Tudo me lembra você
1 único
Cheguei com muito medo na prisão. Já tinha ouvido histórias tenebrosas sobre uma no lado de fora e tinha a certeza que a experiência seria muito pior.
No primeiro dia fui isolada como se eu tivesse uma doença contagiosa. Lembro-me eu no canto da cela abraçando minhas pernas. A minha cela tinha paredes azuis, gostava de chamar de "caixa azul".
Você se aproximou de mim quando cuspiram na minha comida e ofereceu um pouco da sua. Seu sorriso malandro que levantava certa astúcia me fez desconfiar de você. Aquele lanche custaria caro.
Mas como no conto "Rita Hayworth and Shawshank Redemption" você contrabandiava na prisão. Cigarros, livros, batom, vibradores... Você trazia de tudo desde que não fosse algo perigoso o bastante para matar.
Eu pedi quadrinhos.
Na caixa azul eu lia os quadrinhos e você ficava ao lado fumando. Me estudando, me observando.
Percebeu que eu era retraída, guardava tudo dentro de mim e dizia "se tem que sentir, sinta".
Eu retrucava "até ódio?"
"Principalmente ódio."
E pegava na minha mão "corra para ver o céu e o sol."
O canto que me sentava já havia musgo e minha vitamina D estava em falta. Você até mesmo fez sua "mágica" e me arrumou remédios.
Mas sempre dizia "corra e voa."
Eu me arrependo de ter te achado uma ameaça na primeira vista, você queria só o bem de uma novata, porque, como veterena, você sabia a sensação de estar preso por muito tempo.
"Uma época senti muito remorso, ódio, raiva, tristeza e me vi sem saída. As 4 paredes surgiram e agora quero tomar café no pátio."
Eu disse "é difícil acreditar que você, com um espírito irreverente, esteja no mesmo lugar que estou."
Você deu aquele sorriso astuto depois de assoprar a fumaça do cigarro e disse "pra você ver que não é muito diferente de mim."
Aquelas palavras vieram como uma estaca no meu peito. Eu percebi e você também, como acho tudo ao redor distante de mim e me esqueço que todos sofremos quando penso que só eu sofro. Vocé é humana, demasiadamente humana como eu.
Eu te abracei depois de pensar que você precisava tanto quanto eu precisava. Eu nem ao menos retornei tudo o que fizera por mim.
O mofo e o musgo não estavam mais na minha pele, que agora estava mais corada, porque todas as tardes tomávamos café no pátio debaixo do sol.
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