Tudo Começou em Letras

9 Capítulo 9 — Curiosidade Inevitável


Adam estava concentrado na biblioteca, rodeado por pilhas de livros e cadernos, tentando terminar mais um trabalho de uma outra disciplina. O ambiente estava silencioso, quebrado apenas pelo som de páginas virando e teclas sendo pressionadas. Ele estava tão absorvido que nem percebeu o tempo passar. A luz do fim da tarde já se transformava em sombras da noite quando finalmente levantou a cabeça, satisfeito com o progresso.

Foi nesse momento que uma voz conhecida quebrou o silêncio, carregada de uma leve provocação:

— Imaginei que você estaria aqui.

Adam ergueu os olhos, imediatamente reconhecendo Vincent. O coração acelerou, mas ele se forçou a manter a expressão neutra.

— O que você quer? — perguntou, direto, tentando não deixar transparecer nenhuma reação.

Vincent apenas inclinou a cabeça, o sorriso brincando nos lábios:

— Eu quero te mostrar um lugar.

Adam arqueou a sobrancelha, desconfiado.

— E por que eu iria com você? — disse, cruzando os braços sobre a mesa, a voz carregando ceticismo.

O outro deu um passo para mais perto, o olhar penetrante.

— Me diz uma coisa… você já fez algo diferente de ficar preso em livros e trabalhos ou de ficar por aí com aqueles amigos seus? — perguntou, irônico, mas de forma quase provocativa.

Adam o encarou, sem saber o que responder, sentindo o peso da pergunta atravessar o ar silencioso da biblioteca.

Sem esperar resposta, Vincent se afastou, dando alguns passos decididos em direção à saída.

Adam bufou, frustrado consigo mesmo, desviando os olhos para o notebook. O trabalho estava praticamente pronto. Ele podia simplesmente ignorar Vincent, voltar para sua rotina segura e tranquila. Mas havia algo no jeito do outro, na confiança, na naturalidade do sorriso, que o inquietava, despertava uma curiosidade que ele não queria admitir.

Contra si mesmo, fechou o notebook, arrumou os livros e cadernos rapidamente, e saiu da biblioteca. Lá fora, Vincent estava parado, encostado na parede do corredor, como se soubesse que Adam apareceria. Ao vê-lo, sorriu levemente, quase desafiador e começou a andar.

Vincent caminhava com passos leves, olhando para trás apenas de vez em quando, certificando-se de que Adam o acompanhava. Havia algo naquele jeito natural, confiante, que fazia Adam se sentir simultaneamente nervoso e impossivelmente atraído.

Mesmo sabendo que aquilo quebraria suas próprias regras de segurança emocional, Adam continuou seguindo. Ele não sabia onde Vincent o levaria, nem o que encontraria no caminho, mas já sentia que seria impossível simplesmente recuar agora.


***


Eles subiram os últimos lances de escada em silêncio. Quando a porta do terraço se abriu, o ar noturno os envolveu de imediato, mais fresco, carregado de um leve cheiro de concreto e vento. Dali de cima, o campus se estendia em pequenas ilhas de luz: prédios iluminados, janelas acesas, caminhos desenhados por postes amarelos. A cidade ao fundo parecia distante, quase outra coisa, e o lugar tinha uma calma contemplativa que contrastava com o peso que Adam sentia no peito.

Vincent caminhou alguns passos à frente, apoiando as mãos no parapeito, como se aquele fosse um ritual conhecido.

— Já tinha vindo aqui antes? — perguntou, sem olhar diretamente para Adam.

Adam balançou a cabeça.

— Não… nunca — respondeu, a voz mais baixa do que pretendia.

Vincent assentiu, como se aquilo confirmasse algo que só ele parecia entender. Os dois ficaram em silêncio por alguns instantes, apenas observando as luzes espalhadas pelo campus, o vento leve cortando o terraço.

Então ele falou, a voz mais baixa, menos provocativa do que de costume:

— Eu gosto de vir aqui quando preciso de um tempo pra mim. Dá pra pensar melhor… é um bom lugar pra refletir.

Adam apenas concordou com a cabeça. As mãos estavam levemente suadas, e ele as esfregou uma na outra de forma inconsciente, tentando disfarçar o nervosismo. O silêncio se instalou entre os dois, não constrangedor, mas denso. O vento bagunçou de leve os cabelos de Vincent, e Adam desviou o olhar antes que percebesse que estava encarando demais.

Os segundos se alongaram, até que Adam sentiu que precisava dizer alguma coisa, qualquer coisa, para quebrar aquela tensão invisível.

— É… — começou, hesitante. — É bonito aqui.

Ele se aproximou um pouco do parapeito e olhou para baixo, evitando encarar Vincent. As luzes lá embaixo pareciam pequenas demais, quase irreais, e por um instante Adam teve a sensação de estar fora do próprio lugar, suspenso entre a segurança de sempre e algo completamente desconhecido. O silêncio voltou a se estender, agora mais suave, enquanto a cidade brilhava abaixo deles.

Vincent desviou o olhar do campus iluminado abaixo e voltou a atenção para Adam. Observou-o por alguns segundos a mais do que o necessário: os olhos azuis refletindo a luz noturna, os cabelos ruivos sendo bagunçados pelo vento, o jeito inquieto. Havia algo naquela timidez, naquele desconforto mal disfarçado, que ele achava estranhamente atraente.

Ele se aproximou sem anunciar o gesto, invadindo o espaço de Adam de forma lenta, quase cuidadosa, como se testasse os limites antes de ultrapassá-los. Ele ergueu a mão e pousou os dedos na bochecha de Adam, acariciando-a com suavidade; Adam levantou o rosto, preso àquele olhar, o azul inquieto encontrando o verde intenso de Vincent, como se o resto do mundo tivesse perdido a nitidez.

O beijo aconteceu como uma continuação inevitável do silêncio que pairava entre os dois: primeiro contido, depois mais firme, carregado de uma intensidade que fez Adam esquecer completamente onde estava. Havia calor demais naquele contato, uma segurança desconcertante na maneira como Vincent o puxava para perto, como se soubesse exatamente o efeito que causava. Adam sentiu o mundo se estreitar àquele instante, aos lábios, ao toque breve que o mantinha ali, suspenso entre o desejo e o medo. Quando finalmente se afastaram, ele precisou de um segundo a mais para se recompor, respirando de forma irregular, o coração batendo forte demais.

O rubor subiu rápido pelo rosto de Adam, denunciando tudo o que ele tentava conter. Abriu a boca para falar, fechou de novo, a garganta seca demais para cooperar. Passou a língua pelos lábios, desviando o olhar, e gaguejou, a voz baixa e trêmula:

— Eu… eu não sei o que tá acontecendo entre a gente — disse, engolindo em seco. — Mas eu… eu não posso continuar com isso.

Vincent franziu o cenho por um instante, avaliando-o, antes de um sorriso lento surgir em seus lábios.

— Mas… você me seguiu até aqui, não seguiu? — respondeu com uma pergunta, de forma simples, como se aquilo explicasse tudo.

Adam ficou sem palavras. Odiava o quanto Vincent fazia isso com ele: dizia coisas certeiras, desmontava suas tentativas de controle com uma facilidade desconcertante.

Vincent riu baixo ao perceber o efeito que havia causado, mas também a entrega de Adam. Antes que ele conseguisse se afastar de vez, inclinou-se novamente, encurtando a distância entre os dois. O segundo beijo veio mais rápido, mais intenso e Adam retribuiu, embora hesitante no começo, porém com a mesma urgência, como se o corpo respondesse antes da razão. Foi breve, quase provocativo.

Quando se separaram, Vincent deu alguns passos para trás e olhou em volta, tranquilo, como se nada de extraordinário tivesse acabado de acontecer. Adam, por outro lado, permaneceu imóvel por um instante a mais, sentindo o coração acelerar de novo, consciente demais do quanto tinha participado e do quanto isso o assustava.

— Eu gosto desse lugar — Vincent comentou, casual. — Me dá inspiração pra compor. As ideias fluem melhor aqui em cima, sabe?

Adam piscou, meio estupefato. Era estranho, quase absurdo, como o beijo parecia algo tão natural para Vincent, algo que simplesmente podia acontecer e, logo depois, ser deixado de lado como um detalhe qualquer. Ele assentiu lentamente, tentando se recompor, ainda sentindo o gosto do outro nos lábios, enquanto o coração demorava a acompanhar aquela normalidade que ele definitivamente não sentia.

Vincent então levou a mão ao bolso do casaco, tirando um cigarro e, logo em seguida, um isqueiro. O estalo seco da chama quebrou o silêncio do terraço, e ele acendeu com naturalidade, puxando a primeira tragada sem pressa. Adam apenas observou, ainda tentando reorganizar os próprios pensamentos, e depois desviou o olhar para o campus lá embaixo, as luzes espalhadas parecendo distantes demais.

— Quer? — Vincent perguntou, estendendo um cigarro na direção dele, como se fosse o gesto mais simples do mundo.

Adam balançou a cabeça rapidamente.

— Não… eu não fumo.

Vincent deu de ombros, sem insistir, e voltou a levar o cigarro aos lábios, soltando a fumaça devagar no ar frio da noite. Ficou ali, tranquilo, como se o momento anterior — os beijos, a tensão, a confusão — já tivesse sido absorvido pela paisagem, enquanto Adam permanecia em silêncio, dividido entre a vista à sua frente e tudo o que ainda pulsava dentro dele.

O celular de Adam vibrou de repente em sua mão, fazendo-o se sobressaltar levemente. Ele olhou para a tela, o brilho contrastando com a penumbra do terraço. Era Finn.


Finn: Você ainda não chegou no dormitório

Finn: Tá tudo bem?

Finn: Ainda não saiu da biblioteca?


O peito de Adam apertou. Um desconforto imediato se espalhou, não apenas por ser tarde, mas por estar ali, ao lado de Vincent. Estar com Vincent agora parecia errado, quase como uma falha silenciosa com o amigo.

Ele digitou com cuidado, tentando manter a resposta simples.


Adam: Tá tudo bem

Adam: Fiquei um pouco mais tarde na biblioteca, só isso

Adam: Já tô indo


Guardou o celular, respirando fundo, como se precisasse se preparar para encarar novamente quem estava ao seu lado. Vincent o observava em silêncio, a expressão mais atenta do que provocadora dessa vez.

— Algo importante? — perguntou, a voz baixa.

Adam assentiu, passando a mão pelo próprio braço, visivelmente desconfortável.

— É… eu preciso ir embora.

Vincent inclinou a cabeça, aceitando sem discutir.

Adam deu alguns passos em direção à saída do terraço, o coração pesado, quando ouviu a voz de Vincent atrás de si, mais séria do que antes:

— Eu sinto muito pelo seu amigo.

Adam parou por um segundo. Não respondeu. Apenas virou o rosto o suficiente para encará-lo. Em silêncio, voltou-se para frente e foi embora, deixando o terraço, a vista noturna e Vincent para trás.