu respondi me sentando na cama.
–Sua boca está roxa. –Ele disse e se sentou em minha frente me estendendo o chocolate.
–Acho que vou morrer de frio. –Eu disse segurando a xícara com as duas mãos tentando me esquentar.
–Bebe. –Ele disse e eu comecei a beber o chocolate, ele descia de uma maneira maravilhosa, pelo pouco que fosse me esquentou.
–Obrigada. –Eu disse. Ele se retirou do quarto sem dizer nada, tornei a me deitar e voltei q sentir frio, menos dessa vez, mas ainda sim frio. Ele voltou alguns minutos depois e me olhou, ficou parado como se me analisasse e depois foi até o meu armário, voltou com um par de meias na mão e tirou o meu cobertor, colocou delicadamente nos mês pés e depois tornou a me cobrir, depois se sentou do meu lado e logo depois se deitou levantando a coberta e entrando para debaixo dela também, o corpo dele estava quente e eu me arrepiei, ele passou um dos braços por minha cintura me puxando para perto.
–Você vai ficar bem. –Ele disse enroscando nossas pernas e entrelaçando nossas mãos.
–Eu vou congelar. –Eu disse.
–Eu não vou deixar. –Ele respondeu.
–Mas bem que o meu coração podia, assim eu nunca mais ia sentir nada. –Eu disse sentindo o sono chegar.
–Eu no vou deixar isso também. Eu vou curar o seu coração minha menina. –Ele disse. Palavras esquentam? Porque aquelas aqueceram o meu coração de forma inexplicável, eu ate podia responder alguma coisa, mas uma das mãos dele me fazia um carinho muito gostoso nas costas por debaixo de todos os meus casacos, o contato de sua mão quente com o meu corpo ainda gelado me arrepiou, e logo depois me esquentou, me fazendo desejar que se tudo fosse um sonho, eu pudesse dormir por toda a eternidade.
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