Tudo Começou em Letras

16 Capítulo 16 — Phantom


O trajeto de volta pareceu mais longo do que deveria ser. O celular não parava de vibrar em sua mão, uma ligação atrás da outra, mensagens se acumulando na tela enquanto ele tentava manter os olhos na estrada à frente, mesmo sem estar dirigindo.

— Adam — a voz de Finn surgiu assim que ele finalmente atendeu. — Onde você se meteu?

— Eu tô… a caminho — respondeu, escolhendo as palavras com cuidado, já sentindo a culpa se formar no estômago. — É que aconteceu um imprevisto.

— Um imprevisto chamado cara do Tinder, né? — Finn retrucou, sem nenhuma sutileza. — Eu sabia. Você some o dia inteiro e acha que ninguém vai saber o motivo?

Adam fechou os olhos por um instante.

— Não é assim.

— Aham. Sei. — Finn suspirou do outro lado da linha. — Ó, só pra constar: você vai me pagar essa. No sentido literal mesmo. Bebida, comida… o que eu quiser. Porque o Tyler já tá quase chegando e a gente aqui se virando pra segurar a surpresa.

No fundo, ele ouviu vozes misturadas: Isabelle perguntando onde ele estava, Min-su reclamando sobre alguma coisa. Aquilo apertou algo dentro dele.

— Eu já tô indo — repetiu, a voz mais baixa. — Me desculpa.

Desligou antes que a conversa rendesse mais cobranças. Ficou alguns segundos em silêncio, encarando a tela apagada do celular, sentindo o peso do tempo que tinha deixado escapar sem nem perceber. Não era só o atraso. Era o fato de ter se perdido tão facilmente em Vincent, naquele dia, naquela sensação de liberdade que parecia perigosa demais.

O silêncio se estendeu por alguns segundos dentro do carro, quebrado apenas pelo som do motor e pelo vento batendo contra a lataria. Adam manteve o olhar fixo à frente, ainda sentindo o aperto no peito.

Foi Vincent quem quebrou o silêncio.

— Cara do Tinder, hein? — comentou, com um meio sorriso na voz. — Então você tá saindo com mais alguém?

Adam demorou um pouco para responder.

— Não — disse por fim, baixo.

Vincent lançou-lhe um olhar rápido, curioso, mas sem insistir de imediato.

— Então por que…

Adam se mexeu no banco, desconfortável.

— Foi o que eu consegui inventar — completou, interrompendo. — Quando eles viram o… — fez um gesto vago perto do pescoço e desviou o olhar. — Aquilo.

Ele nem conseguiu dizer a palavra. O constrangimento ainda parecia grande demais para ser colocado em voz alta.

Vincent riu, uma risada curta, sem maldade.

— Não é engraçado — Adam rebateu, rápido, finalmente olhando para ele.

Vincent levantou uma das mãos em rendição.

— Tá, tá. — Depois falou, num tom mais calmo, quase afirmativo: — Então você tá escondendo isso deles.

Adam não respondeu de imediato. O silêncio voltou a se instalar, mais denso agora. Ele observava a estrada passar, os postes, os carros ao longe, tentando organizar algo que não tinha forma clara nem dentro de si.

Depois de um tempo, falou:

— Eu não sei como dizer.

Vincent não insistiu. Apenas assentiu levemente, como quem compreendia. O carro seguiu adiante, carregando entre eles essa verdade silenciosa, pesada o suficiente para ocupar todo o espaço.


***


Adam chegou pouco antes das sete, o coração ainda acelerado, não só pelo atraso, mas por tudo que vinha junto dele. Parou alguns segundos do lado de fora, respirando fundo, como se precisasse se reorganizar antes de atravessar aquela porta e voltar a ser “normal”. Endireitou a blusa, passou a mão pelo cabelo e entrou.

O quarto estava em semipenumbra, decorado às pressas, mas com cuidado. Balões, uma mesa improvisada, música baixa tocando ao fundo. Isabelle foi a primeira a notá-lo.

— Olha só quem resolveu aparecer — disse, cruzando os braços, mas com um sorriso evidente.

Finn surgiu logo atrás, teatralmente ofendido.

— Pensei que você fosse abandonar a gente pra ficar com o seu novo cara.

— Eu já pedi desculpa — Adam respondeu, cansado, mas aliviado ao perceber que, apesar das provocações, ninguém parecia realmente bravo.

— Desculpa não paga o atraso — Finn rebateu, já se aproximando demais. — Deixa eu ver uma coisa.

Antes que Adam pudesse reagir, Finn puxou a gola da blusa dele para baixo, examinando o pescoço com exagerada atenção.

— Ei! — Adam reclamou, afastando-o.

— Nada — Finn anunciou, decepcionado. — Nenhuma prova material. Que desperdício.

— Você é um idiota — Adam murmurou, mas havia um sorriso involuntário nos lábios.

— Ainda bem que você chegou a tempo — Isabelle comentou. — O Tyler ainda não apareceu.

Como se tivesse sido chamado, o som de passos próximos à porta fez todo mundo se mexer ao mesmo tempo. As luzes foram apagadas de vez, alguém aumentou a música por um segundo e depois silenciou tudo.

— Agora — sussurrou Min-su.

Tyler entrou rindo, distraído, falando alguma coisa e então o grito coletivo ecoou pelo quarto:

— SURPRESA!

Tyler levou a mão ao peito, arregalando os olhos antes de começar a rir alto.

— Vocês são uns filhos da— parou, olhando em volta, claramente emocionado. — Meu Deus.

Ele estava acompanhado. Charles entrou logo atrás dele, alto, moreno, com um sorriso fácil e um ar tranquilo. Tyler puxou-o pela mão, orgulhoso, como se quisesse apresentá-lo ao mundo inteiro.

— Gente, esse é o Charles — anunciou. — Ele é da turma de arte. — depois completou, com um sorriso malicioso: — E tem me ocupado bastante ultimamente.

Algumas risadinhas surgiram. Adam observou Tyler com atenção: as unhas perfeitamente pintadas de preto, contrastando com a pele clara; um delineado discreto, mas marcante, emoldurando os olhos. Tyler parecia confortável, vibrante, completamente à vontade.

— Você tá lindo — Isabelle disse, sincera.

— Eu sei — Tyler respondeu, girando um pouco no próprio eixo. — É meu aniversário.

Adam sorriu, sentindo uma pontada estranha no peito, não de inveja, mas de reconhecimento. Tyler não parecia se esconder de nada. Nem de ninguém.

Por um instante breve, inevitável, Adam pensou em Vincent. Pensou em Howth, no vento, no beijo que ainda parecia marcado na pele. Pensou em tudo o que não tinha dito, e em como, ali, cercado pelos amigos, aquilo parecia ainda mais distante.

Mas, quando Tyler o puxou para um abraço apertado, Adam deixou o pensamento de lado e focou no agora.


***


O tempo foi passando sem que ninguém percebesse direito. A música agora estava mais alta, alguns tinham se sentado no chão, outros se espalhavam pelas camas, encostados na parede, rindo de absolutamente qualquer coisa. O quarto parecia pequeno demais, mas confortável daquele jeito caótico.

Tyler estava no centro de tudo, gesticulando enquanto cochichava algo no ouvido de Charles. Em determinado momento, virou-se para o grupo inteiro, com aquele brilho provocador nos olhos que sempre antecedia alguma fala sem filtro.

— Inclusive — anunciou, erguendo um dedo, como se fosse fazer uma confissão solene —, teve um dia que eu simplesmente acordei sem conseguir andar direito.

O quarto explodiu em risadas antes mesmo de ele terminar.

— Foi depois de uma noite com o Charles — completou, sem o menor pudor. — Aí eu pensei: é isso. Se é pra sofrer assim, que seja por amor. Foi quando eu me apaixonei.

— TYLER! — Isabelle protestou, cobrindo o rosto enquanto ria, já arrependida de ter perguntado qualquer coisa mais cedo.

Alguns assobios surgiram, Finn fingiu engasgar de tanto rir, e Adam desviou o olhar, constrangido e divertido ao mesmo tempo. Apenas Min-su permaneceu quieto, com um sorrisinho breve no rosto.

Charles ficou vermelho na hora, levando a mão ao rosto enquanto ria, claramente sem saber onde se esconder.

— Eu juro que ele não era assim quando a gente se conheceu.

— Mentira — Tyler rebateu, apoiando o queixo no ombro dele. — Eu sempre fui pior.

Finn fez uma careta dramática.

— Agora que você tá pegando esse traste aí, Charles — apontou para Tyler —, o problema é seu. Vai ter que aguentar.

— Inveja mata, sabia? — Tyler respondeu na hora, sorrindo largo. — Aposto que você queria muito ser eu, mas não é.

— Credo — Finn fingiu um arrepio. — Deus me livre.

As risadas se espalharam de novo pelo quarto. Adam observava tudo com um sorriso discreto, sentindo aquela familiar sensação de pertencimento.

Foi então que ele percebeu Min-su. Sentado mais afastado, com as costas apoiadas na parede, o olhar perdido na tela do celular. Não ria mais, não comentava, apenas rolava a tela com o polegar, alheio ao caos ao redor.

Tyler notou também.

— Ei — chamou, inclinando a cabeça. — O que foi?

Min-su levantou o olhar, como se tivesse sido puxado de volta de algum lugar distante. Demorou um segundo a mais do que o normal para responder. Então sorriu, um sorriso rápido, ensaiado.

— Nada — disse, dando de ombros. — Tô bem.

E voltou a mexer no celular, encerrando o assunto antes que alguém pudesse insistir. Tyler franziu a testa por um instante, mas acabou deixando pra lá, sendo logo puxado de novo para alguma outra conversa.


***


Tyler estava no meio de uma história qualquer quando, do nada, o olhar dele pousou em Adam. Os olhos se estreitaram com interesse imediato, como se tivesse acabado de ter uma ideia perigosa demais para ser ignorada.

— Aliás — disse, apontando para ele sem nenhuma cerimônia —, você tá me devendo uma coisa.

Adam ergueu as sobrancelhas, confuso.

— Eu tô?

— Tá — Tyler confirmou, com um sorriso malicioso crescendo devagar. — Você precisa apresentar esse tal cara pra gente. Eu preciso conhecer o responsável por tirar a virgindade de Adam Byrne.

O quarto caiu em gargalhadas instantâneas.

— TYLER! — Isabelle gritou, jogando uma almofada na direção dele.

Finn quase caiu da cama de tanto rir.

— Meu Deus, eu vivi pra ouvir isso.

Adam sentiu o calor subir do pescoço até as orelhas em questão de segundos. O rosto queimava, e ele tinha certeza absoluta de que estava vermelho demais até para os próprios padrões. Abriu a boca para responder, mas nenhuma palavra saiu.

— Olha isso — Tyler continuou, deliciado, observando a reação. — Tá vermelho até a alma.

— Você é insuportável — Adam conseguiu dizer, a voz falhando levemente.

— E você é misterioso demais — Tyler rebateu, piscando. — A gente merece respostas.

Adam desviou o olhar, levando a mão instintivamente ao rosto, tentando esconder o sorriso nervoso que traía tudo. Se pudesse desaparecer naquele momento, desapareceria.

Ele respirou fundo, ainda tentando fazer o rosto esfriar, e deu um meio sorriso contido.

— Algum dia… quem sabe — respondeu, num tom vago, claramente tentando encerrar o assunto.

Tyler arqueou a sobrancelha, nada convencido.

— Eu sou uma pessoa curiosa, Adam. E curiosidade, você sabe… sempre dá um jeito.

— Ih — Finn entrou na conversa na hora, apontando para ele. — Agora virou missão pessoal. Se tem uma coisa que o Tyler sabe fazer é investigar a vida alheia.

— Vocês são doentes — Adam murmurou, cobrindo o rosto com a mão, arrancando mais risadas do grupo.

Balançou a cabeça, resignado, sentindo aquela mistura desconfortável de vergonha e expectativa. No fundo, ele sabia: não era se eles iam descobrir. Era quando.


***


Mais tarde, o quarto ficou reduzido a apenas dois corpos ocupando o espaço: Adam e Finn.

A luz estava baixa. Finn estava estirado na cama, de lado, rolando a tela do celular com o polegar, vez ou outra soltando um riso abafado por causa de algum vídeo. Adam estava deitado na sua cama, olhando para o teto, o celular apoiado no peito, tentando desacelerar os pensamentos depois de um dia que tinha sido intenso demais para caber em poucas horas.

O aparelho vibrou de repente.

Uma notificação do Instagram.


Vincent: Hoje foi muito bom. De verdade.

Vincent: Será que a gente pode conversar pelo WhatsApp?


O coração de Adam deu um pequeno salto. Ele digitou seu número de celular e enviou, quase arrependido no segundo seguinte, como se aquele gesto simples tivesse um peso maior do que deveria.

Não demorou nem um minuto.

Uma nova notificação no WhatsApp apareceu.


Vincent: Oi.

Vincent: Já tô indo dormir, mas não queria fechar o dia sem te desejar uma noite tranquila.

Vincent: Boa noite.


Adam sorriu sozinho, o canto da boca levantando sem que ele percebesse. Digitou a resposta com cuidado, como se cada palavra precisasse soar exatamente certa.


Adam: Boa noite.

Adam: Dorme bem.


Ficou alguns segundos encarando a tela depois disso. O silêncio do quarto parecia mais denso, quebrado apenas pelo som distante de Finn se virando na cama.

Clicou na opção de salvar o contato.

O polegar de Adam pairou sobre o teclado. Vincent parecia simples demais. Direto demais.

Ele pensou no palco do concerto de O Fantasma da Ópera, nas luzes baixas, na primeira vez que tinha visto Vincent tocar. Pensou naquela sensação estranha de reconhecimento sem explicação, como se algo tivesse surgido do nada e, ainda assim, sempre tivesse estado ali.

Digitou.

Phantom.

Salvou o contato.

Bloqueou a tela e pousou o celular ao lado do travesseiro, o coração ainda acelerado, como se tivesse acabado de fazer algo secreto demais para ser compartilhado com qualquer outra pessoa.