Tudo o que custou a elas
2 A rainha na prisão
Pouco antes do jantar, Mary recebeu a terrível notícia de que seria executada na manhã seguinte. A mensagem foi transmitida por um dos guardas que ficavam na porta de sua cela e, a princípio, ela não acreditou no que tinha escutado. Pensando que seus ouvidos a haviam traído, pediu ao guarda que lhe repetisse o anúncio, mas, para sua incredulidade e temor, a audição não falhara. Seria morta na próxima manhã, como informava a carta de execução assinada por sua prima no dia anterior. Após receber a notícia, Mary pediu para ficar sozinha e recusou-se a comer qualquer refeição que lhe servissem. A perspectiva da morte havia se instalado firme em seu peito, e era-lhe impossível pensar em outra coisa que não o triste destino que a aguardava.
Como Elizabeth pôde estar de acordo com isso?, ela se questionou. Há vinte anos, ela fugira da Escócia, seu próprio país que não soube lhe acolher, e rumou para a Inglaterra, em busca do auxílio da prima. Naquele tempo, cansada de sofrimentos, difamada por John Knox, traída por seu irmão James e forçada a abdicar do trono, Mary viu em Elizabeth, uma mulher reinante e, portanto, sua igual, alguém que poderia ajudá-la. Era verdade que ambas tiveram suas desavenças no passado, mas Mary refletiu em seu íntimo e percebeu que não era sensato manter-se como inimiga de sua prima. Elas partilhavam o sangue e a posição de mulheres e governantes. Além disso, e embora lhe doesse admitir, Elizabeth era a única das duas que ainda ocupava um trono, sendo sua melhor saída se quisesse algum tipo de ajuda e refúgio. Por isso, ela desembarcou anos atrás na Inglaterra, e por um tempo foi bem recebida pela prima que, embora nunca tivesse visto e apesar dos conflitos de outrora, mantinha um tom cordial e compreensivo nas cartas que trocavam. E, ainda que pairasse sobre Mary a acusação do assassinato de Darnley, talvez as coisas pudessem ter sido diferentes. Quem sabe Elizabeth teria intercedido por mim, pensava, e se fosse inocentada, talvez um dia conseguiria reaver meu lugar de direito como rainha da Escócia. Em seu coração, no entanto, Mary sabia que aquelas eram esperanças vãs. Ainda que Elizabeth acreditasse que Mary não era culpada, não ousaria entrar no conflito, para que sua própria imagem não fosse manchada. E a Escócia, a pequena e querida Escócia, jamais seria sua novamente. Seu meio-irmão soube tirar proveito da popularidade que gozava entre o povo e Knox espalhara com afinco seus ideais contrários às mulheres, de modo que Mary sabia que não poderia mais pisar em sua terra natal. Aquele era mais um de seus sonhos perdidos, como o futuro ao lado de Francis ou ver James, seu filho, crescer.
O erro de Mary havia sido participar da Conspiração de Babington, na qual ingleses católicos desejaram depor Elizabeth e proclamá-la rainha da Inglaterra. Ao ter notícia de que tinha partidários pelo reino de sua prima, Mary aspirou a uma vida de total liberdade, a um novo trono para chamar de seu, e isso acabou selando o duro destino que a esperava na manhã seguinte. Se não tivesse sonhado tão alto, ela lamentava, com os olhos fixos no chão de sua cela, eu poderia viver. Seria uma prisioneira, sim, mas ao menos ainda gozaria da maior das bênçãos de Deus, a vida. Agora, nada tenho senão a certeza de que, a essa hora no dia que se aproxima, não passarei de uma recordação.
Nesse momento, Mary se lembrou de uma amiga querida que há muito tempo deixara o mundo. Lola, sua fiel dama de companhia, que assim como ela havia atentado contra Elizabeth, fora executada naquele mesmo castelo. Ela se lembrou de uma carta que a amiga lhe escrevera, na noite anterior à sua morte e, naquele momento, não conseguiu conter as lágrimas. Na carta, Lola lhe confidenciara seus medos e lembranças, e muitas cenas do passado invadiram os pensamentos de Mary. Ela se viu de novo como a jovem feliz que era quando chegou na França. Viu-se cercada de suas amigas, Aylee, Lola, Kenna e Greer. Por mais uma vez, estava ao lado de seu amado Francis, e recordou tudo o que passaram juntos: as dificuldades, as alegrias, os momentos de amor, as danças, a última vez que o teve nos braços… Lembrou-se da França e de Catherine, da Escócia e de David Rizzio, de Bothwell e, por fim, de James. Na última vez que o vira, ele era um pequeno bebê que herdara seus olhos e sorriso. Agora já estaria um homem, e Mary se lamentava todos os dias por não ter acompanhado seu crescimento. Espero que ele não tenha puxado de mim a incapacidade para governar, e que seja um bom rei para a Escócia, Mary desejou, e as lágrimas correram quentes pelo seu rosto.
Depois de muito chorar, a rainha dos escoceses conseguiu erguer-se da cama. Já era noite alta e a cada minuto que passava, ela sentia o medo crescer dentro de si. Caminhou até a janela de sua cela e sentiu o toque suave da brisa, como o roçar de asas. Então, seu peito se encheu de uma estranha paz ao ver a lua cheia que brilhava acima das colinas distantes. Ela fitou o astro redondo e iluminado, semelhante a um grande olho na face do céu, o olho de Deus… Senhor, que sempre me acompanhou por toda a vida, ela rezou, dê-me a coragem que teve para encarar o encontro com a morte, e esteja ao meu lado quando minha alma se for deste mundo.
Após essa oração, Mary percebeu um ponto que se movia na estrada distante. Era difícil ver com exatidão, mas parecia a figura de uma carruagem. Devia ser algum comerciante fazendo uma viagem noturna, a rainha pensou, mas viu quando o veículo fez a curva para a estrada à esquerda, que levava até o castelo em que se encontrava. Mary tremeu. Seria já o carrasco, chegando para preparar o machado que lhe cortaria a cabeça? O coração de Mary disparou. Ela ainda não estava pronta. Precisava rezar, refletir, ganhar coragem para enfrentar as pessoas que a esperariam na manhã que se aproximava. Olhou da janela mais uma vez, a ponto de distinguir uma silhueta encapuzada entrar pelo portão. A cada minuto que passava, estava mais convencida de que era o carrasco, seu assassino, que havia chegado.
Passos ecoaram no corredor. A rainha, ao ouvi-los, ficou paralisada. Acreditando ser o carrasco, temeu que seria morta imediatamente. Mais uma traição, pensou, me matam na calada da noite, como uma ladra. Suas mãos tremeram, uma gota de suor escorreu por suas costas e, quando a maçaneta girou, Mary se esforçou para permanecer de pé, com o queixo erguido. Encararia a situação com a nobreza que estava em seu sangue. Poderia estar exilada, presa e cansada, mas ainda era uma rainha, por direito divino, e ninguém tiraria isso dela. As dobradiças rangeram, a figura de capuz cinza entrou e fechou a porta atrás de si. Mary sentiu o coração saltar no peito, num misto de medo e terror. No entanto, percebeu que aquela pessoa não portava armas. Ela levantou a capa, deixando os braços visíveis, e Mary notou que eram finos e estavam cobertos por um tecido de linho alaranjado. Não se tratava de um homem. A confirmação veio quando a figura tirou o capuz, revelando uma densa cabeleira ruiva e olhos azuis marejados.
— Você — disseram as duas em uníssono, cada qual impactada ao, enfim, estar frente a frente com sua prima, a outra rainha, sua rival.
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