Tudo Culpa dos Golfinhos
1 Prólogo
Notas iniciais
POV: Larissa Khouri
A real história começou um pouco menos de dez anos antes, quando eu conheci meu futuro melhor amigo.
Eu podia me lembrar claramente de como o hotel em que minha mãe me levou aos nove anos era majestoso. Eu não sei o motivo repentino da viagem, mas de uma hora para a outra, estávamos de mala pronta, em um avião para Cancún, no México.
Era a primeira vez que eu andava de avião e aquilo me deixou maravilhada; olhar todo aquele estado iluminado de Nevada ir ficando pequenininho enquanto minha irmã mais nova, Giovanna, balbuciava poucas palavras e chutava o acento da frente.
Lembro-me de uma mulher, gorducha e baixinha, com as bochechas salientes e rosadas, levantando-se do seu assento e pedindo nada gentilmente para que mamãe aquietasse a pequena. Enquanto isso, eu soltava risadinhas abafadas, pelo constrangimento da minha mãe, observando a cidade finalmente sendo engolida pelas nuvens.
Não consigo me lembrar do que senti durante a ida, talvez porque tenha dormido grande parte da viagem e ficado sonolenta no resto dela. 4,420 km depois, o avião estava pousando; uma viagem que duraria praticamente um dia e meio de carro foi feita em algumas horas por avião.
Um táxi nos levou ao hotel, e me lembro de ter gargalhado alto, eu e Giovanna, enquanto mamãe tentava explicar em mexicano o nosso destino para o motorista, negro e alto.
O carro de alguém pode dizer muito sobre uma pessoa, mas eu não sabia o que cheiro de cigarro, uma mancha de sangue no banco de trás, ao lado esquerdo, e vários CDs dos Beatles espalhados pelo chão poderia dizer sobre aquele homem. Ele gostava da música dos ingleses; foi a única conclusão que cheguei.
Não irei permanecer falando detalhes fúteis daquela viagem, como decoração de hotel e a hospedagem dos nativos, mas quatro dias depois, algo marcou minha vida.
Eu fui burra em não ter notado antes que uma hora ou outra faríamos aquele passeio. Mas é claro! Um ano atrás, em meu aniversário de oito anos, mamãe havia me dado um livro sobre golfinhos; lá continha uma lista sobre principais locais do mundo para visitar esses animais. Entre os vários locais estava Cancún, México.
Eu tinha uma pequena admiração por golfinhos, desde sempre. Não eram aqueles amores superficiais que muitos tinham por pandas ou corujas – eu realmente amava golfinhos, juro. Amava golfinhos tanto quanto uma criança de nove anos poderia amar alguma coisa.
No quarto dia em Cancún, então, eu estava indo para uma praia cheia de golfinhos. Eles nadavam entre a gente e com a gente. Eu comecei a chorar de emoção assim que pus os pés na areia.
– Larissa Assunção Khouri! – mamãe falou em tom de aviso, mas ainda em um sussurro, provavelmente sem querer chamar atenção. – Você vai parar de chorar agora mesmo. Quem já se viu?
– Mãe, são golfinhos – soltei algo que se parecia com um gritinho.
Giovanna riu do meu desespero e a tentei pegar no braço, mas não consegui. Meus braços de nove anos não eram fortes o bastante; e seu peso de seis anos era elevado demais para que eu pudesse aguentar. Contentei-me então a apenas lhe dar um abraço apertado.
Escutei um pouco distante de mim, a risada melodiosa de um garoto; talvez um ano mais novo. Ele tinha cabelos escuros e olhos escuros, e parecia estar sozinho ali – mas eu sabia que sua família estava sentada em algum lugar naquela mesma areia meio amarelada.
Observei melhor pequenas covinhas em suas bochechas e seus traços que pareciam ser de descendência coreana, percebendo tardiamente que ele ria de mim. Olhei furiosa pra ele, e me virei para minha irmã.
– Vamos nadar, Gi? – a convidei.
– Vocês duas vão me esperar – impôs mamãe.
– Mas mãe! – supliquei.
– Vá indo você na frente, eu apareço com sua irmã depois.
Sorri e fui correndo para o mar, logo depois de ter tirado o short jeans e a blusa preta que eu vestia. A água estava quente e calma, e eu conseguia enxergar meus próprios pés. Eu me movia com cautela, observando os rostos alegres das pessoas se divertindo com os golfinhos. Mesmo os amando, eu acho que mantinha certo medo de me aproximar sem ninguém por perto.
– Ei – ouvi a voz fininha de um garoto e me virei.
Era o mesmo garoto que tinha rido de mim, alguns minutos antes. Foi quando percebi que fiquei ali parada, observando as pessoas, por quase nove minutos. Sua mão direita tirou a franja molhada dos seus olhos castanhos, enquanto a esquerda prendia um golfinho em si. O golfinho estava tão perto que sorri, levantando a mão para lhe acariciar. Hesitei por um momento, mas a risadinha do garoto me fez ir com tudo.
Eu não sei descrever a sensação daquele toque, mas era macio e ele parecia completamente inofensivo, então comecei a chorar de novo.
– Uau, você gosta mesmo de golfinhos – era a primeira vez que o garoto falava comigo. – Eu também.
Então ele não era mexicano; era dos Estados Unidos.
– Você gosta? – ergui as sobrancelhas.
– Sim – ele abriu um mínimo e tímido sorriso, e eu vi novamente as covinhas aparecerem ali.
– Você tem covinhas – eu ri fraquinho.
– Todo mundo diz isso – ele fez uma careta. – Eu não tenho covinhas.
– Tem sim – teimei, ainda passando a mão no golfinho. Franzi a testa antes de perguntar: — Por que estava rindo de mim?
– Eu estava...? Ah, sim. Fiz uma ceninha desse tipo dois dias atrás. Sabe, também gosto de golfinhos.
– Você já falou – revirei os olhos.
– Qual o seu nome?
– Larissa – eu sorri. – E o seu?
– Cody, legítimo de Sparks, Nevada.
– Sparks? Puxa, eu também.
Nós tivemos mais algumas discursões bestas naquela tarde, pois ele era irritantemente alegre e falava coisas sem nexo muitas vezes; Cody de Sparks era estranho. Nada que não pudesse ser ignorado, simplesmente porque o Cody também gostava de golfinhos. Isso era mágico, mano. Era tipo um daltônico enxergando a cor vermelha, em meio de um monte de coisas cinza.
É, algo impossível de acontecer, mas deu pra entender o que eu quis falar.
Combinamos algumas horas depois, com o consentimento de nossos pais, de nos encontrar quando voltássemos a Nevada.
Realmente nos encontramos de novo. E de novo. Até que Cody e eu começamos a estudar na mesma escola e viramos melhores amigos, tudo por causa de golfinhos.
Eu contava tudo pra ele – desde o primeiro beijo, até quando perdi a virgindade. Ele também contava as coisas dele pra mim. Amizade era isso, eu acho, compartilhar segredos e manter a confiança.
Nós fomos crescendo. Com a idade, veio a mente poluída, e depois ela se foi tão rápido quando chegou, trazendo-nos um aspecto mais maduro, mesmo que ainda brincássemos feito dois crianções.
Eu não tinha um melhor amigo antes. Seria difícil achar uma melhor amiga. Então posso dizer que Cody era especial pra mim, como um irmão mais novo que na época eu não tinha. Não tão novo assim, porque quando minha vida passou a mudar novamente, eu tinha dezessete e ele tinha dezesseis.
Mas isso é outra história.
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