Tudo Começou em Letras

20 Capítulo 20 — Realidade Fria


Os dois dormiam entrelaçados, os corpos ainda quentes, a respiração de Adam ritmada contra o peito de Vincent. O quarto estava silencioso, envolto naquela calma frágil do começo da manhã, quando o mundo ainda parecia suspenso.

Porém, o som da porta se abrindo quebrou tudo.

Vincent abriu os olhos no susto, ainda meio grogue, o cérebro demorando alguns segundos para entender o que estava acontecendo. A luz do corredor invadiu o quarto, e a silhueta de Marcel surgiu ali, com a mochila pendurada em um dos ombros.

— Ah… — Marcel parou no meio do quarto, encarando a cena sem o menor constrangimento. Franziu os olhos, aproximando-se um pouco mais. — Peraí… — então riu, uma risada curta, incrédula. — Caramba, Vincent. É aquele nerdzinho de Letras?

Vincent gemeu baixo, passando a mão pelo rosto.

— Marcel… sai daqui — murmurou, a voz pesada de sono e irritação.

Adam se mexeu ao sentir Vincent se tensionar. Abriu os olhos devagar, confuso, e virou o rosto na direção da voz desconhecida. Seus olhos encontraram os de Marcel por um segundo, tempo suficiente para perceber o julgamento, a diversão cruel, antes de virar o rosto de novo, o coração disparando.

— Nossa — Marcel continuou, sem se dar ao trabalho de baixar o tom. — Você já teve um padrão melhor, hein. Eu já te vi por aqui com pessoas mais… interessantes. O que foi, não teve opções melhores?

Foi nesse instante que Adam se deu conta do próprio corpo. Do lençol cobrindo apenas até abaixo do peito. Da pele exposta demais. Do quanto ele estava vulnerável ali. Com um movimento rápido e quase envergonhado, puxou o lençol até o pescoço, como se aquilo pudesse apagá-lo da cena, torná-lo invisível.

Vincent perdeu a paciência.

— Cara, dá o fora! — explodiu, agarrando um travesseiro e jogando na direção de Marcel com força.

Marcel ergueu as mãos, rindo.

— Calma, calma. Já tô indo. Não vou atrapalhar o casalzinho — disse, irônico, antes de se virar e sair do quarto, fechando a porta atrás de si.

O silêncio que ficou era pesado demais.

Adam permaneceu imóvel por alguns segundos, encarando o nada, sentindo um nó se formar no peito. Aquilo que na noite anterior tinha sido mágico, agora parecia uma piada de mau gosto. Uma brincadeira que a realidade tinha desfeito.

Ele se sentia um idiota completo. Vincent era experiente, acostumado a isso tudo: às noites casuais, ao tipo de gente que Marcel chamava de “interessante”. E Adam tinha acreditado, por algumas horas, que ele podia fazer parte daquele mundo. Que o jeito como Vincent o olhou, como o chamou de lindo, como cuidou dele com tanta paciência, significava algo além de uma noite qualquer. Que talvez, só talvez, ele fosse suficiente.

Mas agora via tudo com uma clareza cruel: ele era só o virgem inseguro que se derreteu com um pouco de atenção. O “nerdzinho de Letras” que Marcel tinha identificado em dois segundos. Alguém que Vincent talvez tivesse escolhido por falta de opção melhor, como o outro sugeriu. A vergonha queimava por dentro, misturada a uma dor no peito, não raiva de Marcel, mas de si mesmo por ter se permitido acreditar.

Os olhos ardiam. Ele sentia as lágrimas ali, pressionando, querendo sair, mas engoliu tudo com força. Não ia chorar. Não ali, na cama de Vincent, com ele olhando. Ia esperar até estar sozinho, longe, onde ninguém pudesse ver o quanto aquilo tinha doído.

Vincent percebeu a mudança no corpo dele, a rigidez, a respiração que não voltava ao ritmo tranquilo. Ele se mexeu devagar, virando-se para Adam, a mão hesitando antes de tocar seu braço.

— Ei… Adam, olha pra mim — pediu, baixo. — Não liga pro que o Marcel disse. Ele é um idiota.

Adam não respondeu de imediato. Continuou olhando para o teto, os lábios apertados. Quando finalmente falou, a voz saiu baixa, quase sem emoção:

— Eu… preciso ir embora.

Ele se sentou na cama, ainda segurando o lençol contra o peito, e começou a procurar as roupas espalhadas pelo chão sem olhar para Vincent. As mãos tremiam levemente enquanto pegava a cueca, a calça.

— Adam, espera — Vincent sentou também, a voz agora mais urgente. — Fica. Por favor. O que ele disse não é verdade. Nada disso. Eu não… você não é… — ele parou, procurando as palavras certas, frustrado. — Você é incrível. Ontem foi incrível. Não vamos deixar aquele babaca estragar isso.

Adam vestiu a camisa com movimentos rápidos, mecânicos. Não conseguia erguer os olhos para Vincent. Se olhasse, ia desmoronar. Ia deixar as lágrimas caírem, ou pior, ia acreditar de novo e ficar ali, esperando que doesse menos.

— Tá tudo bem — mentiu, a voz firme demais para ser convincente. — Eu só… preciso ir.

Ele calçou os sapatos, pegou o casaco dobrado na cadeira. Vincent se levantou também, nu, hesitando entre ir até ele e respeitar o espaço que Adam claramente queria.

— Adam…

— Tchau, Vincent.

Adam abriu a porta devagar e saiu sem olhar para trás. O corredor estava vazio, frio, iluminado pela luz cinzenta da manhã. Ele caminhou rápido, os passos ecoando, o peito apertado como se algo ali dentro tivesse quebrado sem fazer barulho.

Só quando chegou ao ar livre, quando o vento frio bateu no rosto, é que permitiu que as primeiras lágrimas caíssem, silenciosas, quentes, rápidas. Ele as enxugou com raiva, acelerando o passo em direção ao seu dormitório.

Não olhou para trás nenhuma vez.


***


O prédio do dormitório parecia silencioso demais àquela hora da manhã. Adam entrou quase correndo, evitando cruzar o olhar com qualquer pessoa no corredor. Subiu as escadas rápido, o coração batendo forte demais, como se ainda estivesse tentando fugir de alguma coisa.

Foi direto para o banheiro do andar.

Assim que trancou a porta de uma das cabines atrás de si, encostou as costas na madeira fria. O choro veio sem aviso, pesado, descontrolado, como se tivesse ficado represado. Ele levou as mãos ao rosto, abafando os soluços, mas não adiantava. O peito doía, ardia, apertava de um jeito que era insuportável.

Para ele, aquilo com Vincent tinha sido tudo.

Tinha sido atravessar uma linha que ele nunca tinha ousado sequer imaginar. Tinha sido sentir o próprio corpo responder, ser visto, ser desejado.

Para Vincent, porém…

Adam não conseguia evitar o pensamento.

Para Vincent, devia ter sido fácil. Mais uma noite bonita, intensa, mas comum. Um corpo a mais numa sequência de experiências. Vincent sabia exatamente onde tocar, como olhar, como dizer as coisas certas. E Adam tinha confundido habilidade com cuidado, experiência com significado.

Sentia-se pequeno. Ingênuo. Exposto.

O comentário de Marcel ecoava na cabeça como um rótulo impossível de arrancar: nerdzinho de Letras. Era assim que Vincent o via, no fundo? Uma curiosidade, uma exceção momentânea, algo que se escolhe quando não aparece nada melhor?

Ele apertou os olhos com força, respirando fundo entre um soluço e outro.

Adam chorou até o corpo cansar. Até o choro virar algo silencioso, quebrado, só respiração irregular e olhos ardendo. Quando finalmente saiu para lavar o rosto, encarou o próprio reflexo no espelho: os olhos vermelhos, o rosto pálido, uma expressão que ele não reconhecia direito.

Secou o rosto com papel, respirou fundo mais uma vez e saiu do banheiro, decidido a fingir normalidade pelo resto do dia. Não porque estava tudo bem, mas porque, naquele momento, era a única coisa que podia fazer.


***


Adam empurrou a porta do dormitório com cuidado. O quarto estava meio às escuras, a luz da manhã entrando pelas frestas da cortina. Finn estava sentado na cama, ainda de moletom, mexendo no celular, e Tyler estava encostado na cabeceira, com uma caneca na mão.

Os dois ergueram o olhar quase ao mesmo tempo.

Finn foi o primeiro a reagir.

— Cara… — ele franziu a testa na hora. — O que aconteceu com você?

Adam passou direto, largando o casaco sobre a cadeira, tentando parecer normal. Mas o rosto denunciava tudo: os olhos inchados, avermelhados, a expressão exausta de quem não tinha dormido nada.

— Nada — respondeu rápido demais.

Finn não se convenceu nem por um segundo. Sentou-se melhor na cama, apoiando os cotovelos nos joelhos.

— Adam, você tá com cara de quem passou a noite chorando. — A voz saiu mais baixa, preocupada. — Fala comigo. Você passou a noite fora. É o cara que você tá saindo?

Adam sentiu o estômago revirar.

— Eu, me desculpe… não quero falar sobre isso — disse, firme, mas sem levantar a voz.

O silêncio que se seguiu foi curto, mas denso. Finn abriu a boca para insistir, claramente pronto para continuar o interrogatório.

— Mas…

Tyler interrompeu:

— Finn — disse, num tom inesperadamente sério. — Deixa o Adam. Ele não tá pronto pra falar.

Adam ergueu o olhar na hora, surpreso. Tyler não estava sorrindo, nem fazendo piada, nem provocando como de costume. Havia algo pensativo em seu rosto, quase cauteloso.

Finn piscou, confuso.

— Eu só tô tentando ajudar.

— Eu sei — Tyler respondeu, mais suave agora. — Mas se ele disse que não quer falar, é porque não quer. Quando ele quiser, ele vai falar.

Finn soltou um suspiro, passando a mão pelo cabelo.

— Tá… — murmurou, contrariado, mas respeitando. — Adam, só… qualquer coisa, você sabe que pode contar comigo, né?

Adam assentiu, sem conseguir agradecer em voz alta. Sentou-se na própria cama, sentindo o corpo pesado, como se tivesse corrido quilômetros.

Enquanto fingia organizar alguma coisa na mochila, percebeu Tyler ainda olhando para ele. Não era curiosidade. Nem cobrança. Era algo mais difícil de decifrar.

Aquilo o deixou levemente desconfortável.

Tyler sempre fora o mais incisivo, o primeiro a provocar, a arrancar respostas à força. Vê-lo recuar daquele jeito, protegê-lo do próprio Finn, parecia fora do personagem.

Adam desviou o olhar, tentando ignorar a sensação estranha que se instalava no peito. Já tinha coisa demais para processar. Não precisava de mais perguntas, nem de mais silêncios carregados.


***


Adam acabou dormindo por horas, um sono pesado, sem sonhos, como se o corpo tivesse desligado por exaustão. Quando acordou, o quarto estava silencioso demais. Finn não estava ali, Tyler tampouco. Por alguns segundos, ele ficou encarando o teto, tentando se lembrar onde estava, até que tudo voltou de uma vez: o quarto de Vincent, a porta abrindo, a risada de Marcel, a vergonha. Virou de lado e fechou os olhos com força, como se pudesse empurrar aquilo de volta para longe.

Levantou-se devagar e foi trabalhar no sebo quase no automático.

O dia passou arrastado. Adam cumpria tarefas simples, organizar prateleiras, registrar vendas, responder clientes, como se estivesse observando a si mesmo de fora. A concentração falhava, os pensamentos sempre escapando para o mesmo lugar. O celular vibrava no bolso do casaco de tempos em tempos, e ele sabia, sem precisar olhar, quem era.

Vincent.

Mensagens curtas, depois mais longas. Um “você chegou bem?”, um “Adam, por favor”, um “fala comigo”. Adam não respondeu nenhuma. Não porque estivesse com raiva, mas porque não confiava em si mesmo para escrever qualquer coisa sem se desmontar por inteiro.

Laura percebeu antes mesmo do meio da tarde.

— Você tá estranho hoje — comentou, apoiada no balcão, observando-o alinhar livros que já estavam perfeitamente alinhados. — Meio… murcho.

Adam deu um meio sorriso que não enganou ninguém.

— Só cansado.

Laura arqueou uma sobrancelha, claramente não convencida, mas não insistiu.

— Se quiser ir embora mais cedo, dá pra gente dar um jeito — disse, num tom mais gentil.

— Não precisa — respondeu.

Faltava pouco para o fim do expediente quando a campainha da porta do sebo tocou. Adam ergueu o olhar esperando algum cliente atrasado, mas congelou por um segundo ao reconhecer Tyler entrando, mãos nos bolsos do casaco, expressão séria.

— Oi — Tyler disse, aproximando-se do balcão. — Já tá quase fechando, né?

— Tá — Adam respondeu, confuso. — Aconteceu alguma coisa?

— Não. Quer dizer… — Tyler hesitou por um instante. — Queria falar com você. Quer tomar um café comigo ali na esquina quando você sair?

Aquilo era estranho. Tyler nunca o chamou com um convite assim, sem piada no meio. Adam sentiu um leve aperto no estômago, mas assentiu.

— Tá.

Minutos depois, estavam sentados numa mesa pequena, perto da janela embaçada do café. Tyler mexia a colher na xícara sem realmente beber, como se estivesse organizando os pensamentos.

O silêncio se estendeu por alguns segundos, até Tyler encostar as costas na cadeira e encará-lo de verdade.

— Tá — disse, direto. — O que tá acontecendo?

Adam suspirou, desviando o olhar para a mesa.

— Nada.

— Adam — Tyler o interrompeu, sem levantar a voz. — Você sumiu, chegou péssimo no dormitório, hoje tá com essa cara de velório… e você nunca fica assim por nada.

Adam apertou os lábios. Pensou em mentir. Pensou em desconversar. Mas estava cansado demais.

— Eu só… — começou, a voz falhando levemente. Limpou a garganta. — Eu só me decepcionei.

Tyler não fez piada. Não sorriu. Apenas assentiu, como se aquilo confirmasse algo que ele já suspeitava.

— Com o cara que você tava saindo?

Adam assentiu.

— Ele fez alguma coisa? — Tyler continuou, o tom mais baixo. — Te tratou mal? Te magoou?

Adam pensou em Marcel, na risada, nas palavras.

— Eu só… me senti um idiota.

Tyler apertou os lábios, absorvendo aquilo.

— Você gostava dele. — afirmou.

— Sim — Adam confirmou, a voz quase neutra. — Muito mais do que eu devia.

O silêncio se instalou por alguns segundos. Tyler finalmente largou a colher, encarando Adam de um jeito que o deixou desconfortável.

— Eu sei quem ele é.

Adam franziu a testa.

— Como assim?

Tyler respirou fundo antes de dizer, direto, sem rodeios, como se não houvesse mais por que fingir:

— É o Vincent, né?

O nome caiu entre eles como algo sólido, pesado.

Adam sentiu o sangue sumir do rosto. A boca abriu levemente, mas nenhuma palavra saiu de imediato. O coração começou a bater rápido demais.

— O quê…? — conseguiu dizer, por fim. — Como você…

— Eu vi vocês — Tyler interrompeu, sério. — No dia da festa. No terraço.

Adam engoliu em seco. A vontade imediata foi negar, rir, dizer que Tyler estava confundindo. Mas o olhar dele não deixava espaço para isso. Não havia provocação ali. Só certeza.

— Tyler… — Adam começou, mas parou, sem saber o que dizer.

— Relaxa — Tyler falou, erguendo uma mão. — Eu não tô aqui pra te expor, nem pra sair contando por aí.

Mas o tom não era gentil. Era contido. Controlado demais. Ele respirou fundo antes de continuar, passando a mão pelo rosto.

— Só que, sinceramente? Eu achei que você fosse mais inteligente que isso, Adam.

Adam levantou o olhar devagar.

— Você sabia — Tyler insistiu, a voz firme, sem agressividade, mas pesada. — Sabia exatamente o que o Finn passou na mão daqueles caras. Sabia quem o Vincent é, o círculo em que ele anda… e mesmo assim se envolveu.

Adam não respondeu. O nó na garganta cresceu rápido demais. Sentiu os olhos arderem, a visão embaçar, mas se recusou a piscar. Ficou apenas olhando para Tyler, imóvel, como se qualquer movimento pudesse desmontá-lo por completo.

— Isso é o que mais me deixa triste — Tyler continuou, agora mais baixo, mas não menos duro. — Não é só você ter se machucado. É você ter mentido. Ter escondido isso da gente. Do Finn. Eu não imaginava isso de você.

Aquilo doeu mais do que qualquer risada de Marcel. Mais do que o desprezo implícito, mais do que a humilhação. Porque vinha de alguém que importava.

Adam sentiu a garganta fechar.

— Eu… — tentou dizer, mas a voz saiu fraca. Engoliu em seco. — Eu não quis mentir por mal. Eu só… me senti perdido.

A primeira lágrima escorreu antes que ele percebesse. Depois outra. Ele passou a mão pelo rosto depressa, envergonhado, mas já era tarde. O choro vinha silencioso.

Tyler observou por alguns segundos, os maxilares tensos.

— Mas você sabia onde tava se metendo, Adam — disse, firme. — Não dá pra fingir surpresa agora. Você sabia que seria assim e agora tá sofrendo as consequências.

Adam baixou a cabeça de novo, os ombros encolhendo levemente, como se aquela frase tivesse acertado em cheio.

Tyler suspirou, passando a mão pelo cabelo, visivelmente cansado, como se estivesse escolhendo as palavras com cuidado.

— Quando eu falo pra você viver, Adam… — começou, mais baixo. — Quando eu digo pra você se permitir, sair da sua bolha, experimentar as coisas… não é isso.

Adam manteve a cabeça baixa, os olhos fixos na mesa, ainda chorando.

— Não é pra se enfiar num buraco desses — Tyler continuou, agora mais firme. — Não é pra se jogar em cima de gente que você sabe que só vai te machucar. Que machucou pessoas que você ama.

Ele fez um gesto vago com a mão, como se tentasse afastar uma imagem incômoda.

— Eu não me joguei — Adam murmurou, a voz falha, quase infantil. — Não foi assim. Eu só… aconteceu.

Tyler o encarou por alguns segundos, o maxilar travado. Então soltou um meio sorriso sem humor e desviou o olhar para a janela embaçada.

— Que seja — disse, curto. Não havia concessão ali, só cansaço.

O silêncio voltou a se estender entre eles, pesado. Adam continuava chorando em silêncio, as lágrimas caindo uma atrás da outra, pingando na mesa. Ele não fazia esforço para escondê-las agora. Já tinha passado do ponto em que ainda se podia manter alguma dignidade intacta.

Tyler respirou fundo mais uma vez.

— Eu não contei pra ninguém — disse, por fim. — Não é da minha conta sair espalhando a sua vida… Mas o Finn vai ficar sabendo, Adam. E quando ficar… vai doer mais agora do que se você tivesse contado desde o começo.

Adam sentiu o estômago afundar e disse, com a voz embargada:

— O Finn é um dos meus melhores amigos. Eu nunca magoei ele. Nunca. Eu não queria que isso fosse… a primeira vez.

Tyler finalmente voltou a encará-lo, sem saber o que dizer. Ele apoiou os cotovelos na mesa, inclinando-se um pouco para frente.

— O que o Vincent fez com você?

Adam piscou, confuso.

— Nada.

— Adam — Tyler insistiu, firme. — O que ele fez com você?

— Ele não fez nada — Adam repetiu, mas a voz saiu mais fraca.

Tyler o observou em silêncio por alguns segundos, como se estivesse avaliando cada microexpressão.

— O que houve, Adam? — perguntou novamente, mais baixo.

Adam sentiu o choro voltar com força. O ar ficou difícil de puxar. Ele balançou a cabeça, as mãos tremendo levemente sobre a mesa.

— Eu não tô pronto pra falar — disse, entrecortado. — Eu só… não tô.

As lágrimas vieram de novo, silenciosas, constantes. Ele não tentava mais esconder. O rosto estava vermelho, os olhos inchados.

Tyler fechou os olhos por um instante, como se aquilo também doesse nele.

— Tá — murmurou, depois de alguns segundos. — Tá bom.

Ele se recostou na cadeira, cruzando os braços, pensativo.

— Você vai sair dessa — disse, com menos dureza agora.

Adam apenas assentiu, sem realmente acreditar, mas precisando segurar aquela frase como algo concreto.

O silêncio voltou. Mais pesado que antes.

Tyler ficou olhando para ele por alguns segundos a mais. Havia algo parecido com decepção em seu olhar.

Ele se levantou devagar.

— Só tem uma coisa — disse, já de pé.

Adam ergueu os olhos, ainda cheios de lágrimas.

Tyler hesitou por uma fração de segundo. Então foi direto:

— O Finn não merecia ter um amigo que mentisse pra ele dessa forma.

As palavras atingiram Adam em cheio.

Ele abaixou o rosto na hora, os olhos vermelhos, inchados, o olhar perdido entre dor e incredulidade. A boca tremeu, mas nenhum som saiu. Aquilo doía mais do que qualquer acusação direta, porque não era sobre Vincent, nem sobre escolhas ruins. Era sobre quem ele tinha sido para alguém que confiava nele.

— Tyler… — tentou dizer, mas a voz morreu.

Tyler o olhou de novo.

— Se cuida, Adam — disse, simplesmente.

Ele deixou algumas notas sobre a mesa e saiu do café sem olhar para trás.

Adam ficou ali, sozinho.

O barulho ambiente voltou aos poucos, xícaras, conversas, uma risada distante, como se o mundo nunca tivesse parado. Ele levou as mãos ao rosto e chorou de verdade dessa vez, o corpo curvado, os ombros sacudindo levemente.

Era insuportável a sensação de ter perdido o chão em mais de um lugar ao mesmo tempo.