Tudo de Mim
20 Para tão, tão distante
Notas iniciais
Lorenzo me levou a um terreno baldio, desses bem abandonados mesmo, sem nenhuma construção ou entulho, com nada de lixo e pouca vegetação.
— O que diabos significa isso? – Perguntei ao descer do carro.
Ao menos o dia estava claro, fresco e bonito.
Lorenzo sorriu animado.
— Pega sua câmera.
Voltei a abrir a porta do carro e peguei minha mochila esquecida lá dentro com a minha câmera dentro.
Passamos a tarde ali, sozinhos, treinando fotografia. Lorenzo me ensinou praticamente tudo que ele sabia: técnicas que eu desconhecia, formas de valorizar a foto com iluminação natural, como posicionar a câmera para obter melhores ângulos e principalmente saber a valorizar espaços e coisas que para a maioria das pessoas não significa nada.
Quando cheguei ali a algumas horas atrás, eu não dava nada para aquele lugar e até achei que o Lorenzo estava se divertindo as minhas custas como uma forma de punição.
Por várias vezes me perguntei que tipo de fotos tiraríamos daquele local se ele não tinha nada de extraordinário há nos oferecer. E foi aí que me enganei. Lorenzo me provou isso de várias maneiras e por fim, concluí, que devo parar de julgar coisas e pessoas sem ao menos lhe dar uma oportunidade ou conhece-las melhor.
As fotos ficaram ótimas. Eu fiquei surpresa comigo mesma.
— Viu? Você é ótima. – Disse ele, posicionado logo atrás de mim enquanto eu passava foto por foto para analisá-las melhor de mais perto.
— Mas só porque eu tenho o melhor professor de todos. – Digo, com um sorriso enorme. Nunca tirei fotos com significados tão.... Profundos e misterioso.
— Me sinto lisonjeado, mas isso não é totalmente verdade. – Agora ele está de frente para mim, com sua câmera cem vezes mais cara pendurada no pescoço, o que eu particularmente acho sexy e charmoso. Pelo menos sim no caso dele. — Você já nasceu com o dom, só precisa aprimorar cada vez mais.
— Sei não, hein.
— Eu posso te ensinar tudo que sei, se você quiser.
Arregalo os olhos.
— Mas é claro que eu quero.
— Jura? Então, serei seu instrutor daqui por diante.
Sorrio.
— Minha vida está cheia deles.
Lorenzo me levou para jantar na casa do Christian mesmo, onde ele ainda estava hospedado. Não tivemos ideia melhor e nem mais elaborada. Apenas estávamos famintos por ter passado o dia fora sem comer nada, apenas tirando fotos. Até poderíamos ter ficado mais por lá, mas o céu já estava escurecendo, o que dificulta um pouco a qualidade das fotos.
Mais tarde ele me levou para casa. E eu até arrisquei em convidá-lo para entrar, sabia que meus pais já estavam em casa e essa era uma ótima oportunidade de apresenta-los. Mas Lorenzo se recusou. Acho que por timidez. E eu não insisti.
Passei um tempo com meus pais na sala e depois de meia hora subi para tomar um banho e capotar na minha cama. Mas antes que isso fosse possível, meu celular tocou e era o Lorenzo. Ele queria conversar, como se não tivéssemos passado o dia juntos. Ficamos conversando por horas que eu até perdi a noção do tempo.
Na segunda-feira fiquei bem surpresa quando ele apareceu na hora da saída para nos buscar para irmos ao cinema ver um filme que estreou recentemente.
— Faz tempo que eu não vou ao cinema. – Essa foi a desculpa dele.
Posso dizer que a Fabi e o Chris nem prestaram atenção no filme, pois passaram a maior parte do tempo se beijando e sussurrando safadezas uma para o outro no escurinho do cinema. E pela primeira vez eu não me importei e nem incomodei, pois estava ocupada demais tendo ataque de risos com o Lorenzo ao meu lado.
Não tive escapatórias e logo depois fomos estudar casa do Christian, só que como sempre, eu não estava com cabeça para isso. Estava farta. E o Chris, pela primeira vez, parecia sentir o mesmo. Então a Fabi teve a ideia de tentar recompensa-lo com doces sempre que ele se esforçasse um pouquinho mais. E isso me deixou enojada, pois ela dava os doces direto na boca dele, como se ele fosse um bebê.
Peguei meu celular disfarçadamente no bolso da mochila e digitei:
“Socorro! Me tira daqui AGORA!”
Enviei ao Lorenzo, desejando com todas minhas forças que ele estivesse ali, atrás de alguma daquelas paredes, entediado e sem nada para fazer.
Minhas preses foram ouvidas rapidamente, pois não demorou nem dois minutos e ele apareceu de repente. Entrou sem nem bater e me pegou pelo braço.
— Vem! Anda! Tem algo que você precisa ver. – Ele praticamente me arrastou para fora dali tão depressa que nem deu tempo da Fabi ou o Chris protestar.
— O que eu preciso ver? – Olhei para ele intrigada quando parados no corredor.
Lorenzo revirou os olhos.
— Nada. Essa foi só uma desculpa que eu pensei na hora para te tirar de lá.
— Ah. Ahhhh.... Entendi. – Caí no riso devido minha lerdeza. — Obrigada.
— Quer ver uma coisa bem legal? – Ele perguntou.
— Eu pensei que essa era só uma desculpa pra me tirar de lar.
Ele revirou os olhos de novo.
— Apenas me acompanhe.
Fomos ao quarto dele. Na verdade, não era bem o quarto dele. Apenas um quarto temporário, mas muito bem decorado, arrumado e limpo. Com as paredes brancas, janela larga coberta por uma cortina escura, uma grande cama de casal, um pequeno closet, um banheiro, prateleiras com poucos livros, uma poltrona de leitura, abajur e escrivaninha.
Mas essas não foram as únicas coisas que me chamaram a atenção. Pois tudo aquilo era um tanto quanto.... Formal. Nada daquilo tinha a ver com o Lorenzo. Apesar de ainda não conhecê-lo tão bem, eu sabia muito bem disso.
A mobília já estava ali quando ele chegou. Mas o cenário que ele criou para fotografia, com sua própria iluminação e tripé para apoiar a câmera era coisa dele.
Invenção dele. E muito original.
— Uau. Você fez isso tudo sozinho?
— Sim. Terminei agora a pouco. – Disse ele, orgulhoso. — Quer testa?
— Eu tirar fotos suas?
— Pode ser, ué. Mas eu prefiro que você seja a modelo primeiro.
— Ah, não. Posso ser boa em fotografar, mas nunca em ser fotografada.
— Eu duvido muito.
Com as mãos em meus ombros ele me arrastou até o meio do cenário e me posicionou em frente a sua câmera.
— Não saia daí. – Ele ordenou e se colocou atrás da câmera.
— O que devo fazer? – Perguntei, levemente constrangida.
— Seja natural.... Seja você.
É difícil essa questão.
Seja você... Mas quem eu sou, afinal? Se eu pudesse parar tudo, sair do meu corpo e me olhar de fora... O que exatamente eu enxergaria? Pele branca, cabelos curtos e lisos, olhos escuros e sem graça, magreza, nada de bumbum ou seios? Não pode ser só isso. Tem que ter mais! Eu sou mais do que isso. Mais do que apenas o exterior.
Eu sou.... Alegre, risonha, divertida, comunicativa, desajuizada, impulsiva, cabeça dura, nada inteligente, encrenqueira, ciumenta, bondosa, brigona, sentimental, carente e muitas outras coisas que eu poderia citar por horas e horas.
Bastou pensar nessas coisas para tudo acontecer naturalmente. Eu fiz caras e bocas. E várias posições esquisitas e malucas que pudessem representar a montanha-russa dos meus sentimentos. Lorenzo fez várias fotos e parecia se divertir tanto quanto eu estava a vontade de fazer aquilo sem medo de parecer estupida e ridícula.
É claro que eu não era nenhuma profissional. Mas o Lorenzo era quase como um e quando ele passou as fotos para seu notebook e passou a trabalhar nelas com seus programas de edição sofisticados, eu fiquei surpresa com o resultado.
Era quase como se eu tivesse...
— Você nasceu para isso. – Disse ele, como se lesse meus pensamentos.
— Você não precisa mentir, Lorenzo. – Brinquei, divertida.
— Eu estou falando sério! Olha só para você.... É espontânea e natural.
Olhei para mim mesma na tela daquele notebook e diferentemente do que eu esperava, eu me reconhecia ali. Não era uma completa estranha. Não era o que eu não era. Era exatamente o contrário. Aquela era eu. Aquela era a verdadeira Luciana.
A Luciana com todos seus altos e baixos, mas que o Alex não foi capaz de amar.
— O que foi? Eu disse algo de errado? – Lorenzo perguntou, preocupado.
Tirando-me daquele transe.
— Não! É só que... – Me afastei e virei o rosto. Eu me sentia estupida por estar pensando no Alex justamente agora e por me deixar abalar por isso.
— Quer conversar? – Lorenzo fechou o notebook e o colocou de lado.
Eu poderia contar tudo a ele naquele momento. Eu tinha confiança nele. Sentia que podia falar com ele sobre tudo, como se fossemos amigos desde pequenos. Mas eu optei por não fazer isso. Não queria estragar as coisas. Deixar tudo tão pesado. Não queria que ele conhecesse esse meu lado tolo e fraco. Não queria envolver o Alexandre nessa história. Ele não merecia isso. Ele não merecia mais o meu tempo.
— Quero! Mas não sobre mim... Sobre você! – Voltei a me sentar ao seu lado na cama espaçosa. — Me conta! Você se apaixonou por alguém na Europa?
— Ah, teve uma garota sim. O nome dela era Zoe. A gente se conheceu em um museu, durante uma exposição de fotografias. Estava cheio de gente de toda parte. Mas ela foi a única em quem reparei. A princípio achei que fosse coisa da minha cabeça. Afinal, ela era só mais uma garota entre várias outras. Só que isso não era verdade. Pois em todo lugar em que eu olhava, lá estava ela. Olhando para as fotografias como se fossem preciosas. Ela nem tinha reparado em mim ainda! Mas eu só sabia reparar nela ao invés de aproveitar a exposição. E no final, quando o lugar já estava quase fechando e esvaziando, eu criei coragem e fui lá falar com ela.
— Uau. Parece até coisa de filme. Conta mais!
Ele sorriu.
— No início conversamos sobre a exposição e quais fotos nós tínhamos mais gostado. Foi natural e conforme ela ia falando sobre sua admiração por arte, eu fui me apaixonando cada vez mais por ela. Quase como se fosse automático e destinado, sabe? Antes de ela ter que ir embora, trocamos os números de telefones. Passamos a nos falar todo dia e a nos encontrar nos tempos livres e aí foi rolando e quando dei por mim nós estávamos juntos, tendo algo sério. Mas algo me impediu de ir mais além. Porque apesar de gostar muito dela, eu sabia que meu lugar não era ali. Uma hora ou outra eu iria voltar para cá, para o Brasil e nada no mundo me prenderia ali. Então com o tempo eu fui me afastando, com medo de machuca-la quando chegasse a minha hora e ela foi ficando furiosa comigo e nós discutíamos muito e até que... Puf.... Acabou. Nunca mais ouvi falar dela. Mas também não fui atrás e voltei para o Brasil.
— Você foi cruel!
— Não, eu não fui. Eu só quis poupa-la! Quando fui para a Europa, minha intensão era só aprender, ter novas experiências e viver. Não queria ter nada muito sério, porque tudo aquilo era temporário. Eu sabia desde o início. Mas aí eu conheci ela e aconteceu. Não sei bem o que houve... Só aconteceu e quando dei por mim já era tarde demais. E não havia outro jeito. Eu acabaria a machucando de um jeito ou de outro. Não foi intencional! Não fiz por querer. Eu teria feito diferente seu pudesse...
— Mas você ainda gosta dela? Pensa nela?
— Para ser bem sincero? Não. Eu gostava muito dela. Tínhamos muito em comum e vivemos dias felizes. Mas eu não cheguei a ama-la. E isso torna tudo mais fácil.
— E você nunca tentou procurar saber como ela está hoje?
— Não. Eu não quero mais pensar nisso. Eu tento evitar.
Eu até entendia o lado dele, mas era algo que não entrava na minha cabeça de jeito nenhum. Ele gostou dela, eles tiveram uma história juntos, mesmo que curta e agora é só uma lembrança distante, algo que parece nunca ter existido.
Esse tipo de coisa não funciona comigo.
— Você é um sem coração, sabia? – Brinquei.
— Não sou não! – Ele se defendeu. — Eu só.... Não encontrei meu tempo certo.
— Mas ela deve ter sofrido muito! E por sua causa!
— Eu também sofri, sabia? Eu tenho um coração também!
— Mas não parece!
Ele riu.
— Você ainda tem muito a aprender sobre mim, Luci.
~*~
Na sexta-feira, estava saindo da casa do Chris, depois de uma longa tarde sendo obrigada a estudar cálculos um atrás do outro, quando vi algo inusitado.
Eu estava prestes a atravessar a rua quando olhei de um lado para o outro e vi aquela cena: homens uniformizados colocando alguns poucos móveis na calçada para depois coloca-los dentro do pequeno caminhão de mudança.
E entre toda aquela bagunça estava o Luiz.
Corri até ele.
— O que está acontecendo aqui? – Perguntei, ofegante.
— Estamos nos mudando. Não podemos mais ficar aqui, Luci. Não temos mais dinheiro para pagar a casa. Vamos para um lugar menor agora.
— Mas para onde? – Estava preocupada.
— Ainda não sei. Ninguém conversa comigo sobre essas coisas.
Ele parecia verdadeiramente chateado por continuar sendo expluído dos problemas de “adultos” que estavam acontecendo em sua família nos últimos tempos. E parecia mais chateado ainda por ter que ir embora da casa onde ele cresceu.
Dava para ver isso em seus olhos verde marejados.
— Eu sinto muito, Luiz. – Eu o abracei apertado.
— Luiz, vem cá ajudar. – Alguém gritou.
Ninguém menos que... Alexandre.
Olhei na direção dele e ele pareceu surpreso em me ver.
— O que você faz aqui? – Perguntou ele ao se aproximar. Impressão minha ou ele estava nervoso? — Eu pensei que você tivesse se mandado de vez da minha vida.
— Não estou aqui por você, seu estupido. Eu vim ver como o Luiz estava.
Por falar em Luiz... Ele tinha desaparecido. Evaporado dali.
Era só eu e o Alex mais uma vez.
— Agora você não precisa mais se preocupar. A gente nunca mais vai se trombar por aí. Eu vou embora daqui para bem longe. Você nunca mais vai me ver.
Após cuspir essas palavras na minha cara, ele voltou para dentro da casa, acho que para ajudar com o resto a mudança e evitar que eu desse um chute em seus dentes.
Segui meu rumo e caminhei lentamente até em casa.
Pensando nas palavras do Alex.
Uma coisa é eu chegar nele e dizer com todo o meu ódio e embriagues que o nosso fim é definitivo. Que nunca mais vamos voltar. Nem mesmo se ele implorar e joelhos. Outra coisa é eu saber que ele vai embora daqui e corro o risco de nunca mais vê-lo. O que poderia ser ótimo em outra perspectiva. Mais fácil de superar. Mas por outro lado, é doloroso e chocante. Pois nem mesmo amigos poderemos ser algum dia. Não quando eu nem se quer sei para onde ele vai.
Isso me faz chorar feito um bebezão quando entro no meu quarto e me jogo na minha cama de forma dramática.
Eu não queria que fosse assim.
Eu não queria que nada disso tivesse acontecido.
Quando sinto que já estou seca de tanto chorar e após me dar conta que encharquei meu travesseiro todo com as minhas lágrimas, ouço meu celular vibrar e então me estico para alcanço e quando vejo, é uma mensagem do Lorenzo.
“Posso passar aí? Tenho um convite pra te fazer. ”
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