Tudo Começou em Letras

22 Capítulo 22 — Exposição de Verdades


A sala estava cheia do burburinho habitual antes do professor chegar. Cadernos abertos, mochilas no chão, alguém reclamando do seminário da semana seguinte. Adam estava sentado entre Finn e Isabelle, folheando o material sem realmente ler nada.

Foi Finn quem trouxe o assunto, como se fosse a coisa mais natural do mundo.

— Aliás — disse, apoiando o cotovelo na mesa e olhando para Adam —, fiquei sabendo que o crush do Adam anda aparecendo no sebo...

Adam sentiu o calor subir pelo rosto imediatamente.

— Finn… — murmurou, mas já era tarde.

— Ué — Finn continuou, sorrindo. — Isso aí já tá ficando sério, não tá? E você até agora não apresentou o Caleb pra gente.

O nome falso soou estranho de novo, pesado demais na boca. Adam riu sem graça, desviando o olhar. Foi então que percebeu Tyler observando em silêncio, encostado na cadeira atrás, os olhos atentos.

— É… — Adam começou, sentindo o rubor se intensificar. — A gente tá… indo com calma.

Tyler inclinou levemente a cabeça, como quem analisa algo interessante.

— Caleb, né? — repetiu, com um sorriso pequeno, indecifrável. — E esse Caleb estuda aqui na Trinity?

Adam demorou um segundo a mais do que devia para responder.

— Ele… não estuda aqui.

— Ah, é? — Tyler arqueou uma sobrancelha. — Então ele faz o quê da vida?

A pergunta veio casual demais. Gentil demais. Adam sentiu o estômago se contrair. Sabia que aquilo era um teste.

— Ele… — Adam hesitou, buscando algo plausível. — Ele gosta bastante de academia. Treina quase todo dia.

Finn fez uma careta imediata.

— Academia? — repetiu, com uma expressão meio decepcionada. — Nossa, Adam… sério?

Isabelle riu baixo.

— Deixa o cara — disse. — Nem todo mundo precisa gostar de livro velho e teoria literária.

— Ainda assim — Finn insistiu — Padrão demais para o Adam.

Tyler soltou uma risadinha curta, mas não disse nada. Apenas continuou olhando para Adam, como se desmontasse cada palavra, cada detalhe da mentira. Aquilo fez Adam se remexer na cadeira.

— E você nunca trouxe ele pra conhecer a gente — Tyler acrescentou, finalmente. — Estranho.

Adam deu de ombros, sentindo o aperto no peito.

— Não é nada demais — disse, rápido. — A gente não tá namorando nem nada.

O professor entrou na sala naquele momento, interrompendo qualquer coisa que pudesse vir depois. As conversas foram cessando aos poucos, mas Adam ainda sentia o peso do olhar de Tyler em si, como se algo tivesse sido colocado sobre a mesa, invisível para os outros, mas impossível de ignorar.

Ele baixou os olhos para o caderno, o coração acelerado, consciente de uma coisa incômoda: quanto mais insistia na mentira, mais frágil ela ficava. E Tyler parecia decidido a não deixá-la passar ilesa.


***


Alguns dias se passaram sem grandes acontecimentos, mas para Adam tudo parecia cada vez mais oco. Ele continuava se encontrando com o grupo, rindo nas horas certas, participando das conversas. Por fora, tudo parecia normal. Por dentro, havia um vazio constante, um cansaço emocional que não ia embora.

O celular vibrava no bolso com frequência. Vincent continuava mandando mensagens, algumas longas, outras curtas, algumas só perguntando se ele estava bem. Adam não respondia. Às vezes lia, às vezes deixava a notificação ali, intacta, como se ignorá-la fosse a única forma de manter algum controle. Ele se agarrava aos amigos como podia, como se a presença deles fosse uma âncora.

Naquele dia, estavam todos espalhados pelo pátio: Finn e Tyler reclamavam de uma leitura obrigatória, Isabelle comentava sobre uma aula chata, Min-su observava tudo em silêncio, mexendo no celular. Adam ouvia mais do que falava, o olhar perdido em algum ponto indefinido do campus.

Foi quando uma sombra diferente se projetou à frente deles.

— Adam.

A voz fez o estômago dele se contrair na mesma hora.

Laurent estava ali, de pé, com as mãos nos bolsos do casaco.

O clima mudou instantaneamente.

Finn foi o primeiro a reagir, endireitando a postura, o rosto fechando.

Isabelle franziu a testa. Min-su levantou o olhar do celular, atento. Até Tyler, que até então estava recostado, ficou mais ereto, os olhos cravados em Laurent.

— O que você tá fazendo aqui? — Finn perguntou, sem esconder o tom defensivo.

Laurent nem olhou para ele. Seus olhos estavam fixos em Adam.

— Você precisa falar com o Vincent.

Adam sentiu o coração bater mais rápido, um frio atravessando o peito. Forçou o rosto a permanecer neutro, mas sentiu que a tensão devia estar evidente demais.

— Ele não precisa falar com ninguém — Finn entrou no meio, levantando-se. — Ainda mais com o Vincent. Ele não tem nada pra resolver com ele.

Laurent suspirou, visivelmente impaciente, e finalmente lançou um olhar rápido para Finn.

— Não é com você que eu tô falando.

Finn se levantou e deu um passo à frente.

— Você não vai chegar aqui e—

— É sério, Adam — Laurent interrompeu, voltando a encará-lo. A voz agora estava mais baixa, mas carregada de urgência. — Ele tá mal. De verdade.

Dito isso, Laurent não esperou resposta alguma. Apenas se virou e foi embora, atravessando o pátio com passos firmes. Em poucos segundos, ele já estava longe o suficiente para não ouvir nada do que viesse depois.

Adam sentiu o peito apertar com força. Pensou nas mensagens ignoradas. No sebo. No dormitório. Naquela manhã que ainda doía lembrar, mesmo quando ele fingia que não. Tentou manter o rosto impassível, mas por dentro a ansiedade crescia, sufocante.

Ele engoliu em seco.

E então sentiu. Os olhares. Todos sobre ele.

— Adam… — Isabelle foi a primeira a quebrar o silêncio, a voz mais suave do que o normal. — O que tá acontecendo?

Antes que ele pudesse responder, Finn, que já estava em pé, claramente tenso, perguntou, olhando na direção por onde Laurent tinha ido:

— Que porra é essa? O que eles tanto querem de você? — voltou-se para Adam. — Você tá escondendo alguma coisa da gente? Ou… — a voz baixou um pouco — …tá sendo ameaçado?

Adam abriu a boca.

Fechou.

Passou a língua pelos lábios secos.

— Eu… não sei… — disse, por fim, não soando nada convincente, completamente desconfortável em ser o centro das atenções.

O pátio parecia ter ficado mais silencioso de repente. Isabelle franziu a testa. Min-su inclinou a cabeça, atento. Finn estreitou os olhos.

Tyler foi quem perdeu a paciência.

— Adam — disse, seco. — Chega. Eu cansei.

Ele cruzou os braços e continuou:

— É melhor você contar a verdade logo.

O coração de Adam começou a bater rápido demais.

— Que verdade? — Finn perguntou na hora, virando-se para Tyler, confuso.

Min-su e Isabelle ficaram em silêncio, mas agora os dois encaravam Adam diretamente, como se tentassem montar um quebra-cabeça que não fazia sentido até então.

Adam olhou para Tyler. O olhar dele era quase um pedido. Um apelo mudo.

“Por favor, não faz isso comigo”.

Tyler sustentou o olhar por alguns segundos, o rosto fechado, antes de dizer:

— É melhor você falar agora.

Adam sentiu a garganta fechar. Olhou para os amigos um por um. Para Finn, que parecia dividido entre preocupação e raiva. Para Isabelle, claramente confusa. Para Min-su, atento demais. Ele não queria ver decepção ali. Não queria que o enxergassem de outra forma. Não queria ser reduzido a uma versão feia de si mesmo.

— Eu… — começou, gaguejando.

O corpo de Adam começou a tremer antes mesmo que ele percebesse. Primeiro nas mãos, depois nos ombros, como se algo dentro dele estivesse perdendo a sustentação aos poucos.

— Adam — Finn disse, a voz mudando de tom na mesma hora. A raiva deu lugar a uma preocupação evidente. Ele deu um passo à frente. — Ei… o que é? O que tá acontecendo?

Adam respirou fundo, mas o ar parecia não chegar direito aos pulmões. Abriu a boca de novo. Nada saiu. Ele baixou o olhar para o chão, os dedos se fechando no tecido da própria manga como se precisasse se segurar em alguma coisa.

— Eu… — tentou outra vez.

Hesitou.

De novo.

O silêncio que se formou foi pesado, quase constrangedor. Isabelle mordeu o lábio, claramente inquieta. Min-su observava cada microgesto, como se entendesse que aquele não era apenas um momento difícil, mas um ponto de ruptura.

Foi então que Tyler começou:

— Adam.

O nome soou diferente. Mais firme. Mais sério.

O silêncio voltou a se espalhar, espesso, sufocante.

— Você vai falar — Tyler continuou, a voz baixa, controlada, mas carregada de algo perigoso — ou prefere que eu fale por você?

Adam sentiu o mundo girar por um segundo. O coração martelava no peito, alto demais, rápido demais. Ele levantou o olhar, encontrando o de Tyler, e balançou a cabeça com um “não” quase imperceptivelmente.

Finn olhou de um para o outro, confuso.

— Tyler, do que você tá falando? — perguntou, já impaciente. — Falar o quê?

O mundo pareceu inclinar um pouco para o lado.

Adam sentiu o estômago afundar, o corpo inteiro ficando pesado, como se estivesse prestes a perder o chão ali mesmo, no meio do pátio, sob os olhares de todos que ele mais temia decepcionar.

Ele fechou os olhos por um instante, como se precisasse reunir tudo o que ainda restava dentro dele. Quando falou, a voz saiu baixa, quebrada, e ele não teve coragem de levantar o olhar para nenhum deles.

— Eu… eu tava saindo com o… Vincent.

As palavras caíram no chão entre eles, frágeis, quase inaudíveis, mas pesadas o suficiente para silenciar tudo ao redor.

— O quê? — Isabelle deixou escapar, num sussurro incrédulo.

Min-su arregalou levemente os olhos, a surpresa estampada no rosto. Ele não disse nada, mas o choque era claro, como se aquela informação simplesmente não coubesse no espaço que eles ocupavam.

Finn franziu a testa.

— Você tava… — ele parou, como se precisasse confirmar para si mesmo. — Você tava saindo com o Vincent?

Adam assentiu, ainda encarando o chão. A garganta fechou de vez. O controle que ele vinha segurando com tanta força simplesmente cedeu.

— Sim — disse, a voz falhando.

As lágrimas vieram antes que ele pudesse impedir. Primeiro silenciosas, depois mais visíveis, escorrendo sem que ele tivesse energia para limpá-las. Ele levou a mão ao rosto, envergonhado, tentando se esconder atrás dos próprios dedos.

— Desculpa — murmurou, quase inaudível. — Eu não queria… eu não queria que fosse assim.

O corpo dele tremia agora sem controle, o choro contido de quem passou tempo demais segurando tudo sozinho. Adam se sentia pequeno, exposto e ele só conseguia pensar no quanto queria desaparecer.

— É sério isso? — Finn perguntou, a voz mais alta do que pretendia, carregada de incredulidade.

Adam não respondeu. Não conseguiu. O choro só aumentou, silencioso e descontrolado, o corpo curvando levemente para a frente como se ele estivesse tentando se proteger de algo invisível.

Tyler respirou fundo antes de falar, o maxilar travado.

— Eu descobri no dia da festa — disse, olhando para Finn, depois voltando o olhar para Adam. — Eu vi os dois se beijando. — Fez uma pausa curta, amarga. — E eu nem acreditei no que eu tava vendo.

Finn passou a mão pelo cabelo, olhando para Adam.

— Então você mentiu pra gente esse tempo todo? Pra mim? — perguntou, voltando-se para Adam. — Na nossa cara?

Adam continuava sem levantar o olhar. Apenas balançou a cabeça de leve, como se admitir qualquer coisa em voz alta fosse mais do que ele conseguia suportar naquele momento.

Isabelle engoliu em seco.

— Então… — começou, hesitante. — O Caleb… ele nunca existiu? Era… — ela parou, como se já soubesse a resposta. — …era o Vincent o tempo todo?

Adam assentiu lentamente, ainda chorando, os ombros tremendo.

O silêncio que se seguiu foi pesado, desconfortável. Ninguém parecia saber exatamente o que dizer ou por onde começar. Adam sentia o peso de todos aqueles olhares, não mais apenas de surpresa ou confusão, mas agora misturados com decepção e incredulidade.

E aquilo doía quase tanto quanto perder Vincent.

A vergonha veio forte, queimando. Adam sentia o rosto quente, o peito apertado, como se estivesse completamente exposto. Ainda assim, forçou-se a falar. Precisava dizer alguma coisa. Qualquer coisa.

— Eu… — começou, a voz fraca, falhando. Ele limpou o rosto com as mãos, sem muito sucesso. — Eu nunca quis que nada disso acontecesse. Eu juro. Eu não planejei… eu não queria machucar ninguém.

O choro voltou a embargar a voz.

— Me desculpem — disse, quase num sussurro. — De verdade. Eu… eu menti sim, mas não foi por mal. Eu não sabia o que fazer…

Finn foi o primeiro a se mover.

Ele se levantou de repente, a cadeira raspando no chão com um som seco demais para o silêncio que havia ali. O rosto estava fechado, duro, e ele evitou olhar para Adam.

— Eu preciso ir — disse, curto, já se virando.

Tyler levantou logo em seguida, o olhar passando rápido por Adam antes de seguir Finn.

— Finn, espera — chamou, dando alguns passos atrás dele.

— Finn, Tyler — Adam disse, levantando-se também num impulso. A voz saiu mais alta do que ele pretendia, carregada de desespero. — Esperem, por favor—

Antes que pudesse dar mais um passo, uma mão segurou seu braço com firmeza.

— Adam — Min-su falou baixo, mas com uma seriedade que o fez parar. — Agora não é uma boa hora.

Adam ficou ali, parado, o corpo ainda tremendo, enquanto via Finn se afastar e Tyler desaparecer atrás dele. Isabelle permanecia em silêncio, o rosto indecifrável, como se ainda estivesse tentando processar tudo.

Quando finalmente ficou claro que eles não iam voltar, Adam sentiu algo se partir de vez dentro dele. Ele afundou de novo no assento, a respiração irregular, com a sensação esmagadora de que tinha acabado de perder muito mais do que estava preparado para suportar.

Isabelle e Min-su permaneceram ali com ele, sem dizer nada por alguns segundos, respeitando o choro que vinha em ondas curtas e irregulares. Adam soluçava, o corpo curvado, os ombros tremendo como se não houvesse mais esforço algum para segurar o que sentia.

Isabelle foi a primeira a se aproximar um pouco mais. Não tocou nele de imediato, apenas se abaixou à sua frente, mantendo a voz baixa, cuidadosa.

— Adam… — chamou, com suavidade. — Você quer dar uma volta? Tomar um ar… eu posso ir com você, se quiser.

Adam balançou a cabeça devagar, ainda sem conseguir olhar para ela. Passou o dorso da mão pelo rosto, respirou fundo, um suspiro quebrado e respondeu:

— Não… — a voz saiu rouca. — Não, mas… obrigado.

Isabelle assentiu, sem insistir. Havia compreensão no olhar dela, não cobrança.

— Se mudar de ideia, tô aqui — disse apenas.

Min-su se aproximou também, colocando a mochila no ombro.

— Se cuida, tá? — falou baixo.

Adam assentiu de leve. Levantou-se com cuidado, como se o próprio corpo estivesse pesado demais para obedecer. Ajustou a alça da mochila, respirou fundo mais uma vez e começou a andar, afastando-se do pátio.

O caminho até o dormitório pareceu mais longo do que o normal. Ele caminhava sozinho, os pensamentos embaralhados, o peito ainda apertado, sentindo o peso de tudo o que tinha sido dito. Cada passo parecia ecoar a mesma sensação: a de que nada mais estava no lugar.