Tudo de Mim

15 Em busca de respostas.


Estava terminado de assistir mais um episódio de Faking It quando ouvi uma batidinha na porta do meu quarto. Era o Alex. E eu nem se quer estava esperando uma visita dele, até porque ele nem ligou nem nada. Mas cá estava ele.

O mais estranho disso tudo era o fato dele estar todo produzido de um jeito que eu nunca vi antes: um jeans escuro, uma camiseta clara e um blazer.

Ele tem uma blazer?

Os cachos pareciam molhados, porém estavam penteados para trás, totalmente domáveis com um pouco de gel. Ah, e o perfume... O perfume era coisa de outro mundo.

— O que significa isso, Alex? – Perguntei com um sorriso, ajeitando-me sobre a cama.

Ele se aproximou e sentou-se na minha frente.

— Vim te convidar para jantar.

Espera aí...

— Faz tanto tempo que a gente tá junto e pela primeira vez eu me dei conta de que a gente nunca teve um encontro romântico antes. Sabe? Nada muito surpreendente.

— Alex, você sabe que eu não ligo para esse tipo de coisa...

— Sim, eu sei. Mas eu queria fazer diferente dessa vez...

— Tudo bem. – Suspirei. — Então qual é o plano?

— Vista algo legal.

— Só isso? – Levantei uma sobrancelha.

— Capriche. Apenas isso. – Ele se levantou. — Eu vou no banheiro.

E então ele me deixou sozinha novamente com uma pulguinha atrás da orelha.

Porque isso agora? Qual é o sentido disso tudo? Porque ele está tentando me surpreender? Porque ele está tentando me agradar? Porque fazer diferente agora?

Não seja tola, Luciana. Não há nada de errado nisso.

Talvez ele só esteja tentando me agradar um pouco. Afinal, é isso que os namorados fazem um pelo outro, não é? Eles tentam sempre fazer o melhor. E não precisa necessariamente de um grande motivo para isso.

Como eu já tinha tomado banho algumas horas antes, eu apenas troquei de roupa e coloquei um dos poucos vestidinhos que eu tenho graças a minha mãe. Esse mais simples na cor azul e com alças finas. A parte de cima mais justinha, realçando meus seios pequenos e a saia mais soltinha e mais leve. Esse vestido, assim como os outros, faz um pequeno milagre em mim: me deixa muito feminina e delicada.

Coisa que normalmente não sou tanto.

Faço mais o tipo molequinha. Estilo mais básico e mais neutro.

Para os pés optei por uma sandalinha baixa e aberta que há muito tempo eu não usava por achar meio breguinha. O cabelo deixei solto mesmo, sem nada de mais e passei um pouquinho de maquiagem para dar um tchan a mais no look menininha.

— Uau. Você tá uma gracinha! – Disse Alex ao voltar para o meu quarto.

Olhei feio pra ele.

— Não exagera, por favor.

— Mas é verdade!

Ele sentou-se na minha cama.

— Luci, preciso de fazer uma pergunta muito séria. – Sua expressão mudou de repente. — E não quero que você minta pra mim por medo da minha reação. Pois saiba que independente da sua escolha, eu estarei ao seu lado para o que der e vier.

Espera aí... Essa noite está muito estranha.

— O que você quer saber? – Perguntei, muito confusa.

— Isso é tão difícil para mim quanto é para você. – Disse ele constrangido, passando a mão no pescoço rígido. Um sinal de tensão.

— Alexandre! Você está me assustando!

— Luci, você tá... Grávida?

Quase caí pra trás de tão surpresa.

— De onde você tirou isso? Pelo amor de Deus! Não. Não! Eu não estou grávida. Meu Deus, Alex. Você quer me matar do coração, garoto?

Ele suspirou, aliviado.

— Mas então porque tem um teste de gravidez no seu banheiro?

PUTA MERDA.

Fui correndo ver se era verdade e ele veio atrás, também sem entender nada.

E lá estava o desgraçado. Dentro do cesto de lixo. Totalmente em evidencia. Então, tive a ideia de pegar um pedaço de papel – limpo, tá? – e o peguei com cuidado e pra minha surpresa o resultado era POSIVITO. Mas.... Como isso pode ser possível?

Parei para raciocinar um pouco.

Estava muito nervosa.

Aqui em casa só moram três pessoas. Eu, papai e mamãe. Eu não estou grávida. Tenho absoluta certeza. Eu não fiz esse teste! Papai não pode engravidar por questões obvias. Ou será que estou enganada? E a mamãe, bom, a mamãe...

AI MEU DEUS!

A mamãe!

Minha está grávida?

— Luci, você tá bem? Você está branca! – Ele me pegou pelo braço e me arrastou para fora dali ainda com o teste em mãos. — Vem, senta aqui.

— Minha mãe... – Digo ofegante.

— É, eu sei. – Não sei porque, mas ele me abraçou, tornando tudo ainda pior.

Mas eu não queria que sentisse pena de mim. Eu queria explicações, assim como basicamente quero pra tudo nessa vida.

— Mãe! – Gritei, levantando-me da minha cama com tudo.

— O que foi, Docinho? – Perguntou minha mãe lá de baixo, assustada.

— Me explica isso! – Mostrei o teste em minhas mãos enquanto descia as escadas e ia em sua direção. — Mãe, você tá gravida? Mas.... Como?

— Você quer mesmo saber como, filha? – Meu pai perguntou, todo brincalhão. Alex riu da piada. Mas eu não achei graça nenhuma.

Ignorei-o.

E continuei olhando para a mamãe, aguardando.

Ela se sentou no sofá e cobriu o rosto com as mãos e então começou a chorar.

Papai correu para ampara-la e me lançou um olhar feio.

— Aconteceu, Docinho. – Disse ela entre soluços. — Eu não sabia que ainda era possível. Eu estou à beira dos quarenta anos! Não estava dentro dos meus planos.

— Nem do meu! – Papai defendeu-se.

— Me desculpe. – Ela continuou. — Me desculpe. É tudo culpa minha!

— Mãe... – Me abaixei perto dela. — Eu não estou de condenando por nada! Eu só estou muito assustada. Mas você não tem porque se desculpar...

Depois de todo o susto, Alex me chamou de canto.

— Precisamos ir. Ou você quer ficar aqui com a sua mãe?

Olhei na direção da mamãe e do papai. Agora todo sorridentes no sofá fazendo planos para o futuro. Um do lado do outro. Como sempre foi e sempre será.

— Não. Vamos. – Peguei sua mão. — Mãe, pai, Alex e eu já vamos.

~*~

Depois de tudo, eu esperava que o Alex nos levasse a um restaurante chique, desses que precisam de reserva, tem um cara no piano e comidas refinadas. Mas não. Não era o que parecia estar dentro dos seus planos e todo esse mistério e suspense estava começando a me deixar apavorada. Chega de surpresas por hoje!

Sabe, ainda estou tentando processar a ideia de que vou ter um irmão ou uma irmã quase dezoito anos mais novo. É tudo tão assustador! Eu sou péssima com crianças, como vou lidar com isso? E a mamãe ainda sabe cuidar de um bebê? Meu pai algum dia soube cuidar um bebê? Como vamos fazer isso dar certo?

— Não fique pensando em bobagens. Vai dá tudo certo. Você vai ver. – Disse Alex, muito calmo, quando parou o carro em frente ao... Prédio dele?

— O que viemos fazer aqui? – Perguntei ao descer do carro.

— Tenha calma. – Ele pegou a minha mão e entramos.

Alex sabe realmente como surpreender uma garota.

O jantar romântico que esperava por mim não era nada como todo mundo imagina que seja ou como é nos filmes ou como eu esperei que fosse.

O jantar romântico estava ali, no meio de sua sala arrumada, preparado por ele.

Toda essa coisa me deixou emocionada e sentimental.

Não sei se foi o gesto dele, a preocupação e o carinho com todos os preparativos ou se foi a bomba que recebi a pouco tempo atrás sobre ter um irmãozinho.

Quando viu que eu estava chorando, Alex se aproximou e me abraçou por um bom tempo.

Quando consegui me acalmar, ele me guiou até o meio da sala onde me sentei em uma das almofadas e admirei os pratos, as flores, as taças ali no chão, sobre uma superfície de madeira muito bonita. Alex ligou o som em uma música muito suave a baixinha, só para tocar de fundo e deixar o ar todo mais romântico. Ele também apagou as luzes de todo o apartamento e acendeu vela por vela ao nosso redor.

Por fim, ele foi até a cozinha e pegou o nosso jantar.

Ele deve ter percebido que eu ainda estava meio atordoada com tudo isso e tentou ao máximo me distrair com conversas paralelas e piadinhas bobas.

Um amor.

Quando terminamos de comer ele se aproximou com os olhos verdes fixos nos meus e começou então a me beijar até eu estar deitada sobre as almofadas e ele em cima de mim, tocando com carinho cada centímetro exposto do meu corpo.

— Você me concederia uma dança? – Ele sussurrou.

Eu assenti, achando graça.

Ele se levantou e estendeu a mão para mim.

— Espere aqui. Já volto.

Ele correu até o quarto e voltou de lá com a minha câmera em mãos.

— Onde você conseguiu isso?

— Sua mãe é uma grande cumplice, sabia?

Eu ri.

— Então você e minha mãe me roubaram na cara dura?

— Quase isso. – Ele riu também.

Alex colocou a câmera apoiada sobre alguns livros em uma estante próxima a nós até estar mais ou menos na nossa altura e a ligou.

— Você vai nos filmar?

— Sim. – Ele pegou minhas mãos. — Quero ter esse momento registrado para sempre.

Alex me roubou um beijinho antes de nos posicionarmos e começarmos a balançar de um lado para o outro lentamente ao ritmo da música

Foi uma noite muito agradável e especial.

Tirou da minha cabeça todos os problemas e preocupações. E me fez sentir amada e única. Como só ele é capaz de me fazer sentir.

~*~

Acordei na manhã seguinte muito irritada. Fazia algum tempo que o celular do Alex não parava de tocar e ele não dava a mínima. Continuava quietinho atrás de mim, com os braços em volta do meu corpo. Mas eu sabia que ele estava acordado, pois sua respiração as vezes ficava muito irregular, como se ele estivesse começando a se irritar também seja lá com quem estivesse ligando àquela hora da manhã.

— Acho melhor você atender. – Digo, me livrando de seus braços e sentando-me na cama de uma vez por todas. Sabia que se ele não tomasse uma atitude, ele também jamais tomaria.

Ele suspirou e virou para o lado, até alcançar o aparelho sobre o criado-mudo.

— Acho melhor eu não atender. – Disse ele, com os olhos no visor.

— Quem é? – Perguntei, curiosa.

— Ninguém importante. – Ele desligou o aparelho e colocou de volta no lugar.

Virou-se para mim novamente.

— Podemos ficar só mais um pouquinho aqui?

Ele estava sorrindo de uma forma que abalava todas as minhas estruturas.

— Ta bom. Só mais um pouquinho.

Voltei a me deitar e ele me abraçou.

Não sei bem o que aconteceu depois daquele dia, mas as coisas voltaram a ser bem esquisitas entre Alex e eu. Como se existisse algo invisível entre nós, tentando nos empurrar para longe um do outro de todas as formas. Só que de um jeito que a gente não podia ver e fazer nada a respeito para mudar essa situação.

Todas as poucas vezes em que nos encontramos durante a semana, ele recebia algumas ligações. Ignorava a maioria delas. Já outras ele atendia e ficava horas e horas no celular, distante de mim, para que eu não pudesse escutar nada. E quando voltava, todo tenso e nervoso, eu perguntava quem era e ele dizia que era o Luiz.

E eu acreditava.

Porque se havia uma pessoa que ele se importava mais do que tudo nessa vida era o próprio irmão.

Algumas vezes, quando eu não tinha muito o que fazer e parava para pensar em tudo que estava acontecendo, eu ligava para o Luiz. Mas ele nunca me atendia ou mandava mensagem. E eu sentia que ele não estava fazendo de propósito. Sentia que alguém tinha pedido para ele me ignorar. Ou sua mãe ou o próprio Alex.

Mas porquê?

Porque não podíamos conversar numa boa como dois amigos?

Cansada de esperar por respostas e cansada de me sentir excluída dessa situação toda, eu resolvi agir. Mesmo que isso prejudicasse ainda mais o meu relacionamento com o Alex. Eu tinha essa coisa de querer ajudar as pessoas. De querer fazer parte da vida delas tanto quanto elas faziam da minha.

Além do mais, estava de saco cheio de ficar em casa, escutando os sons nojentos da mamãe vomitando no banheiro. Era horroroso e angustiante porque eu não podia fazer muito por ela. Mas eu podia fazer algo pelo Alex e por seu irmão. Bastava convence-los disso e era isso que eu faria agora mesmo.

— Mãe, se importa de eu dar uma saidinha agora?

— Não, Docinho. Pode ir. Vou ficar bem.

Peguei minhas coisas e lá fui eu atravessar a cidade de ônibus.

Se existia um lugar onde eu teria algumas respostas, esse lugar era a casa dos pais do Alex. Onde eu suspeitava que ele andava frequentando bastante nos últimos dias.

Estava começando a anoitecer quando cheguei lá e criei coragem para bater na porta.

A casa fica localizada numa espécie de condomínio aberto. Na parte mais rica da nossa pequena cidade. As casas por aqui são todas muito grandes e bonitas, como as dos filmes americanos que nem precisam de muros ou portões e geralmente têm um lindo jardim na frente da casa e luzes que realçam a beleza das flores.

Bati na porta algumas vezes e não houve nenhuma resposta.

A porta estava aberta e tudo muito escuro lá dentro, como se fosse um lugar inabitável. Estava tão escuro que eu realmente não conseguia ver nada. Apenas sombras e como já era de se esperar tropecei em algo pelo caminho, enquanto adentrava e fez um barulhão que até me assustou.

De repente ouvi barulho de passos descendo a escada e então uma luz veio em direção aos meus olhos, quase me deixando cega.

— Luciana? O que você está fazendo aqui?

Ufa. Menos mal. É o Luiz. Não posso vê-lo, mas essa é a voz dele.

— Luiz, tira essa luz da minha cara! Eu não consigo ver nada desse jeito.

Ele não fez o que pedi.

— Porque você não acende as luzes? Porque está tudo tão escuro aqui? Cadê o resto do pessoal?

— Luci... Eu...

Outro barulho.

Mais passos descendo a escada.

Outra lanterna.

— Luiz, quem é? – Alex. Era a voz dele.

— Alex, sou eu. – Digo, torcendo mentalmente para ele não me mandar ir embora dali aos pontapés. — Vocês por acaso estão brincando de espiões ou coisa do tipo?

Agora tinha duas lanternas voltadas na minha direção.

— Luci, vai embora. – Alex pediu com a voz miúda.

Porque é que ninguém colabora?

Basta responder algumas de minhas perguntas e eu me mando!

Simples assim.

— Não! Eu não vou! – Estou mais nervosa do que achei que fosse possível e quero deixar isso muito nítido a ele. — Vou ficar aqui até alguém me explicar o que está acontecendo.

Então sentei-me no chão com os braços cruzados, como uma criança emburrada e decidida.

Hoje eu não ia sair daqui sem algumas explicações.

Notas finais
Tenham calma! Alex vai contar tudo que está acontecendo no próximo capítulo :)