Tudo e todas as coisas
5 Resposta ao tempo
Notas iniciais

]Batidas na porta da frente, ele grita e implora para que eu a abra, e eu o ignoro. Dor é o que eu sinto, quando olho nos seus olhos, mas não posso mais, não consigo mais viver assim…
Quando nos conhecemos, no primeiro ano do ensino médio, eu era a menina "foda-se", que não estava nem aí para ser aceita ou para opinião dos colegas de turma, não fazia questão de ser simpática e nem de conversar com ninguém, sempre vivia calada em meu canto. E ele era o novato, o patinho feio, o que sofria bullying.
Ele era recém-chegado na escola, tentava agradar a todos, buscava amizades e, quanto mais fazia para ser aceito, mais zoado era. E quem o zoava? Meu primo Gale.
Eu e Gale crescemos juntos. Sempre fui moleca, jogava bola, rodava peão, soltava pipa, jogava bolinha de gude e saía no soco com os meninos. Tinha uma relação de irmão com meu primo. Mas nossa relação mudou um pouco depois da morte do meu pai em um acidente na empresa em que ele trabalhava. Depois que meu pai morreu, minha mãe virou uma morta viva.
Tia Hazelle, mãe de Gale, passava pelo menos dois dias por semana em minha casa para ajudar a minha mãe. Era minha tia quem lhe dava banho e deixava alguns alimentos preparados. Minha mãe praticamente só dormia e chorava. Da minha irmãzinha, praticamente era eu quem cuidava, dava banho, levava para a escola, dormia junto com ela, quando ela acordava assustada com seus pesadelos. Eu sempre tentava conversar com a minha mãe, tentava fazê-la levantar daquela maldita cama, mas ela só me dizia:
— Dói demais, Katniss, eu não consigo sem ele!
Meus pais eram os eternos namorados. Toda semana, meu pai trazia flores para minha mãe. Eles viviam aos beijos roubados. Meu pai era extremamente amoroso. Ele era alegre, divertido e trabalhador, tratava a minha mãe como uma princesa. E eu e Prim, como bonecas. Meu pai era amante da natureza e me passou esse amor, ao me levar todos os domingos à floresta que havia perto da nossa casa.
Sua morte foi um choque para todas nós. Prim era muito pequena e não entendia bem. Eu era forte por mim e por ela, mas, quanto mais eu fazia e menos minha mãe colaborava, mais fria eu ficava. Não tinha um bom relacionamento com a minha mãe, achava um absurdo ela nós deixar a "Deus dará" e, por isso, a cada dia ficava mais isolada dela e do mundo.
Gale sempre me perguntava se eu estava bem, mas parecia que sua pergunta era um pouco forçada, mais por obrigação do que por interesse sincero, então eu nunca queria me abrir com ele, afinal ele não me entenderia. E, quanto mais seus pais nos ajudavam, sua mãe auxiliando a minha mãe e seu pai cuidando da parte financeira da minha casa, mais ele ficava distante da minha família e dos nossos problemas. Eu achava essa sua atitude era um pouco egoísta. Nessa época, Gale estava mais focado na escola e em seus problemas para ser o capitão da equipe do que na fase de luto em que minha família se encontrava. Então, nossa amizade esfriou e, no fim, eu não ligava mais para a nossa amizade.
Um dia, vi Gale segurando o colarinho do novato e o arrastando para a lata de lixo. Gale às vezes queria bancar o machão. Então, interferi, bati no colega valentão dele, Cato, e o ameacei. Disse que contaria à minha tia Hazelle o que ele vinha aprontando ultimamente na escola, envolvendo-se em constantes brigas. Eu nunca fui de mentir. Ele sabia disso. Sempre durona e destemida, por isso era respeitada por ele e sua turma. Assim, eu os fiz prometer que eles deixariam o novato em paz. Gale soltou o novato, que caiu no chão, e foi embora.
Eu me abaixei e o ajudei a recolher seu material, que estava todo espalhado. O novato tremia como vara verde.
— Ei, eles vão lhe deixar em paz de agora em diante! – Eu o consolei.
— Obrigado. – Ele mantinha a cabeça abaixada. — Não sei o que seria de mim, se não fosse por você.— Ele me encarou assustado e eu me espantei com a cor dos seus olhos, mais azuis impossível. Peeta era baixinho, um pouco gordinho, tinha algumas espinhas no rosto, mas seus olhos eram lindos. — Peeta Mellark, prazer. – Ele me estendeu a mão e eu prontamente a segurei.
— Katniss.
Eu não era muito de sorrir ou de ter amigos na escola. Não gostava dos populares e nem queria ser um deles, preferia ficar na biblioteca com meus livros. Os livros me ajudavam a esquecer um pouco dos problemas que eu tinha em casa. Eu era uma aluna exemplar, sempre com notas altas, queria ganhar bolsa de estudos de 100% na Faculdade Ambiental de Panem.
Uma vez, na floresta, prometi ao meu pai que estudaria as plantas pelas quais ele era tão fascinado. Ele riu e me disse que eu teria que me esforçar muito nos estudos para entender a complexidade da flora. Naquele dia, eu prometi para ele e para mim mesma que entenderia e me esforçaria ao máximo para estudar na FAP. Meu pai nunca havia conseguido ingressar na faculdade, pois ele veio de uma família com poucos recursos e, desde que conheceu a minha mãe, ela passou a ser a prioridade na sua vida. Assim, ele desistiu dos estudos e passou a trabalhar na mina de carvão que havia em nossa cidade. O salário era bom e havia um adicional de insalubridade, por ser um emprego de alto risco. Então, esse era meu objetivo e eu só teria uma vida social depois de concluí-lo.
Só que, depois daquele dia, não foi difícil pegar amizade com o novato. Seu pai era dono da padaria mais top da cidade e todos dias ele trazia meu lanche e o de Prim. ele era a única pessoa, fora os meus familiares, que sabia que minha mãe estava de cama. Pães de queijo, croissants de chocolate, esfirras e outras guloseimas foram uma passagem direta para uma boa amizade. Quando percebi, já éramos inseparáveis e conversávamos sobre tudo. Ele me entendia e muitas vezes me ajudava com os estudos. Ele era gênio em matemática e gostava de arte. Ele achava que pintura e desenhos clássicos eram coisa de baitola, então ele escondia o máximo seu talento com o pincel para outras pessoas, menos para mim. Às vezes, fugíamos e passávamos as tardes de sábado na floresta, ele pintando algum quadro, e eu o observando, nadando no lago, ou estudando alguma espécie de planta.
Peeta era a única pessoa que conseguia me fazer sair de casa e, com isso, comecei a ter uma vida social, conversava um pouco mais com algumas colegas de turma. Com quem eu me dava melhor era Joahnna, ela tinha um jeito irreverente, não estava nem aí pra nada e pra ninguém, por isso gostava de conversar um pouco com ela.
Eu me sentia uma outra pessoa ao lado de Peeta, sorria, arriscava algumas piadas e me abria. Foi nos braços dele que chorei, contando como sentia saudades do meu pai e da vida tranquila e estável que ele proporcionava para nossa família. Peeta também contava seus problemas com a sua mãe e seus irmãos para mim, compartilhávamos segredos.
Eu não era amada nem odiada pelos colegas de escola, era respeitada e me considerava extremamente normal. Todos me cumprimentavam com cordialidade e hoje eu vejo que talvez Peeta tenha me usado um pouco para conseguir fazer algumas amizades.
No segundo ano do ensino médio, Peeta já havia ganhado um pouco mais de altura e estava definindo o corpo, já não era mais tão gordinho, desajeitado e espinhento, e chamava a atenção de algumas meninas. Uma dessas era Delly, a loira bonita e doce. Delly e eu sempre sentávamos juntas nas aulas de biologia. Ela me entediava com diálogos sem fim e eu nunca conseguia prestar atenção em toda a chuva de palavras que saíam de sua boca. E, um certo dia, ela grudou em mim no fim da aula e me acompanhou até o meu armário no corredor, onde Peeta sempre me esperava, e começou a puxar papo com ele. Depois desse dia, eles começaram a ficar e, após algumas semanas, a namorar. Ela e Peeta eram melosos um com o outro e estar ao lado do "casal Barbie" me incomodava demais, principalmente quando descobri que Peeta pintava telas junto com ela, o que antes era um segredo meu e dele. Agora, Delly estava no nosso meio. Pra mim, foi essa a razão pela qual o meu segundo ano do ensino foi um inferno. Eu passava mais tempo na biblioteca, evitando Peeta e Delly. Até evitava conversar com Peeta. Ele me contava sobres suas novas experiências sexuais com Delly e eu não queria saber, pois me sentia enojada.
Mas foi no começo do terceiro que Delly machucou o coração do loiro e o transformou no playboy conquistador. Delly dormiu com metade do time de futebol americano, incluindo Gale. E o pior de tudo é que filmaram ela na cama com Marvel e Cato, e o vídeo viralizou. Eu via que Peeta gostava mesmo daquele jeito meloso e doce dela. Ele sofreu quando viu o vídeo e ficou sabendo que a sua amada era uma vagabunda. Então, foi a minha vez de dar colo e secar as lágrimas dele. Peeta ficou uma semana sem ir para escola e Delly foi embora do país. Peeta jogou todas as suas frustrações no basquete, virando assim o melhor jogador do colégio, o que ajudou a trazer títulos inéditos para nossa escola. Suas fases escolares foram: o novato zoado, o protegido da Katniss, o "Ken da Barbie" e o playboy do basquete.
A partir do momento em que ele virou um dos populares da escola e playboy gostosão, nossa amizade meio que voltou ao que era no primeiro ano. Ele sempre estava comigo e sentava-se na maior parte das aulas ao meu lado. Nossas conversas e segredos voltaram. Nos intervalos, ele procurava seus amigos de equipe ou suas ficantes e, como sempre, eu me refugiava na biblioteca. Ele sempre ficava com as garotas depois da aula ou nos finais de semana. E, na primeira aula do dia seguinte, Peeta me contava sobre todas as suas aventuras, sobre todas as meninas com quem ficava e me incentivava a arranjar um namorado e a ser mais descolada. Mas eu, como sempre, não me interessava por romances. Minha meta era a faculdade, como havia prometido ao meu pai, e, quando o ensino médio passou e eu alcancei meu objetivo, eu me senti realizada e comemoramos com balada, álcool e sexo.
Não sei dizer exatamente como aconteceu, não me lembro bem. Minha mente estava turva com tanto álcool que havia consumido na formatura e o dia seguinte foi de uma ressaca maldita, sem contar a vergonha de acordar totalmente nua nos braços dele, e eu e ele tentando tirar aquela mancha horrível de sangue da minha virgindade que estampava minha cama.
— Katniss, eu sinto muito, não queria ter feito isso – Peeta se lamentava, esfregando compulsivamente com um pano a mancha.
— Não sinta, nem eu, e acredito que nem você se lembre exatamente do que houve nesse quarto. – Eu não me lembrava de nada mesmo, nunca havia tomado nada alcoólico.
— Por isso mesmo, você não deveria ter perdido a virgindade assim.— Ele me encarou com aqueles olhos azuis límpidos, demostrando sincero lamento e arrependimento.
— Agora já foi, não há como voltar atrás. Pelo menos, não vou ser a virgem da faculdade. Na verdade, você me fez um favor! – Ri sem humor.
— Por isso mesmo que foi errado, não devia ter me aproveitado de você. – Ele negava com a cabeça, passando a toalha no colchão.
— Você se lembra de alguma coisa? – Ele negou com a cabeça. – Então, você não se aproveitou – concluí. Às vezes, até eu me assustava com a minha frieza.
— Isso que é pior, eu gostaria de me lembrar. – Ao dizer essas palavras, ele abaixou a cabeça e não quis mais me encarar. Foi nesse momento que estraguei a minha vida, com a pior ideia que alguém poderia ter.
— Nós poderíamos fazer de novo. – Ele me encarou novamente, só que dessa vez perplexo, com seus olhos azuis arregalados. — Qual é, Peeta? Eu não estou interessada em romances e você só quer uma garota para foder uma noite. Quando eu estiver carente e você não encontrar uma boa garota, nós transamos e fim de papo. Sem vínculos, sem romance, só na amizade…
A partir desse dia, ele virou meu "pau amigo" como minha agora colega de quarto, Johanna, referia-se ao Peeta. O sexo com ele era formidável, nós sempre nos procurávamos pelo menos uma vez por mês, às vezes, duas.
Continuávamos amigos, ele me contava de suas conquistas e eu continuava a minha saga em ser a melhor aluna do curso de botânica. Para mim, dessa maneira estava perfeito. Eu me sentia bem com o andar da carruagem, não me importava com a quantidade de mulheres com quem ele ficava. Eu sabia que, no final ou no começo de cada mês, ele ia vir para meus braços e me contaria como estava sua vida, eu falaria da minha vida, nós iriamos rir de qualquer coisa boba e transaríamos loucamente e isso, por enquanto, bastava.
Só que, no sétimo semestre da faculdade, quando eu iniciei meu estágio, conheci Finnick Odair. Ele era incrível, lindo, charmoso, engraçado e romântico, fazia eu me lembrar um pouco do jeito do meu pai e isso me assustava bastante. Ficamos casualmente uma vez e surgiu um sentimento, ficamos mais algumas vezes e ele queria um relacionamento sério e eu, não. Hoje, vejo que eu tinha medo de me prender a alguma pessoa.
Meu psicólogo me explicou que eu fiquei traumatizada quando meu pai morreu e minha mãe se perdeu no luto. Eu tinha medo de ficar igual a ela, amar demais e não saber lidar com o a perda e ficar inerte numa cama, dependendo de outras pessoas até para tomar banho e, por isso, eu repelia relacionamentos. Para mim, amores terminavam na escuridão e na solidão, do jeito que minha mãe estava.
Mas Finnick me fez ver que estar com uma pessoa agregava e não subtraía, que namoros eram uma estrada de mão dupla, que era dar e receber, era compartilhar momentos, emoções, carinhos e etc. Só depois de algum tempo descobri que Finnick não era a pessoa certa pra mim. A pessoa certa estava sempre comigo e eu não o enxergava.
Mesmo tendo um certo tipo de relacionamento com Finnick, meus encontros com Peeta não pararam. Não fazíamos mais sexo e isso o incomodava, mas ainda nos encontrávamos mensalmente no pub da cidade e conversávamos sempre através de mensagens.
— Você ainda está transando com o Odair? – Assenti. — E quando terá espaço na sua agenda para nossa trepada? – Peeta tinha umas maneiras únicas e nada românticas pra falar de sexo como trepada, metelância, ripa na chulipa e outros…
— Meu relacionamento com ele está meio sério. Não vou traí-lo, estamos quase namorando.
— Carai! Você está namorando? – assenti, tomando minha cerveja. – E quando você me perguntou se poderia namorar sério? – Eu ri do jeito dele. Às vezes, ele queria mandar em mim. — E eu agora fico como?
— Uma coisa que nunca falta são mulheres na sua cama, Peeta, eu não vou fazer falta. – Ele deu de ombros, bebendo sua cerveja, evitando olhar em meus olhos e não me disse mais nada.
Em uma sexta-feira, quando saíamos juntos com Finnick, eu e Peeta e nossas conversas bestas sobre qualquer coisa, nossas provocações, que nos faziam parecer crianças, e o jeito que Peeta tinha de me deixar à vontade pra rir, pra beber, pra cantar, pra ser eu mesma, incomodaram tanto Finnick a ponto de ele me deixar sozinha com Peeta no Pub. Quando me dei conta de que havia sido abandonada por ele, saí correndo atrás dele, e ele não me dizia nada, só balançava a cabeça, negando qualquer coisa que eu lhe dizia. Ele só foi conversar mesmo comigo, quando chegamos ao meu apartamento. Nesse dia, ele jogou a verdade em mim, só que eu não conseguia aceitá-la:
— …Você é outra pessoa com ele, Katniss, eu vi você de verdade, quando sorriu pra ele!
— Eu não estou entendendo aonde você quer chegar!
— Você o ama! – Neguei com a cabeça, essa ideia era absurda. — Você só não se deu conta disso!
Essas foram as últimas palavras que Finnick me disse quando me deixou. Naquela noite, nós brigamos por causa do meu relacionamento de amizade-colorida que mantive com Peeta. Finnick ficou enciumado e me pressionou para assumir minha relação com ele.
— Está bom desse jeito, não precisamos de aliança ou rótulos ou qualquer coisa do tipo.
— Precisamos sim, eu quero que as pessoas me associem a você. Que todos saibam que você é a minha namorada. Que estamos juntos, quero morar com você casar, ter filhos…
— Besteira, todos sabem que estamos juntos, não precisamos de títulos, e eu não quero nada disso.
— Você não se importa que a mulherada caia matando em cima de mim? Porque eu fico puto quando o Peeta dá em cima de você! Eu não quero uma amizade-colorida Katniss.
— Finn, eu não ligo, você não está preso a mim, e eu e o Peeta sempre fomos amigos.
— É o Peeta o problema, não é? – neguei novamente com a cabeça. — Vocês já transaram? – Seus olhos estavam nublados de ódio.
— Isso não lhe diz respeito! – usei de toda a frieza que eu tinha.
— Mas eu estou preso em você Katniss, e isso me machuca demais. Eu sei que vocês transaram, pelo modo como vocês se tratam. Você é outra pessoa com ele, Katniss, eu vi você de verdade, quando sorriu pra ele!
— Eu não estou entendendo aonde você quer chegar!
— Você o ama! – Neguei com a cabeça. – Você só não se deu conta disso!
Finnick virou as costas, saiu do meu apartamento e nunca mais voltou. Eu demorei uma semana para me tocar da cagada que havia feito, comecei a sentir falta da companhia dele, do seu jeito carinhoso e de seu interesse em saber tudo que havia acontecido no meu dia, e entendi que ele me amava. Quando fui correr atrás dele, ele não respondia mais minhas ligações e não me atendeu quando fui ao seu apartamento. Hoje eu acho engraçado como eu nunca havia me dado conta do que ele me dizia, que ele estava tentando me mostrar que eu amava Peeta, e eu estava cega demais para entender esse sentimento que sentia.
— O amor é estranho. – Joahnna sempre dizia, quando via o Peeta sair do nosso apartamento nas manhãs em que ficávamos juntos, negando com a cabeça e me julgando com o olhar. Nunca perguntei para ela o motivo pelo qual ela dizia isso, e nem me interessava saber…
Quando a saudade e a solidão apertaram demais, fui procurar Finnick na empresa em que trabalhávamos e descobri que ele havia se mudado para o litoral. Desconsolada, liguei para Peeta pra me encontrar no Pub mais tarde e afoguei minhas mágoas, bebendo e contando a ele tudo que havia acontecido.
— Não acredito que aquele bostinha foi embora para o litoral e você está chorando por ele. – Peeta riu incrédulo pelas minhas lágrimas. Eu não era de chorar por nada e por ninguém.
— Ele queria um namoro de aliança e tudo, queria um noivado, que morássemos junto e etc. E eu não me sentia pronta para tudo isso. – Passei as mãos em minhas bochechas, limpando os rastros das lágrimas.
— E agora você está? – Ele arqueou as sobrancelhas ao me analisar.
— Eu vejo que ele me amava de verdade, e eu perdi uma grande chance de ser feliz ao lado dele. — Ele riu novamente de mim.
— Você está indo ao psicólogo de novo?
— Eu tenho problemas em me socializar com as pessoas, Peeta, sempre tive.
— Eu não acho que você tenha problemas.
— E você acha que é normal não conseguir se relacionar com as pessoas, em não conseguir manter amizades ou relacionamento familiar?
— Você se relaciona bem comigo e com a Joh.
— Joahnna mora comigo e tem um bom relacionamento com todo mundo. Eu não tenho um bom relacionamento com meus colegas de empresa, nunca troquei mais que algumas palavras com os colegas da faculdade, vai fazer 4 anos que não converso com a minha mãe, faz tempo que não converso com meus primos e minha tia, e com a minha irmã só falo o essencial. Nem sei por que ainda converso com você.
— Porque somos iguais, você nunca reparou isso? – Ele dizia sempre com ar debochado. — Você não consegue ficar em um relacionamento amoroso e eu também não.
— Isso não é verdade – discordei, tentando analisar os fatos.
— Quantos namoros você teve, Katniss?
— Eu não tive relacionamentos, porque não estava interessada em romances, então todos os caras com quem eu fiquei tinham liberdade para cair fora, porque eu não queria um relacionamento, meu foco sempre foram os estudos e agora minhas pesquisas no trabalho. Você, não. Todas as mulheres ficaram apaixonadas e muitas ainda choram, porque só dormiram uma noite em sua cama. – Ele riu novamente
— E agora você está interessada em romance e relacionamentos sérios?
— Eu alcancei meus objetivos, Peeta, e com quem eu vou dividir minhas conquistas? – Minhas lágrimas rolaram pelas minhas bochechas novamente. — Finnick me disse que queria que as pessoas nos relacionassem um ao outro, queria uma vida para nós, e agora vejo que isso ia me fazer bem, eu queria ser a namorada dele e levar nossa relação adiante, queria que ele fosse só meu e eu só dele. Que tivéssemos um relacionamento baseado na confiança e no amor, que dividíssemos uma vida…
— Você contou para ele que a gente transa de vez em quando? – Peeta me interrompeu e eu respondi, negando com a cabeça. — Então, o relacionamento de vocês já começou bem! – Ele usou de ironia pura, mostrando aquele sorriso torto que me deixava sem jeito.
— Finnick descobriu na noite em que estávamos aqui no pub, ele ficou puto comigo, nem deu tempo para eu lhe falar que, depois que eu comecei a ficar com ele, nós nunca mais tínhamos transado – disse e ele riu alto da minha afirmação.
— A gente é bom nisso, eu duvido que o sexo com ele era melhor do que o sexo comigo— Peeta e seu ego enorme. — Era questão de tempo para transarmos de novo.— Fiquei sem jeito e não lhe disse nada, o que fez ele rir mais ainda. Peeta tinha um sorriso tão sexy, que me deixava com o coração palpitando e com a boca seca, não tinha palavras para confrontar a sua afirmação, o sexo com ele era único, intenso. Ele deu o último gole da sua cerveja, pediu mais uma rodada de tequila para mim, puxou minha cadeira para mais perto dele e sussurrou em meu ouvido.
— Esse é um conselho de amigo: é melhor você esquecer tudo o que aconteceu com esse cara, dê graças a Deus que você não o amou, porque o amor dói e o fim de toda essa merda é solidão e sofrimento.
— Nossa, com quem você aprendeu a ser assim tão dramático? – Agora era a minha vez de debochar dele.
— Com a Delly. – Engasguei com a minha tequila.
— Não acredito que você ainda sofre pela Barbie vagabunda. – Ele riu e passou os dedos delicadamente no meu braço, causando-me uma série de arrepios. — Não sofro, eu me divirto com quem acho conveniente. Sempre tenho uma boa companhia na cama, tenho meu trabalho na administração da padaria, meus amigos, jogo meu basquete duas vezes por semana e tenho você, minha melhor amiga, aquela que me enlouquece entre quatro paredes. – Ele beijou meu pescoço e cheirou meu cabelo, acendendo uma chama dentro do meu corpo. — Vamos fazer um pacto?
— De que tipo? – Eu já havia bebido quatro shots de tequila, mas eu não me sentia embriagada, nem um pouco tonta. Estava completamente ciente da nossa conversa, da sua aproximação, das sensações que ela causava em meu corpo e de tudo que estava em nossa volta.
— Que toda última sexta-feira do mês de todos os anos das nossas vidas, nós vamos passar em uma cama, transando loucamente. – Eu que gargalhei alto dessa vez e me aproximei dele, dizendo com a voz mais rouca e sexy possível, só para provocá-lo.
— Você vai se apaixonar de novo, vai arranjar uma namorada, vai entregar seu coração para ela e pedi-la em casamento, vai engravidá-la e ter um cachorro e eu vou ficar solteirona, gorda e cheia de gatos e você vai negar que um dia dormiu comigo. – Ao terminar a frase, ofereci um brinde, e virei mais um shot de tequila. Ele riu novamente. — E outra, se EU quiser um romance, um noivo, um marido, filhos e tudo que vêm nesse combos? Aí EU que não vou mais querer saber de você – salientei a palavra EU, concluindo convencida.
— Você não vai querer esse romance todo. – Ele tinha tanta convicção. — Eu e você somos iguais, nada de romances. Só metelância. – Ele fez graça de novo e me agarrou pela cintura, pressionando seu corpo todo no meu. Pude sentir cada músculo dele, seu cheiro, seu hálito de cerveja, o calor que emanava do seu corpo, a batida forte do seu coração e sua ereção roçando na minha coxa. Meu coração ficou descompassado, minha barriga gelou e eu me perdi no beijo que ele me deu, senti uma chuva de sensações desconhecidas nesse beijo, na batalha que nossas línguas travaram, enredei meus dedos nos seus cabelos macios. E ele me apertou mais ainda, só paramos quando alguém gritou:
— Vão para um quarto!
— Boa ideia! – Peeta gritou de volta, tirou da carteira uma nota e deu ao garçom, nem se importando com o troco, e me puxou pela mão, arrastando-me embora do bar em que estávamos, como um homem das cavernas, completamente selvagem.
Peeta pediu rapidamente um táxi e nos beijávamos loucamente, aproveitando o toque e as mãos bobas durante todo o percurso até o meu apartamento. Quando abri a porta, já estava com vários chupões em meu pescoço, meu sutiã já estava desafivelado em baixo da minha blusa e os botões da minha calça também estavam abertos, com a mão dele dentro, pressionando a minha intimidade.
Peeta me agarrava e me apertava, mal podíamos andar. Nunca havia visto Peeta tão guloso e ansioso. Não fechamos a porta do meu quarto, nem nos despimos totalmente, nem estávamos deitados quando ele me penetrou. Nem sabia se Joahnna estava em casa ou não, nem me importei com os gemidos altos, se alguém escutaria ou não. Só estava focada naquele momento e no quanto aquela noite foi prazerosa. Eu me aproveitei de cada toque das mãos grandes e másculas de Peeta, que viajavam pelo meu corpo e me marcavam, e fiz o mesmo por ele, arranhando as suas costas, beliscando suas coxas, deixando também marcas em seu pescoço e ombros, mordi suas coxas grossas. Queria que, na manhã seguinte, ele se lembrasse muito bem de como havia sido a nossa noite e de quão intensos eram nossos encontros, que somente eu o fazia enlouquecer, que o sexo comigo era muito melhor do que com qualquer mulher que ele já havia ficado. Gozamos uma, duas, três… Até o primeiro pássaro cantar na madrugada. Estávamos cansados, suados, um verdadeiro emaranhado de pernas e braços, ele deitado sobre meus seios e eu mexendo em seus cabelos úmidos de suor.
Nós tínhamos regras, não usávamos proteção um com o outro, por que havia confiança entre nós. Na manhã seguinte era um sábado em que Peeta ia trabalhar na padaria do pai dele. Não foi surpresa acordarmos quase na hora do almoço e ele sair correndo, murmurando que a mãe dele ia matá-lo. A surpresa foi eu me levantar e o acompanhar até a porta e nos despedirmos com um beijo e um bom dia, e ele me prometer que mais tarde ligaria. Johanna, que observava a cena do sofá, bebericando seu café, negou com a cabeça e mais uma vez me disse:
— O amor é estranho!
Estava com tanto bom humor que nesse dia lhe perguntei por que ela sempre dizia isso quando via o Peeta sair do nosso apartamento, e ela me deu um sorriso falso e pediu para eu sentar ao seu lado no sofá. Eu o fiz com certa desconfiança.
— Eu estudei com vocês desde o ensino médio. Eu me lembro bem quando o Peeta chegou na escola, ele era o patinho feio e você o defendia, mesmo passando pelo inferno de problemas com a sua mãe e a morte do seu pai. Depois, você se afastou dele por causa do namoro que ele tinha com a Barbielly. Quando ela o traiu e o largou, ele ficou deprê e VOCÊ enxugava as lágrimas dele, e ele não era mais o patinho feio, já era o popular jogador e conquistador, vocês continuavam grudados. Aí veio a faculdade e vocês viraram "amigos coloridos", nenhum de vocês teve um relacionamento fora dessa amizade louca que vocês têm.
— Eu tive o Finnick, mas eu não estou entendendo aonde você quer chegar com todo esse papo. – Joh revirou os olhos, impaciente.
— O Finn ficava que nem um cachorrinho correndo e chamando a sua atenção, tentando fazer você sorrir e se abrir, ser romântica. E ele não conseguiu isso, Katniss, porque você não o quis, por causa do Peeta. – Eu dei risada na cara dela.
— Claro que não, eu não o quis, porque não estava interessada em romances. Finn queria namoro sério e sexo eu tenho com o Peeta, você sabe.
— Até quando vai isso, Katniss? Já faz mais de cinco anos que vocês têm esse caso, já passou da hora de evoluírem.
— Pra mim, está bom do jeito que está e, pelo visto, pra ele também. – dei um fim à história e me levantei, queria voltar a dormir.
— A Delly voltou. – Meu sangue congelou. Peeta nunca mais falara no nome da Delly, desde o dia em que ela foi embora e partiu o seu coração, mas ontem ele falou o nome dela com todas as letras e agora Joahnna falara também.
— Eu não me importo com ela – menti. Peeta havia sofrido muito por causa dela. Ela foi a única que ele havia amado e isso me trazia certo incômodo.
— Eu odeio fazer isso. – Joh fez uma pausa, respirando fundo, como se estivesse tomando coragem pra falar. —, mas eu os vi se beijando semana passada, no restaurante da Sae. – Senti todo meu sangue subir pro meu rosto. — Quero deixar você preparada pro que está por vir. Eu não quero que você sofra, Katniss.
Eu não lhe disse nada, tentei não lhe mostrar qualquer reação, saí da sala e me tranquei em meu quarto com meus pensamentos. Peeta não era exclusivo meu, éramos só amigos que transávamos de vez em quando. Mas por que ele não me contou que a Delly havia voltado? Ele me contava tudo e nem sobre o beijo ele disse.
Eu não consegui voltar pra cama depois do que Johanna me falou, por isso, liguei pra minha irmã e combinei de almoçar com ela. Eu precisava fazer algo diferente nessa tarde, senão enlouqueceria, pensando no que Johanna havia me dito. Eu não estava preparada pra pensar nisso. Assim que Johanna me viu arrumada, pediu pra ir comigo almoçar e o clima entre nós estava tão pesado que eu não soube negar.
— Katniss, espero que você não ligue, esse é meu namorado Tommy. – Surpresa, essa era a palavra que me descrevia nesse momento. É estranho você ver a sua irmãzinha tão crescida e namorando. Tommy era um menino um pouco calado, mas bem-humorado, com um humor inteligente. Ele colocava as piadas certas nos momentos certos e minha irmã se derretia toda por ele. A paixão era visível na fisionomia dos dois.
— Você gostou dele? – Prim me perguntou, assim que ele saiu para ir ao toalete.
— Ele é engraçado, parece ser uma boa pessoa, Prim.
— Mamãe gostou dele.
— Uau! Você já o apresentou pra sua mãe? – Johanna perguntou.
— Claro, nós estamos morando junto faz alguns meses. – Meu mundo caiu.
— Como assim, Prim? É muito cedo. Você é muito nova pra namoros, você têm que focar na sua faculdade pra conseguir ter um bom emprego. – Eu me preocupava com a minha irmãzinha.
— Hei! Relaxa, pega leve. – A apaziguadora era sempre Johanna.
— Katniss, eu o amo. – E desde de quando Prim sabia o que era amor?
— Você é muito nova pra saber dessas coisas, você tem apenas 21 anos…
— Você têm 27 e se formou como a melhor da sala, tem um bom emprego e não tem ninguém ao seu lado pra dividir as suas conquistas. Você não sabe o que é amar, Katniss, você se isola de todo mundo, vive em uma bolha. É isso que você quer pra minha vida, que ela seja igual à sua? – Ela jogou tudo na minha cara e eu fiquei sem saber o que dizer. – Olha, longe de mim te julgar, Katniss, mas todos os relacionamentos que você teve, você os afasta, não se prende a ninguém, não ama e não é amada. Nem com a mamãe você conversa. Peço desculpe por falar isso, mas, pra mim, viver assim é muito triste. Se você quiser isso pra você, tudo bem, mas não exija que eu faça a mesma idiotice!
Johanna soltou uma leve risada e Tommy voltou. Prim mudou de assunto muito rápido e, daí em diante, não consegui prestar mais atenção a nenhuma conversa entre os três.
Fiquei imersa em pensamentos. Minha vida era triste e solitária, disso eu sabia, não foi à toa que eu tentei voltar com o Finn, queria dividir a minha vida com alguém, mas ele me ignorou completamente. Eu precisava de um namorado ou de um relacionamento. Ver Prim tão feliz e radiante fez me convencer que eu conseguiria namorar e amar alguém, não era difícil, só precisava deixar rolar…
Por isso, comecei a ir mais em pubs, em baladas com a Johanna, fiquei com alguns caras, mas nenhum fez borboletas flutuarem em meu estômago.
Assim, passaram duas semanas, durante as quais Peeta sumiu completamente. Ele apenas respondia algumas mensagens minhas com respostas curtas e evasivas. Estranhei um pouco, queria que ele me contasse sobre a volta da Delly, mas ele não disse nada e eu segui minha rotina. Precisava encontrar o amor e comecei a focar nesse novo objetivo.
Na quinta-feira antes da sexta-feira em que costumávamos nos encontrar, saiu uma nota na coluna social do jornal da cidade, falando que o Herdeiro do Pão e a herdeira do sapateiro haviam noivado, para a alegria das famílias. Eu nunca fui de ligar pras fofocas, mas essa nota fez meu sangue gelar, eu tinha certeza de que, se acontecesse algo do tipo, Peeta me contaria.
E, quando chegou a sexta-feira, Peeta já estava esperando na minha porta, quando voltei do trabalho. Não eram nem 19 horas. Estranhei pelo horário, sempre nos encontrávamos primeiro no pub, ele nunca vinha me buscar no meu apartamento, mas não comentei nada. Assim que abri a porta, ele me agarrou com uma certa brutalidade.
— Hei, calma, e a conversa antes do sexo? – Brinquei, enquanto ele beijava meu pescoço e me arrastava para o quarto. — Peeta, calma, eu preciso de um banho.
Peeta nem se importou com as minhas recusas, ele rasgou a minha camisa, fazendo com que os botões dela voassem por toda a parte do quarto. Tentei segurá-lo, mas ele era muito forte e estava afoito, começando a me machucar.
— Peeta, qual é o problema? – Eu me afastei dele com dificuldade. Fazia duas semanas que não nos víamos e só conversamos o essencial por mensagens. Queria saber o porquê de estar agressivo assim. Eu o conhecia o suficiente para saber que havia algo de errado com ele, Peeta nunca foi agressivo.
— Você têm ficado com outros caras na balada, quero que você se lembre quem te faz gozar de verdade – acusou ele, como se me culpasse da sua brutalidade. Ele me jogou na cama e logo estava em cima de mim, segurando as minhas mãos acima da minha cabeça.
— Você também fica com outras garotas! – Eu me defendi.
— Você está procurando um namorado? – perguntou, enquanto beijava meu pescoço.
— Você está noivo da Delly. – Eu também sabia usar o sarcasmo e aquelas informações da revista de fofoca usei ao meu favor. Ele suspirou, levantou-se da cama e deu uma volta pelo quarto, bagunçando totalmente os cabelos, sinal de que estava muito nervoso. Eu não queria tocar no assunto "Delly", queria que ele me contasse por iniciativa própria o que estava acontecendo, mas agora era inevitável, e teria que forçá-lo a falar.
— Eu não quero falar sobre isso agora, vamos voltar aonde estávamos. – Ele voltou e tentou me beijar, mas eu não o aceitei e desviei.
— Por que você não me contou que a Delly voltou?
— Porque é irrelevante. – Ele me puxou de novo, beijando meu pescoço e soltou meu sutiã, expondo meus seios e me empurrando para cama.
— Irrelevante para quem? Há notícias de vocês até no jornal! – Ele negou com a cabeça. Eu o empurrei, não ia conseguir fazer sexo com ele, enquanto não me contasse tudo o que estava acontecendo.
— Caralho, Katniss, eu não quero falar sobre ela. – Ele aumentou a voz, completamente impaciente.
— E eu não quero transar. – Eu me levantei, peguei uma camiseta e saí do quarto enquanto a vestia. Ele me segurou pelos braços e me disse tudo muito rápido, com o rosto vermelho.
— Delly voltou e me pediu perdão. Nós estamos ficando. – Ele me abraçava, enfiando o rosto em meus cabelos, ele não tinha coragem de falar olhando para o meu rosto.
— O quê? Como assim?
— Vou fazer o mesmo que ela fez comigo, vou me vingar dela, destruir o coração dela, do mesmo jeito que ela destruiu o meu, vou dar mais chifres nela do que ela deu em mim. – Paralisei com o que ele me dizia. Minha bile subiu pela garganta, deixando um gosto amargo na boca.
— Você ainda a ama? – Eu lhe perguntei, soltando-me do seu abraço, segurando o ar nos meus pulmões e esperando a sua resposta. Precisava olhar em seus olhos enquanto me respondia.
— Claro que não. – Ele desviou os olhos quando me respondeu, segurou os cabelos novamente, puxando-os pra baixo.
— Deus, você ainda a ama. – Parecia que havia um tijolo na minha garganta e eu não consegui mais controlar. As lágrimas começaram a rolar pelas minhas bochechas. Peeta ficou pálido, quando ouviu o que eu disse e me viu chorando.
— Não. Eu… eu a odeio! – Ele negava com a cabeça e gaguejava a sua resposta, andando de um lado para outro, parecendo um animal enjaulado.
— Amor E ódio andam lado a lado. – Deus! Ele ainda nutria sentimentos por ela e eu não tinha forças nas pernas, por isso sentei na beira da cama, tentando entender exatamente o que eu estava sentindo naquele momento.
— Foda-se ela, foda-se o amor, foda-se o ódio! – Peeta explodiu, revirando tanto os cabelos, que agora estavam um emaranhado que o deixava mais lindo ainda. Ele respirou fundo e me disse: – Katniss, eu preciso de sexo, dá para você colaborar? Hoje é a nossa sexta-feira, vamos logo meter.
Esse foi o momento em que minha ficha caiu. Eu não suportava o amor que ele sentia por ela, eu tinha ciúmes dos sentimentos que ela despertava nele. Peeta só queria meu corpo, Delly teve seu amor e agora tinha seu ódio. E o que ele sentia por mim? Tesão? De repente, isso se tornou pouco para mim, eu queria mais. Comecei a senti inveja de Prim, pois ela amava Tommy e era correspondida, senti raiva de mim, porque fui amada e não correspondia ao amor que Finnick sentia por mim e agora eu queria ser a única para o Peeta, queria que as pessoas nos associassem como um casal, queria ter ele todos os dias ao meu lado, queria que o seu coração e seu corpo fossem só meus e de mais ninguém. Queria compartilhar a vida com ele, e não apenas uma cama.
— O amor é estranho! – As palavras de Johanna gritavam na minha mente, agora eu entendia. Era estranho mesmo esse amor que eu sentia por Peeta, eu aceitava dividi-lo com outras, porque sabia que elas só o teriam por poucas horas, teriam uma transa superficial. E, depois, ele sempre voltava para mim. Eu era aquela que ouviria suas histórias, suas piadas, que escutava quais eram as suas preocupações, que sabia dos seus medos, que compartilharia seus segredos, a pessoa com quem ele implicaria por causa da escolha de livros que estavam na cabeceira da minha cama, aquela em que ele faria cócegas até eu chorar e pedir água, aquela em quem ele dava um beijo na testa nas manhãs em que ele ficava em meu apartamento. Peeta nunca passava uma noite inteira na cama com nenhuma mulher, só comigo. Peeta usava camisinha com todas as mulheres com quem transava, só comigo que não. Eu que o acompanhava no médico em suas consultas de rotina e ele também me acompanhava, pois a nossa relação era única. Entendi que eu já havia entregue a minha alma e meu coração para ele, só não lembrava em que momento eu havia feito isso. Só que agora já era tarde demais e olhar nos olhos azuis aflitos dele me fez sofrer um choque de realidade e ali senti meu coração sangrar.
— Você vai casar com ela – constatei o óbvio.
— Não, é só até ela cair na minha lábia, Katniss, por favor, entenda. – Ele se abaixou à minha frente e segurou nas minhas mãos.
— Eu não vou ser sua amante, e isso é ridículo e infantil, Peeta. – Eu me desvencilhei dele, levantando e ficando de costas para ele. Olhar nos seus olhos azuis me trazia uma dor insuportável.
— Não é ser amante, de onde você tirou isso? Só quero que ela sinta a dor que eu senti! – Ele me respondeu, cansado.
— Então, termina com ela agora, por telefone mesmo. – Peguei meu celular na minha bolsa que estava no chão e estendi para ele.
— Eu não posso. – Ele negou com a cabeça. — Eu sinto muito, eu não posso. – Ele respirou fundo e virou de costas.
— Ela te traiu com a metade da escola, foi embora e, depois de todos esses anos, você ainda a ama? – gritei desconsoladamente.
— Eu sei que não a amo, mas eu preciso me vingar.
— Vá embora do meu apartamento agora!
— Katniss, o que houve com você? Eu não estou te entendendo – disse ele, tentando se aproximar. Eu me afastei mais ainda, indo para sala. Ele me seguiu, deixando a mesinha da sala entre nós. — Você disse sexo sem compromisso, sem romances e sem todas essas merdas de discussões que vêm com ele. Foi você que ditou os termos, e nós fizemos um pacto. – Ele chutou a mesinha de canto e me abraçou novamente, passando as mãos pelas minhas costas e me envolvendo no seu perfume, aflorando todas as sensações que nesse tempo todo eu ignorava sentir por ele, mas que agora me davam consciência do que sempre foram: amor.
— Eu não fiz pacto nenhum com você, e eu não posso mais fazer isso – disse com os dentes cerrados e as lágrimas rolando pelas minhas bochechas, precisava ser mais forte do que esse sentimento, não deixaria ser usada assim, como um objeto sexual.
— Por causa da Delly? Pelo amor de Deus, ela não significa nada para mim e nós só daremos o troco por tudo o que ela fez comigo. – Essa foi a última vez que me desvencilhei dele, pois me dirigi para a porta e a abri, fazendo um convite mudo para ele ir embora.
— Eu não posso, Peeta, eu sinto muito… – Minha voz era um sussurro embargado pelas lágrimas.
— Foi você que decidiu os termos, são cinco anos que isso tem funcionado bem entre nós, não dá para terminar assim…
— Para mim é pouco, você não vê? – Eu o interrompi e gritei pra ele entender. — Eu quero mais que uma noite por mês, não quero ser mais sexo casual sem compromisso, eu quero romance, quero amar e ser amada, quero um namorado e uma aliança de noivado e não quero mais ver você. – Ele passou a mão em seus cabelos novamente, suspirou, olhou em meus olhos e simplesmente me disse:
— Eu ainda não estou pronto pra isso, romances e toda a porra que vêm junto com ele, eu não quero isso, eu ainda tenho muito a viver, e agora eu tenho uma chance de fazer ela provar do próprio veneno…
— Vá embora! – Não o deixei terminar de falar, pedi e ele relutante o fez.
Não o vi mais naquele final de semana, mas ouvi notícias, vi fotos nos jornais e nas redes sociais dele e Delly juntos, li matérias sobre o casal perfeito que formavam. E hoje, uma semana depois, acordei com batidas na porta da frente, ele gritando e implorando para que eu a abra, e eu o ignoro. Dor é o que eu sinto quando olho nos seus olhos, mas não posso mais, por isso que estou aqui sentada no pé da minha cama, com as mãos sobre os ouvidos, tentando não ouvir seus gritos na porta. Não posso lidar com essa dor, sempre o amei, e ignorava esse sentimento, ainda não entendi o porquê fazia isso, mas não posso mais encará-lo. Por essa razão, continuo a ignorar suas mensagens, suas ligações e agora ele batendo desesperado na minha porta.
Depois daquela noite, Peeta me deixou em paz. Achei que era mesmo o nosso fim. Mas, um mês depois da nossa briga, ele bateu em minha porta novamente, completamente bêbado. Eu não o deixei entrar, mas Johanna deixou. Ele chorava, dizendo que estava com saudades, que precisava de mim, que queria conversar. Eu não me comovi e não aceitei viver de novo naquela situação. Ele falou no meio das suas lamentações que Delly alegava que estava grávida e estava o forçando a marcar a data do casamento. Johanna gritou palavrões indescritíveis a ele e pediu pra ele resolver a situação dele antes de me procurar. Ele acabou dormindo escorado na porta do meu quarto e, naquela noite, eu não consegui pregar o olho. Não dava mais para as coisas continuarem daquele jeito, por isso, no dia seguinte, pedi transferência do meu emprego. Fui enviada para o extremo sul do país para uma nova pesquisa de plantas.
Assim, mudei de casa, mudei de Estado, mudei meu número de telefone, comecei a mudar meu estilo, minhas roupas, cortei os cabelos, fiz mais alguns furos na minha orelha e uma tatuagem em homenagem ao meu pai, mudei os estilos de música que ouvia e os livros que lia, o tipo de lugares que frequentava, e comecei a conversar com meus novos colegas de trabalho.
Tudo isso para esquecê-lo. Tive que matar um pedaço de mim, matar as minhas inseguranças, meus medos, comecei a me arriscar mais, a me aventurar mais, a me abrir mais, aprendi a confiar mais nas pessoas. Por causa da Rue, minha nova colega de apartamento, comecei a cantar em karaokês só para rir com meus novos amigos e me divertir, comecei a correr por esporte, antes eu era completamente sedentária. Eu precisava ocupar cem por cento dos meus dias para não pensar nele e alcancei esse objetivo. Depois de um tempo, não me lembrava mais dele, do seu cheiro, do seu cabelo caindo na testa bagunçado, do seu sorriso sexy, da textura das suas mãos quando acariciava meu corpo, das noites quentes que passávamos. Eu me lembrava dele, é claro, ele foi um amigo importante para mim, mas não sofria mais por um amor que senti e não foi correspondido. Nunca mais quis saber de notícias suas, Johanna sempre tentava dizer uma coisa ou duas quando eu lhe telefonava.
— Eu não me importo, para mim, não faz diferença nenhuma. – Eu lhe dizia sempre que ela perguntava se eu sabia de alguma coisa sobre ele.
2 anos depois
Depois de algum tempo e visitas mensais a psicólogos, consegui entender melhor meus sentimentos e perder meus medos. Primeiro, não queria saber do amor, porque não queria amar demais, e tinha medo de perder. Segundo, eu me acomodei na relação de amizade-colorida que mantive com o Peeta, era uma relação sem cobranças e sem apego emocional e, durante um tempo, isso me fez bem. Terceiro, sempre fui apaixonada por ele, desde a primeira vez em que ele colocou os olhos em mim na escola. Por isso, eu o defendia e sua relação com Delly me incomodava tanto. Quarto, foquei tanto nos meus objetivos acadêmicos que me esqueci de viver. Hoje eu estava feliz, estava vivendo com equilíbrio, nunca me senti tão bem comigo mesma. Nesse meio tempo, fui atrás da minha mãe e tive uma conversa nostálgica com ela.
— Katniss, filha. – Foi o que ela me disse assim que me viu parada na porta do hospital em que estava trabalhando. Eu me aproximei dela e lhe dei um abraço.
— Peço desculpas, por ser tão incompreensiva! – No fim, não foi tão difícil reconhecer que também errei com ela e me desculpar.
— Só se você me desculpar por ter abandonado você e Prim. – Nós choramos e rimos no meio desse abraço, passando por cima de todas as mágoas e ressentimentos que tínhamos uma da outra.
— Pensei que minha vida havia acabado quando ele se foi, e não vi que eu ainda tinha vocês, eu me sinto tão mal por isso.
— Não sinta, no final, tudo o que aconteceu só nos deixou mais fortes para os baques que a vida nos dá – concluí.
— Prim me conta de como está a sua vida. – Eu sabia que tudo o que eu contava pra minha irmã ao telefone ela contava à minha mãe, e minha mãe sabia que tudo o que acontecia com ela, pois Prim me contava.
— Acho que, depois de 29 anos, aprendi a viver, eu estou bem, estou feliz. – Sorri sinceramente para ela e ela retribuiu o sorriso e passou as mãos em minhas bochechas, assim como ela fazia quando eu era uma criança e meu pai ainda estava entre nós.
— O amor é maravilhoso, Katniss, quando ele é completo, quando é retribuído, ele nos faz ser pessoas melhores, ele traz bons sentimentos ao nosso coração, ele nos traz equilíbrio e paz. Seu pai estaria muito orgulhoso de você, querida, você ama a sua profissão, ama a si mesma e está feliz e isso para ele bastaria. – Nós sorrimos mais ainda uma pra outra, concluímos a nossa conversa com perdão. Eu a perdoei por nos abandonar como mãe e ela me perdoou por eu não ser uma filha compreensiva.
Quando aconteceu essa conversa, estávamos perto da data do casamento de Prim e Tommy. Foi um casamento nada simples, cheio de flores, bem-casados e firulas, mas foi o casamento que nosso pai sempre sonhou para ela. Foi um momento lindo de união de nossos familiares. Nesse dia, fui madrinha ao lado de Gale e, naquela noite, conversamos, dançamos e rimos, lembrando das peripécias que aprontamos quando éramos crianças. Gale agora era jogador profissional de futebol americano, ele havia ficado lindo e musculoso e, depois de algumas doses de champanhe, acabamos dormindo juntos. Afinal, a minha vida continuava. Mas eu sabia que nós nunca daríamos certo. No fim das contas, o dia do casamento da Prim foi todo perfeito e, no dia seguinte, saí com Joahnna. Ela nunca ia mudar e eu ainda adorava o jeito descolado dela, ela não tocou no nome do Peeta, mas eu sabia que ela sempre o via, eles frequentavam os mesmos lugares e Johanna trabalhava no jornal da cidade. Mas demos prioridade à nossa amizade e colocamos o papo em dia. Joahnna me levou até o aeroporto e prometeu que, nas suas próximas férias, ia passar uns dias comigo no meio da selva, olhando os "matinhos", como ela dizia.
Eu nunca havia me sentido tão feliz, por tudo o que havia vivido, eu estava realizada no trabalho, com os amigos, com o coração aberto para novas experiências, estava de bem comigo mesma. Dois meses após o casamento da minha irmã, encontrei Finnick na empresa. Ele estava responsável por uma pesquisa sobre peixes de água doce, na mesma filial em que eu estava estudando as vitórias-régias. Foi um momento muito bom vê-lo novamente. Finnick estava casado, já tinha um filho e me mostrou a foto deles. Eu estava realmente muito feliz por ele, era bom saber que ele havia se encontrado.
— Sua esposa parece um anjo! – Eu lhe disse, tomando meu café
— Ela é. – Finnick olhava a foto com tanta ternura e amor. — Sabe? Esses dias, quando eu estava na capital, eu vi a sombra do Peeta. – Ele me olhou para analisar a minha reação.
— Sombra? Como assim? – Não estava entendendo o que ele queria dizer.
— Ele não é mais tão glorioso como era antes. – Finn me explicou
— Ah, e você conversou com ele? – perguntei, para dar seguimento à conversa.
— Não precisou, vi nos olhos dele que ele ainda não superou o que aconteceu entre vocês. – Eu ri do que ele me disse, dando de ombros.
— Depois de um tempo, não importa mais Finnick, uma das coisas que aprendi nessa vida é que o amor deve ser regado e cuidado igual a uma plantinha – fiz graça e ele concordou com a cabeça.
— Então, você admite que o amava?
— Demorou para suas palavras fazerem sentido para mim, mas eu o amei, não nego isso, mas já passou e eu segui em frente, e eu estou bem.
— Nunca lhe vi tão bonita e tão bem consigo mesma, Katniss. – Ele olhava no fundo dos meus olhos, como se quisesse detectar alguma mentira.
— Eu morri de amor para reviver assim, bem comigo mesma. Não foi fácil no começo, há tudo aquilo de negar o óbvio, depois aceitar e ter coragem para fazer as mudanças necessárias, mas o tempo cura qualquer ferida. – Ele sorriu e me abraçou.
— Foi bom ver você, quando você quiser conhecer a minha família, será bem-vinda, Annie ficará feliz em lhe conhecer. – Sorri, agradecida e nos despedimos. Trabalhei aquela tarde pensando em tudo o que havia vivido com Finnick.
Eu queria andar um pouco na praia para pensar em tudo o que aconteceu, estava um dia azul bonito para uma caminhada. Então, no fim do expediente, em vez de voltar direto para casa, peguei meu carro e dirigi até a praia. Era final de verão, o clima estava agradável para se ver o pôr do sol no mar, e foi o que fiz. Andei um pouco, sentindo o vento tocar meus cabelos e pele, e coloquei alguns pensamentos em ordem. Foi bom saber que Finnick também havia se encontrado e estava feliz com o rumo que a vida dele havia tomado, que o amor que ele havia guardado era retribuído e até havia sido multiplicado, fiquei feliz por ele.
O sol estava quase tocando o horizonte e me sentei para contemplar aquele lindo entardecer. Havia crianças correndo com cachorros pela praia, casais andando colados, amigos jogando bola e aproveitando o tempo quente, e eu ali sentada, perguntando ao tempo o que agora seria de mim. Já havia conquistado meus sonhos, aprendido lições importantes. E, agora, o que havia de ser?
— Dois anos. – Eu me assustei com uma pessoa que se sentou ao meu lado na areia da praia, interrompendo meus pensamentos. — Você me deixou e faz dois anos que estou completamente perdido e sem rumo.
Olhei para ele e ele me encarou com aqueles olhos azuis, que podiam ler qualquer pensamento e emoções minhas, que agora tinham uma expressão mais dura e círculos escuros em volta. Parecia que ele havia ficado esses dois anos sem dormir, nunca havia o visto tão magro. Seu corte de cabelo agora era no estilo militar, não havia mais cabelos em sua testa, nem aquele emaranhado que o deixava tão sexy. Ele ainda se vestia do mesmo modo. Uma calça justa nas pernas, uma camiseta qualquer, uma corrente no pescoço e suas pulseiras inseparáveis.
— O que houve com você? – Minha voz era somente um sussurro assustado.
— Delly engravidou e forçou a marcar a data. Minha mãe estava tão feliz com os preparativos do casamento e quase me matou quando eu não fui ao meu próprio casamento. Foi um grande escândalo, houve muita gritaria e choro, e você não viu nem ouviu falar nada sobre o assunto. – Neguei com a cabeça, e com a boca um pouco aberta. Nem sonhava que havia acontecido algo assim. — Joh me disse que você estava cagando para mim, eu só não imaginava que era tanta assim a sua indiferença pela minha pessoa – lamentou, olhando o horizonte.
— Não sabia que você e Joh conversavam sobre mim. – Eu até desconfiava que eles se viam, porém não passou pela minha cabeça que eles se falavam.
— Depois que você foi embora e eu não fui ao casamento, minha mãe fez meu pai me mandar embora da padaria. Eu perdi meu apartamento e ai fui morar no seu quarto. Joh me ajudou muito e eu tinha esperanças que você voltasse.
— Eu me machuquei demais com tudo o que aconteceu Peeta, eu não penso em voltar. – Abaixei a cabeça, não conseguia olhar nos olhos dele e ver tanto sofrimento.
— Eu sinto muito por tudo o que aconteceu – disse ele com sinceridade.
— E a criança nasceu bem? – questionei, mudando o rumo em que a conversa seguia e pensando no filho dele. Agora, Peeta era pai e essa ideia me parecia um pouco improvável. Ele sorriu com ternura como se lembrasse da criança.
— Sim, nasceu um menino lindo do saco roxo igual ao do pai. – Eu o olhei confusa. Eu ainda me lembrava de que Peeta tinha os testículos rosados. — Eu acompanhei toda a gestação e o nascimento, registrei o menino e fiquei com ele durante o primeiro mês. – Ele suspirou e sorriu torto, fazendo meu coração pular uma batida. — só que o moleque foi escurecendo, perdendo a cara de joelho, e a cada dia parecendo mais com o Thresh, um dos funcionários da família Cartwright. – Não aguentei segurar a gargalhada, fazendo Peeta rir também. Isso tudo era tão trágico, que se tornava cômico. Somente Delly para fazer Peeta novamente de tonto e, quando vi, estávamos os dois lá rindo da situação pela qual ele havia passado. Eu havia me esquecido de como era fácil sorrir com ele.
— Minha mãe, pela primeira vez, ficou feliz por eu não ter feito algo, e ela me agradeceu por eu não ter ido ao casamento – disse ele em meio aos nossos risos. — E, no fim, a imprensa colocou a minha moral lá em cima por eu não ter caído no golpe da barriga e a Delly está com a reputação lá embaixo por ser uma vagabunda de carteirinha, embora Thresh não ligue para isso. Thresh lambe o chão que ela passa e tem uma devoção única pelo Peter. – Ele agora tinha um sorriso triste no rosto.
— Você conseguiu se vingar dela e parece que não está feliz. – Eu ainda sabia ler as suas emoções.
— A vingança me custou caro demais, Katniss, eu perdi você. – Agora eram os olhos deles que estavam cheios de lágrimas. — Não foi fácil para mim definir o que sentia quando você estava por perto. Ou entender o quanto eu ficava em êxtase sempre que te tocava ou você me tocava, ou mesmo quando estamos desfrutando das mínimas coisas, como ouvir nossas músicas favoritas juntos ou quando implicávamos um com o outro por seu gosto estranho por livros e filmes. Você me inspirava as emoções e vontades mais esquisitas. Você me fazia querer ler para você, enquanto sua cabeça fica no meu colo, ou me faz desejar receber aqueles beijos de bom dia todas as manhãs, e ver seu sorriso todos os dias. Mas eu era teimoso demais e a liberdade que você me deu me era tão benéfica, que eu não queria perder isso e, quando você foi embora, eu me perdi em mim mesmo. Tudo me lembrava de você e sentia sua falta. Comecei a passar o inferno com a Delly e não tinha você para me apoiar, e não tinha notícias suas. Joh só me dizia que você estava bem e mais nada. E quando o Peter nasceu, eu fiquei feliz, gostei de ser pai, mesmo não sendo. – Ele fechou os olhos para tentar dispersar as lágrimas, mas não conseguiu, elas rolaram livremente pelo seu rosto. — Eu tinha certeza, já quando Delly me disse que estava grávida, que o filho não era meu. Mas segurar aquele bebezinho inocente me trouxe uma sensação inexplicável, e eu me dei conta de que queria vivenciar essas emoções com você, não com ela ou com qualquer pessoa. E eu me senti vazio, nada mais para mim faz sentido. – Eu não sabia o que lhe dizer. — Eu estou há um ano procurando você por todas as filiais da sua empresa que existem no país. Joh só me disse que você não tinha sido mandada embora e nem que pediu as contas, mas não quis contar onde você estava.
— E como você me achou aqui? – perguntei, enquanto ele enxugava as suas lágrimas.
— Você não lê jornais, nem colunas sociais mesmo, né? – Neguei.
— Gale. Vocês foram fotografados por paparazzi juntos, em uma festa, e você conseguiu seus 15 minutos de fama, parabéns! – Ele disse com deboche, tirou um papel todo amassado do bolso. Era uma folha de revista de fofoca, nela havia uma foto minha e de Gale saindo do hotel onde foi o casamento de Prim. E havia uma ficha completa de quem eu era e o que fazia, e uma nota da assessoria de imprensa de Gale, dizendo que eu era apenas uma parente distante e não uma namorada. Dei risada da notícia. Era tão louco estar em uma página de revista com fofocas. — O tempo te fez bem Katniss, você está muito mais linda – elogiou ele, passando as mãos na ponta dos meus cabelos curtos.
— Gostou do meu novo corte? – Tentei mudar de assunto, embora o clima entre nós estivesse agradável, não queria tocar no assunto Gale, e não queria que ele perguntasse se eu havia dormido com ele, mesmo porque Peeta não tinha nada a ver com isso, e ele dirigiu um sorriso galante para mim.
— Eu gostava dos seus cabelos compridos e da maneira que eu os enrolava em minhas mãos – disse ele, safado, fazendo uma referência a tantas noites que passamos juntos.
— Eu mudei muito, Peeta, eu não tenho mais nada a ver com aquela menina que eu era. – Não queria colocar o que vivemos no passado em pauta, íamos abrir feridas que o tempo já havia cicatrizado.
— Eu sei, eu mudei também. Eu era imaturo, mimado, não dei valor a melhor pessoa que havia na minha vida e eu sofri com as escolhas erradas que fiz. – Ele se virou para ficar de frente comigo e segurou as minhas mãos. – Eu me arrependo todos os dias por não ter pego aquele telefone em sua mão, e ter acabado tudo com a Delly, e ter ficado com você. Se eu tivesse feito isso, teria nos poupado muito sofrimento. Eu não sei o que será de nós agora, eu só quero uma chance para mostrar como eu mudei e como as coisas podem dar certo, se nós quisermos que aconteça. – Ele olhava no fundo dos meus olhos, sua pele tinha um brilho dourado do pôr do sol, e eu sorri nostálgica.
— Houve um lado bom de você não ter pego o celular aquele dia. Eu virei a página, amadureci como pessoa e estou em meu melhor momento, porque estou em paz e feliz comigo mesma e, se não tivesse acontecido nada daquilo, talvez eu não tivesse mudado e ainda fosse uma menina cheia de traumas e medos.
— Você está me rejeitando? – As lágrimas voltaram para os seus olhos azuis.
— Não. – Respirei fundo. Eu só queria que ele se encontrasse antes de querer ter qualquer relacionamento, que ele estivesse bem para fazer bem a qualquer pessoa que esteja em sua volta.
— Você não quer mais nada de mim? – Peeta parecia uma criança que perdeu o brinquedo.
— Eu quero que você seja feliz, independente se esteja ao meu lado ou não. – Ele precisava que entender que, talvez, o nosso momento já houvesse passado e que nossa relação poderia não dar certo. Eu já havia superado, não queria entregar meu coração novamente e passar o inferno de novo.
— Você não entende, Katniss, eu me perdi quando você foi embora. Eu arquei com as consequências das minhas escolhas, hoje já zerei a minha vida para poder recomeçar. Não precisa ser do ponto em que paramos, mas vamos voltar a ser amigos. Tenho tanta coisa legal para te contar e acredito que você tenha muito mais coisas para me falar, sobre as suas mudanças, seus novos amigos, suas pesquisas, suas novas roupas. – Ele fez uma pausa, analisando o meu vestido curto de verão. A antiga Katniss nunca mostraria as pernas. Concordei com a cabeça. Realmente, tínhamos muitas coisas para conversar.
— Sim, mudou muita coisa. Vamos precisar de um chopp de vinho para eu te contar tudo o que aconteceu nesse tempo. – Sorri.
No final das contas, Peeta tinha um jeito único de me fazer sorrir e me deixar à vontade para lhe contar livremente tudo o que havia acontecido comigo. Nós nos levantamos e fomos para um barzinho à beira mar para falar da vida e nos atualizar sobre o que aconteceu nesses dois anos, para nos conhecermos novamente. Afinal, o tempo havia trazido mudanças para nós dois. O vento levou tudo o que havia acontecido entre a gente.
O tempo cura as cicatrizes e, talvez, se fosse acontecer entre nós, o amor renasceria, mais forte, mais vivo e de uma maneira correta. Caso contrário, a amizade ia continuar…
O tempo me libertou daquele sentimento que me aprisionava. Eu não pretendia resgatá-lo, mas… e se esse amor transcende ao tempo? Ironicamente, só o tempo irá me responder.
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