Tudo de Mim
6 Momentos inesperados.
Notas iniciais
Chegamos ao local da festa em poucos minutos.
Já estivemos aqui uma centena de vezes. Alex tem muitos amigos, principalmente da época do colégio. Ele era muito popular. Mas não são todos eles que têm um lugar disponível para dar suas festinhas nos finais de semana. O Davi é diferente. Ele vive disso. Vive do dinheiro que consegue nessas festas. E vive da arte. Foi ele quem grafitou o apartamento do Alex um ano atrás.
Sua casa – que não é bem uma casa – também é inteiramente grafitada. Basicamente esse lugar é composto por uma ampla sala cheias de sofás velhos, uma TV, um videogame e um aparelho de som. Mais à frente uma cozinha não muito elaborada. Lá em cima, um banheiro feminino e masculino e dois quartos, sendo um deles trancado a sete chaves. Nos fundos da casa tem um quintal com churrasqueira e uma piscina não muito grande, mas muito proveitosa.
Para entrar pagamos dez reais cada um. Além de garantir sua sobrevivência com esse dinheiro – já que ele não precisa de muito — Davi fica encarregado de manter o freezer sempre cheio de bebidas e os armários cheios de salgadinhos.
Lá dentro já está abarrotado de gente, sendo a maioria rostos conhecidos de outras festas. Alex vai na frente, mas não solta a minha mão por nada. Ele está usando jeans escuro, camiseta vinho e tênis preto. Seus cachos castanhos estão rebeldes como sempre e os olhos verdes escuros pela falta de iluminação do ambiente.
Enquanto Alex cumprimenta o pessoal mais chegado, vou até a cozinha pegar uma cerveja para mim. Não sou muito de beber e nem de extrapolar. Até porque ainda sou menor de idade. Mas nem lembro qual foi a última vez que dei vexame. E também nem sei porque bebo de fato, já que o gosto da cerveja não é lá essas coisas.
Apenas bebo socialmente quando estou com a galera.
Por falar em galera, a maioria do pessoal está na sala, fumando narguilé e ouvindo música ou até mesmo conversando e jogando videogame. Lá fora estão os mais agitados, curtindo a piscina e pegando geral.
— Luciana?
Pego minha cerveja e quando fecho a porta do freezer dou de cara com o Christian.
— Chris, o que tá fazendo aqui?
Com um largo sorriso ele se aproxima e me cumprimenta com um rápido abraço.
Parece feliz em me ver.
— Vim pegar uma cerveja, ué.
— Não. – Dou risada. — Aqui na festa, quero dizer. Nunca te vi aqui antes.
— Então você vem muito aqui? – Ele parece surpreso.
— É, mais ou menos. Mas você ainda não respondeu a minha pergunta.
— Ah, sim. Vim com um amigo. – Ele passa muito perto de mim e pega uma cerveja também. — É minha primeira vez aqui. Estou gostando muito.
De tudo que poderia acontecer essa noite, por essa eu não esperava.
— E você? Veio com aquela sua amiga baixinha? A ruivinha.
Ah, meu Deus. Ah, meu Deus.
Então ele se lembra dela?
Será que o Chris está a fim da Fabi?
Preciso ligar para ela agora mesmo e contar isso para ela. Quem sabe a novidade não a anime um pouquinho, já que ela anda muito tristinha ultimamente.
Abri a boca para responder quando um garoto muito alto, magricela, de bigode escuro e cabelo roxo apareceu de repente.
— Christian! O que tá fazendo aqui, cara? Vem, tenho umas amigas para te apresentar.
O garoto saiu arrastando o Christian para longe dali.
Antes de sumir de vez ele gritou:
— Te vejo mais tarde.
Demorou um pouco mais finalmente encontrei o Alex perdido em meio a tanta gente.
Diferente de mim, ele não bebe nada alcoólico. Exceto, é claro, quando ele resolve bancar o canalha. Como no dia em que brigamos e ele resolveu pegar a vaca da Thalita. Alex é muito fraco para bebidas. Fora isso, ele não é de beber. Ainda mais quando vai dirigir depois. Pode não parecer, mas o Alex é um cara muito responsável quando quer.
— Oi. Você demorou. Onde estava?
Alex e eu nos afastamos do grupinho onde ele estava conversando.
— Encontrei um amigo do colégio.
Alex que tinha me abraçado, me solta de repente.
— Não sabia que você tinha amigos no colégio. – Observou ele, intrigado.
— E se eu tiver, qual é o problema? – Dei um gole na minha cerveja gelada e olhei para ele de forma desafiadora.
Bom, pelo menos tentei.
— Nenhum problema. Mas não lembro de você ter comentando comigo antes.
— Sabe, assim como você, eu também conheço muita gente. E... É claro que não lembra! A gente vive brigando e se separando.
— Sim, é verdade. – Ele volta a me abraçar carinhosamente. — Mas isso não vai acontecer de novo.
Satisfeita com sua resposta, dou um beijinho nele. Depois olho em volta e não vejo o Chris em lugar algum.
Deve estar curtindo a festa.
Alex e eu vamos para o quintal falar com um pessoal e só então vejo o Chris perto da piscina, jogando charme para duas morenas.
Uma delas tem um cabelo black de matar. Já o meu cabelo é tão sem graça, tão liso e curto. Quase não dá pra fazer nada. Ele está sempre do mesmo jeito.
— Os cara estão todos olhando pra você. – Alex comenta enquanto acaricia minha bochecha.
Adoro o fato de que, não importa onde estamos, ele sempre me trata como se eu fosse uma joia muito preciosa.
Alex não tem vergonha de expressar seus sentimentos: sejam eles ruins ou bons.
— Não é verdade! Olha o tanto de garotos lindas que tem aqui essa noite.
— Mas nenhuma delas é tão especial quanto você.
Ele me beija docemente.
— Não tem com o que se preocupar, Alex. Eu sou sua.
Nos beijamos mais uma vez.
Alex e eu nunca nos importamos em demonstrar afeto na frente dos outros.
Se tiver que nos beijar, nós nos beijamos. Se tiver que nos abraçar, nós nos abraçamos. Se tiver que gritar um com o outro, nós gritamos.
Desde que não seja demais, está tudo certo.
Afinal, ninguém tem nada a ver com o que a gente sente.
O pessoal começa a se empolgar demais ali fora, jogando uns aos outros na piscina. Então, Alex sugere que voltemos para dentro de casa antes que resolvam nos pegar também. E eu o chamo para dançar. Mostrar para essa gente como se faz. Detalhe: nós não sabemos dançar, mas tentamos. E de repente, nos tornamos a sensação do momento. Somos um casal bastante desinibido. Quando é para se divertir, nós nos divertimos para valer. Desde que estejamos juntos, nada do que digam ou pensem importa para nós.
— Preciso ir no banheiro. – Sussurro para Alex e me afasto.
Subo as escadas e lá em cima faço minhas necessidades rapidamente.
— Ah, você ta aí. – Chris diz. Ele está encostado na parede oposta ao banheiro feminino. Como se estivesse o tempo todo esperando por mim.
— Andou me procurando? – Perguntei, divertida. — Você parecia bem ocupado lá fora com aquelas garotas.
— Não tanto quanto gostaria de estar agora. – Ele vem até mim muito sério e como o corredor é apertado, ele fica perto até demais.
— Christian...
Então ele me beija de forma inesperada.
Fiquei tão em choque que nem soube como agir, mas também não abri a boca para retribuir. Apenas fiquei travada, completamente paralisada.
— Que merda tá acontecendo aqui?
Alex.
Droga! Droga! Droga!
— Christian! – Me afasto e dou um tapa no rosto dele. — Você tá bêbado?
— Luciana. – Alex me chama.
Ele está chocado e visivelmente irritado com toda essa situação.
Aconteceu tudo tão rápido!
— Alex, esse é o Chris...
— Eu não quero saber quem é ele. – Disse ele rudemente.
Ele se virou e foi embora.
— Chris, você ficou doido? – Brava, viro-me para ele.
— Quem era ele? – Pergunta ele, confuso.
— Ah, meu Deus. Meu namorado.
— Você tem namorado?
Isso não pode ser real.
— Ah, meu Deus. Mas é claro!
Bufei e saí às pressas atrás do Alex antes que ele me abandonasse ali e eu não tivesse como voltar para casa. Sabia que ele poderia ser fofo na maior parte do tempo, mas sabia também que ele era muito bem capaz de algo assim contra mim.
— Você não foi embora. – Comentei aliviada, quando sem fôlego alcancei o carro dele, ainda parado onde deixamos mais cedo. — Precisamos conversar.
Abri a porta e entrei.
— Conversaremos em casa, então.
Uma das regras do Alex: nunca, jamais, bater boca enquanto ele dirige.
— Alex, você não entendeu. – Digo assim que entramos em seu apê.
São onze e meia da noite.
— Não entendi o quê, Luciana? Que tinha outro cara beijando a minha namorada?
— Sim, isso é verdade. Acontece que eu não gosto dele e nem ele de mim! Ele só estava bêbado. – Me larguei em um dos pufes, frustrada. — A verdade é que ele é só um garoto da minha turma que a Fabi é a fim.
— Tá, e daí?
Ele continua em pé e com sua típica expressão de irritação.
— E daí que tô tentando ajudar ela a conquista-lo.
— Beijando a boca dele?
— Eu não beijei a boca dele, Alex! Ele beijou a minha.
Alex vira o rosto, inconformado.
— Já não gosto desse cara. Não acho que ele seja bom para a Fabi.
— Alex, mas nós não podemos julgar isso. É ela que decide.
— Então, vou falar com ela. – Ele pega o celular no bolso.
— Não! – Berro, me levantando. — Você não pode contar para ela o que aconteceu hoje.
— Porque não? Pensei que fossem amigas.
— E somos! Por isso mesmo. Imagine como ela vai se sentir quando souber que o cara que ela gosta resolveu me beijar de uma hora para outra?
— Exatamente. Assim ela saberá que ele é um canalha.
— Alex, não dificulte as coisas. Ele só estava bêbado!
Alex suspira profundamente.
— Você é uma péssima amiga, sabia disso? Sabe que o cara não presta e ainda está tentando fazer com que ele fique com sua melhor amiga.
Ai essa doeu.
— Você não entende.
Realmente.
Ele não sabe da história toda. Não sabe que a Fabi não tem coragem de falar com o Chris diretamente e por isso fiquei encarregada de tentar junta-los, o que deve ter passado a ideia errada e só por isso ele tentou me beijar. Porque achava que eu era a amiga misteriosa o tempo todo. Eu já deveria ter imaginado que isso iria acontecer. Essas coisas nunca dão certo. Preciso falar com a Fabi. Cansei dessa história. Não vou mais ajuda-la nisso. A partir de agora ela terá que se resolver sozinha com o Chris.
Até porque eu já fiz tudo que podia.
Alex toma um banho e se prepara para dormir.
Eu não estou com sono, pois não consigo parar de pensar na Fabi, minha amiga, e no Chris e o beijo que me deu na festa. Merda! Será que eu deveria contar a verdade a ela? Eu odeio mentiras. Então porque estou pensando em mentir para ela? Eu só não quero decepciona-la ou magoa-la. Ela pode até não me dizer com todas as letras, mas eu sei que ela está cada vez mais apaixonada pelo Christian e mesmo que ele não esteja nem perto de ser o cara perfeito e ideal, quero que ela seja feliz.
Quero que ela tenha uma experiência real do amor que vai além de seus livros de ficção.
Não vou pensar nisso agora. Na segunda-feira de manhã no colégio vou resolver tudo isso de uma vez por todas. Vou falar com a Fabi. Vou falar com o Chris. E tenho certeza de que tudo dará certo. Ele se arrependerá de ter achado que eu era a pessoa a fim dele, porque a Fabi é incrível e amável e uma garota muito melhor do que eu.
Depois de trocar de roupa, me junto ao Alex em sua cama. Ele já está deitado, mas ainda não está dormindo. Mesmo depois da pequena discussão que tivemos e mesmo depois de eu ter explicado toda a história, ele ainda parece muito chateado comigo e distante. Eu não quero dormir e acordar no outro dia sabendo que não me esforcei o bastante para consertar isso. Chega de brigas, chega de caras emburradas, chega de discussões e desentendimentos. Quero ficar numa boa com ele.
— Pensei que tivéssemos combinado que não teria mais brigas entre nós.
— Nós não estamos brigados.
Alex se vira para mim.
Olho dentro dos olhos dele.
— Então porque essa cara? – Pergunto.
— Que cara?
— Cara de quem comeu e não gostou.
Ele sorri.
— Só não gostei de ver outro cara te beijando.
— Alex, mas não significou nada. Eu já disse!
— Eu sei, eu sei. – Ele fecha os olhos por alguns instantes. — Você acha que eu não queria apagar aquela cena da minha mente para sempre?
— E eu gostaria que isso fosse possível. – Me aproximo dele. — Já sei! Talvez tenha algo que eu possa fazer que possa te ajudar, que tal?
— E o que você sugere?
Abro um sorriso travesso.
Inclino-me sobre ele e retiro o lençol devagar, então começo a depositar beijinho sobre seu peito nu. Sei que ele adora isso. É algo que o excita muito.
— Luci... – Ele geme baixinho.
— Fique quietinho e me deixe trabalhar.
Provoco-o o de todas as maneiras possíveis.
Alex sobrepõe seu corpo quente e seminu sobre o meu e é sua vez de ficar no comando.
Inclino minha cabeça para traz enquanto ele beija toda a extensão do meu pescoço.
Estamos nos entendemos.
— Você é única. Eu sempre soube. – Diz Alex em um sussurro olhando diretamente dentro dos meus olhos com certa adoração.
Geralmente eu não sei o que dizer depois de ouvir algo assim vindo dele.
Mas sei exatamente o que fazer para mostrar o quanto eu adoro que ele me diga essas coisas.
Com os dedos enterrados em seus cachos bagunçados eu o puxo para mais perto – se é que isso é possível – e passamos a nos beijar ardentemente.
~*~
Só desperto na manhã seguinte, de um domingo nublado, com o barulho estridente que vem da sala.
Alex não está mais ao meu lado.
E só de lembrar de tudo que aconteceu entre nós noite passada, tenho um desejo absurdo de ficar na cama o resto do dia para repetirmos todos os detalhes.
Mas já vi que isso não vai ser possível.
Sento-me na cama e me espreguiço.
Pego a camiseta do Alex jogada no chão e me visto com ela.
O que será que está acontecendo?
Decidi que vou dar uma olhadinha e depois seguir direto para o banheiro para tentar dar uma melhorada nessa cara amassada e nesse cabelo cheio de nós.
— Luciana? Não sabia que você tinha passado a noite aqui.
Ana Paula, a mãe do Alex, me olha de cima a baixo.
De repente me sinto muito exposta com a minha pouca falta de roupa.
Eu realmente não esperava por essa.
Faz muito tempo que ela não vem visitar o filho, mas o que ela queria também? Eu sou a namorada do filho dela. Tenho todo o direito do mundo de dormir aqui quando eu quiser. Desde que ele queira também, é claro. O apartamento continua sendo só dele.
Forço um sorrisinho amigável na direção dela e as pressas me tranco no banheiro, onde faço toda a minha higiene pessoal e tento ficar mais apresentável.
Não posso ouvir, mas sei que nesse momento a mãe do Alex está enchendo a cabeça dele com reclamações sobre a minha pessoa. Ela nunca gostou de mim e sempre deixou isso muito claro para todo mundo. Quando Alex nos apresentou pela primeira vez, eu estava muito nervosa por conhece-la. E ainda não tinha nenhuma opinião formada sobre ela. Afinal, não era capaz de julgar alguém que eu ainda nem conhecia. Mas parece que ela nunca pensou dessa forma. Pois mesmo no início, quando ela ainda só sabia o meu nome, ela já demonstrava seu desprezo.
Para a Ana Paula eu nunca serei o bastante para o seu amado filhinho.
Ela nunca botou fé no nosso relacionamento só porque o Alex é alguns anos mais velho e já tem sua própria vida longe de casa, com seu apartamento e seu carro velho. Ela sempre acreditou que ele só estava passando por uma fase e que logo cairia na real e se daria conta do quanto eu era infantil e imatura para ele.
— Ela é só uma menina. – Ouvi ela dizer uma vez durante uma de suas tantas discussões com o filho.
Ela gosta mesmo é de implicar e de opinar na vida alheia, mesmo quando sua opinião não é bem-vinda. Ela ainda não superou o fato de que o Alex saiu de casa cedo demais por não suportá-la e que comprou um apartamento medíocre em um bairro humilde e um carro que vive dando problema sendo que ele poderia ter do bom e do melhor com todo o dinheiro que sua família tem. Ela ainda não superou o fato de que o Alex largou a faculdade de Contabilidade no primeiro semestre e desde então não pensou em ser graduar em nenhum outro curso. Ela não superou o fato de que ele ama uma “menina” com eu que ainda tem 17 anos, não sabe o que quer fazer da vida e ainda mora com os pais.
Eu já quis muitas vezes que fosse diferente, que ela fosse uma mulher agradável ou que pelo menos se esforçasse um pouquinho mais. Nem precisava ser a sogra perfeita. Só precisa aceitar certas coisas, mesmo que ela não fosse capaz de compreender. Ou que ela não me tratasse como uma criança, mesmo que muitas vezes eu me sinta como uma. Ou que ela não fizesse tão mal assim ao próprio filho, mesmo que muitas vezes ela nem se dê conta disso.
Depois de enrolar no banheiro por vários minutos, voltei para o quarto e vesti minha roupa e penteei o cabelo. E só então voltei para a sala, para junto do Alex. Mesmo que fosse o último lugar que o gostaria de estar agora.
Eu tinha que estar lá por ele.
— Quer eu vá até a padaria comprar alguma coisa? – Perguntei a ele quando ele colocou o braço sobre o meu ombro e me puxou para mais perto.
— Não precisa. – Ele fez uma careta divertida. Sabia que era só fachada. Por dentro ele deveria estar uma fera por ela ter aparecido aqui tão de repente sem ao menos avisar. — Não temos que agradá-la. Ela vai embora logo, logo.
Ana Paula não estava nos escutando, pois estava ocupada demais falando abobrinha para o filho mais novo, o Luiz, que até então eu não tinha visto sentando em um dos pufes, no canto da sala, mexendo no celular. Provavelmente jogando.
Luiz tem 13 anos e é outro que não gosta de mim.
Não que ele tenha algo contra mim, até porque nunca fiz nada pra ele. Ele só não gosta de mim porque tem ciúmes do irmão mais velho.
Coisas de criança, sabe?
No fundo, acho que ele me culpa pela saída repentina do Alex da casa dos pais. Eles eram muito apegados e unidos. Luiz deve acreditar que eu roubei o Alex dele. E a bruxa da sua mãe deve reforçar isso. Mas a verdade é que eu não tenho nada a ver com isso.
— Mãe, tô com fome. – Diz ele, enfim tirando os olhos do celular. Ele inclina a cabeça, desviando da mãe e me vê.
Nada de cumprimentos, sorrisos ou abraçados.
Apesar de tudo, ele é um fofo. Um garoto incrível que sabe tudo sobre tecnologia. Sempre que o Alex fala dele é com muito orgulho e com muita saudade. Sem contar que, os dois são idênticos. Com os mesmos cachinhos castanhos e rebeldes. A única coisa que realmente muda é que o Alex já tem o corpo formado de um homem e já tem até uma barba ralinha.
— Vocês não têm nada descente para comer por aqui, não é? – Ana Paula se volta para nós e olha em volta com o desprezo de sempre. — Luciana, será que você poderia acompanhar o Luiz até um lugar onde se venda algo pra comer?
Pelo menos ela ainda mantém a postura de mulher rica e educada.
— Ah, sim. Claro! Eu estava mesmo pensando em sair para comprar algo.
Olho rapidamente no relógio pendurado sobre a porta de entrada.
Poxa vida!
É quase hora do almoço.
Acho que dormi demais.
— Vamos então, Luiz?
Ele se levanta e me olha com a mesma falta de empolgação que eu sinto quando o despertador toca pela manhã para eu acordar e ir para o colégio.
Pelo menos temos um ponto em comum.
— Mãe, você não quer sentar enquanto espera? – Ouço o Alex sugerir quando corro rapidinho até o quarto para resgatar minha carteira dentro da minha mochila.
— É, acho que vou me sentar. Temos muito o que conversar, filho.
Ah, meu Deus. Tadinho do meu namorado.
Luiz e eu descemos as escadas em silêncio. Ele parece um pouco desconfortável comigo ao seu lado. Eu não sou muito boa com crianças, mas sinto que nesse momento eu deveria dizer algo para, pelo menos, tentar mudar essa situação.
— E como que tá a escola, Luiz?
— Uma bosta, como sempre.
Não resisto ao impulso de rir.
Eu amo esse garoto!
Sem sobra de dúvidas, ele é definitivamente o melhor cunhadinho do mundo.
— Sabe, eu concordo com você. A escola é mesmo uma bosta.
Ele parece surpreso em me ouvir dizer algo assim e ao mesmo tempo satisfeito por compartilharmos da mesma opinião.
Ele me dá um sorrisinho fraco.
Opa! Já é um começo.
Algo dentro de mim diz que essa será uma tarde muito agradável, apesar da bruxa da minha sogrinha tentar a todo custo arruinar isso.
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