Tsurai - continuação de Ano Baka
5 Flores no dia seguinte
Notas iniciais
O sol entrava pelas frestas das madeiras quebradas da choupana em dourados raios. O calor não era suficiente para aquecê-la, mas a luminosidade causava algum incômodo nos olhos ainda inchados pelo choro da noite anterior.
Nua, Hinata estava deitada sobre o kimono de Sasuke. Ao seu lado, o rapaz ressonava, a respiração quente e compassada dele na sua nuca era o suficiente para causar arrepios por todo o seu corpo. Os braços fortes do ninja rodeavam-na pela cintura e ombros, Hinata tentou sair daquele abraço, mas descobriu que a pressão que ele exercia era muito maior do que ela pensava, era como se ele temesse que ela fugisse no meio da noite, por isso a abraçou com tanta força. Com dificuldade, virou-se ficando de frente para ele. O rosto belo e bem desenhado de Sasuke parecia tranquilo e relaxado depois da intensa noite que tiveram. Ela sorriu ao vê-lo dormir, como ele era doce e aparentemente inofensivo enquanto descansava. Sasuke ressonava enquanto Hinata gravava todos os detalhes do rosto dele, daquela expressão tranquila que há muito tempo ela não via. Sem se conter, beijou-o de leve sobre a face, repetiu o gesto algumas vezes, alternando os locais onde pousava os lábios, em pouco tempo já havia beijado todo o rosto do ex-marido, o que fez o rapaz despestar.
Sasuke abriu os olhos com dificuldade. Um raio de sol estava bem na direção dos olhos dele, impedindo que ele abrisse de uma vez, mudando de posição para fugir daquele incômodo, ele deparou-se com uma cascata negra de fios macios e bagunçados, um rosto delicado e aqueles olhos únicos fitando-o com devoção. A primeira sensação que teve foi de intensa felicidade e plenitude. Quis beijar a ex-esposa e aninhá-la em seus braços, depois uma segunda, terceira e quarta rodada do maravilhoso sexo que fizeram na noite passada estavam nos seus planos. Mas aos poucos o negrume dos sentimentos que alimentara durante os últimos meses surgiram e preencheram seu ser, como se a barragem de uma represa tivesse rompido liberando com violência águas que ficaram por muito tempo presas.
Desvencilhou-se do abraço suave que Hinata mantinha e sentou-se sobre o kimono, agora imundo. Coçou os olhos e olhou ao redor. O lugar era um caco e ele mesmo sentia-se como um. Um caco de um belo vaso de cristal que fora quebrado e que nunca mais seria o mesmo. Hinata sentou-se também e o abraçou, apoiando a cabeça nas suas costas largas.
― Sasuke, sobre ontem eu...
Hinata continuaria falando que foi um sonho maravilhoso e na sequencia declararia o seu amor por ele, mas Sasuke a cortou com um suspiro mal humorado e levantou-se para procurar a sua calça. Hinata ficou sentada no chão sem entender a reação dele, enquanto instintivamente cobria os seios desnudos com a peça de cima que usara na noite anterior.
Sasuke vestiu a calça que encontrou jogada no canto oposto do casebre. Voltou-se para Hinata e sem pedir licença, puxou o kimono debaixo dela, fazendo-a quase cair para trás com o solavanco.
― Sasuke! – ela protestou.
― O quê? – ele perguntou com um tom de voz irritado.
― Como assim o quê?
― Hinata, seja clara comigo.
― Sasuke... eu... bem... é que... – Hinata se atrapalhava com as palavras, sintomas de que estava desconcertada. – Na verdade, sobre ontem eu gostaria de...
Sasuke permaneceu olhando diretamente nos olhos dela, nenhuma expressão no rosto. Isso deixou Hinata mais insegura ainda. Onde estavam as juras de amor, os planos para o futuro, o tratamento doce e gentil que esperava receber?
― Eu só queria dizer que eu – ela continou incerta – eu realmente amo você.
Sasuke ouviu a declaração de amor de Hinata sem esboçar nenhuma reação. Ficou observando-a como se olhasse um objeto imóvel em uma casa. Então um sorriso começou a se formar no seu rosto, isso deu alguma esperança para Hinata, mas aos poucos o sorriso tornou-se uma gargalhada. Sasuke gargalhou com força enquanto curvava o corpo sobre si. Hinata o olhava com espanto, ela não via motivo algum para ele rir tanto assim. Aos poucos ele se recompôs, terminou de amarrar a faixa no quimono, enquanto Hinata permanecia nua no chão.
― Sasuke!
― O quê, caralho?
― Me diz algo!
― Dizer o quê?
― Sasuke... eu não entendo...
― Você não entende, Hinata? Então eu vou te explicar – ele disse se aproximando dela, nenhum sinal de riso no rosto contorcido pela raiva.
Sasuke a pegou pelos cabelos e puxou com força. Hinata soltou um grito curto e sentiu os olhos começando a encherem-se de lágrimas.
― Por que está fazendo isso? Me solta!
― Eu estou fazendo isso que é pra você saber que eu NÃO VOU me comover com nenhuma MENTIRA INÚTIL que você me contar, entendeu?
― Que mentira? Do que está falando?
― Pensa que vou acreditar nisso que me disse? Que você me ama? Você não passa de uma mulher vulgar que abre as pernas pra qualquer um pra conseguir o que deseja.
― Sasuke...
― É isso mesmo – ele deu um apertão mais forte antes de soltá-la com força para ela cair no chão.
Hinata começou a chorar, nunca imaginou que Sasuke pudesse falar e agir assim com ela, principalmente depois de amá-la tão intensamente como na noite anterior.
― Sasuke, mas ontem... eu pensei que...
― O que você pensou? Que eu de repente voltei a amar você?
― Mas... foi tudo tão... você fez amor comigo de um jeito tão...
― Eu só fodi você Hinata, não confunda isso com amor.
O lábio inferior dela começou a tremer. Aquele homem dizendo aquelas palavras rudes não poderia ser o mesmo que a tocara tão apaixonadamente, que a beijara tão passionalmente.
― Sasuke, eu realmente amo você, eu não estou enganada quanto aos meus sentimentos.
― Que bom pra você Hinata, mas saiba que só você sente isso. Eu não te amo mais, há muito tempo os meus sentimentos mudaram. Agora eu só te desprezo.
Hinata fechou os olhos e sentiu as lágrimas queimarem a sua face, enquanto desciam rapidamente.
― Então por que veio aqui? Por que veio atrás de mim?
― Por que você eu posso foder de graça – ele disse com um sorriso malvado. – e não me olhe assim, eu estava numa boa lá na casa de massagem, você que foi atrás de mim. Eu só cedi porque estava bêbado. Você mesma pediu por isso.
Hinata abraçou-se e começou a chorar, enquanto se encolhia mais. Sasuke não sentiu pena, pelo contrário. Ele poderia espancá-la e depois perfurá-la com a Kusanagi, mas achou melhor conter seus instintos assassinos. Estava com raiva e precisava de uma bebida para se acalmar. Continuar ali maltratando Hinata não o levaria a lugar algum, pelo contrário, se continuasse mais um pouco perto dela acabaria se comovendo e em pouco tempo voltaria a ser o seu capacho. Para se proteger dos seus próprios sentimentos, ele saiu sem dizer mais palavras, sem olhar para a jovem que derramava-se em lágrimas.
****
Hinata chorou por muito tempo antes de cair novamente em um sono profundo. Dessa vez não teve nenhum pesadelo. Parecia que ela havia mergulhado no nada. A dor pela rejeição de Sasuke era tão intensa que ela sentia uma sincera vontade de morrer. Quantos dias seriam necessários para a vida fugir-lhe se permanecesse imóvel como estava? Provavelmente não seria uma morte dolorosa, mas se doesse, com certeza doeria muito menos do que aquilo que sentia naquele momento. O sol já havia se posto novamente quando ela acordou pela segunda vez naquele dia. Mais um dia perdido. Ouviu passos do lado de fora e instintivamente ficou alerta, o treinamento ninja não falhava nem quando as esperanças já haviam ido embora. Pode distinguir algumas vozes masculinas, eles falavam as bobagens típicas que os homens costumam falar, sobre como as mulheres eram fáceis e o que cada um gostaria de fazer com elas. Sentiu enojada de si mesma por ouvir aquilo, pois no fundo eles tinham razão. Sem pensar duas vezes ela se entregou para o Sasuke, deu seu corpo e seu coração a ele para ser rejeitada como um lixo. Naquele momento, a raiva foi boa porque a fez reagir, vestiu-se silenciosa e rapidamente, e saiu pelos fundos no quase exato instante em que aqueles homens entraram arrombando a porta.
Caminhou pela mata e acabou chegando novamente na região habitada de Kumo. Sua aparência deveria estar lastimável, pois as pessoas desviavam o caminho ao passar por ela. Hinata que sempre atraiu olhares de admiração e desejo, estava sendo repelida como uma cadela até por pessoas estranhas. Andou meio sem rumo, mas acabou chegando na hospedagem, a dona do estabelecimento olhou-a espantada. Pensou que a jovem tivesse sido estuprada ou apanhado, então ofereceu ajuda, remédios, cuidados. Hinata agradeceu pela mulher se importar com ela. Tomou um longo banho, o corpo estava dolorido por ter dormido no chão duro, estava fraca pois não havia comido nada durante o dia todo. Precisava se recompor e pensar no que fazer. Mas não tinha ideia sobre o que faria ou onde iria. Se ao menos tivesse sido um pouco mais prudente e não confiado em Sasuke, agora pelo menos estaria equilibrada emocionalmente, mas equilíbrio era algo que ela naquele momento, desconhecia o significado. Hinata só conseguia chorar.
Chorar até quase se secar fez com que o sofrimento clareasse suas ideias. Então Hinata decidiu que voltaria para Konoha. Kumo era o único lugar possível onde Hitachi poderia estar, mas ela não foi capaz de encontrá-lo. Então resolveu que voltaria para sua casa, se prepararia e sairia novamente em busca de Hitachi, nem que pra isso tivesse que renegar o seu clã ou a vila, nem que levasse a vida toda, ela encontraria o seu filho. E o Sasuke seria a partir daquele momento, sumariamente esquecido, ela resolveu que nunca mais deixaria que ele a magoasse, guardaria o sentimento dentro de si e assim viveria para sempre. Somente um homem receberia o seu amor, e esse homem seria Hitachi.
Saiu em busca de um restaurante para uma alimentação completa. Iria partir naquela madrugada mesmo, não perderia mais tempo. No caminho, avistou Sasuke. “Então ele ainda está em Kumo” ela pensou. O caminho que fazia exigiu que Hinata passasse por ele. Sasuke estava em um bar típico, onde moças serviam bebidas e faziam companhia para os clientes. Devido ao calor a maioria estava do lado de fora do estabelecimento. Sasuke rodeado de meninas, bebia saquê e se esbaldava, parecia que havia se esquecido completamente do que o trouxera a Kumo. No exato momento em que Hinata passou por ele, ele pegou uma das meninas e fez com que ela sentasse no seu colo, em seguida beijou seu pescoço. Hinata achou que fosse desmaiar, mas ela manteve a compostura, olhou bem nos olhos dele e passou sem nada dizer. Sasuke somente observou a ex, havia algo nos olhos dela que ele não havia visto antes, mas bêbado como estava, resolveu ignorar.
Hinata jantou sozinha em silêncio, pegou os mapas e estendeu sobre a mesa. Calculou que a vigam de volta levaria alguns meses se fizesse o mesmo percurso da vinda, mas somente algumas semanas se cortasse caminho pela região montanhosa. Era muito mais perigoso e exaustivo, mas ela não tinha tempo a perder, além disso confiava nas suas habilidades ninjas o suficiente para se livrar sozinha de qualquer problema que surgisse. Convicta de que era o melhor a fazer, Hinata guardou suas coisas na pequena bolsa que carregava as armas ninjas. Estava para se levantar, quando foi abordada pela última pessoa que imaginou aparecer naquele local.
― Neji nii-san!
Neji tinha o rosto inexpressivo de sempre, a postura ereta e o olhar calmo. Há muito tempo Hinata não via o seu primo, então um misto de alegria e ansiedade tomou conta dela.
― Hinata-san – ele a cumprimentou com uma reverência.
― Você está em missão aqui em Kumo? – ela perguntou ansiosa.
― Sim.
O assunto poderia terminar por ali mesmo, já que Neji sempre foi calado e Hinata tímida e e insegura demais para conversar com ele. O relacionamento deles melhorou um pouco depois da guerra, mas ainda assim, Hinata sentia-se muito inferior ao seu primo. Porém Neji tinha assuntos a tratar com Hinata, assuntos esses que o levaram a Kumo.
― Estou aqui a mando de Hiashi-sama – ele continuou.
― Otou-sama? Por quê? – Hinata perguntou assustada.
Desde que Hitachi foi declarado morto, o pai rompeu relações de vez com ela e todo o mínimo apoio que ela recebeu quando se casou com Sasuke foi novamente revogado. Nem a mãe e nem a irmã tinham permissão para vê-la ou ajudá-la em qualquer assunto, assim como os membros da família primária e da família secundária também. O fato de Sakura ter confessado que não matou o menino e sim que o deu para um casal de comerciantes, não aliviou nenhum pouco a ira de Hiashi, pelo contrário, ele repudiava a filha por ter sido imprudente e deixado que seu neto caísse nas mãos de qualquer um. Hinata que até então achava que o primo estava ali em alguma missão do seu time ou mesmo uma missão solo, espantou-se ao saber que ela era a missão de Neji.
― Hinata, tenho ordens expressas do seu pai para escoltá-la de volta para Konoha imediatamente.
― Mas por quê? O que aconteceu?
Neji suspirou profundamente antes de prosseguir. Embora ele quisesse, não era assim que ele imaginou que seria. Um leve rubor cobriu as faces do jovem antes de ele declarar.
― Você voltará para Konoha para se casar... comigo.
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