Tudo o que custou a elas
1 A rainha no trono
Ao acordar, Elizabeth sentiu as consequências de uma noite mal dormida. Seus olhos estavam um tanto avermelhados, suas costas doíam, o pescoço amanhecera tenso e, na mente, havia o pior daqueles infortúnios: a culpa pelo que viria no dia seguinte, a morte de sua prima.
Há duas décadas, Mary Stuart, rainha da Escócia, desembarcara na costa inglesa em busca de auxílio por parte de Elizabeth. Na época, a rainha Mary enfrentava grandes conflitos em seu país. Boa parte dos escoceses não a reconheciam como governante, preferindo seu meio-irmão, James. Ele, aproveitando-se da boa reputação que gozava entre o povo, começou a reunir partidários a fim de tomar o poder para si. Além disso, havia John Knox, um homem detestável que pregava abertamente contra mulheres no trono e, como fizera com Elizabeth anos atrás, destilara seu veneno contra Mary, alimentando o caos no território escocês. Por fim, somado a James e Knox, havia o terceiro problema de Mary, seu último marido, o Conde de Bothwell. A união dos dois se dera pouco tempo após o falecimento de Lorde Darnley, seu segundo esposo, o que levantara uma nuvem de suposições maldosas sobre a rainha e Bothwell terem planejado sua morte. Por todas essas razões, a prima de Elizabeth fora aprisionada e forçada a abdicar do trono em favor do filho. Assim, acuada em sua própria nação, ela conseguiu fugir num barco até a Inglaterra, sendo precedida por uma carta, na qual implorava a ajuda da prima.
A rainha se lembrava, ainda hoje, da comoção com que lera as palavras de Mary Stuart. Além de herdeiras naturais de seus respectivos países, elas compartilhavam as dores que sua posição — e, principalmente, seu sexo — causavam. Elizabeth, costumeiramente, enfrentava a resistência e o preconceito dos lordes em suas decisões. Desde criança, era perseguida por ser filha de Ana Bolena, lembrada por boa parte dos ingleses como uma prostituta. Ainda, a rainha contava com sua própria leva de perseguições. O papa a declarara ilegítima, corriam rumores de que ela seria um homem disfarçado, e sempre buscavam impor-lhe o casamento, sob a alegação de que a Inglaterra necessitava de um herdeiro. Elizabeth reconhecia isso, mas suspeitava que o desesperado desejo dos lordes por seu matrimônio era muito mais motivado pela perspectiva de terem um homem como governante, ainda que ocupasse a posição de consorte. De toda maneira, ela muito se identificou com Mary e permitiu que esta se refugiasse no país, primeiramente no Castelo de Carlisle e, depois, no Castelo de Bolton. Embora fosse de seu desejo encontrar-se com a prima, os lordes a aconselharam a evitar tal reunião, visto que Mary enfrentava acusações de assassinato do marido, não sendo conveniente uma aproximação das duas. Um pouco a contragosto, a inglesa concordou, mantendo-se afastada de Mary, que habitou, ao longo dos anos, diversos outros castelos, todos a uma boa distância do palácio da rainha.
Com o tempo, vendo que a governante escocesa estava em solo inglês, os católicos do país começaram a animar-se com a perspectiva de terem uma governante que partilhasse a fé de Roma, ao invés de uma protestante. Elizabeth viu, então, o entusiasmo católico crescer e transformar-se em conspiração. Assim, embora tivesse sido acolhida e fosse tratada com toda a dignidade que seu nascimento exigia, Mary Stuart aderira à conspiração em seu favor, o que despertou a fúria na rainha inglesa, que imediatamente ordenou sua prisão.
Elizabeth levantou-se e, perturbada pelas lembranças, fez correr as cortinas do quarto, na tentativa vã de que a luz do sol matinal levasse embora seus pensamentos sombrios. Sim, ela ficou furiosa com o procedimento de Mary, mas também sentiu medo. Seus lordes exigiram que a escocesa fosse morta, visto que havia participado de uma conspiração contra a rainha. Elizabeth discordara a princípio, mas sabia que, pela gravidade daquele erro, não havia outra resposta à Mary que não fosse a execução. Aquele era o motivo de sua dor. Ter que ordenar a morte da própria prima, condenar uma mulher à mão de um carrasco, não era algo que Elizabeth se sentia confortável em fazer. Ela já havia passado por algo semelhante com Lola Fleming, amiga e dama de companhia de Mary, anos atrás. O motivo da execução de Lola foi por ela ter atentado contra sua vida e, embora fosse uma razão válida para condená-la, Elizabeth não se sentira confortável em ordenar tal morte. Ainda hoje, eram frequentes os pesadelos em que se via perseguida pelo fantasma de Lola, que clamava pela vida e por mais tempo com seu filhinho. Agora, ela estava novamente na situação de permitir a execução de outra mulher, com o agravante de que, dessa vez, se tratava de uma parente e, o mais importante, de uma rainha.
Por meses, ela buscou adiar a assinatura no documento que permitia a morte de Mary Stuart, temendo por si própria. Se eu concordar em executar uma rainha, isso abre um precedente desonroso, ela refletia, e que consequências isso pode trazer para mim mesma, que partilho com minha prima o privilégio do nascimento? Se permito que matem a rainha dos escoceses, será que estarei algum dia segura como governante da Inglaterra, na qual boa parte dos súditos não se agrada de mim?
O fato é que, pressionada por tantos lados, ela não pôde adiar para sempre a sentença. E, assim, na semana anterior, em 1 de fevereiro do ano da graça de 1587, a rainha assinou a carta de execução de sua prima. No documento, a grafia de Elizabeth Regina não ostentava a natural delicadeza. Pelo contrário, sua letra estava levemente tremida e, quando terminou, a rainha rapidamente dispensou criados e membros do conselho, a fim de derramar suas lágrimas em isolamento e implorar ao Senhor que lhe perdoasse o pecado.
Ao longo da semana, Elizabeth não se sentiu menos culpada do que no dia da assinatura. Ela comia pouco, dormia mal e, nas reuniões do conselho, era-lhe difícil manter a pose enquanto concordava ou discordava dos assuntos de interesse. A futura execução de Mary era um pensamento que lhe assaltava a mente com frequência. Será que ela já sabia? Como seria viver sabendo que a morte estava próxima, com data marcada? Se eu ao menos pudesse lhe pedir perdão, explicar que não era meu desejo vê-la partir deste mundo...
Então, Elizabeth teve uma ideia. Em todos os vinte anos que Mary Stuart habitava a Inglaterra, ambas jamais haviam se encontrado. A única interação entre as duas era por meio de mensageiros e cartas. Estas últimas permitiam a Elizabeth conhecer um pouco mais a prima, mas, ainda assim, o teor dos documentos tinha muito da aura que envolviam os grandes da terra, aqueles que governavam e, principalmente, simbolizavam uma nação. Elizabeth, por anos, trocou cartas com Mary Stuart, a rainha dos escoceses. Mas agora, era preciso conhecê-la pessoalmente. Antes da execução, era necessário à inglesa se encontrar não com a governante exilada, a rainha sem reino, a católica conspiradora. Ela desejava conversar com a verdadeira Mary, a mãe que não via o filho desde que era um bebê, a prima que só conhecia por pinturas, enfim, a mulher que, assim como ela própria, lutava para garantir seu lugar num mundo dominado por homens.
Entretanto, sua visita deveria ser completamente sigilosa. Os conselheiros reais jamais poderiam saber que Elizabeth havia se encontrado em segredo com Mary, pois isso incentivaria rumores de que a rainha estaria sendo fraca ou mesmo complacente com uma rival. Na noite daquele mesmo dia, ela confidenciou seu desejo à Anne, sua dama mais fiel e, juntas, arquitetaram um plano para que Elizabeth pudesse, enfim, encontrar-se com sua prima.
Assim, na noite do dia 7 de fevereiro, véspera da execução de Mary Stuart, Elizabeth Tudor caminhou silenciosa pelos corredores, envolta numa capa cinzenta, escondendo-se de seus próprios guardas, tendo Anne como guia em passagens secretas por trás de quadros e prateleiras falsas. Quando saiu do palácio, entrou depressa numa pequena carruagem que a esperava e rumou para o Castelo de Fotheringhay, onde sua prima era cativa e aguardava a morte certa tão logo raiasse o dia.
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