Tudo Começou em Letras

13 Capítulo 13 — Recomendações


Mais tarde naquele mesmo dia, Adam estava no quarto, deitado de lado no colchão, o celular apoiado sobre o peito. O calor do constrangimento ainda pairava sobre ele, e a marca no pescoço parecia gritar cada vez que ele passava a mão por ali. Respirou fundo, tomando coragem.

Ele abriu o Instagram e começou a digitar para Vincent:


Adam: Ei… aquilo no banheiro… deixou uma marca roxa no meu pescoço!


Respirou fundo antes de apertar “enviar”, sentindo o coração acelerar. A resposta de Vincent chegou quase imediatamente.


Vincent: Hahaha sério?


Adam franziu o cenho, apertando o celular com força. Como ele podia achar graça de algo tão sério?


Adam: Isso não tem graça, Vincent. Meus amigos viram!


Vincent respondeu novamente, sem perder o tom divertido:


Vincent: Haha, calma. não é nada de outro mundo ter uma marca de chupão no pescoço

Vincent: Relaxa, mon chéri


Adam bufou, sentindo o rosto queimar ainda mais. Com dedos trêmulos, digitou rapidamente:


Adam: Não me chama assim!


A resposta de Vincent chegou quase que instantaneamente, como se nada tivesse acontecido:


Vincent: Desculpe… só não consegui resistir rs


Adam respirou fundo, mordendo o lábio e digitou, a raiva misturada com constrangimento:


Adam: Pra você, tudo isso é só uma brincadeira?


Vincent respondeu quase imediatamente, com um tom calmo e divertido ao mesmo tempo:


Vincent: Não é brincadeira… estamos só aproveitando o momento, Adam. Nada mais que isso


Adam ficou olhando para a tela por alguns segundos, o coração ainda acelerado, sentindo uma mistura de frustração e algo que não conseguia entender.

Ele respirou fundo e, ainda sentindo o calor subir pelo rosto, largou o celular de lado na cama com um suspiro frustrado.

Finn, que estava encostado na cabeceira, percebeu a agitação do amigo e arqueou uma sobrancelha:

— Ei… aconteceu alguma coisa?

Adam piscou algumas vezes, despertando de seus pensamentos como se tivesse sido chamado de volta à realidade. Negou com a cabeça, tentando disfarçar o constrangimento:

— Não… não aconteceu nada. — disse, com a voz baixa, evitando olhar diretamente para Finn.

Finn não disse nada, apenas estudou Adam por um instante, percebendo que havia mais por trás daquelas palavras, mas decidiu não pressionar. Adam se encolheu um pouco no colchão, tentando retomar a calma e afastar o turbilhão de pensamentos que ainda girava na sua mente.


***


Nos dias que se seguiram, Adam passou a sentir uma inquietação constante, um tipo de vazio que não se resolvia com silêncio, livros ou a rotina previsível da biblioteca. Antes, aquilo bastava. As horas entre estantes, o cheiro de papel antigo, a repetição confortável dos dias. Agora, tudo parecia insuficiente, como se o tempo estivesse largo demais, sobrando espaço para pensamentos que ele não queria ter.

Ele tentou se convencer de que era só cansaço, ou fase. Mas quanto mais ficava parado, mais a cabeça voltava para lugares que o deixavam desconfortável. Para Vincent. Para a marca que já estava sumindo, mas ainda queimava na memória.

Foi numa tarde qualquer, sentado no gramado do campus, que Adam acabou verbalizando aquilo pela primeira vez.

— Tô pensando em procurar um emprego — disse, de repente, mexendo na grama com a ponta do tênis.

Isabelle virou o rosto na hora, surpresa.

— Sério? — Ela o analisou de cima a baixo. — Mas seus pais não bancam tudo?

Adam deu de ombros.

— Sim. Quer dizer… eles ajudam bastante. Eu não preciso trabalhar. — Fez uma pausa curta, escolhendo as palavras. — Mas eu quero. Ficar só na biblioteca, só na mesma rotina… não tá mais funcionando pra mim.

Ela sorriu, animada, como se tivesse acabado de lembrar de algo importante.

— Espera… — disse, estalando os dedos. — A minha prima disse que tá precisando de alguém no sebo onde ela trabalha. Não é longe daqui.

Adam ergueu o olhar, curioso.

— Um sebo?

— Uhum. — Isabelle se empolgou. — Pequeno, meio bagunçado, cheio de livro velho, vinil, coisa esquisita… — inclinou a cabeça, avaliando-o. — Basicamente, a sua cara.

Adam não conseguiu evitar o sorriso que se formou devagar.

— Será que eu daria conta?

— Adam — Isabelle riu — você nasceu pronto pra um lugar desses.

Ele respirou fundo, sentindo algo diferente se acomodar no peito. Não exatamente empolgação, mas uma espécie de alívio. A ideia de ter um novo espaço, novas horas ocupadas, algo que não estivesse ligado àquilo que vinha o tirando do eixo… soava segura. Necessária.

— Se você quiser, eu falo com ela hoje — continuou Isabelle. — Mas só se você quiser mesmo. Nada de fugir ou desistir no meio.

Adam assentiu, mais decidido do que se sentia há dias.

— Quero, sim.

E, pela primeira vez em um tempo que ele não soube medir, teve a sensação de que talvez estivesse dando um passo — pequeno, mas concreto — para fora do turbilhão em que vinha sentindo.


***


Dois dias depois, Adam se encontrou parado em frente ao sebo, com as mãos enfiadas nos bolsos do casaco e o olhar atento à fachada simples, quase escondida entre uma cafeteria e uma loja de antiguidades. A vitrine estava levemente empoeirada, com livros empilhados de forma irregular, alguns vinis antigos e uma máquina de escrever que parecia ter parado no tempo.

— É aqui — disse uma voz animada ao seu lado.

Adam se virou e sorriu para Laura ao seu lado.

Ela sorriu largo, daquele tipo de sorriso fácil e contagiante, e já foi puxando a porta antes mesmo que ele dissesse qualquer coisa.

— É um prazer finalmente te conhecer! A Isabelle falou bastante de você! — brincou.

Adam riu, meio sem jeito e Laura continuou:

— Vem, deixa eu te mostrar o caos.

Assim que entraram, o cheiro de papel antigo e poeira tomou o ar. O sebo era pequeno, mas cheio até o teto. Havia pilhas de livros espalhadas pelo chão, estantes tortas encostadas nas paredes e caixas abertas com mais volumes esperando por algum tipo de organização. A luz entrava por uma janela lateral, iluminando partículas de poeira que dançavam no ar.

Adam percorreu o espaço com os olhos, sentindo algo inesperado crescer dentro dele.

— Nossa… — murmurou.

— Bonito, né? — Laura disse, com orgulho. — Bagunçado, empoeirado, mas cheio de história.

Ela foi apontando os cantos enquanto falava sem parar.

— Aqui é onde a gente recebe doações. Ali ficam os clássicos, mais ou menos organizados. Vinil fica naquela estante… ou tentava ficar, antes de virar isso aí — riu. — E lá no fundo é o balcão. Pequeno, mas dá pro gasto.

Adam se aproximou de uma das pilhas e passou o dedo pela lombada de um livro antigo, sentindo a textura gasta sob a pele. Apesar da poeira, o lugar tinha algo reconfortante. Caótico, mas vivo.

— Eu… gostei daqui — disse, quase surpreso consigo mesmo.

Laura virou-se para ele na hora.

— Ótimo, porque eu preciso de ajuda urgente.

Adam piscou.

— Espera… como assim?

Laura cruzou os braços, o observando com atenção.

— A pergunta é simples: você aceita o emprego?

Ele travou por um segundo, sentindo o desconforto subir.

— Assim… direto? — riu, sem graça. — Você nem me perguntou nada ainda.

— Perguntar o quê? — Laura deu de ombros. — A Isabelle te recomendou. E eu confio cem por cento nela. Se você sabe tratar livros com carinho, não derruba café em tudo e aparece no horário, já tá na frente de muita gente.

Ele acabou rindo.

— Nesse caso… eu aceito.

— Maravilha! — ela comemorou, batendo palmas uma vez só. — Então seja bem-vindo ao sebo mais bagunçado e acolhedor dessa cidade.

E, enquanto Laura continuava falando sobre horários, caixas para organizar e clientes excêntricos, Adam teve a impressão de que aquele lugar empoeirado, imperfeito e cheio de histórias, talvez fosse exatamente o que ele precisava agora.


***


No terceiro dia no sebo, Adam já começava a se sentir parte do lugar. O cheiro de poeira não incomodava mais, as pilhas de livros deixavam de parecer caos e passavam a ter lógica, e ele já sabia exatamente em qual estante procurar quando alguém perguntava por um título específico. Havia algo profundamente satisfatório em ajudar as pessoas a encontrarem histórias, como se, de alguma forma, aquilo também o ajudasse a organizar as próprias.

Ele estava atrás do balcão, organizando uma caixa de livros recém-chegados, quando a campainha da porta tilintou.

— Olha só — Tyler comentou, girando sobre os próprios calcanhares. — O Adam trabalhando. Nunca achei que veria esse dia.

Adam ergueu a cabeça e abriu um sorriso genuíno ao ver Tyler entrando, seguido de Finn. Os dois olhavam ao redor com curiosidade, como se estivessem explorando um território novo.

— Muito engraçado — Adam respondeu. — O que vocês estão fazendo por aqui?

— A gente veio fiscalizar — Tyler respondeu, já se afastando, os olhos brilhando ao percorrer as estantes. — Ver se você tá dando conta direitinho.

— Isso. Também companhia moral — Finn disse, se aproximando do balcão. — E curiosidade.

Finn começou a caminhar devagar entre as prateleiras, passando os dedos pelas lombadas, absorvendo o ambiente.

Tyler, por outro lado, parou de repente diante de uma mesa baixa com edições expostas. Pegou um livro com cuidado e arregalou os olhos.

— Adam… — chamou, impressionado. — Isso aqui é lindo.

Adam se aproximou e sorriu ao reconhecer a edição.

Emma. — disse. — Essa edição chegou ontem. Capa dura, ilustrações.

Tyler virou o livro nas mãos, quase reverente.

— É um dos meus preferidos da vida — confessou, surpreendendo até a si mesmo. — Eu não vou resistir. Vou levar.

— Teve sorte, pois é a última edição dessa que ainda temos — Adam respondeu, divertido.

Enquanto Tyler seguia até o balcão com o exemplar debaixo do braço, Finn continuava explorando o sebo, mais silencioso. Ele parou diante de uma estante de literatura contemporânea e olhou para Adam.

— Tô precisando de algo pra me distrair… mas não muito pesado — disse. — Alguma ideia?

Adam pensou por um instante, depois caminhou até outra estante e puxou um livro.

Pessoas Normais, da Sally Rooney.

Finn ergueu a sobrancelha.

— Tem conexão, desencontros… e se passa na Irlanda.

Finn abriu o livro, folheando algumas páginas.

— Vibe Dublin? — perguntou.

— Totalmente vibe Dublin — Adam confirmou, sorrindo de canto. — Inclusive tem também a Trinity College de fundo.

Finn fechou o livro e assentiu, animado.

— Tá. Confio em você. — disse. — Vou levar. Espero não sofrer com esse livro.

Adam riu.

— Sofrimento literário é um risco que vale a pena.

Tyler voltou ao balcão, colocando Emma ao lado de Pessoas Normais.

— Quem diria… — comentou. — Nosso amigo tímido virou atendente cult de sebo.

Adam sentiu um calor confortável no peito ao ouvir aquilo. Pela primeira vez em dias, talvez semanas, ele percebeu que estava exatamente onde precisava estar: cercado de livros e amigos.


***


Alguns dias depois, Vincent estava a alguns quarteirões dali quando decidiu parar para comprar um smoothie. O copo gelado suava em sua mão enquanto ele caminhava sem pressa, distraído, até que algo chamou sua atenção de relance: o interior de um sebo, visível pela vitrine ampla, abarrotado de livros.

E então ele o viu.

Adam estava atrás do balcão, inclinado levemente para a frente, conversando com uma garota. Ele sorria; um sorriso aberto, fácil, diferente daquele mais contido que Vincent conhecia da biblioteca. Gesticulava enquanto falava, claramente animado.

Vincent diminuiu o passo.

Ele não via Adam há dias. Nenhuma mensagem nova. Nenhum encontro “por acaso” entre as estantes da universidade. Vincent tinha decidido dar espaço, não por falta de vontade, mas por medo de sufocar. Ainda assim, Adam insistia em aparecer em seus pensamentos com uma constância inquietante.

Algo naquele jeito de Adam — tímido, contido, quase deslocado — sempre chamou a atenção de Vincent. Aquela combinação de aparente inexperiência com sensibilidade afiada despertava em Vincent uma curiosidade difícil de ignorar, um desejo quase instintivo de se aproximar, de atravessar as camadas com cuidado e descobrir o que havia por trás daquele olhar atento e cauteloso.

Ele parou em frente à vitrine por alguns segundos, observando. O riso de Adam atravessou o vidro, leve. Algo se apertou em seu peito.

Por impulso, antes que pudesse repensar, Vincent empurrou a porta, abrindo-a.

O sino tilintou alto até demais.

Adam ouviu o som e ergueu o olhar automaticamente, ainda sorrindo. O sorriso, porém, vacilou no instante em que seus olhos encontraram Vincent parado à entrada, smoothie em uma mão, a outra ainda segurando a porta.

O coração de Adam disparou. O ar pareceu ficar mais denso dentro do sebo.

Vincent sustentou o olhar por um segundo a mais do que o necessário, então desviou, fingindo interesse nas estantes mais próximas. Caminhou alguns passos para dentro da loja, observando as lombadas.

Laura, que até então conversava com Adam, acompanhou a cena com curiosidade. Inclinou-se levemente na direção dele e perguntou em tom baixo, mas prático:

— Você não vai oferecer ajuda pra ele?

Adam piscou, como se tivesse sido arrancado de um transe.

— Claro — respondeu, rápido demais.

Ele respirou fundo, reuniu o pouco de coragem que tinha e saiu de trás do balcão, caminhando até Vincent com passos que tentavam parecer firmes, embora o desconforto fosse evidente.

— Precisa de ajuda? — perguntou, profissional, evitando encará-lo por muito tempo.

Vincent ergueu os olhos devagar, encontrando os de Adam pela primeira vez desde que entrou. Um meio sorriso surgiu em seus lábios, quase cuidadoso.

— Talvez — respondeu. — Eu… não sabia que você trabalhava aqui.

Adam assentiu, engolindo em seco.

— Trabalho agora.

Houve um breve silêncio entre os dois.

Vincent continuou andando devagar entre as estantes, os olhos passando pelas lombadas sem realmente se fixarem em nada, como se estivesse apenas se ocupando enquanto organizava os próprios pensamentos. Adam permaneceu ao lado dele, rígido demais para alguém que supostamente só estava trabalhando.

Depois de alguns segundos, Vincent quebrou o silêncio:

— Você teria algo pra me recomendar?

Adam ergueu levemente o olhar, surpreso.

— Algo… como?

— Algo que você tenha lido ultimamente. — Vincent deu de ombros, ainda fingindo atenção aos livros. — E gostado de verdade.

A pergunta pegou Adam desprevenido. Ele hesitou, os dedos se fechando e abrindo ao lado do corpo. O desconforto era visível, mas, depois de um instante, ele se virou e caminhou até uma das estantes.

— Tem um contemporâneo… — começou, a voz um pouco mais baixa. — Daisy Jones & The Six.

Ele puxou o livro e o segurou contra o peito por um segundo antes de continuar, ainda sem encarar Vincent.

— E é sobre o quê? — Vincent pergunta, olhando-o nos olhos.

Adam olha para o livro, desviando o olhar e começa:

— É… sobre uma banda de rock dos anos setenta que se desfez no auge. Anos depois, cada um dos integrantes conta a própria versão do que aconteceu, como se fosse uma série de entrevistas.

Adam respirou fundo.

— É… — acrescentou, quase relutante. — Um dos meus livros preferidos.

Ele estendeu o exemplar na direção de Vincent.

Quando Vincent o pegou, seus dedos roçaram os de Adam por um instante a mais do que o necessário. O contato foi breve, mas suficiente para fazer Adam sentir um choque percorrer-lhe o braço, como se algo tivesse sido ligado dentro dele sem aviso.

Vincent levantou o olhar imediatamente, fixando-o em Adam. Havia algo atento, quase intenso, em sua expressão.

— Então eu vou levar — disse, com um leve sorriso.

Adam assentiu, rápido demais, tentando ignorar o calor que ainda queimava onde as mãos haviam se tocado.

Ele voltou para trás do balcão. Seus movimentos estavam um pouco mais mecânicos do que antes, como se precisasse se concentrar demais em cada gesto para não denunciar o turbilhão que ainda sentia.

Ele informou o valor, sem erguer os olhos.

Vincent apoiou o cotovelo no balcão enquanto pagava, observando Adam em silêncio. Havia algo de tranquilo na forma como se mantinha ali, como se não tivesse pressa alguma. Adam, por outro lado, contava mentalmente os segundos até aquele momento acabar.

— Obrigado — Vincent disse, ao término do pagamento. A voz veio baixa, quase íntima.

— De nada — Adam respondeu, rápido, finalmente levantando o olhar apenas o suficiente para vê-lo se afastar.

A campainha da porta tilintou novamente quando Vincent saiu, levando consigo o livro. Adam ficou parado por um instante, respirando fundo, tentando se recompor.

— Ei — Laura surgiu ao lado dele, apoiando os braços no balcão, com um sorriso satisfeito. — Você tá mandando muito bem, sabia?

Adam piscou, ainda meio distante.

— Tô?

— Tá, ué. — Ela inclinou a cabeça na direção da porta por onde Vincent tinha saído. — O cliente entrou sem saber o que queria e saiu com exatamente o livro que você recomendou. Isso é talento.

Um canto discreto do sorriso de Adam apareceu.

— Eu só… indiquei algo que eu gosto.

— E é exatamente assim que funciona — Laura respondeu, animada. — Continua assim que esse sebo vai longe.

Adam riu baixo, sentindo o peito aquecer, mesmo que o toque de Vincent ainda estivesse latente em sua mão.