Notas iniciais
Espero que gostem da FIC, desde já, obrigada por lerem.

Estava eufórica, ela ou o Cavaleiro Sorridente, haviam vencido todas as justas do dia anterior. E na mesma noite o príncipe Rhaegar havia tocado uma linda música enquanto olhava em sua direção, quando todos os nobres jantavam no Grande Salão de Harrenhal. Agora estava observando o Bosque Sagrado de Harrenhal, não era tão grandioso como o Winterfell mas os Deuses Antigos estavam lá, os deuses do Norte.

A noite estava fria para ser uma noite de primavera, não havia vento e a copa das árvores não se movimentavam. Uma noite quieta, se levasse em consideração somente o Bosque Sagrado, pois dentro do castelo e em seus pátios o barulho era ensurdecedor. Ali, naquele lugar sagrado perante as florestas das Terras Fluviais não se ouvia nada, absolutamente nada.

Contemplou o lugar enquanto um turbilhão de pensamentos lhe rondava a mente. Estava prometida a um homem que não se contentava com uma única cama, dissera ao seu amado irmão silencioso. Ned compreendia isso, Brandon não, ele era um amamente vívido demais para entender. Sua paz foi interrompida por uma melodia, uma melodia envolvente e lenta, e em seguida uma harmoniosa voz começou a cantar.

"Quando te der saudade de mim
Quando tua garganta apertar
Basta dar um suspiro
Que eu vou ligeiro
Te consolar"

Os ruídos do castelo já estão chegando até o Bosque Sagrado, segundos atrás tudo estava em silêncio, pensou consigo mesma. Entretanto, o som estava tão próximo e nítido que fazia parecer que ela estava dentro de Harrenhal.

"Se o teu vigia se alvoroçar
E estrada afora te conduzir
Basta soprar meu nome
Com teu perfume
Pra me atrair"

Ao ouvir a segunda estrofe ser cantada, percebeu que o cantor estava ali. Mas onde? Passou os olhos pelas árvores, a lua estava minguante, tão fina, quase inexistente, sua luz pouco iluminava.

"Se as tuas noites não têm mais fim
Se um desalmado te faz chorar
Deixa cair um lenço
Que eu te alcanço
Em qualquer lugar"

A melodia continuou a ser entoada, era linda e romântica, uma declaração. Uma declaração para ela? Só havia ela e o cantor, sentia um olhar penetrante sobre si, só podia ser o dono daquela voz. Tentou ao máximo enxergá-lo, não conseguiu.

"Quando teu coração suplicar
Ou quando teu capricho exigir
Largo mulher e filhos
E de joelhos
Vou te seguir"

Era a canção mais bonita que já ouvira, talvez pensasse assim porque estava sendo cantada para ela. Os versos falavam de amor, um romance digno de entrar para a História, mas o cantor recitava os versos apaixonados com profunda melancolia. Quando recitou o terceiro verso da quarta estrofe soou não apenas melancólico como também, culpado.

"Na nossa casa
Serás rainha
Serás cruel, talvez
Vais fazer manha
Me aperrear
E eu, sempre mais feliz"

O local de onde a voz se propagava movimentou-se, o cantor agora andava em círculos, percebeu seguindo o som. Quis ir até ele, mas só sabia a direção, os passos do homem não produziam ruído algum. Questionava-se se estava imaginando tudo aquilo.

"Silentemente
Vou te deitar
Na cama que arrumei
Pisando em plumas
Toda manhã
Eu te despertarei"

A voz do homem era constante não oscilava seu tom, difícil de seguir, constatou. Já havia caçado e era uma loba, sabia perseguir alvos em uma floresta, mas a densa mata fazia as notas da harpa se concentrarem, tornava-se impossível localizá-lo pelo som. Não posso persegui-lo às cegas se não ele fugirá, quero saber o que faz aqui, ponderou.

"Quando te der saudade de mim
Quando tua garganta apertar
Basta dar um suspiro
Que eu vou ligeiro
Te consolar"

Percebeu que o harpista não estava, realmente, dentro do Bosque Sagrado. Este tinha uma grande árvore coração rodeada de algumas outras árvores secas devido ao inverno, mas para chegar ao Bosque Sagrado era necessário adentrar ao o que um dia fora um jardim, hoje era um bosque denso e escuro, quase uma pequena floresta.

"Se o teu vigia se alvoroçar
E estrada afora te conduzir
Basta soprar meu nome
Com teu perfume
Pra me atrair"

A música a encantava, e a sensação de curiosidade a excitava. Queria saber quem era, por que estava cantando aquela canção. Nunca a tinha escutado, perguntava-se se o cantor havia composto essa canção unicamente pra ela.

"Entre suspiros
Pode outro nome
Dos lábios te escapar
Terei ciúme
Até de mim
No espelho a te abraçar"

Esse verso a intrigou, o músico sabia que ela estava prometida a Robert Baratheon? Claro que sabia, todos em Harrenhal sabiam, o senhor da Tempestade era falante e fez questão de gritar a todos sobre seu noivado com a loba de Winterfell.

"Mas teu amante
Sempre serei
Mais do que hoje sou
Ou estas rimas
Não escrevi
Nem ninguém nunca amou"

Ele estava atrás dela, ou pelo menos nessa direção, virou-se como que para encará-lo, mas nada viu além de árvores. Era estranho ser a caça. Ela era uma loba gigante e lobos gigantes não são caça, são caçadores.

"Se as tuas noites não têm mais fim
Se um desalmado te faz chorar
Deixa cair um lenço
Que eu te alcanço
Em qualquer lugar"

Voltou a movimentar-se, ele a rodeava enquanto tocava e cantava. Era um bom artista, não se podia negar. Qual o motivo disso tudo? Queria saber, queria saber quem era o homem que cantava e o que o impedia de se revelar. Talvez tema Robert, seria uma ofensa ao senhor seu noivo e ele não deixaria barato. Se fosse um nobre iria se retratar, ou duelar, se fosse um plebeu morreria. É um plebeu, constatou, mas um plebeu de coragem, sem dúvida.

"E quando o nosso tempo passar Quando eu não estiver mais aqui Lembra-te, minha nega
Desta cantiga
Que fiz pra ti"

Uma canção bela, romântica, apaixonada e inteligente. Seu último verso era um adeus, é esperto. O torneio nem acabara e ela já estava sentindo falta do lugar, nunca esqueceria desse castelo e nem desta canção.

Um movimento chamou sua atenção, da direção sudeste do antigo jardim uma figura surgiu. Mas não era seu cantor, tinha certeza. Aquilo era uma anã, uma velha anã, que mais parecia ter saído das estórias de terror da sua Velha Ama.

—É uma bela canção trovador. –A velha estava a cinquenta metros de si, e pela primeira vez ouviu um meio passo do homem escondido. –Mas a canção que os esperam, não é. Mesmo as bestas mais ferozes podem ser derrotadas por aqueles que pastam nos gramados, ou vítimas de uma terrível tempestade. –A velha sorriu terrivelmente para as árvores ao leste. –Esse inverno que mais parece uma primavera não é nada, o próximo inverno será o fim...

—O inverno acabou, estamos na primavera. –Rebateu, aquela mulher lhe causava arrepios.

—Você é uma loba do Norte, sabe que o que falo é verdade. O próximo inverno poderá ser o fim, por isso Azor Ahai renascerá. –A velha parecia temer as próprias palavras. –Azor Ahai nascerá, mas antes o reino sangrará. Vocês trarão a guerra, sangue plebeu e real será derramado. Fogo incendiará os Sete Reinos, mas as águas do Tridente o apagará.

—Azor Ahai virá, você diz. Nascerá de quem? –A voz do cantor soou trêmula por detrás das árvores.

—Você sabe a resposta, Azor Ahai será seu parente. Nascerá em meio a tragédia, viverá uma vida de subjugação. Seu valor não será reconhecido e tudo o que conquistar será por seus próprios atos. –A velha parecia saber onde o homem estava. –Nissa-Nissa morrerá não com a espada de Azor Ahai, mas quando este derramar sua primeira lágrima.

—A lenda não é assim. –O trovador se revelou, era Rhaegar Targaryen. –Azor Ahai precisa matar sua amada para criar Lumífera, a espada mágica que derrotará o Grande Outro.

—Azor Ahai só surgirá quando Nissa-Nissa morrer por meio dele, e assim será. –A velha parecia divertir-se de uma maneira mórbida. –O amor de vocês é um presente dos Deuses Antigos, o amor de vocês florescerá e todo o reino sucumbirá. –A velha o olhou.

—E lembre-se, o dragão tem três cabeças, você e sua mãe não as verão mas elas estarão lá. –A velha sumiu entre as árvores.

—Desculpe, não quis lhe assustar... –Os olhos púrpuros a encararam.

–Lobos não se assustam. –O encarou de volta. –Sou Lyanna Stark.

–Eu sei. –Os olhos dele brilharam.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!