Tudo culpa da Kin
1 Capítulo único
Notas iniciais
Paro em frente ao portão cinza e respiro fundo pensando pela, provavelmente, milésima vez o porquê de eu estar ali.
Ah é.
Kin me mandou uma mensagem com um simples "Vem aqui em casa AGORA", e quando eu perguntei o que era só disse "Te dou chocolate" e, bem, se ela pensa que vai me comprar com doce, está completamente certa.
Enquanto eu pensava na possibilidade de virar as costas e ir embora como se nada tivesse acontecido, o portão é aberto por ninguém mais, ninguém menos que o Rokuryuk, peste mais nova, vulgo irmão da Kin.
— Oi, trouxa. -acenei pra ele.
— A coisa tá te esperando lá no quarto. Sem perguntas ou reclamações, só entra, pelo amor de Hades.
— Você é uma desgraça, pirralho. Só disse "oi".
— Para de resmungar e vai! -me puxou pra dentro e fechou o portão.
— Credo. Grosso. O que foi dessa vez?
— Ela pegou meu jogo de Dragon Ball.
— Pensei que só jogasse lol.
Ele só revirou os olhos e resmungou algo que eu tô muito foda-se pra prestar atenção.
— Meu jogo. -ouvi ele falando da porta do quarto. Vi a caixa do DVD sendo jogada pra fora e ele saindo reclamando.
Kin sendo Kin.
Entrei, já esperando uma almofada na cara, ou sei lá.
Mas nããoo.
— Oi Full.
— Que porra é essa?
Eu mal acreditava naquilo que eu estava vendo. Onde diabos essa criatura tinha conseguido essas coisas?
— Onde caralhas tu conseguiu isso?
— As pedras?
— Tudo!
— Ah.
— Kin...
— Fiz o meu irmão comprar. -sorriu.
— Vocês são loucos.
Tinha uma espécie de maca no meio do quarto. Aquelas estofadas e com travesseiro que você só vê em spa ou filmes. Kin estava de bruços, balançando despreocupadamente as pernas e a cabeça, com um fone de ouvido. Tinha uma toalha jogada da cintura pra baixo e graças a Deus acho que vi um short. Tinha umas pedras coloridas alinhadas por suas costas, tipo aquelas coisas que você só veria na TV. Pedras quentes? É, talvez.
— Me faz uma massagem, Full.
— Nop.
— O quê?
— Não.
— Por quê?
— Por que não.
— Eu comprei uma cesta de chocolates. Uma cesta. -enfatizou.
— OK. Cadê ela?
— Você vai comer antes e ir embora.
— Tenho que ver se é verdade né. -dei de ombros.
— ROKU! -meio minuto depois ele estava lá.
— Mostra a cesta pra essa morta de fome.
— Ei! -bati na sua perna- Só morro por comida. -e fui atrás do menino.
É, tinha o tal chocolate, e ainda ameacei o Roku com uma faquinha de mesa e consegui alguns. Coitado do menino. Vai crescer como uma criança traumatizada.
— Kin. -entrei no quarto.
— Viu lá?
— Sim. Agora fala, o que era mesmo?
— Faz uma massagem aqui nas minhas costas? Estão doendo mais que bunda de gay.
— Perguntar pro seu irmão.
— Quê?
— Oi?
— Meu irmão?
— Falei nada. -desconversei.
O Roku não era gay.
Eu acho.
— Enfim. Começa pelos ombros, tá, Full?
— Desde quando você tem dor nas costas? -comecei com uns socos desleixados. Depois de tirar as pedras, claro.
— Ahn... Hoje?
— Por quê as pedras?
— Parece conversa de drogado, mas ok. Achei que ficaria bonito. -riu.
— Certeza que tu não fumou paçoca né?
— Sim. Pelo menos não paçoca. -riu.
— QUÊ?!
— Brincadeira, Full.
— Seei.
Continuei meu trabalho, descendo pela extensão da sua coluna.
— Aproveita e passa esse hidratante. -mostrou o vidro em cima da cama.
Voltei desde o começo, dessa vez massageando com o bendito hidratante.
— Para de gemer, porra. -briguei.
— Não tô. É um suspiro.
Comecei a rir. Louca.
— Sabia que tem umas partes mais avermelhadas nas suas costas? Tava treinando o Kama Sutra com o namorado? Hmm.
— Eu nem tre... Que namorado?
— Você não tem namorado?
— Não.
— E aquele loiro lá?
— Ex.
— Treinavam o Kama Sutra?
— Não.
— Então tá.
— Você é doida, Full.
— Enfim. E essas vermelhidões?
— Roku. -resmungou.
— Kama Sutra com o Roku?
— PARA DE PENSAR EM KAMA SUTRA, SUA PERVERTIDA.
— Taa. -concordei, entre gargalhadas.
— Isso foi porque pedi ao meu irmão idiota para fazer a massagem. E depois de quase me matar, ele disse pra te chamar.
— Obrigada então, Roku. –ironizei, revirando os olhos.
Acho que ela acabou cochilando antes de eu terminar. Perfeito. É o tempo de eu ir pegar meus chocolates com o Roku e sair correndo daqui.
Peguei meu celular, tirei uma foto da Kin babando e me virei para sair dali. Mas gelei quando uma mão fria segurou meu pulso.
— Já vai, Full?
— Vai matar o cão de susto, desgraça. -gritei, e ela soltou uma risada debochada.
Ela ficou de pé, derrubando tudo o que tinha no caminho, e foi vestir uma roupa.
— Pra uma massagista, você é uma ótima amiga.
— Me explorou e ainda reclama. Eu mereço...
— Foi bom, mas não ótimo.
— Cala a boca, Kin. Sua chata.
— Obrigada, Full. -beijou minha bochecha antes de sair do quarto.
— Sua gay! -gritei.
Fiquei ali mais alguns minutos vendo absolutamente nada interessante no meu celular, com a impressão de que estava esquecendo algo muito importante.
Espera um pouco...
— MEU CHOCOLATE!
Sai correndo feito doida, escorreguei no piso, perdi uma chinela no caminho e dei de cara na porta do quarto do Roku, já que ela não abriu quando eu puxei.
Ela abria pra dentro e eu não lembrava?
— Que merda, Fulgel.
— Oi Roku. Me dá meus doces.
— A Kin acabou de sair daqui, disse que ia te entregar, e espera, você disse que eu era gay?
— Vou matar a sua irmã. Sério. -dei um tapa na minha testa e depois um na testa dele.
— Ficou doida?
— Sim. Para matar!
— Fulgel, você me chamou de gay, e me bateu. Eu que devia te matar.
Estava possessa demais para ver a mão do Roku levantada na altura do meu pescoço, e quando vi, já não dava mais para evitar. Ele me beijou.
Roku. Me. O QUÊ??!!
— Que porra é essa, Roku? -perguntei e, sem esperar resposta, bati em sua cara e fui atrás da Kin.
— KIIIIN!
— FUUULL!
— Desgraçada. -resmunguei.
— Você é muito cara de pau, sabia? Tipo, muito mesmo. -fiquei de pé na frente dela.
Ela estava sentada numa cadeira de balanço que tinha na varanda.
— Eu sei de outra coisa que daria certo com essa sua definição. -sorriu.
— Maldita pervertida. Depois fala de mim.
— Estava brincando, Fulzinha. -se esticou para apertar minha bochecha.
— Menina, que vontade de arrancar teu cu com alicate. Mas enfim. Temos coisas mais importantes, tipo...
— Seus chocolates.
— Seu irmão. -falamos juntas.
— O quê diabos vocês dois tem? Além de tesão reprimido.
— Ele não é gay?!
— Isso foi uma pergunta ou uma afirmação? -cruzou os braços.
— Boa pergunta. Excelente, na verdade. Mas sério, ele acabou de me beijar! Tipo, quase agora! -comecei a gesticular feito doida.
— Para de fazer isso. -me chutou- Finalmente ele teve coragem né. Se bem que até eu teria...
— O quê?
— Ahn?
— Fala.
— Oi?
— Tu é toda noiada, Kin.
— Olha quem fala né. Doida e pervertida.
— Ei!
— Fala, Full.
— Doida não! -começamos a rir.
— Devia ter droga naquele chocolate. Só pode. -comentou.
— Onde comprou? –perguntei.
— No caminhão da esquina.
Eu juro que não sabia se ria ou chorava. Mas no fim, joguei meu celular em cima dela enquanto ria.
— Louca. Cadê ele? O chocolate.
— No mesmo lugar. Com o meu irmão.
— Mas ele disse que você... Ahh. Você disse pra ele falar aquilo?
— Exato. Mas a parte do beijo foi coisa dele mesmo. Por falar nisso, vão se assumir quando?
— Assumir? Ele tem 15 anos! Vou ser acusada de pedofilia.
— Ele tem 17. E você 19. Não tem nada demais. -deu de ombros.
— Ele é feio.
— Nem você acredita nisso, né? -riu.
— Não. Mas deixando isso de lado, vamos falar do mais importante. Cadê o chocolate?
— Vamos pegar logo, sua gulosa. -ficou de pé.
— Não faz mais que sua obrigação.
— Cala a boca. E obrigada pela massagem, Full.
— Por nada, Kin.
— Quando vai fazer de novo?
— Espero que nunca mais.
— Você é uma chata, Full.
— Eu sei. Mas você também é.
— OK. Empatamos. -jogou as mãos para o alto.
— Só vamos pegar esse chocolate, por favor.
— Pega meu irmão, Full. -correu na minha frente.
— Só quero meu chocolate, fia. -joguei meu último pé de chinelo na direção dela, e fui andando calmamente até lá.
Tudo por um chocolate.
Ou seria tudo por uma massagem?
Bem, tudo culpa da Kin.
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