Tudo Que For Leve
1 Capítulo 1 - Garganta
Se eu pudesse recapitular minha vida inteira nesse momento. Eu recapitularia os melhores momentos. Principalmente a minha infância, quando eu acreditava que era inocente ou algo assim. Quando eu não arranjava muito problema com os outros.
Quer dizer, cada um sabe o que faz da vida, isso é meio óbvio, mas no mundo real as coisas não são bem assim. As pessoas tem um dom incrível de se meter na vida dos outros, de dar opinião no que não é chamado, de achar que entende algo que não faz a menor ideia do que se trata e por aí tudo parece seguir. E eu que já estava com muita coisa presa na garganta há muito tempo. Estava cansada principalmente de toda a pressão no meu ouvido a cada respiração que eu dava, porque sempre, sempre, havia alguém ou alguma coisa pra se meter no que eu estava fazendo. E agora eu tinha colocado na cabeça que sair era a melhor escolha pra mim. Fora de casa, num lugar cheio, com um monte de gente ao meu redor, mas ao mesmo tempo me sentindo completamente estranha. Foi aí que eu a vi. Eu lembrava dela. Eu lembro. Lembrava dela na terceira série, quando não falava com ninguém, quando eu tentava puxar assunto com ela e não conseguia nenhuma resposta. Agora ela estava lá, olhando para mim e sorrindo aberto, acenando. Acenei de volta soltando um riso meio sem graça. Ela estava linda demais. Definitivamente o tempo faz bem em vários sentidos. Ela estava acompanhada de outras duas garotas, também antigas colegas do ensino fundamental. Vamos considerar o fato de eu já estar há uns dois períodos na faculdade. Mas o que me surpreendia era que automaticamente eu fiquei atraída por ela. Assim, claro que tal efeito poderia acontecer com qualquer garota, em qualquer momento, já que eu me sentia atraída por mulheres e tinha consciência disso. O negócio é que ela me parecia... Não sei dizer... Clarice. Esse era o nome dela. Nome de mulher forte, de poeta. Claro que era um nome em homenagem a Clarice Lispector e eu por isso só já poderia acha-la bonita. Tinha cabelos compridos, claros, ondulados. Olhos verdes, de um verde que parecia brilhar quando encarado. Era magra, alta, de pele branca e parecia não ser tão cuidadosa com a aparência quanto as outras ao seu redor. Saia longa, pouca maquiagem, voz fina e baixa. Ainda carregava muitas coisas daquela menina tímida de 9 anos de idade. A diferença é que agora era eu que a olhava diferente. E ela contrastava comigo, apesar de ambas terem pele branca, eu tinha um cabelo rebelde cor-de-rosa, vestia uma roupa toda preta, jeans rasgados e botas, como uma criminosa ou uma fugida da polícia. Na verdade eu só não era muito chegada a variações de cores. — Ei! Olivia! Como é que você tá? – Sorri para ela, joguei meu cabelo para o lado. Meu sinal universal de que eu estava dando em cima de alguém, mas suponho que Clarice não conhecia. Mordi o lábio inferior e sorri logo em seguida. — Tô ótima. – Inclua um “muito melhor agora” oculto nessa frase. – E você? – Ela sorriu. Me senti péssima por dentro. Era óbvio que ela não entendia meus sinais. — Tô bem sim. – Ela se virou para as amigas apresentando apontando com as mãos. — Laura e Ingrid. Acho que vocês já se conhecem, não é? – Sim, eu lembrava dos rostos delas, eu havia sido inclusive mais amigas delas do que da própria Clarice. Mas naquele momento o jogo parecia ter virado completamente. Laura e Ingrid estavam sem graça em me ver enquanto Clarice parecia me tratar como muito amiga. Nós nunca havíamos nos falado diretamente. Só pelas redes sociais, troca de comentários, de likes... Só. — Sim, eu estudei com elas na época que você estudava comigo. — Ela acenou positivamente com a cabeça, parecia estar ansiosa, mas ao mesmo tempo era tão bonitinho. Acho que porque assim como eu, ela não estava acostumada a se relacionar com pessoas. Quer dizer, eu passava boa parte do meu tempo pesquisando novas formas de amarrar um lenço retro na cabeça, lendo sobre filosofia e escrevendo umas besteiras enquanto ouvia Cazuza. Ela não deveria ser diferente, passei um tempo olhando seu facebook, a foto de capa era uma foto do Chico Buarque. Gosto assim, gosto de mulheres com bom gosto. — Não sabia que você era fã da Ana Carolina. – Ela comentou. Por um momento havia me esquecido de onde nós estávamos. Sua voz me reconectou ao presente de forma que eu me senti até um pouco estranha, como se tivesse acabado de me mostrar o mundo real. Como se tivesse acabado de me jogar onde eu realmente estava. — Ah eu adoro as músicas dela. – Ah isso era verdade. Eu sabia todas e estava apaixonada no último CD dela. – Mas não imaginava que você gostasse também. – Principalmente porque todo mundo conhece a fama de “música de sapatão” que a Ana Carolina tinha, e pelo que eu acompanhava de Clarice, ela parecia ser heterossexual. — Claro que eu amo! – Ela disse sorrindo. Fiquei ali, observando ela sorrindo e percebi que só havíamos nós duas. As amigas dela haviam se afastado lentamente e eu já havia ido pro show sozinha de qualquer jeito. — Ah, bem que eu tinha notado que você curte música nacional. – Mordi o lábio inferior enquanto ela acenou positivamente com a cabeça. Olhei pros lados, notei que um copo de cerveja estava suando em minha mão e deixando-a molhada.
Tomei um gole. De repente eu senti que minha boca estava seca e que eu estava nervosa, meu coração estava acelerado. Meu Deus que tipo de merda está acontecendo aqui? — E você tá fazendo faculdade de que? – Dei de ombros. Tomei mais um gole olhando fundo naqueles olhos verdes, percebendo que aquelas duas orbes causavam efeitos profundos em mim. — Direito. – Ela acenou positivamente e virou a cabeça pro lado, movendo um pouco o corpo para os lados. — Jura? Vou começar o curso semana que vem. Você gosta? – Existiam várias faculdades oferecendo o curso de Direito na minha cidade. Resolvi não fazer muitas perguntas, responder o que ele perguntava e convencer a mim mesma que eu não queria saber, aquela situação já estava me deixando ansiosa demais. — Adoro, mas o primeiro período é meio chatinho. Por que você só vai começar agora? – Eu sabia que ela havia se formado comigo e já fazia um ano que eu tinha saído do inferno do Ensino Médio. Quando eu estudava, achava que tudo o que eu vivia era um inferno, eu iludia a mim mesma me convencendo que quando eu saísse de lá tudo ia mudar, mas não mudou, continuou quase na mesma e eu sabia que não era minha culpa. — Problemas em casa. – Ela torceu os lábios e olhou para os lados. Percebi que ela bebia água. “Santinha” minha mente ecoou. Que droga, eu tinha que parar de pensar aquilo das pessoas. Era como se eu as classificasse porque já haviam me classificado tanto... — Ei, você me desculpa, mas eu super tenho que ir agora. – Dei de ombros, engoli mais um gole. — Tudo bem. – Pisquei enquanto tentava guardar aquele rosto na minha mente. Ela se aproximou de mim. Pra começar só aquilo já era um baque. Sentir aquele corpo alto, porém magro, branco, se aproximando de mim, passando os braços ao redor do meu pescoço, me fazendo, mesmo que eu não queira, pensar todas as besteiras possíveis que eu poderia fazer com ela. Ela me deu um abraço de leve, eu estava meio desajeitada por causa daquilo, eu realmente não estava acostumada com demonstrações de afeto para cima de mim. Achava completamente estranho. Me beijou o rosto e se afastou com aquele sorrisinho moleca na cara. Que raiva eu senti dela. — A gente se vê. – Eu disse, um pouco trêmula. Ela acenou positivamente. — A gente se vê. – Ela repetiu e saiu, entrando no meio da multidão me deixando ali. Me sentindo estranha demais.
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