Tudo de Mim
2 Os queridinhos vasos da mamãe.
Notas iniciais
Só acordei mesmo na manhã seguinte porque minha mãe estava me puxando para fora da cama pela perna.
Coisa que acontece muito quando eu durmo feito uma pedra.
Meu celular deve ter tocado milhares de vezes, mas meu sono estava tão pesado que eu nem se quer ouvi.
Dormir certamente é uma das melhores coisas da vida.
Como estava atrasada, tomei um banho de dois minutos, coloquei uma calça jeans, uma blusinha qualquer e por cima o primeiro moletom que encontrei.
Para os pés um All Star. Tenho uma coleção deles.
Passei o pente rapidamente por meus fios finos. Meu cabelo não dá muito trabalho desde que decidi corta-lo um pouco acima dos ombros. Ele é bem normalzinho: preto, curto e liso. E minha franjinha lateral que precisa ser aparada urgentemente.
Dispenso a maquiagem por pura preguiça. Não sou muito vaidosa. Gosto de roupas básicas e comportáveis. Meu guarda-roupa é composto por cores pretas, brancas e cinza. E quando eu me maquio eu só capricho no delineador, rímel e no batom escuro para dar um pouco de vida a minha pele pálida.
Não tenho tempo para tomar meu café da manhã, pois a Fabi já está me esperando lá fora. Pego então minha mochila, meu celular e uma maçã.
Escuto a Fabi falar sobre seu animado final de semana dedicado aos estudos sem dizer uma só quer palavra.
Não sou uma pessoa muito sociável pela manhã e ela sabe disso e compreende, por isso não insisti.
Estar no terceiro ano é uma chatisse, porque é quando a gente está de saco cheio do colégio, dos colegas de classes, dos mesmos professores, das matérias estupidamente ridículas e desnecessária e preocupados com o rumo que tomará nossas vidas quando chegar o fim: vestibular, faculdade, trabalho e esse tipo de coisa que eu evito pensar por ainda não saber o que eu quero da minha vida.
Tenho que me esforçar ao máximo para não dormir nas três primeiras aulas: dobradinha de matemática e física. E me animo quando chega a hora do intervalo, pois estou faminta, só comi uma maçã a caminho do colégio.
Fabi e eu vamos direto para a lanchonete do colégio antes que a fila fique imensa e não dê tempo de comprar alguma coisa. Mas também não é como se tivéssemos muitas opções por aqui: misto-quente, coxinha, rissole, balas, latinhas de refrigerante e sucos de caixinha. De qualquer forma, dá para sobreviver.
Infelizmente não parou de garoar desde que saí hoje mais cedo de casa, então temos que procurar um canto por ali em meio a selvageria.
— Pelo que foi que você e o Alex brigaram dessa vez?
Eu odeio a Fabi. Odeio o fato de ela saber de tudo sem eu precisar falar. Quero dizer, as vezes isso é chato. Não é sempre que quero conversar. Mas ela tem o dom de adivinhação. O que também é muito bom, significa que ela me conhece bem.
Mas como não poderia?
Somos muito amigas.
— Ele ficou com a Thalita.
Fabi esbugalha os olhos.
— Minha nossa! Que cafajeste!
— Eu sei!
De repente estou cuspindo todos meus problemas para fora.
— Vamos dar um jeito de ferrar com ele, amiga. Não se preocupe.
Eu me enganei. Na verdade, eu amo a Fabi com todo o meu coração.
Ela é a melhor amiga que alguém pode ter.
Além de ser uma fofa com seus cabelos ruivos selvagens. Ela mais parece uma fada. Toda pequenininha, com os olhos claros e o rosto cheio de sardas.
Dá vontade de apertar.
Depois de sobreviver as duas últimas aulas, espero pela Fabi lá fora, em frente ao colégio e adivinhem: Lá está o Alex parada com seu carro velho.
Viro-me e finjo que não o vi.
— Vamos? – Para minha sorte, Fabi surge cinco segundos depois.
Estamos andando pela calçada quando um carro segue ao nosso lado em baixa velocidade.
É claro que é o Alexandre, só para me perturbar.
— Ei, meninas. Entrem! Vou levar vocês para casa.
Aperto forte a mão da Fabi e na hora ela entende o recado: vamos simplesmente ignora-lo e deixar que ele aja como um maníaco descontrolado.
— Meninas, por favor. Entrem logo!
Estou perdendo a paciência com ele.
— Alex, cai fora. Deixa a gente em paz! – Pede a Fabi, dando atenção a ele pela primeira vez.
— Luciana, por favor, entra aqui. Vamos conversar!
— Eu não quero falar com você. – Digo ainda sem olhar para ele.
Continue andando, garota. Continue andando.
— Luciana, por favor, me desculpe. Vamos só conversar.
Aperto a mão da Fabi mais forte.
— Alex, ou você cai fora agora ou eu serei obrigada a tomar alguma providência contra você.
É tão adorável quando ela faz um esforço enorme por mim, como ser dura com alguém sendo que ninguém a levaria a sério por ela ser toda fofinha e pequeninha.
Igualzinha a um bebê que a gente carrega no colo o tempo todo.
— Fabi, fala com a sua amiga. Tente convence-la a falar comigo!
Ele deve estar muito desesperado para implorar algo desse tipo.
Mas não é o bastante para mim.
Ouço o cara do carro de trás buzinar para o Alex, impaciente por ele não estar andando como deveria.
— Luci, eu acho que você deveria pelo menos...
O quê?
— Ei. – Paro e olho feio para ela. — O plano não era ferrar com ele?
— Sim, era. Mas...
Fecho meus olhos e suspiro fundo.
— Tudo bem, tudo bem. Espere aqui. Vou falar com ele.
Ela solta a minha mão e dá uma corridinha até o carro do Alex, que agora está parado no acostamento.
Esperando.
Permaneço onde estou.
— Pronto. – Vou até ela quando vejo o carro do Alex se distanciar.
— O que você fez?
— Apenas falei com ele o convenci de que não era uma boa hora.
— Mas o plano de ferrar com ele ainda está de pé, né?
— Claro! – Ela volta a segurar a minha mão e seguimos nossos caminhos.
Em casa, preparo algo para eu almoçar.
Minha mãe está no trabalho. Ela tem uma lojinha pequena de roupas que faz o maior sucesso. De vez em quando eu apareço por lá para dar uma força e ganhar um dinheirinho extra. Meu pai também está no trabalho e chega ainda mais tarde. Ele é administrador em uma empresa de grande porte aqui da minha cidade.
Eu tenho a tarde inteira só para mim.
Depois de comer, me jogo no sofá e procuro algo para assistir. Mas como sempre não há nada de interessante. Então eu pego meu celular e resolvo dar uma fuçada nas minhas redes sociais: Facebook, Twitter e Whatsapp.
Não sei porque fico levemente decepcionada por não ter nenhuma mensagem do Alex.
Acabo tirando um cochilo pela tarde e depois que acordo resolvo tomar mais um banho e vestir uma roupa quentinha já que está um pouco friozinho.
A garoa já deu uma trégua.
Não tenho nada para fazer do resto do meu tempo, mas meu quarto está uma zona terrível. Acho melhor eu dar um jeito nele agora antes que minha mãe resolva pegar no meu pé por causa disso.
Meu quarto é muito simples. As paredes são brancas e cobertas de fotografias minhas, da minha família, de lugares, paisagens, animais e principalmente do Alex. Minha coisa favorita de fotografar. E não é querendo me gabar não, mas fotografar é algo que eu faço muito bem. Até porque essa é minha única vocação na vida.
Fora as milhares de fotos, tem uma cama, uma guarda-roupa e uma escrivaninha.
Nada muito sofisticado.
Meu quarto deveria ser o meu lugar favorito no mundo. E as vezes, ele realmente é. Mas desde que eu comecei a ficar com o Alex, o apartamento dele se tornou meu lugar favorito no mundo. Onde eu me sinto totalmente a vontade e posso fazer o que quiser. Aqui em casa eu tenho limitações por causa dos meus pais. Nem sempre eles são capazes de compreender minhas loucuras.
Eu já poderia ter me mudado para o apartamento dele se quisesse. Alex sugeriu isso uma centena de vezes. Eu só ainda não fui por achar ser muito cedo para dar esse passo. Apesar de praticamente já morar por lá. Muitas coisas minhas estão lá. E também não sei se meus pais concordariam com isso. Eles amam o Alex. Mas eles não parecem estar preparados para perder a única filhinha deles.
Quando termino aquela arrumação o céu lá fora já está escuro e não falta muito para os meus pais chegarem.
A campainha toca.
Deve ser a Fabi, penso.
Desço correndo para ver quem é.
— Alex, que merda você está fazendo aqui?
Ele entra sem nem precisar ser convidado.
— Precisamos conversar. – Diz ele.
Fecho a porta ainda indignada tamanha ousadia.
— Não temos mais nada para conversar, Alex.
— Não, Luci. Você está enganada.
Ele é tão cabeça dura quanto eu.
Sei que ele não vai sossegar enquanto eu não ceder.
— Então fala logo o que você quer me dizer.
— Primeiramente, queria me desculpar novamente.
Ele dá alguns passos na minha direção.
— Nem ouse a chegar perto de mim, Alexandre.
Ele suspira e recua.
— O.K. E segundo, quero dizer que você é única e que eu sempre vou amar você. Todas essas brigas e todos esses desentendimentos não são nada comparados ao que eu sinto por você. E terceiro, eu quero ficar numa boa com você. Então, por favor, me perdoa. – Ele faz cara de cachorro abandonada. — Você me perdoa?
Todas essas coisas ditas e essa carinha inocente fazem meu coração amolecer, mas não o bastante.
— Eu não sei sou capaz de perdoar isso, Alex.
— Luci, eu estava bêbado. Poxa vida! Eu estava muito mal. Nós tínhamos brigado feio e tínhamos terminado. Você sabe que eu jamais faria isso se...
— Não coloque a culpa na bebida! – Digo, um pouco alto demais.
— Eu sei, eu sei. Mas por favor! Por favor, tente entender.
Parece até que eles está prestes a chorar e se isso acontecer, eu vou chorar também. Muito mais do que eu chorei ontem a noite tentando dormir.
— Eu te amo, Luciana...
Ele tentou mais uma vez chegar perto de mim, mas eu estava com muito mais ódio do que tristeza. Estava sendo muito difícil para mim processar isso tudo.
Eu só queria um tempo!
— Não chegue perto de mim.
— Luci!
— Não chegue perto de mim! – Gritei dessa vez.
Ele se assustou.
Olhei em volta em busca de algo que pudesse enfatizar a minha ira.
Vi os vasos da mamãe sobre a mesinha.
Coloquei a mão em um deles.
— Fique longe.
— Luciana – Ele olhou para mim e depois para o vaso em minhas mãos. — Você não seria capaz disso. Você sabe o quanto sua mãe ama esses vasos.
Sim, eu sei. Mas não tenho outras armas disponíveis agora.
— Eu não farei nada com eles se você continuar parado onde está.
— Mas...
Não deu mais para aguentar.
Sinceramente, eu queria muito machuca-lo agora. Ferrar com ele.
Sem pensar duas vezes joguei o vaso em sua direção, mas ele foi mais rápido. Teve um ódio reflexo e abaixou bem na hora. A tempo de salvar sua testa.
— Você ficou doida? – Seus olhos estavam arregalados.
O vaso da minha mãe agora estava espatilhado no chão.
Meeeeeeerda!
— Ai, Meu Deus. O que foi que eu fiz? – Desviei os olhos do vaso e voltei a olhar para ele. — A culpa é sua! Totalmente sua! Por você duvidar de mim.
Agora eu estava gritando feito uma maluca descontrolada.
A porta se abriu.
— O que está acontecendo aqui? – Era minha mãe. E ela tinha acabado de chegar e presenciar essa cena. Não que ela não estivesse acostumada. Mas o vaso dela... Alguém por favor esconde os cacos de vaso quebrado antes que... — Luciana?
Ela estava olhando feio para mim, em busca de explicação.
E se eu colocasse a culpa no Alex? Nada disso teria acontecido se ele não tivesse aparecido aqui de repente e causado toda essa confusão desastrosa.
— Mãe... Eu... Eu...
— Eu preciso ir agora. – Alex passou por mim sem nem olhar. — Me desculpe por isso. – Diz ele parado em frente à minha mãe. — Tchau, tia Mariana. Eu volto depois.
E ele simplesmente foi embora.
O cretino foi embora!
— Luciana, estou esperando uma explicação.
Como eu não tinha nenhuma, fiz o favor de ir até a área de serviço para pegar uma vassoura e limpar a sujeira que eu fiz. Depois eu tentei inutilmente subir para o meu quarto, mas minha mãe me segurou por ali. E nós ficamos sentadas lado a lado no sofá, caladas, esperando meu pai chegar para decidirmos o rumo aquela história.
Meu pai chegou uma hora depois.
Minha mãe foi logo contanto tudo a ele, que me olhava feio, em desaprovação.
Eu estava muito, muito ferrada. E me senti ainda mais desesperada quando eles foram juntos para o outro cômodo, certamente para discutir o que fariam comigo em forma de punição. Provavelmente eu teria que vender meu rim para comprar outro vaso.
— Luciana, querida, o que está acontecendo com você? – Meu pai abaixou-se em frente a mim, com a gravata frouxa em volta ao pescoço.
Ele parecia muito mais calmo agora.
— Estou muito desapontado com você. – Continuou ele, me olhando no fundo dos olhos. Como fazia quando eu era criança e desobedecia. — Seja lá o que esteja acontecendo entre você e o Alex, deem um jeito de resolver isso.
Ele se levantou.
— Ah, e sua mãe está muito triste com você por conta do vaso.
Eu não poderia estar me sentindo ainda pior.
Subi para o meu quarto de cabeça baixa. Nem se quer tive coragem de descer para jantar. Mas liguei para a Fabi e contei tudo, aos prantos.
Ela quis vir aqui em casa me dar um apoio moral, mas eu a impedi. Porque já estava tarde, frio e chovendo lá fora. E não acho que meus pais gostariam que eu recebesse uma visita depois do que aconteceu. Provavelmente eu estava de castigo.
Peguei meu celular e digitei uma mensagem rápido para o Alex.
Eu odeio você seu cretino traidor.
Ele apenas me mandou uma carinha triste de volta, o que me fez odiá-lo mais.
~*~
No outro dia, quando cheguei do colégio, eu subi direto para o meu quarto com passos pesados.
Eu estava decidida a fazer algo.
Arranquei todas as fotos da minha parede que eu tinha do Alex, sozinho e comigo.
Joguei tudo dentro de um saco preto.
Estava prestes a levar o saco lá para fora e colocar fogo quando lembrei que poderia fazer algo muito pior.
Deixei o saco preto de lado e fiz um arrastão no meu quarto, pegando todas as coisas que pertencia ao Alex que ele tinha esquecido ou me dado.
Eu não queria mais nada que me remetesse a ele.
E eu ia dar um jeito nisso hoje.
Mais tarde, depois de comer um prato de macarronada, tomei um banho, coloquei um jeans e uma blusa de mangas longas e um All Star.
Saí de casa com vários sacos pretos.
Chegando ao andar do Alex, me deparei com ele de gracinha com sua vizinha nova.
Não poderia ser diferente, já que ele era um cretino traidor.
Assim que me viu ele, se endireitou. Eu olhei feio para ele e entrei em seu apartamento aberto. Não demorou muito para ele vir atrás de mim, surpreso.
— Você me perdoou? – Ele estava sorrindo.
Coitado. Tão iludido.
— Não. Muito pelo contrário. Vir trazer esse lixo. Ele te pertence.
Peguei saco por saco e despejei tudo que tinha dentro no chão, aos pés dele que olhava aquela cena sem entender nada.
— Faça bom proveito. – Fui rumo a porta.
Meu trabalho estava concluído por ali.
— Ei. Não. Você não pode fazer.
— Sim, eu posso. E fiz.
Abri a porta, mas ele me puxou pelo braço.
— Luci, não. Não faça isso.
Seus olhos verdes estavam cheios de lágrimas.
Tentei aguentar firme.
— Eu preciso ir agora, Alexandre. Adeus.
— Não, Luci. Não.
A primeira lágrima escorreu por seu rosto.
— Você não pode me deixar assim. Eu amo você!
As outras lágrimas vieram logo depois.
Tentei me soltar das garras dele antes que fosse tarde demais. Antes que eu amolecesse de vez e acabasse dando um passo para trás. Colocando meu trabalho por água a baixo. Mas ele me segurou com ainda mais força. Os olhos fixos nos meus.
— Luci...
Sem eu nem perceber, sem eu nem conseguir me mover, o rosto dele já estava perto o bastante para eu sentir sua respiração pesada contra a minha.
Ele soltou meu braço e estava agora segundo meu rosto perto do dele.
Tentei desviar o olhar, mas esse também foi um ato falho.
Quando dei por mim, meus olhos estavam totalmente fechados. A espera. E seus lábios não demoraram muito para buscar os meus. Doces e macios. Ele me beijou de uma forma suave no início. E depois mais urgente, prendendo-me na parede.
Ele estava me segurando com força, mas eu sabia que aquilo não era desejo. Era medo. Medo de me soltar e eu fugir. Coisa que eu estava sendo incapaz de fazer agora. Por estar inteiramente entregue ao seu beijo, com gosto o salgado por causa de suas lágrimas que não paravam nenhum instante de rolar por suas bochechas.
— Eu te amo. – Ele sussurrou. — Vamos tentar de novo. Vamos fazer diferente dessa vez.
Apertei os olhos, sentindo que também ia chorar.
— Eu também te amo, Alexandre. Te amo muito! – Disse fraca, ao finalmente abrir os olhos e encará-lo. — Mas preciso de um tempo.
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