Tudo Começou em Letras
10 Capítulo 10 — Ainda Está de Pé?
A aula já estava em andamento quando Adam percebeu que não fazia ideia de há quanto tempo o professor falava. O som da voz vinha do fundo da sala, constante, como um ruído distante, mas seu foco estava alguns centímetros à direita, inclinado em direção ao pequeno círculo que se formava entre eles.
Finn falava com o cotovelo apoiado na mesa, o corpo levemente curvado para frente. Havia algo de distraído na maneira como ele girava a caneta entre os dedos, como se não quisesse dar peso demais às próprias palavras.
— Eu nem comecei a conversar com intenção de nada — dizia, em tom casual. — Tava entediado. Muito. Aí apareceu esse cara, puxou conversa… e eu acabei dando bola.
Adam ouviu atentamente, ainda que não estivesse olhando diretamente para Finn. Ele observava o movimento das mãos, os pequenos gestos que denunciavam quando o amigo estava mais envolvido do que queria admitir.
— E agora? — Tyler perguntou, já interessado, inclinado para trás na cadeira. — Vocês continuam conversando?
Finn deu de ombros.
— Um pouco. Nada demais. Mas… quem sabe a gente sai qualquer dia desses.
— Quem sabe? — Tyler repetiu, arqueando a sobrancelha. — Nada disso. Você vai sair. Nem que seja só pra ter um date ruim e reclamar com a gente depois.
Finn revirou os olhos, mas não retrucou.
Min-su assentiu lentamente, concordando.
— É bom se permitir — acrescentou. — Mesmo que não vire nada sério.
Adam piscou algumas vezes, trazendo a atenção de vez para a conversa. Havia algo curioso no modo como falavam de encontros, como se fosse um terreno simples, quase automático. Ele não se sentia deslocado exatamente, mas observava tudo com um distanciamento atento, como quem analisa uma cena sem fazer parte dela.
— E como ele é? — perguntou, surpreendendo até a si mesmo.
Finn ergueu o olhar na hora, um sorriso discreto surgindo no canto da boca.
— Quer ver?
Sem esperar resposta, pegou o celular e virou a tela para o centro do grupo. Adam se inclinou um pouco para frente junto com os outros. A foto mostrava um rapaz de traços marcantes, sorriso fácil, o tipo de rosto que parecia confortável em qualquer ângulo. Havia algo despreocupado na imagem, como se a câmera tivesse capturado um momento sem esforço.
— Ele é bonito — Isabelle comentou, sem cerimônia. — Bem bonito.
Tyler concordou com um som breve, aprovando.
Adam ficou em silêncio por alguns segundos. Reconhecia a beleza com clareza.
— Sim. Você devia sair com ele. — disse por fim.
Finn assentiu, guardando o celular.
— É. A conversa flui. Isso já é bom sinal.
— Já é tudo — Tyler respondeu. — O resto se resolve depois.
Foi então que Tyler virou o jogo, como sempre fazia.
— E vocês? — perguntou, passando o olhar por Isabelle, Min-su e, por último, Adam. — Alguém aí saindo com alguém? Conversando? Flertando escondido?
Isabelle riu e negou com a cabeça.
— Não. Tô sobrevivendo, só isso.
— Também não — Min-su respondeu, simples.
Quando o olhar de Tyler caiu sobre Adam, ele sentiu o corpo reagir antes da mente. Um calor rápido subiu pelo rosto, como se alguém tivesse acendido uma luz interna sem aviso. Adam desviou os olhos quase imediatamente, fixando-os no caderno à sua frente.
— Eu também não — Por fim, respondeu.
— Adam… — Tyler provocou, com um meio sorriso. — Você ficou vermelho.
— Não fiquei — Adam respondeu rápido demais.
O silêncio que se seguiu foi curto, mas pesado o suficiente para que ele se sentisse exposto. O coração batia um pouco mais forte do que deveria para uma pergunta tão simples.
Tyler o observou por mais um segundo, depois deu uma risada curta, descartando a ideia com um gesto da mão.
— Ah, esquece. É o Adam. — Ele se virou de volta para Finn. — Se tivesse alguma coisa, a gente saberia. Ele não é de sair, nem de ficar de conversinha com ninguém.
Os outros assentiram naturalmente, como se aquilo fosse um fato estabelecido, uma verdade incontestável.
Adam forçou um meio sorriso, aliviado demais para questionar. O rubor começou a ceder. Ele voltou a olhar para o quadro, tentando se reconectar com a aula. As palavras do professor ainda estavam lá, organizadas, previsíveis. Mas, por algum motivo, não entravam mais em sua cabeça com tanta facilidade.
***
Adam tentou se concentrar novamente. Copiou algumas palavras do quadro, mesmo sem ter certeza de onde começavam ou terminavam as frases. A caneta deslizou pelo papel quase no automático, acompanhando um movimento que o corpo conhecia bem, ainda que a mente estivesse em outro lugar.
Foi então que o celular vibrou.
Não foi alto. Não chamou atenção de ninguém além dele. Ainda assim, Adam sentiu o impacto como se o som tivesse atravessado a sala inteira. Ele hesitou antes de pegar o aparelho, como se já soubesse que aquilo não seria irrelevante.
Uma notificação do Instagram.
Ele franziu levemente a testa. Não costumava receber notificações ali. Na maior parte do tempo, o aplicativo servia apenas como um espaço silencioso onde ele observava imagens sem interagir de verdade. Não postava quase nada. Raramente respondia mensagens. Às vezes esquecia que tinha uma conta.
Abriu a notificação.
Uma solicitação de mensagem.
O nome apareceu primeiro, antes mesmo do texto.
Vincent Rivière.
O peito de Adam se contraiu num reflexo imediato, quase físico. O ambiente ao redor pareceu se afastar por um segundo, como se o som da sala tivesse sido abafado.
Ele abriu a conversa.
Vincent: Oi Adam.
Vincent: Me encontra hoje à noite, às 20h.
Vincent: Oriel Street, nº 17. Fica perto da Trinity.
Ele mandou aquilo como se fosse algo pequeno, casual, algo que não exigisse muita explicação.
Adam bloqueou a tela quase imediatamente, como se o simples ato de ler já tivesse ido longe o bastante.
Não respondeu.
Colocou o celular de volta sobre a mesa, alinhando-o cuidadosamente ao lado do caderno, tentando restabelecer uma ordem externa que não combinava com o que se agitava por dentro. O coração batia um pouco mais rápido agora, e ele respirou fundo, devagar, como se estivesse se lembrando de como fazer isso.
Hoje à noite.
A frase ecoava, insistente.
Ele olhou de relance para Finn, que agora discutia algo em voz baixa com Tyler, completamente alheio. Tudo parecia normal demais ao redor. A aula seguia. O dia seguia. Ninguém sabia.
Adam voltou a encarar o quadro, mas as letras se embaralhavam. A imagem do nome na tela insistia em reaparecer na sua mente, junto com a lembrança da música e da proximidade desconfortável.
***
O quarto estava iluminado apenas pelo abajur perto da cama de Finn, lançando uma luz amarelada sobre as paredes cobertas de pôsteres tortos e anotações antigas. Adam estava sentado no chão, encostado na lateral da cama, enquanto Finn caminhava de um lado para o outro, o celular na mão, falando sem parar.
— E o nome dele é Gael — dizia, animado. — Espanhol. De Valência, eu acho. O sotaque é… — Finn fez um gesto vago com a mão, sorrindo. — Enfim. Diferente.
Adam sorriu de leve, acompanhando o ritmo da conversa.
— Espanhol — repetiu. — Isso explica a foto.
— Total — Finn concordou. — Ele manda áudios longos, acredita? Fica contando coisa do dia dele, como se a gente já se conhecesse há meses.
Adam fez um som de aprovação, tentando parecer mais interessado do que realmente estava, mas não era difícil. Ver Finn falando assim, solto, quase leve, era reconfortante.
— E vocês vão sair quando? — perguntou.
Finn deu de ombros, parando finalmente em frente à cama.
— Quem sabe esse final de semana? — respondeu, como se dissesse aquilo mais para si mesmo do que para Adam. — Sem grandes expectativas.
Adam assentiu.
— Parece um bom plano.
O relógio digital sobre a escrivaninha marcou 18:57.
Adam desviou o olhar rápido demais.
Ele se levantou, fingindo precisar esticar as pernas, e caminhou até a janela. Lá fora, o céu já começava a escurecer, tingido de um azul profundo que anunciava a noite. Ele apoiou as mãos no parapeito, respirando fundo.
“Não pensa nisso.”
Finn se jogou na cama e começou a mexer no controle remoto.
— Vou colocar um filme — anunciou. — Alguma coisa bem idiota. Só pra gente desligar o cérebro.
— Uhum — Adam respondeu, voltando a se sentar, agora na cadeira próxima à escrivaninha.
A tela da TV se iluminou, o som característico da Netflix preenchendo o quarto. Finn navegava pelo catálogo, comentando títulos em voz alta, rindo sozinho de sinopses exageradas.
Adam tentava acompanhar, mas seu corpo parecia ligeiramente fora de sintonia com o ambiente. O joelho balançava sem que ele percebesse. Os dedos se entrelaçavam e se soltavam no colo, num movimento repetitivo.
19:04.
Ele não olhou para o relógio dessa vez, mas sentiu a passagem do tempo como uma pressão constante. A mensagem de Vincent insistia em aparecer na sua mente. Não as palavras em si, mas o tom implícito, a certeza silenciosa de que o convite ainda estava de pé, mesmo sem resposta.
Finn finalmente escolheu um filme e apertou o play.
— Esse — disse, satisfeito. — Dizem que é tão ruim que acaba ficando bom.
Adam sorriu e assentiu, inclinando-se um pouco para frente, como se isso fosse ajudá-lo a se fixar ali. Finn se acomodou na cama, puxando o cobertor até a cintura.
Por alguns minutos, Adam conseguiu se concentrar nas imagens na tela, nos diálogos simples, na trilha sonora previsível. Ele riu quando Finn riu, comentou uma cena aqui e ali.
Mas o desconforto não ia embora.
***
O filme avançava na tela, mas Adam já não saberia dizer em que ponto da história estavam. As cenas passavam como imagens soltas, desconectadas, e o som parecia baixo demais, distante. Finn estava confortável, recostado na cama, comentando algo ocasionalmente, rindo de falas previsíveis.
Adam assentia, murmurava respostas automáticas.
O relógio marcava 19:32.
Depois 19:36.
Ele tentou ignorar. Cruzou os braços. Depois descruzou. Mudou de posição na cadeira, apoiou o cotovelo no joelho, a mão no queixo. O peito parecia apertado, como se o ar estivesse mais denso dentro do quarto.
“Não vou.”
A frase surgiu clara, quase tranquilizadora.
“Não preciso.”
Mas às 19:40, ela já não tinha mais força.
Adam pegou o celular do bolso com cuidado, como se o gesto pudesse ser percebido mesmo na penumbra do quarto. Finn estava concentrado demais no filme para notar. A luz da tela iluminou o rosto de Adam por um instante breve demais para ser confortável.
Ele abriu a conversa.
A última mensagem ainda estava lá. Imutável.
Adam ficou alguns segundos com os dedos suspensos sobre o teclado. Então digitou, apagou. Digitou de novo. Respirou fundo.
Por fim, enviou:
Adam: Oi
Adam: O convite ainda está de pé?
A mensagem saiu simples, quase vazia, e mesmo assim pareceu ocupar o quarto inteiro.
Adam bloqueou a tela logo em seguida. Tentou voltar a atenção para o filme, forçando o olhar a se fixar na TV.
Um minuto passou.
Depois dois.
O silêncio do celular pesava mais do que se ele estivesse vibrando sem parar. Adam sentia cada segundo escorrer lento.
Às 19:45, o aparelho finalmente vibrou.
Ele desbloqueou a tela.
Vincent: Sim
Vincent: Às 20h estarei lá
Não havia mais nada. Nenhuma explicação.
Adam leu a mensagem uma vez. Depois outra.
O coração bateu mais forte, irregular. Ele engoliu em seco e desligou a tela, apoiando o celular sobre a perna.
— Tá tudo bem? — Finn perguntou de repente, sem tirar os olhos da TV.
Adam demorou um segundo a mais do que o normal para responder.
— Tá — disse. — Tudo bem.
Finn assentiu, satisfeito com a resposta vaga, e voltou a rir de uma cena qualquer.
Adam ficou ali, imóvel, enquanto o relógio continuava avançando.
Faltavam quinze minutos.
Adam passou a mão pela nuca antes de falar, como se estivesse organizando um pensamento que tinha acabado de surgir.
— Eu lembrei agora… — disse, olhando para o chão por um instante. — Hoje é o último dia pra devolver um livro que eu peguei emprestado.
Finn apertou o botão do controle, diminuindo o volume da TV.
— Que livro?
— Madame Bovary — Adam respondeu, automático.
— Adam, entrega amanhã. — Ele deu um meio sorriso. — A bibliotecária vai entender. Não é como se você fosse desses que atrasam sempre.
Adam sentiu o estômago se contrair. Aquilo tocava exatamente no ponto sensível. Ele balançou a cabeça devagar.
— Não funciona assim — respondeu. — Se passar do prazo, eles registram atraso. Pode dar problema depois. Penalização, advertência… essas coisas.
— Mas você nunca atrasou — Finn insistiu. — Uma vez não vai mudar nada.
Adam levantou os olhos, finalmente encarando o amigo. Havia algo quase defensivo em sua expressão, não por desconfiança, mas por convicção.
— Justamente — disse. — Eu nunca fiz isso. E não vou começar agora.
O silêncio se estendeu por alguns segundos. O som distante do filme parecia fora de lugar naquele momento.
Finn suspirou, passando a mão pelos cabelos.
— Tá — cedeu. — Se isso te deixa mais tranquilo, vai lá.
Adam assentiu rápido, aliviado demais para disfarçar.
— Eu volto depois — acrescentou.
Ele se levantou devagar, pegou o casaco dobrado sobre a cadeira e, em seguida, alcançou a mochila encostada na parede. Abriu o zíper com cuidado e puxou o livro de dentro.
Madame Bovary.
O volume estava intacto, as páginas ainda com aquele cheiro leve de papel antigo e pó de estante. Ele passou o polegar pela lombada por um instante, antes de guardá-lo de volta na mochila, agora como uma prova concreta da desculpa que tinha acabado de inventar.
Colocou o casaco, ajeitando-o sobre os ombros, e puxou a alça da mochila com um movimento automático.
— Te vejo daqui a pouco — Adam disse, já perto da porta.
Finn levantou o olhar da TV e balançou a cabeça, um meio sorriso divertido surgindo no rosto.
— Você é muito esquisito — comentou. — Sair à noite pra devolver livro… só você mesmo.
Adam riu baixo, sem graça, mais pelo hábito do que por achar graça de verdade.
— Eu sei.
Ele abriu a porta e saiu para o corredor, puxando-a com cuidado para não fazer barulho. Finn ainda acenou de longe, já voltando a atenção para o filme, como se aquilo fosse apenas mais uma das pequenas excentricidades do amigo.
A porta se fechou atrás de Adam com um clique suave.
O som pareceu alto demais no silêncio do corredor.
Adam respirou fundo, ajustando a mochila no ombro, e começou a caminhar. Ele não olhou para trás.
Fale com o autor