Tudo Começou em Letras
23 Capítulo 23 — Marcas Irreparáveis
Adam empurrou a porta do dormitório com cuidado, como se qualquer ruído mais alto pudesse piorar tudo. O quarto estava iluminado pela luz fria do fim de tarde, e a primeira coisa que ele notou foi o silêncio estranho.
Finn estava ajoelhado no chão, dobrando roupas e colocando dentro de uma mala aberta sobre a cama. Camisetas, calças, moletons. Tyler estava encostado na escrivaninha, de braços cruzados, observando a cena com o maxilar travado.
Nenhum dos dois olhou para Adam quando ele entrou.
Ele fechou a porta atrás de si devagar. O som seco ecoou alto demais no quarto.
— Oi… — disse, a voz baixa, insegura.
Nada.
Finn continuou dobrando uma camiseta com cuidado excessivo, alisando o tecido antes de colocá-la na mala, como se aquela tarefa fosse a única coisa que o mantinha inteiro. Tyler desviou o olhar, claramente desconfortável.
Adam ficou parado por alguns segundos, sem saber onde colocar o corpo. Estava deplorável: os olhos ainda inchados, o rosto abatido, o cansaço estampado em cada gesto. O tipo de aparência que denunciava que algo estava muito errado.
— Finn…? — tentou de novo.
Finn não respondeu.
Tyler pigarreou, quebrando o silêncio.
— Você também não precisava chegar nesse ponto — disse olhando para Finn, num tom baixo. — Dá pra conversar.
Finn não ergueu a cabeça. Não respondeu. Apenas fechou o zíper da mala com um puxão firme e puxou outra para perto.
O estômago de Adam se revirou.
— O que… — ele deu um passo à frente. — O que tá acontecendo?
Silêncio.
Finn abriu a gaveta da cômoda e começou a tirar livros, empilhando-os ao lado da cama. Cada movimento era metódico, decidido.
O coração de Adam começou a bater mais rápido. Ele se aproximou de vez, as mãos tremendo sem que conseguisse controlar.
— Finn… — a voz falhou. — O que você tá fazendo?
Finn continuou ignorando.
Foi quando Adam perdeu o pouco de equilíbrio emocional que ainda tinha. Ele estendeu a mão e segurou o braço de Finn, com cuidado, mas com urgência. O toque denunciava tudo: o tremor, o desespero, o medo.
— Por favor — disse, quase num sussurro. — Fala comigo.
Finn parou.
Por um segundo, Adam achou que ele fosse se virar, que fosse finalmente olhar para ele. Mas Finn apenas puxou o braço de volta, devagar, como quem se livra de algo indesejado, e então falou, a voz baixa, firme, sem emoção alguma:
— Eu não quero dividir quarto com um mentiroso.
As palavras caíram pesadas, definitivas.
Adam sentiu como se o ar tivesse sido arrancado dos pulmões. A boca abriu, mas nenhum som saiu. Ele ficou ali, parado, olhando para Finn como se não tivesse entendido direito.
Finn finalmente se virou para ele.
Os olhos estavam frios. Não havia raiva explosiva ali. Havia algo pior: decepção.
— Agora tudo faz sentido — continuou.
Adam engoliu em seco.
— Você vivia sumindo. Esses dias tava super estranho. Triste. Distraído. — Finn respirou fundo, cruzando os braços. — Eu achei que era só estresse, ou sei lá… mas não. Era isso, então.
Ele deu um meio sorriso amargo.
— Você se envolveu com aqueles pilantras. Com a mesma gente que me humilhou. Que me fez passar pelo que eu passei.
Adam sentiu os olhos arderem imediatamente.
— Finn, eu—
— E aí você voltou quebrado — Finn interrompeu, a voz subindo um pouco pela primeira vez. — Igualzinho a mim. Humilhado. Descartável.
Ele o encarou direto, sem desviar.
— É isso, né? — perguntou. — Me diz. É isso?
Adam não conseguiu responder. O nó na garganta era grande demais.
Finn deu um passo à frente.
— Como você pôde ser tão burro, Adam?
A pergunta não veio como um ataque histérico. Veio como constatação. Como se Finn estivesse genuinamente tentando entender onde o amigo que ele conhecia tinha falhado.
Aquilo foi o que quebrou Adam de vez.
As lágrimas vieram rápidas, descontroladas. Ele tentou falar, tentou se explicar, mas a voz se dissolveu no meio do choro. O corpo começou a tremer inteiro.
— Eu… eu nunca quis isso… — conseguiu dizer, entre soluços. — Eu nunca quis machucar ninguém. Eu só… fui pego de surpresa. Eu só achei que—
A frase morreu ali.
Finn desviou o olhar, como se não aguentasse mais ver aquilo. Pegou outra pilha de coisas e colocou dentro da mala, fechando-a em seguida.
— Eles devem estar rindo agora — disse, sem encarar Adam. A voz saiu baixa, dura.
Adam ergueu o rosto na hora, confuso, os olhos cheios de lágrimas.
— Rindo porque conseguiram de novo — Finn continuou, a amargura escorrendo em cada palavra. — Predar mais um dos “inocentes” de Letras. Igual fizeram comigo.
Ele soltou uma risada curta, sem humor algum.
— É sempre assim. Eles escolhem, cercam, usam… e depois descartam. — Finn balançou a cabeça, respirando fundo. — E você caiu direitinho, aparentemente.
Adam sentiu o peito apertar de um jeito quase físico. Levou a mão ao rosto, o choro escapando sem qualquer controle, sem força pra conter.
Tyler respirou fundo atrás dele.
— Eu falei, Adam — disse, baixo. Não havia ironia, nem provocação. Só cansaço. — Eu falei que você sabia exatamente onde estava se metendo.
Adam tentou responder, mas só conseguiu balançar a cabeça em negação, os ombros tremendo.
Finn voltou a se virar para eles, o olhar duro.
— Pois é — disse, seco.
Adam permaneceu ali, chorando em silêncio, sentindo cada uma daquelas palavras se acomodar dentro dele como algo definitivo, irreversível. Ele levou a mão ao rosto, chorando sem qualquer tentativa de se recompor. Tyler observava tudo em silêncio.
Finn puxou a mala para fora de baixo da cama.
— Vou pedir transferência de quarto — avisou, sem olhar para Adam. — Já falei com a coordenação.
Adam levantou o rosto, desesperado.
— Finn, por favor—
— Não — Finn cortou. — Já chega.
Ele passou por Adam sem encostar nele e foi até a porta. Antes de sair, parou por um segundo, a mão na maçaneta.
— Você mentia pra mim — disse, baixo. — Isso foi o que mais doeu.
E saiu.
A porta se fechou com um clique seco.
Adam ficou ali, no meio do quarto, chorando em silêncio, sentindo o espaço que antes era compartilhado se tornar grande demais, vazio demais. Tyler permaneceu parado por alguns segundos, respirando fundo, até finalmente sair atrás de Finn.
Adam se sentou em sua cama, não sabendo mais o que poderia fazer.
***
O quarto estava silencioso demais.
A cama de Finn vazia, o espaço ao lado dela agora estranho, deslocado, como se o ambiente tivesse perdido parte do próprio equilíbrio. A mala que Finn havia levado deixara marcas no chão. Adam estava deitado na própria cama, encolhido, os joelhos puxados contra o peito, o celular largado ao lado, a tela virada para baixo.
Ele não tinha forças nem para chorar direito. Era um cansaço pesado, daqueles que não trazem descanso.
Foi então que uma batida leve soou na porta.
Adam levantou a cabeça rápido demais, o coração disparando. Por um segundo, um segundo inteiro e esperançoso, ele achou que fosse Finn.
Achou que ele tivesse voltado, que tivesse pensado melhor.
Ele se levantou quase tropeçando nos próprios pés e foi até a porta, limpando o rosto com a manga da blusa antes de abrir.
Não era Finn.
Era Isabelle.
Adam tentou esconder a decepção que passou rápido demais pelo rosto, mas não conseguiu completamente. Ainda assim, junto dela veio outra coisa: um alívio pequeno, silencioso.
— Oi — ela disse, mais suave do que o habitual. — Eu posso entrar?
Adam apenas assentiu e deu espaço.
— Sim.
Isabelle entrou devagar e fechou a porta. O olhar dela percorreu o ambiente e parou na cama vazia ao lado.
— Eu fiquei sabendo que… — ela apontou discretamente para o espaço onde antes havia roupas jogadas, livros empilhados. — Ele saiu do quarto.
Adam apenas assentiu. O gesto foi pequeno, mas carregado de algo pesado demais para caber em palavras.
Isabelle se aproximou. Sentou-se na cama de Adam com cuidado, mantendo uma distância respeitosa no começo.
Ele voltou a se sentar também, os ombros caídos.
Por alguns segundos, nenhum dos dois falou nada.
— Eu sei que… você deve ter tido seus motivos — ela disse por fim, olhando para frente, não diretamente para ele. — Pra ter feito o que fez.
Adam respirou fundo, o ar falhando no meio do caminho.
— Eu sei que você é uma ótima pessoa — Isabelle continuou, agora virando o rosto para encará-lo. — Eu nunca duvidei disso.
Aquilo quase o desmontou.
— Então… eu queria entender. O que houve? — ela perguntou, com cuidado.
Adam passou a mão pelo rosto, sentindo o cansaço acumulado nas últimas horas.
— É que… as coisas com o Vincent… simplesmente aconteceram — ele disse, a voz baixa. — Não foi um plano. Não foi… calculado.
Ele engoliu em seco.
— Eu não sabia como falar. — A garganta apertou. — Eu mesmo nem sabia direito o que tava acontecendo comigo. Eu tava tentando entender… e quando eu vi, já era tarde.
Os olhos encheram de lágrimas de novo. Ele piscou rápido, tentando segurar.
— Eu não quis mentir. Eu só… não sabia explicar.
A voz falhou no final.
Isabelle não disse “você errou”, não o atacou. Ela apenas estendeu a mão e segurou a dele. O gesto foi firme. Presente.
— Eu tô aqui, tá? — disse, simples.
Adam olhou para as mãos entrelaçadas por um segundo, como se aquilo fosse a única coisa estável no quarto inteiro.
— Obrigado — murmurou.
O silêncio que se instalou não era desconfortável. Era compartilhado.
Depois de alguns instantes, ele perguntou, quase com medo da resposta:
— Você acha que ele pode me perdoar?
Isabelle respirou fundo antes de responder.
— É uma situação complexa — disse, sincera. — Ele tá machucado. E quando a gente se sente traído, é difícil enxergar qualquer coisa além disso.
Adam baixou os olhos.
— Mas… — ela continuou — o futuro é maior que esse momento. Pode ser que, com o tempo, ele entenda. Não agora. Mas um dia.
Não era uma promessa, mas também não era uma sentença.
Eles ficaram ali por mais um tempo. Sentados lado a lado, sem precisar preencher o espaço com explicações.
Quando Isabelle finalmente se levantou, apertou a mão dele mais uma vez antes de soltar.
— Fica bem, tá bom? — disse, perto da porta.
Adam assentiu.
— Eu vou tentar.
Ela lhe deu um pequeno sorriso, gentil, mas contido, e saiu.
A porta se fechou devagar e o quarto voltou ao silêncio.
Mas, pela primeira vez naquela noite, ele não parecia completamente insuportável.
***
Era tarde da noite.
O campus já estava mergulhado naquele silêncio irregular de corredores vazios e portas fechadas. De vez em quando, um riso distante atravessava as paredes, ou o som abafado de passos apressados no corredor. Mas dentro do quarto, só havia quietude.
Adam estava deitado de lado, virado para a parede onde antes ficava a cama de Finn.
O espaço vazio parecia maior no escuro.
Ele tinha tentado não chorar de novo. Tinha prometido a si mesmo que já era suficiente por um dia, mas o corpo não obedecia.
As lágrimas escorriam silenciosas, molhando o travesseiro. O peito doía de um jeito contínuo. Ele puxou o cobertor até o queixo, como se pudesse se esconder do próprio pensamento.
Até que o celular vibrou.
O nome Phantom apareceu na tela.
Adam sentiu o estômago se revirar imediatamente. O coração acelerou, uma mistura de raiva, medo e algo pior: saudade. Ele ficou olhando para o nome por alguns segundos, como se aquilo pudesse desaparecer se ignorasse por tempo suficiente.
O telefone continuou tocando.
Com um suspiro trêmulo, Adam atendeu.
— Adam… — a voz de Vincent veio baixa, cuidadosa. — Tudo bem?
Aquelas palavras foram o estopim.
— Tudo bem? — Adam indagou, mas o som saiu quebrado, quase um soluço. — Você arruinou a minha vida, Vincent.
Do outro lado da linha, houve um silêncio breve, pesado.
— Adam, o que houve? Eu nunca quis—
— Eu perdi tudo — ele interrompeu, a voz subindo, falhando no meio. — Eu perdi meus amigos… — ele engoliu em seco, o choro voltando com força. — Eles descobriram tudo... e se afastaram.
A respiração dele começou a se descontrolar. As palavras vinham atropeladas, desesperadas, como se ele precisasse colocar tudo pra fora antes que se afogasse nelas.
— Você entrou na minha vida e as coisas saíram do controle — continuou, chorando abertamente agora. — Eu menti por você. E agora eu tô sozinho.
— Adam— Vincent começou a dizer, com a voz tensa.
— Não. Não tem mais o que falar — Adam interrompeu, com o tom de voz elevado.
Ele passou a mão pelo rosto, as lágrimas escorrendo sem parar.
Do outro lado, Vincent tentou dizer algo, o nome dele, talvez um pedido, talvez uma promessa tardia.
Adam não ouviu.
— Não liga mais pra mim — disse, com a voz despedaçada. — Por favor.
E antes que pudesse fraquejar, antes que ouvisse qualquer coisa que o fizesse voltar atrás, Adam desligou a ligação.
O silêncio voltou com violência.
Ele deixou o celular cair sobre a cama e ficou encarando o vazio do quarto. O choro veio de novo, silencioso, exausto, até o corpo cansar por completo.
Naquela noite, ele dormiu com a sensação de que tinha perdido tudo, e sem saber se algum dia conseguiria recuperar sequer uma parte.
***
Na manhã seguinte, Adam acordou com uma decisão dura e simples: Vincent precisava sair da vida dele.
Ele não respondeu às mensagens que haviam chegado durante a madrugada, nem atendeu quando o celular vibrou outra vez. Apagou o histórico da ligação, bloqueou o número. O gesto foi rápido, quase mecânico, como se, se pensasse demais, não fosse conseguir.
O que importava agora era outra coisa.
Os amigos.
Ou o que restava deles.
Na sala de aula, Adam seguiu para o lugar de sempre, o mesmo de antes de tudo desandar. A cadeira rangeu quando ele se sentou, um som alto demais naquele silêncio estranho que se instalou ao redor. O grupo estava ali, mas parecia menor. Mais distante.
Finn não olhou para ele. Nem uma vez.
Tyler estava inclinado sobre o caderno, com a caneta parada entre os dedos, o olhar fixo em algo. Min-su mexia no celular, Isabelle folheava o livro como se realmente estivesse lendo, embora virasse as páginas rápido demais.
Adam sentiu o rosto esquentar.
Ele abriu a mochila com cuidado, os dedos tremendo um pouco quando tirou os chocolates. Colocou-os sobre a mesa, empurrando o pacote para o centro, como fazia antes, como se nada tivesse mudado.
— Eu… — a voz falhou, e ele precisou pigarrear. — Eu trouxe isso pra vocês.
Ninguém respondeu de imediato.
— Eu sinto muito — continuou, mais baixo. — De verdade.
O pedido ficou suspenso no ar, frágil, quase tímido demais para existir.
Isabelle foi a primeira a pegar um chocolate. Min-su fez o mesmo logo depois, murmurando um “obrigado” que mal saiu. Um a um, eles aceitaram, pequenos gestos, contidos, sem sorrir, sem comentar.
Finn permaneceu imóvel.
Então se levantou.
A cadeira arrastou no chão com um ruído seco. Finn não olhou para ninguém. Pegou a mochila, passou por trás das cadeiras e saiu da sala sem dizer uma única palavra.
Adam ficou parado, os olhos presos no espaço vazio que ele deixara.
Tyler, por fim, estendeu a mão e pegou um chocolate. Rasgou a embalagem devagar, como se aquele gesto fosse irrelevante. Não ergueu o olhar. Não disse nada. Apenas mordeu um pedaço, mastigando em silêncio.
Adam abaixou a cabeça, sentindo o peso do que tinha perdido se acomodar no peito.
Ele estava ali. No lugar de sempre.
Mas nada mais era como antes.
***
No fim daquele dia, Adam criou coragem mais uma vez e foi atrás de Finn.
Encontrou-o no corredor depois da aula, parado diante do próprio armário, girando a combinação com movimentos secos.
— Finn… — chamou, a voz baixa. — Por favor. Me escuta.
Finn fechou o armário com força e se virou devagar, o rosto fechado, exausto.
— O que você quer agora?
Adam engoliu em seco.
— Eu… eu queria te pedir perdão. Juro que nunca quis te magoar… o quarto tá vazio sem você. Eu me sinto muito sozinho sem você lá. — As palavras saíram tortas, quase envergonhadas. — Volta, por favor.
Finn soltou uma risada curta, amarga.
— Você se sente sozinho? — repetiu. — Engraçado.
Ele se aproximou um pouco, não de forma ameaçadora, mas fria.
— Se você tá se sentindo sozinho, Adam, corre pros braços daqueles caras lá. Não foi isso que você fez?
A frase acertou como um golpe direto no estômago.
— Não é assim — Adam tentou, a voz falhando. — Eu não quero ele. Eu quero meus amigos. Eu quero você.
Finn desviou o olhar por um segundo, como se aquilo tivesse encostado em algo sensível, e logo endureceu de novo.
— Devia ter pensado nisso antes.
Ele passou por Adam sem pedir licença, o ombro esbarrando de leve no dele, e seguiu pelo corredor. Adam ficou parado, sentindo a solidão se expandir dentro do peito, maior do que o quarto vazio jamais foi.
Ainda assim, ele não desistiu de todo.
Nos dias seguintes, tentou se aproximar de Tyler, Min-su e Isabelle. Sentava perto, puxava conversa, pedia desculpas de novo, em frases curtas, cuidadosas, como quem pisa em vidro.
Isabelle respondia sempre normalmente, porém o restante… era como falar com paredes educadas.
Tyler respondia com monossílabos, quando respondia. Às vezes se levantava no meio do intervalo e ia embora sem dizer nada. Min-su sorria de leve, distante, sempre olhando em volta, atento demais ao ambiente.
Ninguém dizia abertamente que não queria mais ele ali, mas ninguém fazia questão de tê-lo.
Mesmo assim, Adam continuava sentando com eles todos os dias. O banco era o mesmo, o horário o mesmo, mas tudo parecia deslocado.
Finn sempre se levantava quando ele chegava.
Algumas vezes, Tyler levantava junto, sem dizer uma palavra.
O vazio deixado por essas ausências era ensurdecedor.
Adam passou a perder o apetite. A comida ficava intacta no prato, o estômago embrulhado demais para aceitar qualquer coisa. Ele mastigava por obrigação, quando conseguia, sentindo o gosto sumir antes mesmo de engolir.
À noite, deitado sozinho no quarto, o silêncio pesava mais do que qualquer discussão. Ele encarava o teto, contando os segundos, tentando entender em que momento exatamente tudo tinha se quebrado, e por que, apesar de estar sempre cercado de gente, nunca tinha se sentido tão completamente sozinho.
Adam também tentava por mensagem.
No começo, mandava coisas simples. Um “tudo bem?”. Um “me avisem se eu puder ajudar em algo”. Às vezes só um meme antigo, algo que antes renderia risadas, respostas rápidas, piadinhas internas.
Nada vinha de volta.
As conversas ficavam marcadas como visualizadas, quando ficavam. Na maioria das vezes, nem isso. O silêncio digital também doía.
Uma noite, com o celular já quase escorregando da mão de tanto cansaço, Adam pensou em escrever no grupo. Não para se explicar de novo, ele já tinha feito isso vezes demais, mas para dizer algo simples.
Abriu o WhatsApp. Tocou no nome do grupo.
A tela carregou rápido demais.
No lugar onde ficava a caixa de texto, não havia nada. E, logo acima, em letras pequenas, claras demais para serem ignoradas:
“Finn removeu você.”
Adam ficou encarando a tela por longos segundos. Piscou. Saiu. Abriu de novo. A mensagem continuava ali, imóvel, irrefutável.
O ar pareceu rarear no quarto. Adam sentiu o peito apertar, mas, dessa vez, não chorou. Não de imediato. Havia algo diferente ali, um entendimento lento, pesado.
Ele entendeu o recado.
Entendeu a gravidade do que tinha feito. Do que tinha escondido. Do que tinha permitido acontecer enquanto mentia para as pessoas que mais confiavam nele.
E, sobretudo, entendeu, do jeito mais cruel possível, que não merecia mais estar naquele grupo.
Sem pensar muito, Adam abriu o Instagram, mais por hábito do que por vontade real de ver qualquer coisa. O feed passou borrado sob o movimento automático do dedo até que um círculo colorido chamou sua atenção. Tyler.
Ele hesitou por um segundo antes de tocar.
O story abriu revelando o quarto de Tyler, bagunçado do jeito confortável de sempre, com caixas de pizza abertas sobre a cama e controles de videogame espalhados pelo colchão. A câmera tremia enquanto Tyler ria de alguma coisa fora do enquadramento. Quando virou o celular, Finn apareceu primeiro, sentado no chão, apoiado na lateral da cama, com uma fatia de pizza na mão e aquele meio sorriso que Adam conhecia tão bem. Isabelle estava encostada na escrivaninha, reclamando de alguma jogada, enquanto Min-su ria, tentando roubar o controle de alguém.
Era uma cena simples. Cotidiana. Exatamente o tipo de noite que, há poucas semanas, teria incluído Adam sem esforço algum.
O story terminou rápido demais.
O silêncio do quarto voltou com força total.
Adam abaixou o celular devagar e olhou em volta. O espaço parecia grande demais para uma pessoa só. O olhar dele parou na outra cama, perfeitamente arrumada, os lençóis esticados, o travesseiro intacto, o lugar onde Finn costumava jogar as coisas, reclamar do despertador, ficar acordado até tarde mexendo no celular.
Hoje, não havia nada ali.
A garganta de Adam fechou, e o choro veio sem aviso, pesado, infantil, soluços descontrolados que ele nem tentou conter. Ele se encolheu de lado na própria cama, abraçando o travesseiro contra o peito como se aquilo pudesse impedir o vazio de crescer ainda mais.
Entre lágrimas, ele alternava o olhar entre o espaço vazio ao lado e o teto acima dele, sentindo o quarto inteiro ecoar a ausência que antes era preenchida por risadas, conversas jogadas fora e uma amizade que agora parecia pertencer a outra vida.
***
A partir daquele dia, Adam parou de tentar.
Na sala de aula, passou a se sentar longe de todos, sempre no canto mais afastado, perto da janela ou do fundo. Não por orgulho, mas por vergonha. Caminhava pelos corredores sozinho.
Às vezes, Isabelle atravessava o campus só para sentar ao lado dele por alguns minutos antes da aula começar ou mandava mensagem perguntando se ele tinha comido, se estava dormindo direito. Ela falava com cuidado, com aquela gentileza constante que nunca faltava. Adam agradecia, respondia, até sorria de volta, mas, por dentro, sentia como se cada gesto viesse carregado de pena. E aquilo o diminuía um pouco mais.
No sebo, continuava trabalhando como sempre. Organizando prateleiras, catalogando livros, atendendo clientes com um sorriso automático. Ali, ao menos, as regras eram claras: livros não julgavam, não abandonavam, não pediam explicações.
Era como se a vida dele dependesse daquilo, e talvez dependesse mesmo. Era o único lugar onde ainda se sentia útil, necessário, inteiro o suficiente para funcionar.
Por dentro, no entanto, algo começava a se apagar.
Adam dormia mal. Deitava exausto, mas a mente não desligava. Quando finalmente pegava no sono, acordava poucas horas depois, com o coração acelerado, a sensação constante de ter perdido algo importante.
Comer virou um esforço mecânico. Às vezes passava o dia inteiro com um café e um pedaço de pão. Outras vezes, esquecia completamente. O corpo ia ficando mais leve, mais fraco, enquanto o cansaço só aumentava.
Ele ficou apático. As emoções vinham amortecidas, como se atravessassem camadas grossas antes de alcançá-lo. Não chorava mais com facilidade. Também não ria. Apenas existia.
E, em silêncio, Adam começou a carregar a certeza incômoda de que tinha perdido não só um grupo de amigos, mas a versão de si mesmo que existia quando ainda fazia parte dele.
***
A sala de aula estava cheia, mas Adam se sentia invisível.
Sentado no fundo, afastado de todos, ele copiava o conteúdo do quadro sem realmente absorver nada. O barulho das conversas ao redor era apenas um ruído distante, como se estivesse submerso. Finn estava algumas fileiras à frente. Não olhou para trás em nenhum momento. Tyler ria baixo de alguma coisa com outra pessoa. Isabelle e Min-su cochichavam, atentos demais ao próprio espaço para perceberem o dele.
Adam manteve os olhos baixos.
Foi no fim da aula, quando as cadeiras começaram a se arrastar e os alunos a se levantarem e saírem da sala, que algo mudou no ar.
Um burburinho diferente tomou o corredor. Não era o caos comum entre uma aula e outra, havia tensão nas vozes, frases quebradas, olhares alarmados.
— Vocês ficaram sabendo?
— Disseram que foi feio…
— Lá perto dos penhascos…
— O que aconteceu?
Adam franziu a testa, sentindo um arrepio subir pela espinha e continuou ouvindo.
— Uma batida — alguém disse, mais alto. — Um acidente de carro. Disseram que foi um dos alunos de Música.
O coração de Adam deu um salto violento no peito.
— Como assim? — outra voz perguntou. — Ele tá bem?
— Não muito… falaram que tava bêbado. Tá internado.
O ar pareceu rarear.
Adam se aproximou de uma vez. As mãos começaram a suar, o corpo inteiro entrando em alerta antes mesmo de a mente acompanhar.
— Quem? — ele perguntou, se aproximando de quem falava. A voz saiu mais alta do que pretendia, trêmula. — Quem foi?
A pessoa se virou, surpresa com o desespero estampado no rosto dele.
— Ah… eu não sei o nome dele — respondeu, incerta. — Só disseram que é um cara de Música. Acho que… é um que toca violino.
O mundo inclinou.
Adam sentiu o estômago despencar, como se tivesse perdido o chão. O som ao redor ficou distante demais, abafado. Violino. A palavra ecoava dentro dele como um alarme.
Sem pensar mais, ele puxou o celular do bolso.
As mãos tremiam tanto que quase deixou o aparelho cair. A tela acendeu, e por um segundo ele hesitou, o dedo pairando sobre um nome que não tocava havia dias.
Vincent.
Ele desbloqueou o número.
Respirou fundo, uma, duas vezes e ligou.
Chamou.
Chamou de novo.
Caixa postal.
— Não… — murmurou, tentando outra vez, o coração martelando nos ouvidos.
Caixa postal outra vez.
O pânico começou a se espalhar, quente e sufocante. A respiração ficou curta demais. Adam passou a mão pelos cabelos, andando de um lado para o outro no corredor, sem saber para onde ir, o que fazer.
Foi então que os viu.
Laurent, Marcel e Miles estavam mais à frente, perto da saída, conversando em vozes baixas. O rosto de Laurent estava sério demais. Marcel gesticulava pouco. Miles mantinha os braços cruzados, rígido.
Adam parou.
Por um segundo, o instinto foi virar, fingir que não os viu. Evitar. Sempre evitar.
Mas algo dentro dele quebrou.
Ele foi até eles.
— Ei — chamou, a voz falhando. Os três se viraram ao mesmo tempo
O silêncio que se seguiu foi pesado. O coração de Adam começou a bater ainda mais rápido.
— Foi o Vincent? — ele perguntou, sem rodeios, os olhos arregalados. — O acidente… foi ele?
Marcel abaixou o olhar. Miles fechou a mandíbula.
Laurent assentiu, devagar.
— Foi.
O som pareceu se quebrar dentro de Adam.
— Ele tá… — a voz não saiu. Ele tentou de novo. — Ele tá bem?
— Tá — Laurent respondeu rápido. — Mas se machucou feio. Tá em coma. Internado.
Adam sentiu as pernas fraquejarem.
— Em qual hospital? — perguntou, quase sem voz. — Por favor.
Laurent hesitou por um instante, observando o estado dele: o rosto pálido, os olhos marejados, o desespero mal contido.
— Por favor — Adam insistiu, a voz quebrando de vez. — Eu preciso saber.
Laurent suspirou, rendido.
— Hospital Saint James.
Adam assentiu várias vezes, como se precisasse gravar aquilo no corpo.
— Obrigado — disse, já se afastando, o coração disparado.
Ele saiu dali decidido, os passos rápidos demais para alguém que mal sentia o próprio corpo. Não pensou em mais nada. Não pensou nos amigos perdidos, nas promessas quebradas, no orgulho, no afastamento.
Só havia uma coisa clara agora:
Ele precisava ir até Vincent.
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