Tudo em Um Instante

3 Capítulo 3 - Momentos Reveladores


Paige pensara muito em Alex, desde aquela conversa na cantina. Passara a relembrar com frequência o quanto gostara dela de graça. E nas últimas semanas, seus momentos mais felizes era durante os ensaios, interpretando. Especialmente, se fosse uma cena com ela. Embora elas sempre estivessem brigando como personagens, na vida real o clima entre as duas era leve, e totalmente descontraído.

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Em um momento de descanso, após mais um dia de bateria de cenas ensaiadas, as duas se sentaram no chão da sala, apoiadas pela parede, e ficaram conversando por muito tempo. Falaram de tudo um pouco, sobre vida, amores, escolhas, e oportunidades.

– "Alex, seu namorado não reclama de você estar ensaiando tanto? Quero dizer... Ultimamente, quando não estamos em aula, estamos sempre ensaiando."

– "Eu não tenho namorado"
Paige ficara em silêncio. Decidira arriscar, falando propositalmente de forma displiscente:

– "Namorada?"
Alex a olhara rapidamente, e lhe respondera sem pensar.

– "Não"
[Ficara séria, e seu olhar voltara a se tornar um mistério. Paige percebera, e mudou de assunto.]

– "Enfim, que bom. Graças às nossas oportunidades e escolhas estamos aqui, podendo dar tudo de nós mesmos para essa peça conseguir atingir o coração da maior parte dos alunos no ano que vem"

– "Verdade" concordara, voltando a sorrir.

Paige tinha um jeito de falar engraçado, algumas preocupações na utilização de palavras que divertiam Alex. A fazia lembrar do início da sua adolescência, em que ela desejava ser tudo o que Paige é hoje. E ela não sabia porque, e nem como, mas adorava cada vez mais estar com ela.

– "Então... você também não tem namorado?"
Paige a olhara, e respondera sinceramente.

– "Não, não tenho namorad'a'... Eu sou gay, Alex",

Paige pôde observar uma Alex petrificada. Era evidente a sua surpresa.

– "Ah!"

Alex realmente se surpreendera com a notícia, nem podia imaginar.

Paige observou sua expressão de expanto e sorriu, continuando:

– "Sim, eu sei... eu não tenho o 'perfil' ", zombou.

– "Como assim 'perfil'?"

– "Sei lá, não era isso que você ia dizer? Que nem imaginaria isso porque eu não tenho perfil? Não pareço ser gay... Sei lá, alguns meninos já me disseram isso."
Alex a olhou, levemente ofendida, mas brincou, aliviando a própria tensão:

– "Ei... Meninos. Tem uma grande diferença deles para mim. Hello..."

– "É, tem razão... [sorrira] E ainda bem, não queria estar atuando daquela forma com um."

As duas gargalharam, espontaneamente.

– "Talvez você tenha um jeito sim..."

disse Alex sinicamente, deixando Paige curiosa, fuzilando-a com os olhos.

– "Por que? Tipo o que?"

– "Por que você me olha de um jeito meio assim..."

Alex zombara, olhando de uma maneira sexy para Paige, e insinuara que a loira a olhava assim. As duas sorriram, e Alex conseguira finalmente falar sobre o assunto de forma natural.

Paige, envergonhada pela insinuação ser uma brincadeira que poderia até ser real, mordeu levemente os lábios, e pegou nos cabelos, ajeitando-os atrás da orelha. Alex que ainda a encarava, vira todos os movimentos tensos, e ficara ligeiramente desconfortável com o que sentira, embora permanecesse sorrindo. Apenas procurara evitar seu olhar. Olhara para frente, forçando-se a analisar as cadeiras da sala, pensando no quão novas elas estavam.

– "Quando você... se descobriu gay, Paige?", disse, continuando a esquiva de não olhar para a loira. Embora tivesse grande curiosidade naquela pergunta, Alex tentou parecer o mais displiscente possível. Nunca se sentira bem em falar sobre esse assunto.

– "Me apaixonei por uma menina no verão do ano passado"

– "Hm... E como... [pequena pausa] ela era?"

– "A conheci quando fui visitar meus pais no Brasil. Ela era linda... E seu sorriso me encantou... Nos apaixonamos de imediato. Mas dois meses depois tive de voltar para às aulas, e... ela simplesmente parou de escrever. Mandei umas três cartas, sem resposta. Aí me toquei, e parei de mandar. Na última apenas disse que preferia ter ouvido da boca dela 'Terminou, não dá mais' "

Alex se movimento contra a parede, de maneira tensa, mas continuara, ainda evitando o olhar de Paige.

– "E meninos?"

– "Tive alguns namorados mais nova, mas... sei lá... Eu não me encaixava, sabe? Nunca fui tão feliz, nem nunca tinha me apaixonado até chegar no Brasil"

Um silêncio se fez no local, as duas se perderam em seus próprios pensamentos. Alex manteve-se ocupada pensando em toda a estória de Paige. Cada momento que passava, que a amizade das duas se aprofundava, ela a admirava mais. Contar toda essa história da sua vida, sem nenhum medo. Sem nenhuma preocupação.

E o preconceito? Paige não se importava, o que era admirável...

Por isso aceitara produzir e dirigir essa peça. Pela importância social, e não por um motivo fútil, como grande parte dos alunos dali estariam fazendo.

Paige era muito corajosa, pensara Alex. E, ali, sentadas, Paige se tornara cada vez mais importante na vida de Alex, e vice versa.

Mas de repente, alguém rompera o silêncio:

– "Mas não se preocupe que não vou abusar de você, OK?", disse em tom irônico e provocativo, fazendo cócegas na barriga de Alex. Paige sorrira para Alex, que dera uma bela gargalhada, recebendo as cócegas. A descontração retornou por alguns instantes.

Mas novamente veio o silêncio...

Desta vez fora Alex quem rompera o silêncio:

– "Ei, Paige"

– "hm?", sonorizou

– "Quero que você saiba que estou feliz de estar atuando. Graças a essa minha escolha, estou tendo o prazer de conhecer você melhor."
Elas se entreolharam pela primeira vez, em um bom tempo.

– "Eu também estou muito feliz."

E dito isso, as duas sorriram amavelmente.

Um grande carinho crescia cada dia mais entre elas.

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No outro dia, embora não fosse dia de ensaio, as duas marcaram de se encontrar no intervalo.

Pela primeira vez, elas conversaram sobre o papel que iriam desempenhar, onde Alex seria Clara, filha rebelde do padrasto de Jane, que seria interpretada por Paige. Clara odeia Paige, basicamente por ela ser gay.

Entretanto, no decorrer da história, as atitudes de Clara são percebidas como uma forma de fugir dos seus verdadeiros sentimentos.

– "Alex, o que você acha de sua personagem?"

– "Você se refere a que exatamente?"

– "Não sei. Sobre esse lance do ódio dela pela Jane"

– "Bom, está claro que ela... na verdade... sente uma tensão... amorosa por ela", Alex gaguejara assustadoramente. Ampliando o sofrimento de seu desconforto, Paige lhe parecera cada vez mais interessada na conversa, cortando uma possível tentativa de Alex de mudar de assunto.

– "Como assim tensão amorosa?"

– "Ah... As duas, você sabe... sentem uma... incrível atração uma pela outra,... embora pareçam não se gostar..." [ dissera, em infinitas pausas ]

– "É, você tem razão..."

– "Repare que... Em todas as cenas, minha personagem sempre está te provocando. Ela gosta... Ela também sente-se provocada... Com a presença da Jane"

– "É, realmente... Mas isso significaria que eu não gosto...? Porque... eu não costumo te provocar"
Paige, em suas palavras, traçara uma confusa linha tênue entre a própria vida, e a vida da personagem, no que dizia respeito à relação com Alex, o que possivelmente esclareceria muitas coisas, se analisado corretamente.

– "Acho que gosta..., mas ainda não se deu conta disso..., pela forma como ela te trata...", concluíra, se colocando na mesma linha tênue traçada por Paige.

– "Hm..."

Fez-se um silêncio.

Alex ficava extremamente sem graça ao discutir esses assuntos com Paige.

Ainda não confiara em ninguém para contar algumas coisas de sua vida, e ainda não conseguira confiar em Paige o suficiente, tampouco.

Mas sentira-se confiante de que algum dia poderia contar para ela seu segredo.

– "Alex...?"

– "Sim?"
Elas se entreolharam.

– "Você acha que elas terminarão juntas?"

Alex ficara muda por alguns segundos.

Paige pensara até mesmo que ela não a responderia, que mudaria de assunto ou algo assim, mas, logo ouvira baixinho:

– "Não sei... [logo desviara o olhar, e continuara] mas espero que sim"

– "É... eu também. Elas fazem um casal bonito"

Paige dera risada. Alex também.

– "Você está querendo dizer que a gente daria um casal bonito, Sra. Paige Duth?"

Alex fizera cócegas em Page, mas logo depois, desvirara o olhar novamente, envergonhada pelo que haveria dito. Paige aproveitara para não responder, apenas demonstrara um sorriso bobo na face, e mordeu inconscientemente o lábio inferior.

"Quem cala consente" , pensou.

Alex não percebera.

Preferira realmente ela não ter respondido, e deixara pra lá.