Notas iniciais
Alerta de gatilho: contém descrição de problemas relacionados ao consumo de álcool. Crepúsculo não me pertence. Pâmela, minha amiga oculta, eu tentei dar o meu melhor no seu presente e espero muito que goste. Escolhi o combo 2 (música Bad Habits do Ed Sheeran e a imagem de amigos em volta de uma fogueira na praia, eu adaptei pra um camping rsrsrs). Ah, também criei uma playlist para one, com músicas que fui ouvindo conforme escrevia, você pode conferir aqui: encurtador.com.br/U9wbv

POV BELLA

Eu já tinha perdido a conta de quantas manhãs começavam iguais: eu, jogada na cama, cercada por copos vazios e um vazio maior ainda dentro de mim. A mesinha ao lado parecia uma exposição sobre caos — algo que eu chamaria de 'arte conceitual' se alguém perguntasse. Mas, na verdade, era só mais um reflexo de como eu me sentia.

O celular vibrou na cabeceira, mas ignorei. Era Sue, minha madrasta e mãe do meu meio-irmão, Jacob. Ela sempre mandava mensagens pela manhã, como se isso fosse suficiente para manter viva a esperança de que eu estava "indo bem".

Suspirei, empurrando o cobertor para o lado e pegando a primeira roupa limpa que encontrei no chão do quarto. Meu café da manhã consistiu em um café preto forte, amargo, misturado com uma dose de Vodka. Não era nem de longe o ideal, mas era o que me fazia encarar mais um dia. "É só para acalmar a ansiedade", eu me convencia.

Cheguei ao café um pouco atrasada, mas ninguém parecia notar. Os clientes habituais já estavam em suas mesas: estudantes absorvidos nos laptops, sugando Wi-Fi como se dependessem disso para respirar, policiais segurando copos térmicos e discutindo algo baixo, e, no final da tarde, sempre... ele. O cliente tatuado com o caderno, que sentava na mesma mesa de sempre, com aquele olhar que parecia atravessar qualquer um que passasse por perto.

Eu ajeitei o avental, fingindo que estava reorganizando o balcão. Meus olhos, inevitavelmente, vagaram até a mesa no canto. Ele ainda não tinha chegado. Era engraçado como eu notava isso sem nem pensar. Ele sempre escolhia aquela mesa — afastada o suficiente para evitar o burburinho, mas próxima o bastante para que eu soubesse que ele estava ali.

Pensar nele tinha se tornado um hábito incômodo. Ele era alto, e aqueles olhos verdes... sempre pareciam buscar algo, ou alguém. Às vezes, tinha a impressão de que eles se fixavam em mim, mas era só coisa da minha cabeça. E, claro, aquela risada. Rouca e despreocupada, sempre surgindo fácil quando conversava com Angela. Era quase uma melodia, e fazia algo dentro de mim revirar de um jeito que eu não sabia explicar.

"Para com isso, Bella," pensei, tentando me concentrar em qualquer outra coisa. Ele era só um cliente, irritante e provavelmente convencido. Certo?

Angela, minha colega de trabalho, estava ocupada demais no balcão para atender a mesa dele, como sempre. Era quase um jogo não declarado entre nós: quem ia lidar com ele? Ela sabia que eu o achava insuportável, mas isso nunca impediu que jogasse a responsabilidade para mim.

Peguei a jarra de café e respirei fundo, tentando me preparar para a interação inevitável. O tilintar da porta ao abrir ecoava pelo ambiente, mas tudo o que eu via, no canto da visão, era ele.

Enquanto eu me aproximava, sentia seu olhar em mim. Era quase desconcertante. Ele não desviava, como se tivesse todo o tempo do mundo para observar cada passo que eu dava. Apertei o cabo da jarra, forçando um sorriso que, honestamente, não devia convencer ninguém.

Quando finalmente cheguei à mesa, ele já tinha um sorriso no rosto. Aquele sorriso. O tipo que dizia: Eu sei exatamente o que estou fazendo com você.

— Vai finalmente se sentar para tomar um café comigo ou prefere continuar se escondendo atrás do balcão? — ele perguntou, aquele sorriso despreocupado surgindo antes que eu pudesse responder.

— Acredite, socializar com clientes está fora da política do café — retruquei, cruzando os braços e tentando ignorar o jeito como seus olhos pareciam capturar cada detalhe. — E, se não fosse, você seria a última pessoa da lista.

Ele arqueou uma sobrancelha, como se estivesse gostando do desafio.

— Que bom saber onde eu estou na sua lista de prioridades. — Ele apoiou o cotovelo na mesa e descansou o queixo na mão, o olhar focado em mim de um jeito que me fez querer desviar. — Mas, se me odiasse tanto, por que sempre pega minha mesa?

Rolei os olhos, tentando parecer indiferente.

— Porque ninguém aqui merece ser atormentado pela sua conversa irritante, então, faço o sacrifício.

Ele riu, daquele jeito rouco de sempre. Algo no jeito como ele segurava a xícara, com os olhos ainda em mim, me deixou inquieta.

Eu virei as costas antes que ele pudesse continuar, ouvindo sua risada satisfeita enquanto me afastava.

Algumas horas depois, ao limpar sua mesa, encontrei um bilhete rabiscado no guardanapo:

Vem assistir minha banda. Quero que veja quem eu sou fora dessa mesa. — E.

Revirei os olhos. Claro que ele é músico. O caderno, o olhar intenso, o sorrisinho de quem acha que tem o mundo aos pés... um clichê ambulante. Amassando o bilhete, tentei me convencer de que isso era só mais uma jogada de ego.

— Uau, é assim que você lida com convites? — Angela perguntou, pegando o bilhete do lixo.

— Ele é muito convencido, isso sim.

— Parece que ele está tentando, de alguma forma, chamar sua atenção. — Ela suavizou o tom, mas havia um brilho de diversão nos olhos dela. — E, honestamente, acho que está funcionando.

Suspirei, pegando o bilhete de volta. Angela sabia ser irritantemente persuasiva.

Naquela noite, claro, lá estava eu, no canto mais escuro do bar.

O som da banda encheu o espaço assim que entrei. Ele estava no palco, guitarra em mãos, completamente à vontade. A confiança que ele exalava era desconcertante. Fiquei no fundo, observando.

Ele desceu do palco como se tivesse acabado de vencer uma batalha, o sorriso confiante de sempre estampado no rosto. Antes que eu pudesse escapar para o anonimato do bar, lá estava ele ao meu lado, como se tivesse lido minha mente.

— Então? O que achou? — Ele se aproximou, aquele sorriso irritante brincando nos lábios.

— Foi... aceitável. — Cruzei os braços, tentando ignorar como o jeito relaxado dele parecia mascarar algo mais profundo. — Nada que eu não tenha visto antes.

Por um momento, o sorriso dele vacilou, mas voltou rápido demais para eu ter certeza.

— Certo. Porque eu não sou o tipo de pessoa que impressiona.

A frase parecia uma provocação, mas o tom carregava algo mais. Olhei para ele, tentando entender o que ele queria que eu dissesse. Antes que eu pudesse responder, ele abaixou o olhar, como se falasse mais para si mesmo:

— Mas, de alguma forma, eu queria que fosse diferente com você

Fiquei quieta, sem saber como responder, e ele sorriu de canto, satisfeito com meu silêncio.

— Vamos pegar um ar.

— Eu nem sei seu nome. — Era uma desculpa e curiosidade.

— Edward. — Ele tirou a carteira de motorista do bolso e a entregou para mim com um sorriso provocador. — Pode conferir, Bella.

Segurei o documento por um momento, tirando uma foto com o celular, como se tivesse alguém que fosse se preocupar caso eu não voltasse para casa, talvez o Jake. Passei os dedos pelo nome impresso: Edward Anthony Cullen. Não me dei ao trabalho de perguntar como ele sabia o meu; não era como se não gritassem "Bella" a cada cinco minutos no café, além do broche no meu uniforme que deixava tudo muito claro.

— Então, vamos? — ele perguntou, o sorriso diminuindo, mas o brilho nos olhos permanecendo.

Eu hesitei, o celular ainda na mão, mas algo no jeito como ele me olhou, como se realmente quisesse que eu fosse, fez com que eu guardasse o aparelho no bolso e cedesse.

— Certo — murmurei, respirando fundo. — Vamos lá, estrela do rock. Me mostre o lado de fora. A brisa noturna era fresca, um alívio bem-vindo do calor abafado do bar. Edward tirou um baseado do bolso e o acendeu com uma naturalidade que me fez rir.

— Sério? Você me chama para "pegar um ar" e faz isso? — perguntei, cruzando os braços e arqueando uma sobrancelha.

Ele deu de ombros, soprando a fumaça suavemente antes de me passar o cigarro.

— Só achei que talvez você estivesse a fim de relaxar. Parecia pronta para fugir lá dentro. Se quiser, eu apago.

Ele segurava o baseado aceso entre os dedos e, sem surpresa para ninguém, eu o peguei, mas não sem revirar os olhos. Dei uma tragada rápida, sentindo a fumaça queimar na garganta, e devolvi para ele com um gesto impaciente.

— E todas as suas ideias de relaxar envolvem colecionar más decisões? — perguntei, cruzando os braços e arqueando uma sobrancelha.

— Eu prefiro chamar de explorar possibilidades. — Ele sorriu, relaxado, como se não houvesse nada no mundo que pudesse perturbá-lo.

— Parece conveniente. — Cruzei os braços, observando-o. — Alguma dessas "explorações" te ajuda a lidar com... bom, a vida? Ele riu baixo, soprando a fumaça enquanto me olhava com aquele jeito de quem sabia mais do que dizia.

— E você, como lida com a sua?

A pergunta foi casual, mas o peso dela me atingiu.

— Tentando não tropeçar mais do que o necessário. — Dei de ombros, tentando manter o tom leve. — E você? Alguma técnica além de acender um cigarro?

Ele inclinou a cabeça, me estudando por um momento antes de responder.

— Talvez só isso: lembrar que nem tudo precisa ser um peso.

Devolvi o sorriso de canto, ainda relutante em admitir o impacto que suas palavras tinham.

— Pode ser. Mas não espere que eu adote sua filosofia.

Ele jogou o baseado no chão, apagando-o com o pé.

— Tudo bem, mas se você quiser tentar, eu estarei aqui. — O tom dele era leve, mas algo no olhar me deixou com a sensação de que ele enxergava mais do que eu deixava transparecer. Ele se aproximou um pouco mais, e por um instante, senti como se o ar ao nosso redor tivesse ficado mais pesado. Era como se tudo o que não estávamos dizendo pairasse entre nós, esperando para ser quebrado.

— Então, me conta. Por que você veio aqui hoje? — ele perguntou, a voz mais suave agora.

Olhei para ele, tentando entender o que ele queria de mim.

— Eu não tinha nada melhor para fazer.

Ele riu, balançando a cabeça.

— Sei.

— Você se acha muito especial né? — retruquei, cruzando os braços novamente.

— Talvez eu seja mesmo.

O tom dele me fez querer rir, mas, ao mesmo tempo, havia algo desconcertante naquela confiança. Ele sabia que eu estava ali por mais do que curiosidade, e, de alguma forma, isso me irritava.

— Não espere muito de mim, Edward. — Foi tudo o que consegui dizer antes de me afastar um pouco, sentindo a necessidade de criar alguma distância.

— Ok, só não desista tão rápido.

O caminho para casa estava deserto, as ruas iluminadas apenas por postes intermitentes que lançavam sombras inquietas no asfalto. Caminhei lentamente, com as mãos enfiadas nos bolsos da jaqueta, tentando afastar os pensamentos que insistiam em voltar para Edward.

Ele tinha essa habilidade irritante de me deixar desconfortável no melhor e no pior sentido. Era como se ele enxergasse além da superfície, além das barreiras cuidadosamente erguidas que eu usava para manter o mundo à distância. Isso me irritava. Mas também me fazia sentir... algo. Algo que eu não sabia nomear.

Dei um chute em uma pedrinha no caminho, observando-a quicar até parar em uma rachadura. O gesto me fez rir de mim mesma, uma tentativa patética de desviar o pensamento que continuava girando em torno dele.

A verdade era que Edward era diferente. E não no jeito clichê de ser "especial" ou "único". Ele era diferente porque parecia aceitar o caos. Mais do que isso, ele parecia confortável nele, quase como se o abraçasse. E isso o tornava perigoso. Porque, pela primeira vez, eu não sabia se meu caos seria suficiente para afastar alguém.

Soltei um suspiro pesado, meu olhar subindo para o céu. As estrelas estavam visíveis naquela noite, e por um instante, me perguntei se elas realmente significavam algo, como nos filmes e livros que eu costumava amar.

"Não espere muito de mim, Edward." Minhas próprias palavras ecoaram em minha mente, trazendo com elas uma pontada de culpa. Eu queria acreditar nelas, queria me convencer de que ele não merecia lidar com tudo o que vinha junto comigo. Mas parte de mim também sabia que estava tentando me proteger — do quê, eu não tinha certeza.

Quando cheguei ao meu apartamento, o silêncio me recebeu como um lembrete de tudo o que eu tentava evitar. O sofá estava no mesmo estado em que o deixara, e o caderno na mesa parecia me observar como um desafio que eu não queria enfrentar. A garrafa de Vodka na cozinha era um convite fácil, mas também uma acusação silenciosa.

Caminhei até o caderno e me sentei no chão, cruzando as pernas. As palavras rabiscadas da noite anterior ainda estavam ali, em uma caligrafia apressada. Passei os olhos por elas sem realmente absorver o significado. Suspirei e fechei o caderno, encostando-o no chão ao meu lado.

A noite tinha sido diferente, isso era inegável. Mas pensar demais sobre Edward ou o que aquilo significava? Não. Eu não estava pronta para isso. Afinal, era só uma ida a um show, nada além disso.

Fui até a garrafa. O vidro frio contra meus dedos parecia quase acolhedor, um alívio momentâneo para o peso que pressionava meu peito. Por um longo momento, fiquei ali, encarando-a, como se estivesse tentando encontrar uma justificativa para o que sabia que ia acontecer. E então, como em tantas outras vezes, cedi. O som da tampa se abrindo ecoou na cozinha silenciosa, e o gosto amargo familiar queimou minha garganta.

"É só por hoje," murmurei para mim mesma, como uma desculpa mal ensaiada, enquanto a garrafa vazia descansava no balcão.

~~~~~~

A luz da manhã atravessava as cortinas, insistente, como um lembrete das escolhas da noite anterior. O peso da ressaca e da culpa parecia maior a cada movimento, e a familiaridade desse ciclo era exaustiva.

No café, o som das xícaras e das conversas abafadas costumava ser reconfortante, mas naquele dia, cada ruído parecia amplificar a confusão dentro de mim. Eu tentava sorrir para os clientes, mas até isso parecia um esforço monumental.

Enquanto limpava uma mesa, senti o olhar de Angela sobre mim, mas não tive coragem de encará-la. Eu sabia que ela estava observando. Talvez fossem meus movimentos lentos, ou o rosto abatido que denunciava a noite anterior. Ela tinha essa capacidade de perceber, mesmo quando eu tentava esconder.

Quando o movimento no café deu uma trégua, Angela se aproximou, segurando um copo de chá gelado. Sem pedir permissão, ela se sentou à mesa comigo, o gesto tão casual quanto calculado. Fiquei tensa, mexendo no copo à minha frente, tentando antecipar o que viria a seguir.

— Bella, você tá bem? — A voz dela era suave, mas firme, carregada de uma preocupação que me fez desviar o olhar. — Você tem andado... distraída. Mais do que o normal.

Forcei um sorriso, tentando afastar o peso das palavras dela.

— Só cansada — menti, dando de ombros, como se aquilo fosse a coisa mais óbvia do mundo. — E você? Sempre com essa cara de quem sabe o que eu estou pensando.

Ela soltou uma risada leve, mas vazia, como se soubesse que eu estava fugindo.

— Talvez eu saiba mesmo. Ou talvez você esteja cansada demais pra esconder.

Eu continuei mexendo no copo, esperando que ela desistisse e mudasse de assunto. Mas Angela nunca foi do tipo que desistia.

— Bella... já percebeu como você sempre termina o dia aqui? — Ela escolheu cada palavra com cuidado, como se estivesse tentando não me assustar. — E o que você faz depois de sair?

A pergunta pairou entre nós, pesada e inescapável. Olhei para o copo, como se ele tivesse uma resposta. A verdade estava bem ali, mas admiti-la seria como abrir uma porta que eu tinha trancado com força.

— Nada que valha a pena. — As palavras escaparam antes que eu pudesse controlá-las, carregadas de uma amargura que eu não pretendia revelar.

Angela suspirou, inclinando-se levemente para mim. Seu olhar encontrou o meu, mas, ao contrário do que eu temia, não havia julgamento. Apenas uma preocupação genuína.

— Acha que isso engana alguém?

Eu queria argumentar, lançar uma resposta sarcástica, mas as palavras ficaram presas na garganta. O silêncio entre nós foi preenchido pelo som da porta do café se abrindo e fechando, mas nenhuma de nós se moveu. Continuou me encarando como se estivesse esperando, mas não pressionando. Finalmente, ela se levantou, ajeitando o avental com calma.

— Sabe que pode falar comigo, né? — disse, com um meio sorriso, antes de voltar ao balcão.

Fiquei ali, imóvel, vendo-a se afastar. A sensação desconfortável de ter sido lida como um livro aberto ainda estava presente, mas agora havia algo mais. Um pequeno lampejo de compreensão.

Sabia que ela não estava me julgando. Não era uma colega intrometida tentando dar lição de moral. Ela realmente se importava.

Meus olhos a seguiram enquanto ela atendia outro cliente, sua voz carregada da mesma paciência que ela sempre mostrava comigo. E, pela primeira vez, considerei a ideia de que Angela poderia ser mais do que apenas uma colega. Talvez ela pudesse ser... uma amiga. Talvez fosse hora de parar de segurar tudo sozinha. De abrir uma fresta, mesmo que mínima, para alguém.

Respirei fundo, tentando assimilar essa nova ideia que nascia dentro de mim. Ainda não sabia se estava pronta para isso, mas, de algum jeito, o simples fato de saber que tinha mais alguém com quem eu podia contar, disposta a ouvir, trouxe uma pequena luz onde antes só havia escuridão.

~~~~~~

Vi Edward algumas vezes no café depois daquele show. Angela pareceu notar que eu não andava a fim de conversar com ele e o atendia, mas, mesmo assim, eu sentia ele me encarando enquanto me movia pelo salão. Era como se ele estivesse esperando que eu parasse, dissesse algo. E, para ser honesta, eu queria. A vontade de puxar conversa, de quebrar o gelo que eu mesma criava, crescia a cada dia. Mas, com essa vontade, vinha também o alerta constante: afaste-se.

A rotina seguia, até que minha folga foi interrompida por uma ligação da escola do Jacob. Ele tinha se machucado na aula de educação física, e Sue estava presa em uma reunião. Peguei as chaves do carro e fui o mais rápido possível.

Na enfermaria, ao abrir a porta, me deparei com ele. Edward.

— Bella? — Ele ergueu as sobrancelhas, surpreso, enquanto segurava um saco de gelo no tornozelo de Jacob.

— Edward? — Minha voz saiu mais alta do que eu gostaria. — O que você está fazendo aqui?

Ele deu de ombros com aquela calma irritante.

— Sou o professor de inglês do Jacob.

Jacob, sentado na maca com uma expressão de puro constrangimento, alternou o olhar entre nós antes de perguntar:

— Espera... vocês se conhecem?

Ignorei a pergunta do meu irmão, cruzando os braços.

— Professor de inglês? E eu achando que você era só um músico de bar com um ego inflado.

Edward riu, como se estivesse realmente gostando da situação.

— Vamos dizer que a música é meu escape.

— E o que você está fazendo na enfermaria? — perguntei, tentando parecer firme, mas ele parecia à vontade demais ali, e isso me desarma.

— Além de ensinar literatura, sou meio que a 'babá não oficial'. Jacob é um dos meus alunos favoritos, então fiquei aqui enquanto ligavam para você.

Jacob suspirou dramaticamente, revirando os olhos.

— Eca, por que parece que vocês estão flertando?

Edward riu de novo, e percebi que ele fazia isso mais do que eu imaginava. Mas, quando seus olhos se fixaram nos meus, havia algo ali, algo que fazia meu coração bater rápido, mesmo quando eu odiava admitir.

— Bom, obrigada por cuidar dele — murmurei, ajustando a alça da bolsa, evitando a pergunta do Jacob e desviando o olhar para esconder meu desconforto.

Ele sorriu, despreocupado.

— Sempre às ordens. — E, em um tom mais suave, acrescentou: — E, Bella... foi bom te ver novamente.

Jacob gemeu baixinho:

— Isso foi tão estranho que até a dor no meu tornozelo parece menor.

Ajudei meu irmão a se levantar e o levei até o carro.

O caminho até o hospital foi tranquilo, com Jacob olhando pela janela e eu tentando manter o foco na estrada, mesmo com a mente presa em Edward. Professor de inglês. Sério mesmo? Era como se cada detalhe novo sobre ele virasse mais uma peça de um quebra-cabeça impossível.

Chegamos ao hospital em menos de quinze minutos. Peguei uma cadeira de rodas na entrada e ajudei Jacob a se acomodar. Ele não parecia feliz com a ideia, mas pelo menos não estava colocando peso no tornozelo. Fizemos o check-in e seguimos para a sala de espera da ortopedia.

Enquanto eu mexia no celular, uma voz familiar cortou o ar:

— Bella, Jacob!

Sue vinha em nossa direção, visivelmente preocupada.

— Como ele está? — ela perguntou, com os olhos fixos em Jacob.

— Estou vivo, mãe. Só um tornozelo torcido. Nada demais. — Jacob respondeu com o tom dramático que todos os adolescentes de 13 anos pareciam carregar.

Sue lançou um olhar de advertência, mas sua expressão suavizou quando voltou para mim.

— Obrigada por trazê-lo. Saí assim que pude.

Dei de ombros, tentando parecer casual.

— Não é como se eu fosse deixar ele por aí, mancando.

Ela se abaixou para verificar o tornozelo de Jacob, o silêncio se instalando enquanto fazia isso. Era um daqueles momentos em que parecia que estávamos pisando em ovos. Quando terminou, Sue levantou e cruzou os braços.

— Parece só uma torção. Vamos esperar o médico confirmar, mas gelo e descanso devem resolver. — Sua mão pousou no ombro de Jacob, um gesto reconfortante.

Jacob resmungou algo ininteligível, e Sue voltou a me encarar. Seus olhos hesitaram antes de falar, como se ela estivesse ponderando as palavras.

— Você está bem?

A pergunta era simples, mas carregava um peso. Meu instinto foi manter a resposta superficial.

— Estou. Só cansada.

Ela assentiu, mas algo em seu olhar dizia que não acreditava completamente.

— Você tem trabalhado muito. E sei que talvez eu não diga isso o suficiente, mas... eu me preocupo com você, Bella. Não só pelo Jacob. Você é importante para mim. Como uma filha.

Fiquei quieta. Não sabia como responder. Era difícil aceitar quando alguém tentava se aproximar assim, mesmo que fosse genuíno. Mas algo no tom dela parecia sincero, sem forçar nada.

Sue deu um sorriso pequeno, como se esperasse que suas palavras tivessem algum impacto.

— Só quero que saiba disso. Estamos juntas nessa.

Deixei um sorriso de canto escapar, quase imperceptível.

— Obrigada, Sue. Isso significa... muito.

Ela pareceu aliviada, como se estivesse esperando por essa pequena abertura. O silêncio que se seguiu foi estranho, mas não desconfortável. Talvez, pela primeira vez, eu estivesse realmente escutando o que Sue tinha a dizer.

O médico finalmente chamou Jacob, e o acompanhamos até a sala de consulta. Enquanto ele fazia o exame, Sue e eu ficamos lado a lado, em silêncio. Estar perto dos dois ao mesmo tempo que me traziam lembranças do meu pai, Charlie, que eu ainda não estava pronta para encarar, ainda mais em um hospital, também me trazia uma paz. Um senso de família que eu deseja tanto, mas não sabia como dar o primeiro passo.

~~~~~~

Um tempo depois, durante o intervalo no trabalho, ao invés de me esconder na sala de produtos para cochilar, escolhi uma mesa no fundo e abri meu caderno. As palavras fluíam como há muito tempo não acontecia: fragmentos de memórias, sensações, diálogos soltos que ecoavam na minha mente. Era como se algo tivesse começado a se mover dentro de mim, ainda que de forma hesitante.

Cada vez que a porta se abria, meus olhos se voltam instintivamente para a entrada, esperando vê-lo. Mas o professor do meu irmão — tentava me convencer que para mim ele era apenas isso -, ainda não tinha aparecido. Mesmo quando não estava ali, sua presença parecia pairar no ar, reavivando algo que eu nem sabia que ainda existia em mim. E isso me irritava. Não queria admitir que ele tinha qualquer influência sobre meu desejo de escrever novamente. Mas sabia, no fundo, que era diferente.

Em uma dessas tardes, enquanto riscava e escrevia uma frase pela terceira vez, ouvi sua voz familiar:

— Não sabia que os garçons tinham tempo para escrever.

Levantei o olhar e o encontrei encostado no balcão, o mesmo sorriso provocador de sempre estampado no rosto.

— Não sabia que professores tinham tempo para tocar em bares — retruquei, tentando não demonstrar o calor que subia pelo meu rosto.

Ele riu e puxou uma cadeira, sentando-se sem pedir permissão.

— Touche. O que você está escrevendo?

— Nada ainda — Respondi. — Só palavras soltas. Não que seja da sua conta.

Edward inclinou-se para frente, apoiando os braços na mesa, com aquele olhar curioso que fazia meu estômago revirar.

— Palavras soltas podem ser poderosas. Às vezes, as melhores músicas começam assim.

Revirei os olhos, tentando não ceder à conversa.

— Criatividade nasce do caos — disse ele, apontando para o meu caderno, onde uma frase riscada ainda estava visível. — E, pelo que vejo, você tem um talento natural para isso.

Soltei uma risada baixa e irônica, sem conseguir evitar.

— Talvez. Mas acho que meu caos é mais bagunçado do que inspirador.

Edward sorriu de canto, como se estivesse considerando minha resposta.

— Caos é caos. É o que você faz com ele que importa.

Depois ele ficou em silêncio por um momento, o suficiente para que eu sentisse a necessidade de falar algo.

— Quase me formei em jornalismo, sabia? — soltei de repente, como se as palavras precisassem sair antes que eu mudasse de ideia.

Edward arqueou uma sobrancelha, visivelmente surpreso.

— É mesmo? Então, por que não terminou?

A pergunta fez meu coração acelerar. Lembranças surgiram de forma abrupta, como uma tempestade: o rosto do meu pai, as conversas sobre como ele acreditava no meu talento, os dias que passamos sonhando juntos com o futuro que eu nunca tive coragem de construir depois que ele se foi. Engoli em seco, tentando mascarar a dor que sentia.

— Não deu certo — murmurei, encolhendo os ombros. — Talvez nunca tenha sido para mim.

— Bella... — Ele começou, mas eu o interrompi antes que ele pudesse dizer mais alguma coisa.

— Olha, eu preciso voltar ao trabalho. Foi bom conversar, mas... tenho coisas para fazer.

Levantei-me rapidamente, segurando o caderno contra o peito como se fosse um escudo. Edward parecia querer dizer algo, mas se conteve. Apenas assentiu, respeitando o meu recuo.

Naquela noite, ao chegar em casa, a garrafa estava lá, no mesmo lugar de sempre, como uma velha conhecida esperando pacientemente. Sentei-me no sofá, o caderno ainda na mão, e olhei para ela. Era um convite, um teste. Eu sabia como terminaria se cedesse, o peso do arrependimento no dia seguinte, a névoa constante que nunca parecia se dissipar.

Respirei fundo, fechei os olhos e, por um instante, permiti-me sentir a dúvida. Depois, com um esforço que parecia arrancar algo de mim, deixei a garrafa onde estava e abri o caderno. As palavras vieram, hesitantes, mas reais.

~~~~~~

O silêncio da casa naquela manhã me deixava mais inquieta com as minhas últimas escolhas. O caderno permanecia no sofá, aberto, exibindo as palavras que haviam surgido como um reflexo de tudo o que eu vinha evitando. Resistir à garrafa foi uma vitória pequena, mas significativa. Ainda assim, a ideia de enfrentar o resto do dia parecia monumental.

Estava terminando de lavar a louça do café quando a campainha tocou. Suspirei, secando as mãos na toalha enquanto caminhava até a porta. Quando abri, Sue estava ali, com um olhar que eu conhecia bem: preocupado, mas cauteloso. Não era uma visita casual.

— Podemos conversar? — ela perguntou, a voz suave, mas firme.

Sue entrou antes mesmo que eu pudesse responder, movendo-se pela casa com familiaridade. Foi direto para a cozinha, como se soubesse que eu a seguiria. Fechei a porta e fui atrás, encostando-me ao balcão enquanto ela parava do outro lado, os braços cruzados.

— Conversar ou discutir? — perguntei, deixando o sarcasmo escapar.

Sue não reagiu como de costume. Em vez disso, seu olhar encontrou o meu, cansado, mas determinado.

— Conversar — respondeu simplesmente.

Houve um momento de silêncio antes que ela respirasse fundo.

— Eu sei que não sou sua mãe. E nunca tentei ser. Mas... me preocupo com você, Bella. Talvez mais do que demonstro.

Fiquei quieta, não porque não tivesse o que dizer, mas porque não sabia como. Sue raramente era tão direta, e o triste em suas palavras me pegou desprevenida.

— Olha, eu não estou aqui para criticar ou te julgar. Só... quero que você saiba que não precisa carregar tudo sozinha. Não precisa ser tão dura consigo mesma.

Tentei ignorar a sensação de que minha armadura estava se desmanchando. Cruzei os braços, como se isso pudesse me proteger de algo que nem eu sabia o que era.

— Estou lidando com isso, Sue. Do meu jeito.

Ela balançou a cabeça, com um pequeno sorriso que não alcançou os olhos.

— Eu sei. Mas o Jacob me contou algumas coisas, Bella. Sobre as noites que passa com você. Ele disse que já te viu tentando esconder garrafas...

Meu peito apertou.

— Sue... — comecei, mas ela ergueu uma mão para me silenciar.

— Eu sei que você nunca colocaria Jacob em perigo. Eu sei que você o ama. Mas, se continuar assim, Bella, vou ter que pensar duas vezes antes de deixar ele passar os fins de semana sozinho com você. Não quero que ele cresça achando que afogar as dores no álcool é normal.

As palavras dela eram firmes, mas não havia raiva. Só preocupação. Isso só fazia o nó na minha garganta crescer.

— Eu... eu estou tentando parar — confessei, a voz quebrando no final. — Eu sei que preciso. Eu só... não sei como fazer isso sozinha.

Sue deu um passo à frente, os olhos suavizando.

— Eu acredito em você, Bella. E não quero que você faça isso sozinha. Você tem a mim.

Não aguentei mais. As lágrimas vieram antes que eu pudesse segurá-las, e Sue me puxou para um abraço firme, uma mão acariciando meu cabelo.

— Vai ficar tudo bem — ela murmurou. — Um passo de cada vez, mas você precisa querer de verdade.

— Eu quero. Eu quero mesmo.

Sue se afastou apenas o suficiente para segurar meu rosto entre as mãos e olhar nos meus olhos.

— Eu estou aqui, Bella. Sempre.

Assenti, o choro diminuindo aos poucos, mas o peso no peito se aliviando, ainda que só um pouco.

Quando Sue foi embora, peguei o caderno no sofá e fui para o quintal. A velha cadeira de balanço me recebeu, rangendo sob meu peso. Olhei para as páginas da noite anterior, minhas palavras tímidas preenchendo as linhas. Elas ainda estavam ali, reais, mas pareciam tão pequenas agora, tão insuficientes diante do que Sue tinha dito.

O céu lá fora estava nublado, uma brisa fria agitava as árvores. Fechei os olhos e respirei fundo, tentando encontrar algo sólido no turbilhão dentro de mim. Eu sabia que tinha chegado a um limite. Eu precisava desesperadamente me encontrar novamente, mesmo que aos pedaços.

Peguei meu celular, hesitei por alguns segundos, e então procurei o número. A terapeuta que Sue havia sugerido há meses ainda estava na minha lista de contatos. Meus dedos pairaram sobre o nome por mais tempo do que deveriam, até que finalmente pressionei o botão de chamada.

A voz do outro lado era tranquila, acolhedora, e quando perguntei sobre horários disponíveis, senti um peso se aliviar de forma quase imperceptível. Não era a solução, mas era um começo. Aos poucos parecia que eu estava dando um passo — por menor que fosse — na direção certa.

~~~~~~

Escrever era como remar contra uma maré de pensamentos confusos, mas nos últimos dias algo dentro de mim começou a se mover. Não era fácil, mas era um progresso. A primeira sessão de terapia abriu um espaço que antes parecia inacessível. Não era como se as coisas estivessem resolvidas — longe disso —, mas era um começo.

A terapeuta me ouviu sem julgamento. Eu falei sobre a bebida, o caderno abandonado por tanto tempo, o bloqueio criativo que parecia uma extensão de mim mesma, e sobre todas as vezes em que considerei desistir — de tudo, inclusive de mim. No final da sessão, ela me sugeriu algo simples, mas que soava incrivelmente desafiador: encontrar espaços que me nutrissem, não que me afundasse.

— Você precisa de lugares que alimentem a sua criatividade, não a sua frustração — ela disse, como se fosse uma verdade universal que eu deveria ter descoberto sozinha.

Foi assim que, alguns dias depois, acabei na biblioteca. Com o caderno debaixo do braço e uma sensação estranha de nervosismo, entrei naquele espaço com uma hesitação que parecia fora de lugar. Não sabia se era por estar tentando algo diferente ou por medo de falhar mais uma vez.

A biblioteca me trouxe uma sensação que há tempos sentia falta, era quase como se o ambiente soubesse exatamente o que eu precisava. O cheiro dos livros, o som suave das páginas sendo viradas, tudo parecia conspirar para me acalmar. Era o tipo de lugar onde uma versão antiga de mim, a Bella que devorava livros e sonhava em escrever histórias, teria se sentido em casa.

Escolhi um canto perto da seção de literatura, próximo a uma janela ampla que deixava a luz do sol invadir o espaço. Coloquei minha agenda na mesa, mas foi o laptop que abri, ligando-o com uma certa hesitação. O caderno era mais uma coleção de listas e metas do que algo realmente funcional, mas havia algo reconfortante em tê-lo ali. Talvez fosse a ideia de controle, mesmo que superficial.

Com os dedos pairando sobre o teclado, comecei a escrever. Hesitante no início, mas logo as palavras começaram a surgir, desconexas, pelo menos estava escrevendo. Não era perfeito, nem linear, mas era algo. Eu estava me movendo, mesmo que de forma cambaleante.

Então, como se o universo quisesse testar minha determinação, percebi um movimento ao meu lado. Ignorei no começo, focando na tela à minha frente, mas a presença era inconfundível. Quando finalmente levantei os olhos, lá estava ele.

Segurava um exemplar de O Alquimista, o cabelo bagunçado como de costume, e um sorriso curioso dançava em seus lábios.

— Você? — minha voz saiu baixa, carregada de surpresa e cautela.

— Eu. — Ele se sentou sem pedir permissão, colocando o livro sobre a mesa e me encarando com aquele olhar intenso, como se pudesse enxergar mais do que eu estava disposta a mostrar. — Não sabia que a gente tinha isso em comum. Livros.

Respirei fundo e revirei meus olhos com a sua tentativa de flerte.

— Nem eu sabia que você era fã de literatura brasileira.

Ele inclinou a cabeça, abrindo um sorriso de canto.

— Sou cheio de surpresas. Procurando inspiração ou fugindo de algo?

Por que ele sempre fazia isso? Sempre sabia exatamente onde cutucar.

— Talvez as duas coisas. — Dei de ombros, tentando parecer casual, mas minha voz saiu hesitante.

Ele relaxou na cadeira, como se o universo fosse sua sala de estar.

Eu apertei os dedos contra o teclado, os olhos fixos nele. Era desconcertante como Edward tinha a habilidade de trazer à tona partes de mim que eu preferia esconder.

Voltei minha atenção para a tela na minha frente, tentando ignorar sua presença. Mas, de alguma forma, escrever parecia mais fácil com ele ali.

As palavras logo se transformaram em algo mais natural. O som das teclas preenchia o espaço entre nós, acompanhando o ruído ambiente da biblioteca. Edward não disse mais nada, mas sua presença era palpável, encorajadora de um jeito que eu não esperava.

Quando finalmente levantei os olhos, ele estava me observando, aquele sorriso suave que não zombava, mas também não dava trégua.

— Então? — Ele perguntou, gesticulando com o queixo para o computador. — Missão cumprida?

Olhei para a tela cheia de parágrafos fragmentados e percebi que, pela primeira vez em muito tempo, eu tinha conseguido escrever sem me sentir paralisada. Sorri de canto, fechando o computador com um gesto decidido.

— Ainda não terminei, mas... estou chegando lá.

Edward inclinou a cabeça, satisfeito.

— É um começo. E, pelo que eu sei, você é ótima em transformar começos em algo maior.

Suas palavras ficaram comigo, muito depois de ele sair. Talvez ele tivesse razão. Talvez eu pudesse transformar aquele momento em algo maior. Afinal, todos os começos, por menores que sejam, precisam de uma fagulha.

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No café, o ritmo lento da tarde não era suficiente para me distrair de pensamentos insistentes. Edward ocupava uma parte da minha mente que eu não conseguia evitar, mesmo enquanto tentava me concentrar em tarefas mundanas. O espaço vazio parecia me desafiar a encarar meus pensamentos.

— Então é aqui que você se esconde?

Levantei os olhos e lá estava ele, recostado contra o batente da porta da cozinha, com as mãos nos bolsos e aquele olhar que parecia ler cada palavra não escrita em mim.

— Edward? Como você entrou aqui?

— A porta dos fundos estava aberta. — Ele deu de ombros, casual, como se fosse a coisa mais normal do mundo.

— Isso não significa que você pode simplesmente aparecer assim.

Ele deu alguns passos na minha direção, os sapatos rangendo contra o chão de azulejos.

— Talvez não. Mas você parecia precisar de um intervalo.

Suspirei, jogando o pano de limpeza sobre o balcão.

— Não estou tão exausta assim, se é o que você está pensando.

— Claro que não está. — O tom dele era leve, mas o olhar sério, como se quisesse me provocar e me consolar ao mesmo tempo. — Só cansada o suficiente para querer sumir por uns minutos, talvez?

Cruzei os braços, inclinando-me no balcão, mas sem encará-lo diretamente.

— Talvez você precise conversar. Às vezes, falar ajuda.

Revirei os olhos, tentando manter o sarcasmo à tona.

— Que inspirador. Você sempre invade os espaços alheios?

Edward deu um meio sorriso, enfiando as mãos nos bolsos do casaco.

— Só quando acho que vale a pena.

Soltei uma risada curta, cruzando os braços.

— E o que faz você pensar que vale a pena?

Ele não respondeu imediatamente. Apenas deu aquele sorriso enigmático, que parecia mais uma provocação do que uma resposta real.

— Se você não quer falar, pelo menos me deixe te levar daqui por uns minutos.

Soltei uma risada curta, mas dessa vez sem disfarçar a curiosidade.

— Estou no meio do trabalho, caso não tenha reparado.

Ele olhou ao redor, gesticulando para o café vazio.

— Sim, parece que a multidão está quase incontrolável.

Suspirei, sabendo que ele estava certo. Era um daqueles fins de tarde em que o movimento morria antes mesmo de o dia acabar.

— Tudo bem, mas só por um minuto. E se meu chefe reclamar acho bom você ter umas indicações de emprego pra mim.

Edward riu baixinho, abrindo caminho até a porta enquanto eu o seguia. O ar fresco da rua me atingiu como uma onda de alívio, dissipando parte do peso que eu carregava.

— E então? — perguntei, enquanto ele parava alguns passos à minha frente.

Edward se virou para mim, as mãos ainda no bolso, mas o olhar mais sério agora.

— Só queria que você desse uma pausa, Bella. Às vezes tenho a impressão que você carrega o peso do mundo todo e não quer dividir com ninguém.

As defesas começaram a se erguer automaticamente, mas, por algum motivo, o jeito que ele disse aquilo não parecia uma invasão. Era mais... um lembrete.

— É esse o grande conselho que você tem para me dar? — respondi querendo sumir antes que ele percebesse o quanto mexia comigo. — Preciso voltar para o café Edward.

Edward deu um passo à frente, me impedindo de voltar.

— Não é questão de conselho Bella, mas eu enxergo que você precisa de alguém que possa desabar.

A simplicidade do que ele disse me desarmou. Não havia grandiosidade, apenas uma sinceridade que era difícil de ignorar.

— Já tenho uma psicóloga, sabia? — murmurei, tentando manter o tom leve, embora minha voz ainda carregasse uma hesitação.

— Ótimo. — Ele sorriu, um pouco mais provocador do que o necessário. — Então posso me concentrar apenas em te lembrar que fugir não é a única solução.

Franzi o cenho, meu peito apertando.

— Eu não estou fugindo. — A resposta saiu mais defensiva do que eu pretendia.

Ele inclinou a cabeça, aquele sorriso de canto irritantemente calmo brincando nos lábios.

— Não? Então o que você estava prestes a fazer agora?

O calor subiu ao meu rosto, e antes que eu pudesse formular uma resposta, ele deu um passo à frente, invadindo o espaço entre nós.

— Edward... — Comecei, mas minha voz vacilou.

— Eu não vou te pedir permissão para te provar que a gente pode dar certo, Bella. Mas se você não quiser que eu me aproxime mais, esse é o momento.

Ele se inclinou, devagar o suficiente para que eu pudesse me afastar, mas o jeito como ele me olhava — como se fosse algo inevitável, mas não invasivo — fez com que eu quisesse que ele continuasse.

Quando seus lábios tocaram os meus, não havia explosões, mas era como se ele estivesse entregando uma parte dele que nunca tinha dado a ninguém antes.

Minhas mãos subiram, quase sem que eu percebesse, até o casaco dele. Segurei o tecido com força, mais como um reflexo do que por escolha. Meu corpo parecia dividido entre se render ao momento e fugir.

Edward foi o primeiro a se afastar, mas só o suficiente para que nossos olhares se encontrassem.

— Isso foi... — ele começou, mas eu o interrompi, balançando a cabeça.

— Não. — Minha voz saiu fraca, quase um sussurro. — Isso não deveria ter acontecido.

Ele assentiu, mas o sorriso discreto em seus lábios não desapareceu.

— Ok. Não aconteceu.

A leveza no tom dele me irritou, como se ele soubesse algo que eu ainda não estava pronta para admitir.

— Edward...

— Bella. — Ele inclinou a cabeça, a expressão séria agora, mas ainda com aquele brilho provocador nos olhos. — Quando você estiver pronta, me avisa.

E então ele deu as costas, me deixando sozinha com a respiração descompassada e um turbilhão de emoções que me desafiavam a seguir em frente sem olhar para trás.

~~~~~~

Eu ainda tentava entender o que havia acontecido entre Edward e eu desde o beijo. As memórias estavam confusas — a tensão, a proximidade, a sensação de que algo importante estava acontecendo, mas também o medo constante de me deixar levar e perder o controle de novo.

O sábado chegou mais rápido do que eu esperava. No meio da manhã, percebi algo diferente na mesa onde Edward sempre sentava. Ele não estava lá, mas havia um pequeno pedaço de papel deixado sob a xícara vazia.

Peguei o bilhete com hesitação, olhando ao redor como se alguém pudesse estar me observando. As letras apressadas e inclinadas eram inconfundíveis: Parque Central, hoje as 15h. Sei que você vai aparecer. — E

Quando ele tinha aparecido aqui? Suspirei, dobrando o papel e enfiando-o no bolso do avental.

— Bilhetes. Isso virou uma tradição agora? — murmurei para mim mesma, tentando ignorar o calor que subia pelo meu rosto.

Era tão típico dele — casual e provocador, com aquele tom de quem sempre consegue o que quer. Pensei em ignorar o convite, só para contrariá-lo, mas enquanto limpava as mesas e fechava o turno, percebi que já estava decidida. Não sabia se era a ideia de estar ao ar livre, longe do café e das responsabilidades, ou simplesmente Edward, mas, quando olhei para o relógio, percebi que estava no horário perfeito para ir.

Lá estava ele, sentado sob uma árvore, com a luz do sol filtrada pelas folhas criando um mosaico de sombras ao seu redor. Ele parecia tranquilo, como se pertencesse àquele lugar mais do que qualquer um. Caminhei até ele com passos hesitantes, tentando decidir se era curiosidade ou teimosia que me fazia ficar.

— Achei que você fosse fugir de mim hoje — sua voz era voz leve, como uma provocação despretensiosa, mas havia um fundo de verdade que me incomodava.

— Eu não sabia que você me conhecia tão bem assim.

Sentei-me ao lado dele, deixando um espaço seguro entre nós, e cruzei os braços.

— Não costumo passear em parques com pessoas estranhas. — Minha tentativa de parecer indiferente falhou miseravelmente. Eu sabia disso.

Ele deu um meio sorriso, com os olhos ainda fixos em mim.

— Eu não sou um estranho.

Eu desviei o olhar, observando as folhas que balançavam ao vento, como se o movimento pudesse dissipar a tensão crescente entre nós.

Então ele quebrou o silêncio que nos encontrávamos, com os olhos fixos em um canto do parque onde uma pequena trilha se abria entre as árvores.

— Meu irmão mais novo adorava esse parque. — A voz dele saiu mais baixa do que o habitual, carregada de algo que me fez olhar para ele. — Ele era... o tipo de pessoa que fazia tudo parecer mais fácil. Quando ele morreu, a música foi tudo o que sobrou. Era a única coisa que ainda fazia algum sentido.

Eu não sabia o que dizer. Não era apenas o que ele falou, mas como ele falou. Ele falava com um cuidado, como se tivesse que se proteger do impacto delas enquanto ainda as soltava. E resolvi compartilhar uma vulnerabilidade minha também.

— Sinto muito Edward, eu sei como é. — murmurei, minha voz também baixa.

Ele virou os olhos para mim esperando que eu continuasse.

— Meu pai... — Minha voz tremeu, mas eu respirei fundo, agarrando a coragem para continuar. — Ele teve câncer. Nos últimos anos, foi como viver com uma contagem regressiva. Cada dia parecia mais pesado, mais frágil. E, quando ele se foi, tudo desmoronou.

Edward não desviou o olhar. Ele me encarava como se eu fosse o centro de algo importante, mas de uma maneira que não me pressionava. Era quase... protetor.

— Larguei a faculdade para estar mais perto dele... e do Jacob. Meu irmão precisava de alguém, e eu achei que poderia preencher esse espaço. — Um sorriso amargo tocou meus lábios, mais para mim mesma do que para ele. — A verdade é que eu nunca voltei. Foi como se, depois que ele se foi, eu também não conseguisse mais continuar.

Por um momento, esperei que ele dissesse algo que me machucasse como tantos outros já tinham feito, talvez uma crítica ou até mesmo um consolo ensaiado. Mas ele apenas assentiu.

— Faz sentido. Você colocou tudo em segundo plano por eles. Isso diz muito sobre quem você é.

Não era o que eu esperava ouvir. Não era um "você devia ter voltado" ou "foi um erro". Apenas aceitação. Como se ele me visse de uma forma que eu nunca tinha conseguido ver a mim mesma.

— Sempre vai doer, né? — murmurei, mais para mim mesma.

Edward não respondeu de imediato, mas seus dedos roçaram levemente os meus, um toque tão suave que quase passou despercebido. Quase.

— Talvez a dor nunca vá embora. — Sua voz era baixa, como se ele estivesse ponderando aquilo para si mesmo. — Mas, com o tempo, a gente aprende a viver com ela. E, às vezes, até a encontrar um pouco de beleza nela.

Foi então que eu sorri de canto, tentando aliviar o clima do momento:

— Você sempre marca encontros assim, sem avisar que vai ser uma sessão de terapia ao ar livre?

Ele sorriu de volta, um brilho divertido aparecendo em seus olhos.

— Não, só com pessoas que têm tanta coisa guardada que parece que vão explodir. — Ele sorriu de canto, mas o tom era sério.

POV EDWARD

A tarde começava a ceder à noite, mas a sensação do momento que compartilhamos continuava ali, me puxando. Conversar com Bella era como explorar um território desconhecido — cheio de nuances e silêncios que diziam mais do que palavras. Pela primeira vez, em muito tempo, eu sentia que estava sendo visto. Que tinha alguém que entendia o que eu estava passando.

Eu não queria que ela fosse embora ainda. Não quando parecia que estávamos chegando a algum lugar. As palavras saíram antes que eu pudesse pensar nelas, quase como um reflexo. Era um convite simples, mas, por trás dele, havia algo que eu já tinha desistido de esconder: a vontade desesperada de que ela continuasse perto.

— Ei, Bella. — Ela parou, virando a cabeça em minha direção com aquele olhar intrigante, o mesmo que sempre parecia me desconcertar. — Você deveria vir ao meu show de novo. Vai ser na próxima sexta, no mesmo lugar.

— Você disse que gostou da última vez. — Tentei soar casual, mas minha voz parecia mais intensa do que eu queria. — Quem sabe dessa vez a gente consiga fazer a noite ser ainda mais divertida. Pode até pedir uma música se quiser.

Ela permaneceu ali, me observando, como se estivesse tentando decidir se deveria ceder ou me manter à distância. Por um instante, o tempo parecia ter desacelerado, e cada pequeno movimento dela era uma resposta silenciosa ao que eu estava sentindo.

— Você não desiste, né? — perguntou, com um sorriso no canto dos lábios, a voz carregada de uma leveza que me fazia sorrir também.

Eu dei de ombros, tentando parecer relaxado, mas sabendo que minha expressão me entregava.

— Quando se trata de você... acho que vale a pena tentar de novo.

Vi o sorriso dela desaparecer lentamente, substituído por algo mais profundo. Ela deu um passo na minha direção.

— Vou pensar nisso — disse ela, finalmente, como se fosse uma promessa velada.

Fiquei olhando enquanto ela se afastava, e percebi algo: Bella era um paradoxo. Forte e ao mesmo tempo tão delicada, tão cheia de contradições que pareciam refletir as minhas próprias. Ver sua silhueta desaparecer na trilha deixou um vazio que eu não sabia como preencher. Era estranho, desconcertante. Eu deveria estar acostumado a pessoas indo embora. Era assim que eu vivia: sem laços, sem expectativas. Mas com ela, era diferente. Cada vez que ela saía, parecia que deixava um pedaço de mim com ela. Isso me assustava, mas, ao mesmo tempo, me fazia querer insistir. Pela primeira vez em anos, havia uma estranha esperança que eu não sabia como controlar.

As memórias começaram a surgir enquanto eu caminhava pelo parque, minhas mãos nos bolsos do casaco. Nunca pensei que seria capaz de me interessar por alguém assim de novo. Desde que minha noiva, Tânia, me deixou, me interessei apenas por algo fácil. Rápido. Superficial. Sem envolvimento emocional. Era mais seguro assim, mais prático. Ninguém podia me ferir se eu nunca me permitisse baixar a guarda.

Com Bella, era diferente. Não era algo imediato, mas algo que crescia lentamente, quase contra minha vontade. Ela era desconcertante e me puxava para mais perto. Quando penso nela, vejo um reflexo distorcido de mim mesmo: as perdas, os bloqueios, a tentativa desesperada de seguir em frente sem realmente saber como.

Tânia nunca entendeu minha dor, nunca quis entender. Quando meu irmão morreu, ela se afastou, como se minha tristeza fosse um fardo muito pesado para carregar. Quando ela me deixou, me perguntei por muito tempo se eu era simplesmente incapaz de ser suficiente para alguém. Desde então, vivi me convencendo de que não precisava de mais nada além da música para preencher o vazio.

Suspirei, meus passos ficando mais lentos enquanto o parque ficava vazio ao meu redor. Eu sabia que estava em território perigoso. Gostar de alguém era abrir uma porta para o inesperado, e o inesperado às vezes podia vir acompanhado de dor. Mas eu estava começando a achar que poderia valer a pena.

No dia do show, o estúdio que usávamos para ensaiar estava cheio da energia caótica de sempre. Jasper estava afinando o baixo com precisão meticulosa, enquanto Emmett usava as baquetas para marcar um ritmo na caixa, como se quisesse animar o ambiente.

Eu estava sentado no canto, ajustando a guitarra, mas minha mente estava a quilômetros de distância.

— Certo, Edward, o que tá rolando? — Emmett perguntou, apoiando os cotovelos na caixa da bateria.

— Ele tá assim desde que começou a falar da tal da Bella — comentou Jasper, sem levantar os olhos do baixo. — A última vez que ele ficou desse jeito... bom, a gente lembra o que aconteceu.

Emmett abriu um sorriso conspiratório, inclinando-se para frente.

— Ah, sim. A pessoa que não deve ser nomeada.

Jasper finalmente ergueu os olhos, lançando um olhar para Emmett.

— Você precisa parar de chamar ela assim.

— Mas é verdade! — Emmett riu. — Só espero que você desencane dessa fase emo cara,

— Não tem nada a ver com a Bella ou a que não deve ser nomeada — retruquei, já cansado da conversa.

— Não? — Emmett arqueou uma sobrancelha, claramente se divertindo. — Então toca alguma coisa pra provar.

Suspirei e deixei os dedos deslizarem pelas cordas. A melodia saiu naturalmente, a mesma que vinha tocando desde a noite passada. Antes que percebesse, comecei a cantarolar.

Quando terminei, o silêncio tomou conta do estúdio. Jasper cruzou os braços, a expressão neutra, enquanto Emmett tinha um sorriso tão largo que parecia quase caricatural.

— Meu Deus, ele tá compondo de novo — Emmett anunciou, como se fosse a descoberta do século.

— Não exagera — murmurei, desviando o olhar.

— Não exagera? — Emmett repetiu, rindo. — Tá na cara, cara. Se eu fosse você, agradeceria à Bella por ter devolvido a sua inspiração. Pelo menos eu espero que seja sobre ela.

Jasper deu um passo à frente, o bloco de notas em mãos.

— É uma boa letra, Edward. Tocante. Podemos incluir em algo do nosso EP.

— Nem pensar — retruquei rapidamente.

— Ah, qual é! — Emmett bateu as baquetas na borda da caixa. — Vai nos negar seu talento agora?

Eu não respondi. A verdade era que queria trabalhar mais na composição e quando estivesse tudo do jeito que eu imaginava, Bella seria a primeira a ouvir.

Jasper deu de ombros, voltando ao baixo.

Eu estava inquieto. O show estava prestes a começar, e enquanto tentava me concentrar a mesma pergunta se repetia em minha cabeça: Bella viria?

Eu sabia que ela estava lutando com seus próprios demônios, do mesmo jeito que eu. Talvez até mais. Mas havia algo entre nós.

As primeiras notas soaram, e por um instante, me perdi na música. Era sempre assim: o palco era meu lugar seguro, o único espaço onde eu não precisava explicar quem eu era ou justificar minhas escolhas. Mas, mesmo no meio do caos controlado da apresentação, meus olhos vagavam pela bar, procurando por ela.

E então, eu a vi.

Ela estava ao fundo, meio escondida, mas seus olhos estavam fixos em mim. Havia algo naquele olhar que me fez tocar com mais força, como se quisesse que ela sentisse cada acorde. A multidão parecia desaparecer, deixando apenas ela.

Quando terminamos nosso set, me aproximei, sentindo meu coração acelerar a cada passo.

— Então? — perguntei, enquanto enxugava o suor da testa com uma toalha. — Sem críticas hoje certo? Nós até tocamos uma música do seu ruivo favorito.

O sorriso dela estava ali, mas havia algo mais nos seus olhos.

— Não, vocês são incríveis, acho que vou ficar com a versão de vocês de Bad Habits na cabeça por um tempo. — ela começou, mas sua voz tinha uma incerteza que não combinava com as palavras.

Ela soltou um suspiro, olhando para o chão antes de voltar a olhar para mim.

— Eu gosto de estar aqui, gosto da música... gosto de você. Mas ainda estou tentando entender o que isso tudo significa.

Eu sabia que ela estava resistindo, que tinha medo de se entregar a algo que não podia controlar. E, de certa forma, eu entendia. Eu me sentia exatamente da mesma forma.

— Fico feliz que tenha vindo — disse, tentando aliviar a tensão. — E se isso ajuda, eu também estou tentando entender.

Ela sorriu de lado, aquele sorriso pequeno e cheio de significados que sempre parecia me desarmar.

— Talvez eu volte no próximo show — ela disse, brincando, mas algo na forma como ela falou sugeria que a ideia era real.

Eu ri, sentindo meu peito se aquecer.

— Bom, se a música não te convencer, talvez eu consiga.

O sorriso dela cresceu um pouco, mas logo se desfez quando eu disse:

— E se um dia quiser me mostrar o que anda escrevendo, estarei por aqui.

Ela me olhou, e por um segundo, parecia que ia dizer algo. Mas então, apenas assentiu, um gesto pequeno, mas cheio de significado.

Os ecos do show ainda ressoavam na minha mente enquanto caminhávamos pelas ruas tranquilas. As risadas e vozes da multidão haviam se dissipado, deixando para trás um silêncio confortável. Bella estava ao meu lado e eu gostava do jeito que ela ocupava o momento sem tentar preenchê-lo com palavras desnecessárias. Mas, ao mesmo tempo, isso me deixava inquieto, como se precisasse dizer algo. Qualquer coisa.

— Você realmente gosta da banda, não é? — perguntei, quebrando o silêncio. Um sorriso voltando para o seu rosto, mas era mais para mascarar o nervosismo do que para iniciar uma conversa trivial.

— Gosto, sim. — Ela lançou um olhar divertido, o tipo de olhar que me fazia questionar se ela estava sendo completamente sincera ou apenas tentando me provocar. — Mas não se ache tanto. Só porque voltei, não significa que virei sua fã número um.

Eu ri, mas a verdade era que suas palavras tinham mais impacto do que eu gostaria de admitir.

— Às vezes... — As palavras escaparam antes que eu pudesse impedi-las. — eu tenho medo de estragar tudo. Antes mesmo de começar.

Bella parou, os olhos me estudando com mais atenção. Não havia julgamento, apenas curiosidade genuína, e talvez algo mais — algo que me fazia querer continuar, mesmo sem saber onde aquilo ia dar.

— O que você quer dizer? — ela perguntou.

Tentei organizar os pensamentos que estavam se embolando na minha cabeça. Respirei fundo, sabendo que não havia uma maneira fácil de dizer o que estava prestes a sair.

— Minha ex-noiva... — comecei, a voz vacilando. — Duas semanas antes do casamento, ela disse que não me via mais como a pessoa com quem queria passar o resto da vida. Disse que eu estava sempre pra baixo, que nunca superei a morte do meu irmão e que... — engoli em seco, tentando ignorar o aperto no peito — ela não via futuro com um professor de inglês.

Fiquei quieto por um momento, tentando evitar o olhar de Bella. Mas, quando finalmente levantei os olhos, encontrei o dela fixo em mim, mais suave do que eu esperava.

— E depois disso, ela foi embora. Ficou com um colega de trabalho dela, um algum advogado daqueles que cobram até o seu rim. Acho que foi a maneira dela deixar claro que eu não era suficiente. Eu sou só um professor de inglês, mas mesmo assim não precisei fazer a conta.

Bella continuou me encarando, e o silêncio que veio depois não parecia estranho, apenas cheio. Cheio de algo que eu não conseguia definir.

— Edward... — ela finalmente disse, a voz tão baixa que mal consegui ouvir. — Isso não é sobre você. Nunca foi.

Eu dei um riso curto, mas não havia humor nele.

— É fácil dizer isso agora. Mas, na época, eu senti como se ela tivesse tirado qualquer esperança de mim. Desde então, eu... — hesitei, mas as palavras vieram mesmo assim — não consigo confiar. Não consigo acreditar que qualquer coisa seja permanente.

Bella deu um passo à frente, colocando uma mão no meu braço. O gesto era simples, mas o calor do toque dela me desarmou.

— Você tem todo o direito de se sentir assim. Mas isso não significa que todos vão te machucar. — As palavras dela tinham um peso que parecia impossível ignorar. — Talvez... só precise de tempo.

Eu a observei, buscando algo nos olhos dela que pudesse confirmar o que ela estava dizendo. Mas, antes que pudesse falar, Bella se inclinou e me beijou.

Quando os lábios dela tocaram os meus, foi como se o mundo parasse. Não era só um beijo — era um teste. Um pedido silencioso para que eu fosse cuidadoso, para que entendesse que ela estava se permitindo algo que não fazia parte do habitual. Eu queria corresponder, queria dizer a ela, sem palavras, que estava disposto a tudo que ela decidisse.

Quando nos afastamos, os olhos dela estavam mais brilhantes, mas também cheios de incerteza.

— Desculpe. Acho que isso foi uma má ideia — ela murmurou, desviando o olhar.

— Eu discordo. — Um sorriso tomou meu rosto antes que eu pudesse evitar. Não era uma resposta planejada, mas era verdadeira.

Bella hesitou, mas quando ofereci minha mão, ela aceitou. Voltamos a caminhar em silêncio pelas ruas quase desertas. A cidade parecia um pouco mais calma naquela hora, as luzes dos postes lançando sombras suaves na calçada.

Chegamos ao meu prédio, e eu a conduzi pelas escadas até o apartamento. Era um lugar pequeno, mas aconchegante. As paredes estavam decoradas com pôsteres de shows antigos, e havia uma guitarra encostada no canto, junto com pilhas de livros e cadernos de música espalhados por uma mesa improvisada.

— Bem-vinda ao meu caótico refúgio — disse, tentando soar despreocupado enquanto fechava a porta atrás de nós. Bella olhou ao redor, os olhos analisando cada detalhe. — Não repare na bagunça.

— É... muito você — seus dedos tocando de leve a lombada de um dos livros na mesa. — Música e literatura. Quem diria.

Ri tentando aliviar a tensão que pairava no ar.

— Quer algo para beber? — perguntei, indo em direção à pequena cozinha. — Não tenho muito, mas posso improvisar.

— Água está bom. — A resposta dela foi quase um sussurro, mas quando me virei para entregá-la, seus olhos estavam fixos em mim.

Por um instante, ficamos parados ali, no meio da sala, apenas nos encarando. Eu não sabia exatamente o que estava acontecendo, mas a energia entre nós era palpável, quase sufocante. Coloquei o copo de água na mesa e dei um passo em direção a ela.

— Bella... — comecei, mas parei. Não sabia como terminar a frase.

Ela deu um passo à frente também, tão perto agora que eu podia sentir o calor dela. Seus olhos encontraram os meus, e havia algo ali, algo que parecia uma mistura de medo e coragem.

— Eu não sei o que estou fazendo aqui — ela disse, a voz carregada de honestidade. — Mas... não quero ir embora.

Antes que eu pudesse responder, ela me puxou para mais perto, e nossos lábios se encontraram de novo. Foi diferente do beijo anterior. Mais intenso, mais urgente.

Minhas mãos subiram para o rosto dela, e ela se agarrou à minha camisa, como se precisasse de algo para se ancorar. O mundo ao nosso redor desapareceu, e tudo o que importava era o momento. Não havia espaço para dúvidas ou hesitações, apenas nós dois.

Quando nos afastamos, ambos estávamos sem fôlego. Ela encostou a testa na minha, e por um momento, ficamos ali, em silêncio.

— Você tem certeza? — perguntei, a voz baixa, mas firme. Não queria que ela se sentisse pressionada a nada.

— Tenho. — A resposta dela foi imediata.

Eu a guiei até o sofá, e tudo aconteceu de forma natural. Cada movimento parecia uma declaração, uma promessa não dita de que, pelo menos naquele momento, estávamos completamente entregues um ao outro.

As horas passaram como um borrão, e quando tudo terminou, ficamos deitados lado a lado no pequeno sofá. Sua cabeça apoiada no meu peito, os dedos traçando linhas invisíveis na minha pele.

Eu olhava para o teto, sentindo uma estranha mistura de familiaridade e novidade. Momentos como esse, com outra pessoa no meu espaço, não eram inéditos para mim. Na verdade, eu tinha me tornado bom nisso: me aproximar o suficiente para satisfazer uma necessidade momentânea, mas não a ponto de criar laços.

— Você está tão quieto. — A voz dela quebrou o silêncio, suave, mas cheia de curiosidade. Ela ergueu a cabeça para me encarar, os olhos tentando decifrar o que se passava na minha mente.

Eu sorri de lado, tentando disfarçar o turbilhão de pensamentos.

— Só... pensando. — Minha voz saiu mais baixa do que eu pretendia.

— Em quê? — Ela se ajeitou no sofá, o rosto mais próximo do meu agora. Não era uma pergunta curiosa; parecia mais uma tentativa de entender o que estava acontecendo entre nós.

Por um instante, hesitei. Parte de mim queria dizer algo casual, um comentário qualquer que pudesse encerrar o assunto. Mas a outra parte, a que estava se deixando levar por ela, não conseguia ignorar o que eu estava sentindo.

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— Em como... eu não quero que isso termine quando o sol nascer. — As palavras saíram antes que eu pudesse pará-las. Eu não tinha planejado ser tão honesto, mas não me arrependi.

Bella piscou, claramente surpresa com minha confissão. Ela ficou quieta por um momento, os olhos presos aos meus como se estivesse tentando decidir o que dizer.

— Edward... — começou, mas parou, mordendo o lábio como se estivesse escolhendo as palavras com cuidado. — Isso é diferente pra mim também.

Bella voltou a apoiar a cabeça no meu peito. O cansaço finalmente me venceu. Meus olhos começaram a pesar, e, antes que eu percebesse, fui tomado pelo sono.

Quando acordei, o sofá estava vazio. O espaço onde ela esteve ainda carregava seu perfume, mas a ausência dela era como um soco no estômago. Parecia uma vingança do destino. As roupas dela, que antes estavam espalhadas pelo chão, não estavam mais ali. Ela havia recolhido tudo, saído em silêncio, sem me acordar.

Passei a mão pelo rosto, sentindo a frustração borbulhar sob a superfície. Não era raiva. Eu sabia que ela estava apenas seguindo seu instinto de proteção, fugindo antes que pudesse se sentir exposta. Mas isso não tornava mais fácil aceitar que ela tinha ido embora.

Eu estava procurando por uma saída a minha vida toda, e agora, não consigo escapar. Cada momento com ela parecia um passo mais fundo em algo. Levantei-me lentamente, pegando o celular na mesa ao lado. Nenhuma mensagem dela. Nenhuma pista do que estava se passando em sua mente.

Enquanto o sol brilhava pela janela, tudo o que eu sabia era que, pela primeira vez, queria que alguém ficasse.

POV BELLA

Eu não conseguia parar de pensar no Edward. E isso era perigoso. Toda vez que fechava os olhos, ele estava lá. Cada detalhe da noite anterior — seu toque, seu sorriso, o calor de seus lábios nos meus — parecia gravado em minha pele. Eu sabia que não deveria me deixar levar, que era mais seguro manter distância. Mas cada vez que tentava lutar contra, parecia que afundava mais.

A ansiedade começava a pulsar, e com ela, o desejo familiar de buscar alívio. O velho impulso de resolver tudo com um copo de álcool estava ali, quase palpável. Respirei fundo, tentando ser mais forte. Por mim. Pelo exemplo que queria dar ao Jacob. E, de alguma forma, também por Edward.

As horas no café arrastaram-se de uma forma dolorosa. Os movimentos automáticos do trabalho não eram suficientes para me distrair. Quando Angela finalmente chegou para o turno da tarde, senti um alívio inesperado. Ela carregava sua barriga de quase sete meses com uma graça que parecia vir acompanhada de uma paciência infinita — algo que eu invejava profundamente.

— Você está estranha hoje. — Ela comentou enquanto ajeitava o avental, os olhos estreitando com curiosidade. — Mais do que o normal.

— Eu? — tentei brincar, mas meu sorriso saiu fraco.

— Vamos lá, o que aconteceu? É uma história boa ou problema?

Suspirei e me sentei em um dos bancos do balcão enquanto o movimento no café dava uma trégua.

— É complicado.

Angela cruzou os braços, me encarando com firmeza.

— Eu estou grávida de gêmeos e já vi tanta coisa que você nem imagina. "Complicado" não me assusta mais.

Sorri decidindo confiar nela.

— Eu... passei a noite com alguém. E foi incrível. Mas, ao mesmo tempo, me deixou... confusa.

As sobrancelhas dela subiram, o rosto iluminado por um sorriso quase travesso.

— Espera aí. Isso é uma confusão boa! Quem é ele?

— Edward.

Angela piscou algumas vezes antes de sorrir ainda mais.

— O Edward que vem aqui, senta na mesma mesa toda vez e acha que ninguém percebe os olhares de canto que ele joga pra você? O mesmo cara que sempre me pergunta sobre você e já me pediu seu número umas vinte vezes. Esse Edward?

— Ele pediu meu número? — Balancei a cabeça, tentando focar no que realmente importava. — Eu fui mais uma vez em um show dele e no final uma coisa levou a outra. Ele é um pouco arrogante, mas... tem algo nele. Algo que me faz querer ficar perto, mesmo quando sei que não deveria.

Angela ficou em silêncio por um momento antes de se sentar ao meu lado, o tom dela mais sério agora.

— E por que acha que não deveria?

Hesitei, olhando para minhas mãos, que ainda seguravam um pano de limpeza amassado.

— Porque... estou tentando colocar minha vida nos eixos. Ficar sóbria, lidar com meus problemas. E ele... ele também tem suas questões. Tenho medo de que a gente se afunde junto.

Angela colocou uma mão em meu ombro, o gesto firme e tranquilizador.

— Bella, ninguém tem a vida perfeita. E você não precisa estar completamente resolvida para permitir que alguém entre. Às vezes, as pessoas que escolhemos podem nos ajudar a crescer. Mas você precisa parar de fugir. Talvez seja hora de se permitir ser feliz.

Eu sabia que o que ela dizia era verdade. Eu sempre fugia — dos meus sentimentos, das pessoas, de mim mesma. E Edward... ele era a prova viva de que havia algo mais lá fora. Algo que eu estava desesperadamente tentando ignorar.

Olhei para Angela, que apenas me deu um sorriso encorajador antes de voltar ao trabalho. Fiquei ali por mais alguns minutos, absorvendo o que ela havia dito. Talvez fosse hora de tentar parar de fugir e simplesmente dar uma chance pro meu futuro.

~~~~~~

O som das rodinhas do carrinho ecoava nos corredores do supermercado enquanto eu empurrava lentamente, tentando me concentrar na lista mental de itens necessários. Não era exatamente uma tarefa prazerosa, mas andar entre as prateleiras me dava uma sensação de rotina, de controle. Minha cabeça, no entanto, não cooperava. Edward ainda estava lá, presente em cada pensamento, em cada memória da noite que tínhamos compartilhado.

Enquanto eu passava as compras no caixa automático, ouvi uma voz atrás de mim que fez meu coração dar um salto.

— Você sabia que é linda até fazendo compras?

Virei-me, surpresa, encontrando os olhos verdes de Edward fixos em mim, com um sorriso suave nos lábios. Seu elogio me fez sentir um calor inesperado no rosto.

— Isso é mais uma das suas manias? Andar por aí distribuindo elogios no mercado?

Ele deu de ombros, ainda com aquele sorriso.

— Só quando é verdade.

Por que ele tinha que parecer tão à vontade em qualquer lugar?

— Edward. — Eu não consegui conter o tom levemente exasperado. — Você está me seguindo agora?

Ele fingiu surpresa, colocando uma mão no peito.

— Me descobriu. Eu sigo você até em supermercados.

Eu revirei os olhos, mas não consegui evitar um pequeno sorriso.

— Bom saber que você também faz coisas normais, como comprar pão. — Respondi, voltando a focar nas minhas sacolas.

— Eu também preciso comer, sabia? Não vivo só sarcasmo. — Ele se aproximou e, antes que eu pudesse reagir, pegou uma das minhas sacolas. — Deixa eu te ajudar.

— Não precisa. São só algumas coisas. — Tentei puxar de volta, mas ele segurou firme, como sempre fazia com tudo.

— Claro que precisa. Onde está o carro? — Ele me olhou curioso.

— Não trouxe o carro. Prefiro caminhar — disse, tentando parecer casual. — Não são tantas sacolas assim.

Ele estreitou os olhos por um momento, como se ponderasse minhas palavras, e então deu de ombros.

— Ótimo. Caminhar faz bem. Vou com você.

Suspirei, resignada. Estava tornando impossível dizer "não" pra ele.

Saímos do supermercado e começamos a caminhar pela calçada, o ar fresco do final da tarde ajudando a aliviar parte da tensão que eu sentia. Cada passo ao seu lado me fazia questionar se realmente valia a pena querer me afastar. Ele finalmente falou, sua voz suave.

— Então, vai continuar fingindo que a noite passada não aconteceu?

As palavras dele me pegaram de surpresa, mas não tanto quanto o tom de voz — direto. Meu coração disparou, e, por um instante, quis fugir novamente. Fugir de suas perguntas, de sua intensidade, de tudo o que ele parecia ver em mim que eu ainda não entendia.

— Não estou fingindo nada — respondi, tentando manter o tom neutro, mesmo que meu coração estivesse disparado.

— Você foi embora antes de eu acordar, Bella.

Olhei para ele de relance, tentando medir minha resposta. Mas antes que eu pudesse dizer algo defensivo, ele continuou.

— Olha, eu não vou te pressionar. Mas, se você quiser continuar fingindo que não significa nada, vou respeitar. Só... queria que você soubesse que, pra mim, significa.

Ele percebeu que eu estava prestes a falar, mas mudou de assunto rapidamente, talvez para me dar espaço.

— Tem alguns anos que eu não falo com os meus pais, já comentei com você? — Ele perguntou, desviando o olhar para a calçada.

Assenti. Ele já havia mencionado o distanciamento, mas nunca tinha entrado em detalhes.

— Sim. Você disse que aconteceu depois que perdeu seu irmão.

Edward respirou fundo, como se estivesse reunindo forças para continuar.

— Meu irmão era... tudo. Mais do que um irmão, ele era meu melhor amigo. Quando ele morreu, meus pais e eu... não soubemos como lidar com isso. Eles se jogaram no trabalho e, no processo, e como eu já era adulto acho que não perceberam que eu também precisava deles.

A honestidade em sua voz era palpável. Eu sabia como era perder alguém e sentir que o mundo ao seu redor estava quebrado. Queria dizer algo, mas ele continuou antes que eu tivesse a chance.

— E com isso eu me afastei deles. Construí uma barreira porque era mais fácil assim. E aí veio a Tânia…Só quero que você entenda que somos mais parecidos do que você quer enxergar Bella.

Só percebi que estávamos na frente do meu prédio quando parei para ajustar as sacolas e olhei para a porta.

— Chegamos. Moro aqui. — apontei para o prédio na nossa frente.

— Eu avisei que ia caminhar com você. Não é como se eu estivesse te perseguindo ou algo assim.

— Não sei... — respondi, olhando para ele de lado. — Parece um pouco estranho.

— Estranho seria deixar você carregar tudo isso sozinha. — Ele sorriu, aquele sorriso torto que parecia sempre desarmar minhas defesas.

Eu suspirei, balançando a cabeça, mas o convidei para entrar antes que a conversa se estendesse ainda mais.

— Tudo bem. Já que você chegou até aqui, pode me ajudar a guardar as compras.

Ele arqueou as sobrancelhas, parecendo surpreso, mas seguiu-me sem hesitar.

Quando abri a porta, joguei as sacolas no balcão e me virei para ele.

— Bem-vindo ao meu... espaço limitado. — quis o imitar.

Edward olhou ao redor, avaliando o ambiente como se cada detalhe fosse importante.

— É aconchegante. — Ele colocou as sacolas na mesa e acrescentou, com um sorriso: — Bem mais organizado do que eu esperava.

— Não sei se deveria me sentir elogiada ou insultada — retruquei, indo até a cozinha.

— Definitivamente elogiada — ele respondeu, ainda olhando ao redor.

Enquanto guardávamos as compras, uma ideia surgiu.

— Você está com fome? — perguntei, quase sem pensar.

— Sempre — ele disse, com um sorriso.

— Tudo bem. Mas vai ter que ajudar.

Dez minutos depois, descobri que Edward não era perfeito em tudo. Ele conseguiu derramar farinha no balcão enquanto procurava sal e quebrou um ovo fazendo com que metade da clara escorresse pela bancada.

— Você é um desastre — eu disse, tentando não rir enquanto limpava a bagunça.

— Mas sou um desastre útil, certo? — Ele olhou para mim, com o sorriso mais despreocupado do mundo.

Quando levantei o olhar, percebi que ele estava me observando de um jeito que fez meu estômago revirar.

— O que foi? — perguntei, tentando soar casual.

Edward deu de ombros, desviando o olhar para a frigideira.

— Queria mais momentos assim.

As palavras ficaram pairando entre nós, e pela primeira vez em muito tempo, não senti vontade de fugir.

— Eu... também — confessei, minha voz baixa, quase um sussurro. — Tô começando a gostar de ter você por perto.

~~~~~~

A calmaria do café, já perto do fim do turno, era quase reconfortante. O som distante da louça sendo lavada preenchia o espaço, dando ao ambiente um ritmo tranquilo. Esses momentos de quietude tinham se tornado os meus favoritos, o único tempo em que conseguia organizar os pensamentos e me concentrar nos estudos.

Livros e cadernos estavam espalhados pela mesa em que eu estava sentada. Meu caderno de anotações estava aberto, com várias frases sublinhadas, e uma caneta pousada de lado. Estava relendo um texto pela terceira vez, tentando absorver cada detalhe, mas minha mente insistia em vagar. Voltar a estudar aos 28 anos, depois de tanto tempo que tinha largado a faculdade era mais difícil do que eu imaginava, mas a vontade de terminar aquele último semestre de jornalismo era maior do que minhas inseguranças.

Foi então que a porta do café abriu, e uma figura familiar entrou. Edward não disse nada; apenas caminhou em minha direção com aquele jeito descontraído, inclinando-se ligeiramente para espiar o que eu estava fazendo.

— Você tem essa habilidade impressionante de sempre aparecer do nada e se intrometer — comentei, arqueando uma sobrancelha enquanto empurrava meu caderno para longe dele. — Alguma vez já pensou em pedir licença?

Ele sorriu, aquele sorriso de canto que parecia sempre estar dois passos à frente de mim.

— E estragar a surpresa? Nem pensar.

Puxando uma cadeira sem sequer pedir permissão, como se já fizesse parte do lugar, Edward se acomodou ao meu lado.

— Estudando no meio do expediente? — comentou, os olhos curiosos examinando os livros e cadernos espalhados pela mesa.

Suspirei, sabendo que não adiantaria desconversar.

— Resolvi voltar para a faculdade — admiti, fechando o caderno à minha frente.

Edward assentiu, como se estivesse ligando os pontos.

— Jornalismo, certo? Você mencionou que tinha parado no último semestre.

— Exato. Achei que estava na hora de terminar, mesmo que isso signifique passar noites em claro tentando lembrar como estudar de verdade — murmurei, soltando uma risada nervosa.

— Parece complicado, mas você está indo muito bem — comentou, apontando para a bagunça de materiais de estudo na mesa.

Soltei uma risada curta, tentando manter o tom leve.

— Eu chamo isso de puro desespero. — Cutuquei um dos livros de forma distraída. — Além do mais, não é como se eu tivesse muito tempo sobrando.

— Não se cobre tanto. Você tinha que ver como eu parecia um zumbi na época da faculdade. Acho incrível que você esteja fazendo isso.

Tentei disfarçar o calor que subiu ao meu rosto, voltando a atenção para o caderno.

— Obrigada — murmurei, sem saber o que mais dizer.

Ele pegou um dos meus livros da mesa e examinou a capa, seus dedos traçando as letras como se quisesse absorver o que estava vendo.

— Precisa de ajuda? — perguntou casualmente, sem levantar os olhos do livro.

Olhei para ele, cética.

— Você vai me ajudar a escrever um artigo sobre ética no jornalismo?

Ele levantou a cabeça, o sorriso brincando nos lábios.

— Sou professor de inglês, lembra? Isso me faz um ótimo editor. Se precisar de alguém para revisar, eu sou o cara.

A proposta me pegou desprevenida.

— Sério?

— Claro. — Ele fechou o livro e me olhou diretamente, o sorriso agora mais suave. — Apoiar você é importante pra mim, sabia?

Meu peito apertou de um jeito estranho. Tentei aliviar a emoção brincando:

— E quanto você vai cobrar por esse serviço de edição?

Ele fingiu indignação, levando a mão ao peito.

— Cobrar? — exclamou, o tom cheio de drama. — Bella, eu estou oferecendo um serviço de qualidade, gratuito e, honestamente, altruísta!

Eu ri, sacudindo a cabeça.

— Tudo bem, tudo bem. Só vou aceitar porque você disse que é um serviço de qualidade.

— Exatamente. E vou cobrar só em cafés no intervalo, nada mais. — Ele piscou, voltando a se inclinar na cadeira.

O tempo com Edward passou mais rápido do que eu esperava. Entre as provocações e as sugestões genuínas que ele dava, percebi que estava realmente conseguindo avançar no artigo. Quando finalmente guardei meus materiais, a tensão que antes parecia esmagadora havia diminuído.

— Você realmente é bom nisso — confessei, arrumando minha bolsa.

— Nisso o quê? — perguntou ele, pegando um dos livros para me ajudar.

— Em tudo — admiti, quase sem pensar, deixando escapar um sorriso tímido. Mas rapidamente acrescentei, voltando à realidade: — E em distrações também.

Edward arqueou uma sobrancelha, o sorriso de canto aparecendo deixando claro que ele sabia o quanto mexia comigo.

— Distrações não são necessariamente ruins — respondeu, com aquele tom meio sério que às vezes escapava pelas frestas de suas brincadeiras. — Especialmente se ajudam você a lembrar do que é capaz.

— Obrigada, Edward — a sinceridade evidente na minha voz.

— Sempre, Bella. — Ele deu um sorriso pequeno antes de sair em direção à porta. — Até a próxima sessão de estudos?

— Vamos ver — respondi, sabendo que o sorriso em meu rosto me entregava.

O som da risada dele ficou comigo mesmo depois que ele foi embora.

~~~~~~

Na semana seguinte, acordei com o corpo pesado, a cabeça latejando e a garganta dolorida. Resfriada, cercada por lenços de papel, já estava há dois dias presa no apartamento, afundada em frustração.

Quando ouvi batidas na porta naquela noite, levantei-me com esforço, crente de que seria Sue, não acreditando quando eu disse que tinha melhorado, até porque era mentira. Ao abrir, dei de cara com Edward, segurando uma sacola e olhando para mim com preocupação.

— O que você está fazendo aqui? — perguntei, minha voz rouca e fraca.

— Cuidando de você. — Ele levantou a sacola, revelando um pote de sopa e um pacote de biscoitos. — Você não apareceu no café. Perguntei para Angela, e ela disse que você estava doente.

Meu rosto deve ter mostrado o quanto aquilo me pegou desprevenida, porque ele sorriu levemente, passando por mim para entrar.

— Bella, você tá péssima.

— Obrigada — retruquei, sarcástica, mas ele apenas balançou a cabeça e me guiou até o sofá, como se eu não tivesse escolha.

— Senta. Eu vou cuidar disso.

Enquanto eu me acomodava, ele desapareceu na cozinha, onde ouvi sons abafados de panelas e pratos. Minutos depois, voltou com uma tigela de sopa e um copo de água.

— Come isso. Vai te fazer bem.

Aceitei a tigela e Edward sentou-se ao meu lado, puxando o laptop e um pacote de papéis da bolsa.

— Tenho algumas provas para corrigir, mas posso fazer isso aqui. Que tal colocarmos um filme enquanto eu trabalho?

Escolhi algo leve, mas mal prestei atenção na tela. Edward se dividia entre corrigir as provas e o cuidado silencioso que oferecia. De tempos em tempos, sua mão livre encontrava a minha, seus dedos desenhando padrões tranquilos na pele, como se estivesse tentando me distrair da febre e do desconforto.

Quando o filme terminou, ele fechou o laptop com um suspiro.

— Eu preciso ir. Tenho que montar meu plano de aula para a próxima semana.

Minha expressão deve ter revelado minha relutância em deixá-lo ir, porque ele pegou meu celular que estava jogado na mesa de centro.

— Mas antes disso, você vai gravar meu número no seu celular. Assim, da próxima vez que precisar de algo, pode me chamar antes de ficar assim.

Revirei os olhos, mas sorri, incluindo seu contato na minha agenda.

— Tá bom, Edward.

Assim que terminei, sua expressão se suavizou.

— Promete que, se piorar, vai me chamar? — ele perguntou, a voz baixa, quase um sussurro.

— Prometo. — Eu sorri de leve, sentindo o peso da sinceridade na promessa.

Edward ficou em silêncio por um momento, me observando como se quisesse ter certeza de que eu estava falando a verdade. Então, inclinou-se devagar e pressionou um beijo suave na minha testa.

O gesto foi tão inesperado quanto reconfortante, e por um instante não consegui pensar em nada para dizer.

— Até logo, Bella — disse ele, lançando-me um último olhar antes de se dirigir à porta.

Fiquei ali, observando-o sair, o toque suave do beijo na minha testa e a presença reconfortante dele ainda pairando no ar. Quando a porta finalmente se fechou, o apartamento pareceu um pouco mais vazio, quase frio.

Mas o calor de sua presença e o gesto reconfortante continuavam comigo, tornando a febre e o desconforto muito mais suportáveis.

~~~~~~

O parque estava especialmente bonito naquela tarde, com o sol se escondendo entre as árvores e o som de risadas infantis ao fundo. Jacob corria à minha frente, segurando uma bola como se fosse o troféu mais importante do mundo. Sue caminhava logo atrás, rindo de algo que ele havia dito.

— Vamos, Bella! Você está ficando velha demais para correr? — Jacob gritou, girando a bola nas mãos e me provocando com um sorriso malicioso.

— Velha? — respondi, cruzando os braços e fingindo indignação. — Velha é a sua avó! Mas, se você está pedindo...

Antes que ele pudesse responder, corri atrás dele, fazendo questão de exagerar meus passos. Jacob soltou uma gargalhada, acelerando, mas eu o alcancei, roubando a bola e erguendo-a como um troféu.

— Quem está velha agora? — provoquei, enquanto ele se jogava na grama fingindo derrota.

Sue, que observava tudo de um banco próximo, balançou a cabeça, rindo.

Depois de alguns minutos, Jacob se sentou ao meu lado na grama, ainda rindo. Ele pegou a bola de volta e começou a jogá-la para cima e para baixo, distraído.

— Sabe — ele começou, casualmente. — Acho que estou começando a gostar da ideia de você namorar o meu professor.

Sue, que estava tomando um gole de água, quase se engasgou.

— O que? — ela perguntou, erguendo uma sobrancelha e me lançando um olhar cheio de curiosidade.

— Nada — respondi apressadamente, mas Jacob, com sua típica falta de filtros, foi mais rápido.

— Meu professor de inglês, Edward. Ele tem tatuagens e toca em uma banda. E, aparentemente, ele e Bella têm saído juntos.

Sue arregalou os olhos, sua expressão mudando de curiosidade para choque.

— Espera aí, Bella... você está saindo com o professor do Jacob?

— Não! Não é assim! — apressei-me a dizer, sentindo meu rosto aquecer. — Ele passa algumas tardes no café, entre corrigir trabalhos e compor. Foi assim que nos conhecemos. Não tem nada acontecendo.

— Relaxa mãe, ano que vem as minhas aulas não vão ser mais com ele, lembra?

Sue relaxou, mas o olhar dela ainda era desconfiado.

— Verdade, mas Bella se não tem nada acontecendo por que você está sorrindo enquanto fala dele? — ela perguntou, inclinando a cabeça como se me analisasse.

— Não estou sorrindo — menti, mas sabia que estava perdida. Jacob já estava rindo alto.

— Está sim! — ele insistiu, apontando para mim. — Isso é tão estranho.

— Não tem nada acontecendo! — retruquei, tentando parecer firme, mas o sorriso teimoso no meu rosto não ajudava minha defesa.

Sue trocou um olhar cúmplice com Jacob antes de dizer:

— Tudo bem, Bella. Não vou insistir. Mas você parece feliz.

Antes que eu pudesse responder, Jacob mudou de assunto.

— Sabe, eu vi umas fotos do papai ontem — ele disse, olhando para a bola em suas mãos. — Sinto falta dele.

Sue colocou uma mão no ombro dele, um gesto suave e reconfortante, mas suas próprias feições mostravam a falta que ela também sentia. Eu engoli em seco, tentando encontrar algo para dizer.

— Eu também sinto falta dele, Jake — murmurei, minha voz quase um sussurro. — Todos os dias. Mas a gente tá junto nessa você sabe, certo?

Jacob olhou para mim, seus olhos brilhando com um misto de saudade e esperança.

Sue, sempre a mediadora, sorriu para nós dois, seus olhos cheios de algo que parecia ser orgulho.

— Vocês dois são incríveis, sabiam? — disse ela, sua voz carregada de carinho. — Sei que as coisas não foram fáceis, mas o seu pai estaria muito orgulhoso.

Jacob sorriu para ela, e eu senti um calor inesperado em meu peito. Momentos como esse não aconteciam com frequência, mas, quando aconteciam, me lembravam do que realmente importava.

Jacob, sendo Jacob, logo se levantou, correndo pelo parque novamente com a bola. Sue e eu ficamos sentadas na grama, observando-o.

— Ele é um bom garoto — Sue comentou, ainda olhando para Jacob. — E você, Bella... está indo melhor do que acha. Não seja tão dura consigo mesma.

Sue continuou observando Jacob, enquanto eu fiquei em silêncio, absorvendo suas palavras.

~~~~~~

O estúdio de música ficava em um prédio discreto, com paredes cobertas de grafites vibrantes e uma escada estreita que parecia nunca acabar. Hesitei ao entrar, encarando Edward como se ele fosse responsável por me arrastar até ali. Ele apenas sorriu.

— Não vai ser tão ruim assim — disse, empurrando a porta com confiança. — Quem sabe você até goste.

Ao cruzar a entrada, um mundo completamente diferente se abriu diante de mim. O som abafado de um baixo reverberava pelas paredes, cabos e equipamentos estavam espalhados pelo chão de madeira desgastada. Três caras estavam no sofá velho no canto, rindo de algo que não consegui entender.

— Olha só quem apareceu — disse um deles, se levantando para cumprimentar Edward. — E trouxe companhia.

Edward sorriu e fez as apresentações. O cara que havia falado era Emmett, o baterista, um gigante musculoso com um sorriso fácil e contagiante. Ao lado dele, Jasper, o baixista, parecia mais reservado, com um bloco de notas nas mãos, rabiscando algo parando para me cumprimentar com um breve aceno de cabeça. Riley, o guitarrista e vocalista, estava testando acordes na guitarra elétrica e me lançou um olhar avaliador antes de acenar com um leve sorriso.

— Finalmente conhecendo a famosa Bella — disse Jasper, levantando o olhar para mim. — O cérebro por trás da nova inspiração do Edward.

Edward revirou os olhos, enquanto eu apenas ri, sem saber exatamente como reagir. Apesar do ambiente caótico, havia algo acolhedor ali. Edward parecia mais relaxado, mais confiante.

Enquanto eles ajustavam os instrumentos e brincavam com melodias, me sentei no canto, observando. Edward começou a tocar algo no violão, e a melodia era bonita, mas a letra parecia... incompleta. Quando ele me olhou, percebi que esperava minha opinião.

— Parece bonito, mas falta alguma coisa — soltei, antes de perceber que tinha falado em voz alta.

Ele ergueu uma sobrancelha, desafiador.

— Ah, é? O que falta?

Fiquei quieta por um momento, tentando colocar em palavras o que estava na minha cabeça.

— Talvez... algo como... "Mesmo nos piores dias encontramos algo que vale a pena continuar."

Os outros pararam o que estavam fazendo e olharam para mim. Edward tocou a melodia novamente, murmurando a frase que sugeri, e, para minha surpresa, ela se encaixou perfeitamente.

— Nada mal, Bella — disse ele, com um sorriso que parecia genuinamente impressionado. — Talvez você tenha talento para isso.

Ri, tentando não deixar o calor subir ao meu rosto. Eles retomaram os ajustes, e eu continuei observando.

Algum tempo depois, caminhamos tranquilamente pelas ruas iluminadas pelos letreiros noturnos. Estava prestes a agradecer pela tarde, quando um estúdio de tatuagem chamou minha atenção. A fachada discreta contrastava com os desenhos chamativos na vitrine, todos tão vibrantes e detalhados que me impediam de desviar o olhar.

— Curiosa? — Edward perguntou, percebendo minha fascinação.

— Esses desenhos são incríveis. — Eu me aproximei do vidro, examinando cada detalhe com cuidado.

Ele riu, aproximando-se ao meu lado.

— É o estúdio do Paul. Ele é amigo meu, foi quem fez minhas últimas tatuagens. — Ele apontou para o braço, onde as linhas escuras de tinta se destacavam. — Quer entrar?

— Não sei se é uma boa ideia...

— Por que não? — Ele abriu um sorriso desafiador. — Tem medo de agulhas?

Hesitei por um momento, mas a empolgação nos olhos dele era quase contagiante.

— Tudo bem. Vamos entrar.

O interior do estúdio era acolhedor e criativo, com luz suave, música ambiente e desenhos espalhados pelas paredes. Paul, um cara magro com braços cobertos de tatuagens intrincadas, cumprimentou Edward com um abraço.

— E quem é essa? — Paul perguntou, lançando um olhar curioso para mim.

— Bella — Edward respondeu, sorrindo. — Acho que ela está pensando em fazer uma tatuagem.

Eu ri nervosamente, mas algo dentro de mim sabia que ele estava certo.

— Sempre pensei em fazer, mas nunca tive coragem — confessei.

— Bom, a coragem está aqui agora. — Paul sorriu, já pegando seu caderno de rascunhos. — O que você tem em mente?

— Um pombo. No ombro esquerdo. — Minha voz saiu mais firme do que eu esperava.

Paul assentiu e começou a esboçar, enquanto Edward observava, me incentivando com um sorriso. Quando ele mostrou o desenho, era simples, mas cheio de detalhes que capturavam exatamente o que eu queria.

— É perfeito — murmurei.

Enquanto Paul preparava tudo, Edward permaneceu ao meu lado, distraindo-me com histórias sobre suas próprias tatuagens. Quando a agulha tocou minha pele, fechei os olhos, tentando me concentrar na voz dele. Não era tão ruim quanto eu temia, e, na verdade, o processo era quase... terapêutico.

Quando a tatuagem ficou pronta, me levantei e me olhei no espelho. Era pequena e discreta, mas parecia carregar tudo o que eu estava sentindo. Um símbolo de tudo que eu estava tentando conquistar.

— Combina com você — Edward disse, com um sorriso caloroso.

Ainda encarando o reflexo, me virei para ele.

— Obrigada. Por me convencer.

Ele colocou a mão no meu ombro, com cuidado para não tocar a tatuagem recém feita.

— Foi você quem decidiu dar o próximo passo.

Não sabia se tinha sido a tatuagem, ou talvez eu finalmente tivesse criado coragem para parar de fugir. Mas eu me sentia livre. Me aproximei e o beijei, sem hesitar. Foi um beijo tranquilo, cheio de significados que ainda estávamos começando a explorar.

Quando nos afastamos, ele manteve a testa encostada na minha por um instante.

— Então, vai me dar uma chance? — perguntou, com um sorriso brincalhão.

Dessa vez, eu ri de verdade.

— Talvez.

~~~~~~

O convite para acampar veio de forma inesperada, mas não totalmente surpreendente, considerando o grupo de amigos de Edward. Jasper, com seu jeito tranquilo, foi quem mencionou a ideia primeiro. Emmett, como sempre, foi o mais animado. Quando Edward me perguntou se eu queria ir, minha resposta inicial foi hesitante. Acampar não fazia parte da minha zona de conforto. Mas passar mais tempo com Edward e com as pessoas que ele gostava parecia uma boa ideia.

Na sexta-feira à tarde, nos encontramos no estúdio de música antes de pegar a estrada. Alice e Rosalie, as namoradas de Jasper e Emmett, estavam lá, animadas enquanto ajudavam a organizar o que parecia ser uma quantidade absurda de equipamentos e mantimentos.

— Você vai se divertir, prometo — Alice disse, com aquele sorriso contagiante enquanto colocava uma lanterna na mochila. — E se não, pelo menos vai poder rir das tentativas do Emmett de acender uma fogueira.

Rosalie riu, acenando enquanto ajudava Emmett a carregar um cooler.

— É sempre um show à parte. Confie em nós.

O destino era um pequeno acampamento perto de um lago, rodeado por árvores altas e uma paz que parecia de outro mundo. O som das folhas balançando ao vento e o canto distante dos pássaros criavam uma trilha sonora relaxante enquanto montávamos as barracas.

À noite, a fogueira finalmente foi acesa — com menos desastres do que Rosalie sugeriu, embora Emmett tenha insistido que só ele sabia como fazer. Sentados em volta das chamas, o calor da fogueira parecia refletir na leveza das conversas.

— Marshmallows? — Edward perguntou, segurando o pacote e me oferecendo um graveto. Seus olhos brilhavam sob a luz do fogo.

— Por que não? — Respondi, pegando o graveto. Ele sorriu, e começamos a espetar os marshmallows, esperando pacientemente que ficassem dourados, ou, no meu caso, levemente chamuscados.

Alice e Rosalie se juntaram a mim, trazendo mais histórias sobre Edward e seus amigos. Alice, trabalhava como enfermeira no hospital da cidade me contou sobre os turnos loucos e como conheceu Jasper durante um atendimento de rotina.

— Ele estava tentando convencer um paciente idoso a dançar no corredor para animar o dia. Foi impossível não me apaixonar. — Ela disse, sorrindo para Jasper, que apenas revirou os olhos de brincadeira.

— Você sabe que funcionou, certo? O cara ficou dançando por meia hora depois que você saiu. — Jasper respondeu, o que nos fez rir.

Rosalie, também enfermeira, falou sobre como Emmett sempre fazia questão de trazer lanches para o hospital quando ela estava de plantão.

— Ele acha que pizza resolve tudo. — Ela revirou os olhos, enquanto Emmett fingia estar ofendido.

Conforme a noite avançava, Edward sempre perto de mim. O calor do contato era reconfortante.

— Está gostando? — Ele perguntou, olhando para mim enquanto eu mordia meu marshmallow levemente queimado.

— Mais do que pensei que gostaria. — Admiti, observando as chamas dançarem entre nós.

Depois de um tempo, a conversa ao redor da fogueira foi diminuindo, transformando-se em risadas esporádicas. O céu estava coberto de estrelas, e, por um momento, tudo parecia exatamente onde deveria estar.

Enquanto me encostava no ombro de Edward, senti que estava, finalmente, aprendendo a apreciar o agora.

~~~~~~

O restaurante era pequeno e acolhedor, com luzes quentes e uma trilha sonora de jazz suave ao fundo.

Quando entrei, ele já estava sentado à mesa, mexendo no cardápio. Eu tinha insistido para que eu o encontrasse ali ao invés dele me buscar. Queria uns minutos a mais sozinha para me acalmar, me convencer que estava tudo bem e que transformar o que temos em algo sério não iria complicar nada. Seu cabelo bagunçado parecia refletir a habitual despreocupação, mas os olhos dele, quando encontraram os meus, tinham uma intensidade que me fez respirar fundo.

— Achei que você fosse me deixar esperando para sempre — ele brincou, levantando-se para me cumprimentar.

— E perder a chance de te ver tentando decifrar um menu? Nunca. — Sorri, tentando disfarçar o nervosismo.

Nos sentamos, e a conversa fluiu naturalmente. Ele mencionou algo sobre uma nova música que estava compondo, seus alunos e ele ansiosos para as férias, enquanto eu falava sobre um artigo que tinha lido para um dos trabalhos finais. O clima estava leve, quase perfeito.

Eu estava terminando de rir de uma piada boba que Edward tinha contado quando uma voz interrompeu o momento.

— Edward?

Ele se virou devagar, e a mudança em sua expressão foi instantânea. De relaxado para em alerta em segundos. Uma mulher de cabelos loiros elegantes e um homem com uma postura rígida estavam parados a poucos metros de nós. Os pais dele.

— Mãe. Pai. — Edward se levantou, a voz baixa e controlada.

A mãe dele quebrou o silêncio, a voz suave, mas carregada de emoção.

— É uma surpresa te ver aqui, Edward. — O sorriso dela era hesitante, como se não soubesse se era bem-vinda a se aproximar. — Nós sentimos sua falta.

Edward respirou fundo, desviando o olhar antes de responder, a voz baixa, mas firme:

— Não sei se parece, já que vocês nunca me procuraram.

A mãe hesitou, trocando um olhar com o pai dele, que interveio com a postura rígida que parecia parte de sua personalidade.

— Nós achamos que você precisava de espaço, Edward. Não queríamos pressioná-lo. — Ele parecia tentar soar razoável, mas havia algo na sua voz que traía a frustração.

Edward soltou uma risada curta, sem humor, cruzando os braços.

— Espaço. Vocês tiveram todo o espaço do mundo enquanto eu estava lidando com tudo sozinho.

A mãe tentou novamente, a expressão carregada de tristeza.

— Nunca foi nossa intenção te afastar. Nós... não sabíamos como te alcançar.

Edward balançou a cabeça, os olhos fixos nos dela, mas o olhar endurecido.

— Bom, não dá para querer uma reaproximação agora né? Que tudo volte ao normal.

Antes que eu pudesse dizer algo, Edward se virou para mim.

— Bella, eu acho que precisamos ir.

Eu toquei o braço dele, tentando transmitir calma.

— Talvez... seja melhor vocês conversarem Edward, se ouvirem de verdade.

Seus olhos estavam presos no meu, parecia que ele estava considerando. Mas então ele balançou a cabeça.

— Não hoje. — Ele virou-se para os pais. — Aproveitem o jantar.

E, com isso, saiu do restaurante. Eu fiquei ali, olhando para os pais dele, que pareciam tão confusos quanto eu.

A mãe de Edward, Esme como tinha se apresentado logo que o filho saiu, deu um suspiro profundo.

— Ele é tão teimoso. Sempre foi.

— Ele tem razão — Carlisle murmurou, olhando por onde o filho tinha saído. — Nós não fizemos o suficiente.

Eu me despedi com um sorriso educado e saí para encontrar Edward. Ele estava do lado de fora, andando em círculos na calçada, claramente agitado.

— Você está bem? — perguntei, hesitante.

— Vamos só sair daqui Bella. Por favor.

Sem discutir, segui ao lado dele. Mas o silêncio durante a caminhada até minha casa era mais denso do que eu podia suportar.

~~~~~~

A agitação da manhã no café passava quase despercebida enquanto as imagens da noite no restaurante se repetiam na minha cabeça. O encontro com os pais de Edward parecia ter desencadeado algo que ele não estava pronto para enfrentar, e o jeito como ele se afastou depois... aquilo mexeu comigo mais do que eu estava disposta a admitir.

Tentei me concentrar no trabalho, usando a rotina como um escudo. Angela chegou com a pontualidade de sempre, colocando a bolsa sobre o balcão e amarrando o avental. Seu olhar caiu em mim quase imediatamente.

— Você está com aquela cara de quem foi atropelada por um caminhão emocional. — Ela colocou a bandeja no balcão e cruzou os braços. — Quer falar sobre isso?

Suspirei, apoiando os cotovelos no balcão. Olhei para ela, ponderando se devia mesmo contar. A essa altura, além da minha psicóloga, Angela era quem sabia mais do que qualquer um sobre como minha mente funcionava, e talvez eu precisasse colocar isso para fora.

— Lembra do encontro que tive com o Edward uns dias atrás? Os pais dele apareceram do nada. — comecei sentindo o peso das palavras. — Foi no meio do nosso jantar. Estávamos no restaurante, rindo e... parecia que as coisas estavam indo bem, sabe? E então eles apareceram.

Angela estreitou os olhos, inclinando-se na minha direção.

— Os pais dele? Como foi isso?

— Complicado. — Ri sem humor. — Eles pareciam surpresos, mas feliz em vê puxar conversa, mas Edward não facilitou. Foi como se eles fossem completos estranhos.

Angela balançou a cabeça, claramente tentando entender.

— Eu tentei intervir, mas não sabia o que dizer. No fim, Edward praticamente encerrou a conversa antes que eles pudessem começar de verdade.

Angela soltou um som baixo, de quem começava a juntar as peças.

— Depois disso ele ficou quieto. Nem terminamos o jantar, ele me deixou em casa e só... foi embora. — Suspirei novamente, sentindo o nó na garganta apertar. — Ele anda me evitando nos últimos dias.

Infelizmente Angela não pode fazer nada para me confortar e mais dias se passaram sem notícias do Edward. E eu ainda mais frustrada, tentando não pensar no pior. Quando o celular vibrou em cima da mesa naquela noite, meu coração saltou.

Edward chamando.

Atendi com pressa, mas a voz do outro lado da linha estava arrastada, quase irreconhecível.

— Bella... — Ele começou, a palavra saindo como um suspiro. — Eu... eu sinto muito.

— Edward? Onde você está? — Eu conseguia ouvir um barulho de música e logo percebi que ele devia estar no bar que sua banda costuma tocar.

— Só... só precisei de um tempo, sabe? — Ele riu, mas não parecia haver humor em sua voz. — Engraçado, eu sempre digo que você foge, mas olha quem está bêbado numa noite de terça-feira...

A palavra "bêbado" me deixou em pânico. Um gatilho. Minha garganta secou, enquanto tentava achar uma solução para aquele momento.

— Edward, me diz onde você está. Eu vou te buscar.

— Não precisa, Bella. — Ele suspirou novamente, e mais uma vez eu podia ouvir o barulho de copos sendo mexidos ao fundo.

— Beber não resolve nada Edward, acredite eu sei disso. — Rebati, a raiva subindo de repente. — Só adia o problema.

Sabia que não ia adiantar eu falar mais nada com ele naquele estado e desliguei antes que dissesse algo que não pudesse voltar atrás.

Os dias que se seguiram àquela ligação foram como andar por um campo minado. Cada pensamento sobre Edward trazia uma explosão de culpa, raiva ou confusão. Naquela manhã, enquanto fingia revisar anotações, a campainha tocou.

Abri a porta e lá estava ele. Edward parecia cansado, com um olhar de culpa.

— Precisamos conversar. — A voz dele era firme, mas carregava uma vulnerabilidade que eu não esperava.

Deixei que ele entrasse.

— Bella, eu sei que te magoei. Sei que quando fugi depois de encontrar meus pais, deixei você carregando algo que não deveria. — Ele respirou fundo, esfregando a mão no rosto antes de me encarar. — Mas você precisa saber... eu não me afastei por não me importar. Me afastei porque... — Ele parou, procurando as palavras certas. — Porque eu tenho medo.

Eu ri sem humor, cruzando os braços como se isso pudesse me proteger.

— Você? Medo? Pensei que fosse só eu quem vivia fugindo.

Ele atravessou o espaço entre nós com determinação.

— Bella, você não é a única com problemas. — Sua voz era grave, mas gentil. — Eu passei anos fingindo que não sentia nada, que as coisas não me atingiam. Mas você... você me faz querer ser diferente.

As palavras dele ficaram pairando no ar, pesadas e impossíveis de ignorar.

— Edward... eu... — comecei, mas parei, sem saber exatamente o que falar.

Ele segurou minhas mãos, os olhos fixos nos meus.

— Eu tô completamente apaixonado por você, Bella. — As palavras saíram claras, sem hesitação. — Eu adoro cada parte de você, até as que você tenta esconder. E, sim, eu sei que somos complicados, mas quero enfrentar isso com você.

Meu coração acelerou, mas junto com o calor da declaração veio o frio do medo.

— Você não sabe tudo sobre mim. — Minha voz falhou, mas eu continuei. — Eu... eu tenho um problema com bebida.

Os olhos dele se arregalaram, mas ele não soltou minhas mãos.

— Eu costumava beber para apagar tudo. Depois que meu pai morreu, foi o único jeito que encontrei para lidar com a dor. — As palavras saíam como uma confissão, cada uma arrancando um peso do meu peito. — Tem um tempo que eu parei de beber, mas o desejo ainda está lá. E isso me assusta, Edward. Tenho medo de não conseguir... de me perder de novo.

Ele ficou em silêncio por um momento, mas o aperto em minhas mãos se intensificou.

— Obrigado por me contar. — A voz dele era firme, mas havia uma suavidade que me fez querer chorar. — Eu sei que isso não é fácil pra você, mas, Bella, você não está sozinha.

Minhas lágrimas começaram a cair, e ele me puxou para um abraço.

— Eu vou estar aqui. — Ele sussurrou contra meus cabelos. — Sempre. Não importa o quão difícil seja, não importa quantas vezes você sinta vontade de desistir. Eu não vou a lugar nenhum.

Eu me afastei apenas o suficiente para olhar em seus olhos, procurando por qualquer dúvida ou hesitação. Mas tudo o que vi foi certeza.

— E você? — perguntei, minha voz um sussurro. — Vai dar uma chance pros seus pais?

Ele suspirou, soltando minhas mãos apenas para segurar meu rosto.

— Acho que preciso aprender com você. A não deixar meu medo de decepcionar as pessoas me controlar. Prometo ouvir eles.

— Eu também tô caidinha por você, Edward Cullen. — A confissão saiu mais fácil do que eu esperava. — E isso me assusta mais do que qualquer outra coisa.

Ele sorriu, um sorriso tão genuíno que fez meu coração se apertar.

— O que você sente não precisa te assustar, Bella. Só me deixa ficar ao seu lado. É só isso que eu peço.

A força nas palavras dele me fez acreditar, mesmo que só por um momento, que talvez eu pudesse ser mais do que meus medos.

Ele me puxou para outro abraço, e ali, envolvida em seus braços, senti que, apesar de tudo, tínhamos uma chance. Não perfeita, mas real.

~~~~~~

A manhã da formatura chegou com o ar de uma vitória silenciosa. Era estranho estar finalmente ali, pronta para pegar o diploma que parecia tão distante por tanto tempo. Enquanto ajeitava a beca no espelho, o peso simbólico dela me fez respirar fundo.

A cerimônia começou como esperado, com discursos sobre o futuro e o poder da perseverança. Palavras que soavam como ecos no fundo da minha mente. Tudo o que eu conseguia pensar era no quanto lutei para estar ali, mesmo quando tudo parecia um esforço em vão.

Quando meu nome foi chamado, meu coração deu um salto. Subi ao palco, ouvindo os aplausos educados, mas então uma voz familiar se destacou.

— Isso, Bella! Vai com tudo! — Jacob. Eu olhei para a plateia e quase perdi o equilíbrio. Lá estava ele, acenando exageradamente como se quisesse garantir que todo o auditório soubesse que ele estava ali. Sue estava ao lado dele, com aquele sorriso caloroso que eu sempre achei reconfortante. Mas foi Edward que fez meu coração parar por um instante. Ele estava lá também, com um sorriso pequeno e um olhar tão intenso que parecia atravessar todas as minhas barreiras.

Eles vieram. Não sei como ficaram sabendo do evento, já que sempre que perguntavam eu desconversava. Não sei porque, mas me sentia um pouco tímida em ter eles ali, mas estava muito feliz com a presença de cada um.

Com o diploma em mãos, desci as escadas do palco e mal ouvi o restante dos nomes sendo chamados. Meu coração ainda estava correndo enquanto me dirigia de encontro a eles.

Jake foi o primeiro a me alcançar.

— Achou mesmo que ia fazer isso sem a gente? — Ele cruzou os braços, com um ar satisfeito.

Sue foi a próxima, me puxando para um abraço apertado.

— Estamos muito orgulhosos de você, querida. Seu pai estaria ainda mais. Tenho certeza de que Charlie está sorrindo por você hoje.

Eu senti um aperto no peito, mas também uma onda de conforto. Sue sempre soube como me confortar, e isso me fez perceber o quanto ela se esforçava para manter o que restava da nossa família unida.

— Obrigada, Sue — murmurei, tentando controlar a emoção em minha voz.

Edward apertou minha mão de leve, e quando olhei para ele, havia algo profundo em seus olhos. Ele não disse nada, mas o gesto foi suficiente.

— Eu te amo tanto, Bella. Você é incrível.

Meu coração disparou. Por um momento, o mundo pareceu parar ao meu redor, exceto por nós dois. Eu sorri, sentindo o calor tomar conta de mim.

— Eu também te amo, Edward. Muito.

Ele exalou como se estivesse segurando a respiração e um sorriso aliviado se espalhou pelo seu rosto. Antes que pudéssemos dizer mais, Jacob interrompeu, com seu timing impecável:

— Pronto, agora perdi minha desculpa para não estudar. Não posso mais usar o "minha irmã nem terminou a faculdade" como argumento. Agora vou ter que me dedicar de verdade.

Sue riu com a gente, enquanto Edward apenas balançava a cabeça, os lábios se curvando em um sorriso divertido.

— Ainda bem que ele é um bom aluno. — Edward perguntou, apontando para Jacob.

— Sou seu preferido, né? — Jacob brincou, lançando um sorriso travesso.

— Vamos comemorar? — Sue sugeriu, olhando para todos nós com um brilho de expectativa nos olhos.

— Pizza, com certeza pizza — Jacob decretou, erguendo a mão como se estivesse liderando uma votação.

O olhar de Edward permanecia fixo no meu. Ele se inclinou ligeiramente na minha direção, falando em um tom baixo, apenas para que eu pudesse ouvir.

— E depois você pode ir lá em casa e passar a noite comigo, para comemorarmos à nossa maneira.

Meu rosto ficou quente, e antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, Jacob ergueu as mãos em protesto teatral.

— Ah, meu Deus, vocês dois são melosos demais! — Ele fingiu um arrepio exagerado, com as mãos no ar.

— Jacob, comporte-se!

— Ok, ok, mas estou com fome. Vamos logo antes que eu desmaie aqui.

— Você não muda, garoto. Mas está certo, é hora de comemorar.

~~~~~~

O sol da manhã entrava pela janela da sala, aquecendo suavemente o espaço enquanto eu tentava terminar a coluna para o jornal. Ao meu lado, uma pilha de anotações desordenadas e rascunhos do meu livro aguardava atenção. Era caótico, mas meu tipo favorito de caos.

Edward apareceu na porta com duas canecas de café, o cabelo bagunçado e a expressão sonolenta adorável. Ele usava uma camiseta tão velha que o logo quase desaparecera, e era exatamente por isso que eu a amava.

— Hora do intervalo, senhorita escritora em ascensão. — Ele colocou a caneca ao meu lado e se inclinou, depositando um beijo leve na minha bochecha.

— Está tentando me convencer a parar? — perguntei, segurando a caneca enquanto o encarava com os olhos semicerrados.

— Talvez. — Ele sorriu, aquele sorriso torto que sempre me desarmava.

Eu ri, balançando a cabeça. Ele se recostou na mesa, cruzando os braços, o olhar fixo no meu.

— Está funcionando? — perguntou, com aquele tom casual que ele sempre usava quando sabia que tinha minha atenção.

— Funcionando? — arqueei uma sobrancelha, fingindo não entender.

— Meu charme irresistível. — Ele inclinou a cabeça levemente, o sorriso brincando nos lábios.

— Charmoso você é. Irresistível... talvez seja uma palavra forte. — Provoquei, cruzando os braços e levantando uma sobrancelha.

Ele levou a mão ao peito, simulando uma indignação exagerada.

— Você me fere, Isabella Swan. Aqui estou eu, seu humilde servo, garantindo que você esteja hidratada e inspirada, e é assim que sou recompensado?

— Humilde? Essa é boa. — Revirei os olhos, mas o sorriso no meu rosto o encorajou a continuar.

Ele cruzou os braços, os olhos brilhando de diversão enquanto esperava pela minha resposta.

— Ok, você é um pouco irresistível. Feliz agora? — admiti.

Edward inclinou-se, e o beijo rápido que ele me deu foi suficiente para fazer meu coração acelerar.

— Mais ou menos. Ainda não ouvi "muito irresistível". Vou dar tempo para você processar. — Ele piscou, jogando-se no sofá com um ar de vitória, rindo enquanto eu tentava fingir irritação.

Depois de alguns minutos, ele perguntou casualmente:

— E o livro? Como está indo?

Suspirei, olhando para a pilha de papéis.

— Está indo. Devagar, mas indo. A editora quer conversar sobre o lançamento para o próximo ano. — Minha voz vacilou, ansiosa sobre o futuro.

Edward se inclinou para frente, apoiando os cotovelos nos joelhos enquanto me observava.

— Isso é maravilhoso, Bella. Sabe disso, né? — O tom dele era tão genuíno que me fez olhar para ele, sentindo o calor de suas palavras.

— Eu não sei se estou preparada. — Dei de ombros, mas ele apenas balançou a cabeça, determinado.

— O que você precisa saber é que merece todo o sucesso nas suas conquistas. — Ele estendeu a mão, entrelaçando os dedos nos meus. — E eu estou aqui para lembrar disso todas as vezes que precisar.

Eu o encarei, tentando conter o sorriso bobo que ameaçava surgir.

— Desde quando você ficou tão bom com palavras? — perguntei, apertando sua mão.

— Desde que percebi que você gosta de ouvir. — Ele me puxou levemente para frente, até que nossos rostos estivessem a poucos centímetros de distância.

— Você é insuportável. — Mas antes que pudesse me afastar, ele roubou um beijo, fazendo-me rir.

— Insuportável e irresistível. O pacote completo. — Ele piscou, se levantando para pegar mais café.

Nosso momento foi interrompido pelo meu telefone vibrando. Era um e-mail da editora confirmando a reunião sobre o lançamento do meu livro.

— Vai dar tudo certo. — Ele me puxou para um abraço apertado. — Eu sempre soube que você era brilhante.

— Brilhante, mas ainda nervosa. — Ri enquanto nosso abraço se desfazia.

— E eu fico nervoso só de pensar no quanto vou ter que lutar para conseguir um autógrafo no seu livro. — Ele fez um drama, colocando a mão na testa.

— Você pode ser o primeiro da fila, se isso ajudar. — Enlacei meus braços ao redor de seu pescoço, sentindo-me leve pela primeira vez em anos.

— Você sabe que estou muito orgulhoso de você, certo? Não pelo livro, mas por tudo. Pela pessoa que você é. — A sinceridade na voz dele fez meu coração derreter.

— E eu sou muito grata por você estar aqui. — Minha voz estava carregada de emoção.

Ele beijou minha testa e segurou meu rosto entre as mãos.

— É só o começo, Bella. — A sinceridade em sua voz fez meu peito apertar. — E eu quero estar ao seu lado para tudo o que vier.

FIM


Notas finais
Mais uma vez espero que tenha gostado e que esse presente possa deixar seu coração quentinho nessa época festiva do ano. Boas festas a todos que lerem, e não esqueçam de comentar (ainda não conseguimos responder os comentários aqui, mas vou ler todos com muito carinho).
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!