Tudo de Mim
37 Você é o meu lar.
Notas iniciais
Não avisei meus pais que estava voltando após quatro meses, porque ainda não sabia ao certo se era com eles que eu queria ficar e depois de tanto tempo ausente, não queria magoa-los ao dizer que o melhor seria eu encontrar meu próprio espaço, seja lá onde for. Agora eu era uma adulta sentia que precisava disso.
Passei muito tempo fora, mas agora que estava de volta ao meu país, tinha total certeza de que aqui era o meu lar, só ainda não sabia exatamente onde. Mas sabia que por mais admirável que fossem os lugares em que visitei, nada me parecia tão familiar quanto o país onde eu nasci e cresci.
Eu estava com muita bagagem e não estava sendo nem um pouco fácil arrasta-las pela imensidão desse aeroporto cheios de pessoas indo e vindo o tempo todo.
E só para constar: continuo sendo uma pessoa muito desastrada.
Já era de se esperar que eu faria alguma cagada enquanto não chegasse em casa e dormisse por muitas e muitas horas até dar um rumo definitivo na vida.
Acabei tropeçando com a minha mala de rodinhas em um senhor muito apressado com um bigodinho curvado e ele quase derrubou o café que segurava em si mesmo. Foi por pouco. Eu não consegui me salvar. Derrubei minha bolsa no chão e tudo se espalhou em volta. Me senti muito mal com tudo isso e pedi um milhão de desculpas, mas ele simplesmente me deu as costas e saiu nervoso.
Larguei tudo e me abaixei para recolher minhas coisas no chão. Sozinha. Pois ninguém estava nem aí para mim e todo o meu desastre ambulante. Quando enfim estava tudo em perfeita ordem — ou quase isso — e eu estava pronta para ir embora dali agora mesmo, foi quando meus olhos avistaram uma cena um tanto quanto intrigante.
E lá estava ele. Depois de tanto tempo. Alto, magro, os cachos perfeitos. Uma barba rala que combinava perfeitamente com o seu rosto. De jeans e uma camiseta preta. Parecia não ter mudado nadinha. Além do fato, de ele estar abraçando uma garota baixa de cabelos claros cheio de ondas perfeitas de forma muito intima. Acho que ele finalmente tomou jeito na vida e encontrou uma pessoa.
Bom para ele.
Agora eu preciso ir para casa agora mesmo, antes que...
— Luciana? – Ele chamou por mim e veio correndo na minha direção.
A garota estava indo embora e parecia terrivelmente abalada.
Afinal, o que estava acontecendo ali? E como ele me reconheceu?
Não era como se depois de quase cinco anos eu tivesse me tornado uma outra pessoa. Apesar de ter evoluído muito e me sentir bem mais experiente e madura após tudo que passei ao longo desse tempo. Eu também não estava tão diferente assim fisicamente. Ainda tinha a mesma altura e o mesmo corpo. Apenas abandonei o sedentarismo e tenho me exercitado. E meus cabelos estão mais curtos agora do que costumavam ser. E eu vinha me vestindo melhor e tentando me maquiar mais. Não sei exatamente porque.
Mesmo assim... Com tantas pessoas em volta como foi que ele me viu em meio a tudo isso?
— Oi. – Ele sorriu quando parou diante de mim e me deu uma rápida analisada.
— Oi. – Tentei sorrir. Estava desconfortável.
Nós nunca mais nos vimos ou nos falamos. Era tão esquisito vê-lo agora.... Quando eu meio que tinha finalmente conseguido esquecê-lo.
Ou pelo menos achava que sim.
— Uau... Você está bonita!
— Obrigada.
— Você está indo.... Ou voltando?
— Voltando.
— Hmm... Legal.
Legal? Não há nada de legal nisso. Não é legal a forma como ele está me olhando agora. Não é legal como ele ainda me faz sentir mesmo depois de tudo.
Preciso fugir daqui. E preciso fugir agora.
— Preciso ir agora. – Peguei minhas coisas. — Foi bom te ver.
Esse reencontro me deixou desestabilizada. E me fez voltar no tempo. Recordar aquele momento em que tudo terminou. Mas sabe de uma coisa? Eu superei. Com o tempo percebi que foi o melhor para mim. E com certeza para ele também. Foi difícil acreditar naquela época, mas nós precisávamos disso.
Aquele não era o nosso momento.
Fui o mais rápido que podia em direção a saída mais próxima. Mas aquilo parecia um grande labirinto. E eu já não fazia mais ideia de onde estava.
— Ei. Espere. – Ele veio atrás. — Você precisa de alguma ajuda?
— Não. Obrigada. Realmente não precisa. – Digo, sem olhar para ele.
Isso aí, Luciana. Continue andando.
Oh, finalmente avistei portas envidraçadas e automáticas. Onde eu já podia ver, mesmo de longe, o mundo lá fora que me aguardava para mais um recomeço.
Mas porque diabos ele ainda está me seguindo?
Merda. Merda. Merda.
Antes de alcançar as portas o mundo todo parou em volta. Barulhos de uma terrível tempestade percorreu todo o aeroporto, apavorando as pessoas. Funcionários e seguranças pediram para todos ficarem calmos e permanecerem ali dentro, até terem mais informações. Voos foram cancelados. Pessoas começaram a se frustrar.
E eu, é claro, fiquei perdida.
Aquilo só podia ser mais um sinal do destino que adorava zombar de mim.
— Não acho que seja uma boa ideia você ir agora. – Comentou ele, ainda ao meu lado.
Olhei através das portas envidraçadas, onde pessoas entravam completamente molhadas e com uma expressão de puro pavor. Mas ninguém saia, com medo do que poderia encarar lá fora. Vi também o céu completamente negro e um vento forte que parecia capaz de arrastar tudo pela frente. Aquilo não era nada bom.
— E você espera que eu faça o quê, Alexandre? Que eu fique aqui parada feito uma idiota esperando o sol voltar a brilhar para eu poder voltar para casa?
Tá. Eu surtei. Mas como não poderia?
— Bom, é exatamente isso o que eu espero que você faça.
Suspirei fundo.
Ele continua desaforado. Pelo jeito não mudou nadinha.
Peguei minhas coisas e as arrastei para o banco mais próximo. Precisava ligar para os meus pais. Estragar a surpresa e dizer que eu estava em apuros.
— Ah, porcaria. Não tem sinal!
— É, eu sei. – Ele sentou-se ao meu lado, com um sorrisinho. — Você não mudou nadinha.
— Eu estava pensando o mesmo sobre você. – Retruquei, mal-humorada.
— Na verdade, eu mudei sim. Bastante. E espero, que você tenha mudado também. Pelo menos um pouco. Não é bom para você ser tão dura com tudo.
— Desde quando você se importa com isso? – Fuzilei-o com os olhos.
— Eu me importo com tudo. Tenho tentado ser melhor do que eu costumava ser. Por isso tenho encarado a vida de maneira mais leve. E tem dado certo.
— Bom para você. – Bufei.
— Quer comer alguma coisa?
Olhei para ele.
— Estou falando sério.
— Eu não posso deixar minhas coisas largadas por aí.
— E não precisa. Eu te ajudo. – Ele se levantou.
Acabei cedendo, porque a verdade é que comida ajuda muito a melhorar o meu humor. E eu já estava na pior. Não tinha muito o que fazer quanto a isso.
Apenas aceitar a dura realidade.
Juntos fomos até uma lanchonete qualquer por ali mesmo, onde eu pedi um lanche com batatas e refrigerante e ele pediu uma salada fresca e um suco.
Foi difícil, mas encontramos uma mesinha pequena perto das janelas, onde eu pude ver claramente que o mundo estava desabando lá fora.
— Espero que a sua namorada tenha conseguido pegar um carro a tempo.
— O quê? – Ele espantou-se.
— A sua namorada. Aquela que você estava abraçando.
— Mas eu não tenho namorada.
Espera aí...
— Ah, você deve estar falando da Tainá. Lembra-se dela? Ah, é. Você nunca chegou a conhecê-la. Ela é a namorada do Luiz. Aquela por quem ele tinha uma quedinha há um tempo atrás. A garota bonitinha que morava na nossa rua.
— Não acredito! Então, deu certo?
— Pois é. Depois de algum tempo, sim. Eles ficaram juntos e estão até hoje.
— Falando nisso.... Cadê ele?
— Ele ganhou uma bolsa para estudar fora. Ele tinha acabado de sair quando eu te vi. E era por isso que eu estava a abraçando. Ela estava desolada com a partida dele.
— É, eu sei bem o que é isso.
— Você sabe, não é? Mas então, onde você estava?
— Em New York. Com o Lorenzo.
Ele parou de mastigar no mesmo instante.
— Ah, é? Então acabou que deu tudo certo. Vocês estão juntos.
Apesar de ele sorrir, pude ver nitidamente que era um sorriso forçado.
E isso me agradou. Confesso.
— Não exatamente.
Eu poderia mentir, mas no que isso resultaria? Ciúmes? Inveja? Arrependimento da parte dele? Nada disso me importa mais. Certo? Certo.
Preciso me convencer disso.
— Um tempo depois de eu ter terminado a faculdade de fotografia, ele me conseguiu um emprego. E como eu ainda não sabia exatamente o que faria com o resto da minha vida naquela época, eu juntei tudo e fui ver no que isso ia dar.
— E no que deu?
— Bom, foi certamente a melhor fase da minha vida. Eu nunca nem tinha saído do estado onde morava e de repente me vi em outro país, numa nova realidade. Foi perfeito! Eu vivi tantas coisas, conheci pessoas, aprendi coisas novas, ganhei experiencia...
— E porque você voltou?
— Certa vez, uma pessoa me ensinou que devemos sair do conforto para ir em busca do nosso próprio lar. E, bom, lá não era o meu lar. Acabei descobrindo isso.
— Onde é o seu lar, então?
— Eu ainda não sei. – Eu sorri.
— E o Lorenzo, ele está bem?
— Ele está ótimo! Tem seu próprio apartamento em um dos lugares mais valorizados de New York e abriu recentemente sua própria galeria de arte. Parece que ele finalmente encontrou um lar. E conheceu uma garota incrível chamada Celeste.
Era melhor do que isso: Lorenzo iria pedir Celeste em casamento em breve, assim que os pais dele fossem visita-los no mês que vem. Eles se casariam, teriam filhos e seriam muito felizes. Porque eram perfeito um para o outro. Eu descobri isso em todo o tempo em que estive alojada no apartamento dele.
No começo, fiquei com um pé atrás. Talvez fosse receio de que ela acabasse machucando-o em algum momento. E todos sabem que ele jamais mereceria algo assim. Mas conforme eu fui convivendo com ela, fui aprendendo a gostar dela.
Celeste é incrível. Linda, inteligente, sofisticada, engraçada, fofa. E o melhor de tudo: faz o Lorenzo um homem feliz. Pois ela o ama tanto quanto ele a ama. Eu sei disso. Pude ver no olhar dos dois. Pude ver em seus abraços, beijos, troca de carinhos. Eles são aquele tipo de casal que você se sente bem-estando por perto.
E agora eu ganhei uma nova amiga que vou levar por toda a vida. Ao sair de lá, ela chorou com a minha partida. Nos apegamos muito uma a outra. E me fez prometer que eu voltaria assim que pudesse. E com certeza eu voltaria. Pois gostaria de estar mais por perto de dois grandes amigos. Principalmente em um dos momentos mais importantes de suas vidas: o dia do casamento.
— E a Fabi, ela ainda é a sua melhor amiga?
Ele estava me interrogando agora? Bom, de qualquer forma, não importa. É bom que ele ainda sinta interesse na minha vida. Mesmo que isso não tenha nada a ver com interesse romântico. Apenas um interesse de duas pessoas que um dia se amaram e passaram anos sem ter qualquer tipo de contato uma com a outra.
— Mas é claro! Mesmo depois do ensino médio, fomos morar juntas, perto da faculdade. Em uma cidade muito distante de casa. E foi uma experiência muito boa. Só fez com que a nossa amizade se intensificasse ainda mais mesmo com os altos e baixos. E antes que você pergunte.... Sim, ela e o Christian continuam juntos. Foi bem difícil para eles no começo, sabe? Ter que namorar a distância, longe um do outro. Mesmo assim, eles conseguiram sobreviver a isso e agora estão grudados de novo.
É bem mais do que isso na verdade. Fabi suspeita de estar grávida. Mas ela ainda tem medo da reação dos pais para tudo. Medo que eles a julguem por ter tido um filho antes mesmo de se casar. Como se isso fosse um problema! Além do mais, ela já mora com o Christian e eles pretendem se casar assim que puderem.
E eles têm o meu total apoio.
— Pelo visto, quase tudo deu certo na sua vida, hein. – Comentou ele.
Eu entendi exatamente o que ele queria dar a entender com aquilo.
— É, quase tudo. Mas está ótimo assim.
Será que está mesmo? Fico pensando nisso o tempo todo.
Terminei de comer e limpei as mãos no guardanapo.
— Agora é sua vez. Me conta sobre você! Não esconda nada.
Ele sorriu.
— Certo. Vamos lá. Primeira coisa que você precisa saber: minha mãe está bem. Ela se recuperou com o tempo e está se erguendo aos poucos. Estamos orgulhosos dela! Meu pai continua preso e estará por muito tempo. Meu irmão, como sabe, foi estudar fora. Nós estávamos juntos esse tempo todo, será muito difícil para mim me acostumar não o ter por perto. Lembra-se do meu apartamento? – Eu assenti. Como poderia esquecer? — Eu o vendi para um amigo. E com o meu novo trabalho, comprei outro. Muito maior e em um lugar muito mais agradável.
— E, namoradas? Nada de namoradas?
Fala sério! Eu tinha que perguntar.
— Não. Sem namoradas. Mas agora eu tenho um cachorro! Ele é uma graça, você precisa conhecê-lo.
Não pude deixar de rir.
— Ah, é? E qual é o nome dele?
— Frederico.
— Ei!
— Eu sei, eu sei. – Ele riu de maneira tão agradável e hipnotizante. — Esse seria o nome que você colocaria se algum dia tivesse um cachorro.
— Sim! Você se lembra!
— Eu nunca esqueci.
Ficamos sérios de repente.
Desviei o olhar e olhei pela janela. O céu já estava escurecendo, mas a chuva ainda não tinha passado. E meu celular? Ele descarregou totalmente.
— E você, tenho certeza que partiu alguns corações em New York.
— Eu não sou a pessoa que parte corações, Alex.
Ele abaixou a cabeça.
— É, eu sei. Mas, por favor, não leve a mal. Só estou tentando saber! Não seja tão cruel comigo.
— Ta bom. – Tentei sorrir de novo, disposta a deixar tudo aquilo para trás. — Eu conheci alguns caras, é verdade. Mas não tive nada sério com ninguém.
— Você não se apaixonou por ninguém?
— Não. Não depois de...
Eu queria completar: de você ter partido meu coração pela trigésima vez.
Mas eu não o fiz.
— É, nem eu.
— Porque? Culpa?
Eu não podia resistir a oportunidade de alfineta-lo.
— É, talvez seja culpa mesmo.
— Espero que sim. – E eu falava a verdade. Tudo bem que eu tenha esquecido e superado até então. Mas agora com ele bem na minha frente, tudo tinha voltado à tona. Os bons e os maus sentimentos. — Mas vamos falar de coisas boas...
E voltamos a conversar com dois velhos amigos.
Ele perguntou dos meus pais. Eu disse que estava tudo bem. Tudo normal. Eles ainda moravam naquela velha casa e minha irmã estava cada vez mais crescida, mais esperta e muito mais inteligente do que eu quando tinha a idade dela.
Provavelmente, ela seria um tipo de atleta olímpica.
Ela leva muito jeito para isso.
O que eu notei durante nossa conversa, foi que apesar de todas as mudanças radicais em nossas vidas – e outras nem tanto – nós ainda éramos aqueles dois jovens bobos que provocavam um ao outro, riram de tudo e que amavam intensamente.
Sem contar que ele ainda é lindo de morrer com seus cachos negros em constate com os olhos verdes intensos. E tinha o mesmo perfume característico que eu amava. E uma barba que me fazia ter vontade de toca-la e senti-la.
— Olha, a chuva parou. Acho melhor eu ir para casa.
— Mas você comentou que ainda não tinha sua própria casa.
— E não tenho. Mas terei em breve. Agora só preciso descansar.
Ele me ajudou com as coisas e nós finalmente deixamos o aeroporto.
— Vou pedir um táxi.
— Se quiser, posso te levar de carro. Lá está ele!
Ele apontou.
— Uau! Você abandonou aquela lata-velha.
— Foi difícil para mim, sabia? Eu sofri muito!
Eu ri.
— Obrigada, mas eu vou de táxi.
— O.K. Então... Tchau, Luci.
— Tchau, Alex.
Ficamos nos olhando sem dizer nada. Apenas sentindo. Eu não sabia o que ele estava sentindo nesse momento. Mas o que eu estava sentindo era confuso. E meio desesperador. Eu precisava fazer algo. Só não tinha muita certeza do que.
Acabou acontecendo de qualquer forma.
Nós nos abraçamos forte ao mesmo tempo.
— Não vá embora agora. – Disse ele, olhando fixamente para mim quando nos soltamos. — Venha comigo. Venha conhecer o meu lar. Venha conhecer o Frederico.
— Eu adoraria, Alex. Mas...
— Só diga sim.
Suspirei fundo.
E agora, Luciana? Vai fazer o quê? Fugir ou enfrentar?
— Sim. Vamos. – Acabei dizendo.
Só espero não me arrepender depois. E não me culpar por isso. Afinal, eu estava muito bem até agora. Até reencontra-lo. Eu sabia exatamente o que queria para mim. E agora, com ele diante de mim, eu já não sabia mais nada, apenas que não estava pronta para afasta-lo de vez e talvez eu nunca tenha estado. Eu só fingi.
Não falamos nada durante todo o trajeto. Eu estava nervosa e pelo que eu pude perceber, ele também estava. E nós sabíamos exatamente porque: estava acontecendo. Finalmente estava acontecendo. Esse era o nosso momento.
O destino não estava zombando da gente dessa vez. Ele estava nos dando uma forcinha e cabia a nós colaborar com ele ou não.
Alex resolveu ligar o rádio para amenizar a tensão. A principio, funcionou. Mas aí começou a tocar uma musica bem familiar para nós dois. Sutilmente, do Skank. A nossa musica. Quase não acreditei. Essa música é tão antiga!
Na mesma hora, ele olhou para mim e eu olhei para ele. E juntos nós rimos.
Talvez seja um sinal...
O apartamento dele era mesmo muito mais bonito que o anterior. Parecia muito mais adulto e bem decorado. Tinha uma sacada ampla, com uma vista incrível de toda a cidade. E um cachorro saltitante e alegre. Pequeno, branco e gorducho.
Eu o apertei muito e depois o coloquei de volta no chão.
— Gostou?
— Eu amei tudo! É diferente, mas se parece com você.
— Eu não acho. Sempre achei que faltava alguma coisa...
— Para mim está perfeito!
Era verdade. Seria o tipo de lugar que eu teria escolhido para mim.
Fui até a sacada. Sentindo o ventinho frio bater no meu rosto.
— Você não quer ligar para os seus pais? Use o meu celular. – Disse, quando se aproximou de mim e colocou uma manta sobre meus ombros nus.
— Não. Melhor não. E eles nem sabem que voltei. Era para ser uma surpresa e acho melhor que continue assim.
— Tudo bem, então.
O silencio se estendeu entre nós. Um silencio que no início era até reconfortante, mas depois passou a ser desconfortável. Pois com ele ao meu lado, meu coração parecia inquieto e meus pensamentos intensos demais. Talvez eu devesse puxar assunto, dizer alguma coisa para amenizar as coisas. Torná-las mais leve.
Mas o que eu poderia dizer agora? Haviam tantas coisas para serem ditas!
Como por exemplo: Ei, eu senti a sua falta. Parece que não. Mas eu senti. Eu tentei não pensar em você em todos esses anos. E eu quase consegui. Mas havia dias em que era impossível. Principalmente quando eu me sentia solitária e incompleta. Quando nenhum homem parecia tão bom para mim quando você foi, apesar de nenhum deles terem partido meu coração tantas vezes. A verdade é que eu amo você. Eu ainda amo você e sempre amei. Sou idiota por isso? Talvez eu seja. E te culpo por muitas coisas, mas culpo a mim também. Afinal, não somos perfeitos e nunca seremos. Mesmo assim, é você que eu quero. E espero que me queira também. Por favor, não diga que não quer mais me machucar e nem me fazer sofrer. Esse tipo coisa acontece. Não tem como evitar e mesmo assim eu quero você e quero que você esteja lá quando essas coisas ruins acontecerem para me dar a certeza que apesar de tudo, fomos feitos um para o outro e nos pertencemos e que o amor entre nós dois sempre prevalecerá.
Isso parece bom, não parece?
É isso. Vou dizer exatamente essas palavras.
— Alex...
— Luci...
Nos viramos de frente um para o outro ao mesmo tempo.
— Luci, me perdoe por...
— Não.
Eu me aproximei e o calei com um beijinho rápido.
— Não precisa dizer. Eu sei.
— Você sabe?
— Sim. Sei. Sei que meu lar é junto de você.
— Mas.... Como?
— Eu só sei.
— É. – Ele sorriu, tocando meu rosto. — Acho que sei também. Eu só tive medo de dizer e de admitir. Porque achava que você ainda sentia ódio de mim e que jamais me perdoaria, como você mesma disse aquele dia. Mas eu sei o que falta aqui. O que sempre faltou: você. Você é o meu lar. E eu quero compartilhá-lo com você. Eu esperei muito tempo por isso!
— Então, vamos fazer isso. – Peguei suas mãos.
— Com certeza nós vamos. – Ele segurou meu rosto e me beijou profundamente. — Eu te amo, Luciana. Tudo que faltava era você. Que bom que você está aqui agora. Eu nunca mais te deixarei partir de novo. Você não sabe o quanto eu...
— Sim. Eu sei. Sei porque senti o mesmo. – Olhei bem dentro de seus olhos verdes. — Só não me deixe de novo.... Por favor... – Meus olhos se encherem de lágrimas.
— Não! Não vou deixar. – Ele estava chorando também. — Eu aprendi com meus erros. — Disse ele num sussurro, enquanto seus lábios tocavam cada pedacinho do meu rosto coberto de lágrimas que eu não podia evitar. — E aprendi que jamais serei completamente feliz sem você.
Nos beijamos de novo, de novo e de novo.
— Quero ficar aqui com você. Para sempre.
— Fique. Para sempre. Por favor.
E ele me apertou forte de encontro ao seu peito, onde eu repousei minha cabeça, fechei os olhos e sorri enquanto as últimas lágrimas escorriam do meu rosto.
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