Três xícaras de amor
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Notas iniciais
Um dia havia se passado e a vida continuava.
No mesmo dia em que levou as cestas de doces para Jiraya, Sakura foi devolver os sacos com as roupas já costuradas para a Ino e também já aproveitou para vender alguns doces para ela.
A loira adorou saber que Sakura vendia doces, pois sempre passava as tardes sem nada para comer.
— Eu vou querer dois pedaços desse bolo, um bombom de licor e me dá uma tortinha dessa para eu levar para o Rock — disse Ino, guardando suas compras embaixo do seu balcão.
A loja de roupas "Mimos" era conhecida por sua rotina de trabalho cansativa e pausas para descanso muito curtas. Porém como Ino trabalhava em um setor administrativo sempre havia algumas surpresas... Como por exemplo, uma das funcionárias da costura vender doces para ela e se tornar sua amiga.
— As roupas ficaram ótimas — disse Ino, entregando para Sakura um comprovante de pagamento — O dinheiro já foi transferido para a sua conta.
— Muito obrigada, Ino — disse Sakura, pegando o papel e guardando na bolsa — Eu espero que gostem dos doces.
— Depois eu te falo se aprovei ou não!
— Tudo bem, tchau Ino!
— Até mais!
Sakura colocou a nova sacola de roupas no carro e partiu para a casa de seus pais.
Toda sexta feira depois do trabalho, Sakura os visitava. Eles moravam a meia hora de distância da casa dela.
"Respire fundo Sakura, respire... É só ter paciência e tudo ficará bem" — ela repetia essa frase em sua mente como um mantra até chegar na rua cheia de árvores com flores azuis e casas coloridas.
Seus pais moravam na casinha que ficava no fim da rua sem saída, ela literalmente fechava a rua, dando um destaque enorme. A mãe fazia questão de não poupar despesas para decorar a frente da casa e causar boa impressão nos vizinhos. Uma vez por mês ela trocava o vaso de flor da janela, mantinha a grama do pequeno jardim sempre muito verde e a pintura da parede e limpeza do portão eram sempre vigiadas.
"Essa casa é o ponto turístico dessa rua desde sempre" — ela dizia.
Sakura não podia discordar. Vivera a maior parte de sua vida ali e sempre via os vizinhos ou estranhos chegando no portão para perguntar das rosas do jardim e outras coisas. A mãe adorava aquele tipo de atenção.
Quando chegou na frente da casa amarela, Sakura soltou um suspiro, saiu do carro e entrou na residência.
— Oi mãe, oi pai! — disse ela, abrindo a porta de entrada vermelha.
Kizashi e Mebuki estavam sentados no sofá, assistindo televisão.
— Oi Sakura! — disse a mãe, se levantando para abraçá-la.
— Oi filha, como está? — cumprimentou o pai, que não se levantou, mas mandou uma piscada.
— Estou bem e vocês? — disse Sakura, se sentando ao lado do pai e lhe dando um beijo na bochecha.
— Estamos bem — disse Mebuki, suspirando de uma forma que deixou Sakura incomodada — Vamos levando... Vamos levando.
— Hum... — murmurou Sakura.
Ela sabia que a mãe já ia começar a reclamar da vida e de como ela era uma filha ausente.
— Como a minha neta está? — perguntou o pai.
— Vai muito bem, pai — respondeu Sakura.
— Por que saiu tão tarde do trabalho? Você sempre chegar aqui mais cedo na sexta feira — questionou Mebuki.
— Eu tive que ficar um tempinho a mais, mãe.
A mãe suspirou pesadamente e passou a mão por todo o rosto.
— Sabe Sakura, às vezes eu não entendo você — ela murmurou, se sentando no outro sofá para encarar Sakura melhor — Fica em dois empregos que não te valorizam em nada, mas parece que você os adora mais do que seus pais e sua filha.
— Mãe... Eu já disse que preciso do dinheiro.
— Ora, eu sempre disse para você fazer a faculdade, eu disse. Talvez seja por isso que o Anton foi embora, você só liga para trabalho, nunca foi tentar ser mais do que já é. Se tivesse se valorizado mais e entrado para o ramo da família ele te daria mais valor, veria você como uma mulher mais poderosa.
— Então está querendo dizer que eu sou a culpada dele ter ido embora? — O rosto de Sakura começou a queimar.
— As mulheres de hoje em dia não podem ser apenas donas de casa, minha filha. Os homens querem mulheres com conteúdo; ele via você lá na pia e sem faculdade. É claro que foi procurar uma médica ou advogada bem sucedida e bonita, assim ele não se sente um mero sustentador de esposa.
— Já chega mãe!
Sakura estava tão irritada que sua voz acabou saindo mais alta do que queria.
— E não me retruque — disse Mebuki, pegando o controle da televisão para desligá-la. Ela gostava de atenção máxima enquanto estava falando — Estou falando isso para o seu bem.
— Não precisa me humilhar — murmurou Sakura, olhando para a mãe — Eu sei o que eu sou e também dos meus erros. Sei que não fiz faculdade. Optei por me casar cedo com um homem que eu amava. Foi um erro, mas não me arrependo, pois tive a Sarada. Nós não podemos mudar o passado, então nos contentamos com o presente, tentando tornar o futuro melhor, certo? Eu vou fazer o meu futuro. E agora chega desse assunto.
Sakura pegou o controle da mesinha de centro e ligou novamente a TV. Estava quase na hora do seu programa favorito em todo o mundo: Rainha do açúcar. Passava no canal 5 toda sexta feira, ela não perdia por nada.
O pai adorava assistir ao lado dela e ver sua animação.
— Eu só fico chateada pela minha neta — Mebuki continuou — Ela está sem pai... Deveria largar esse outro emprego e arrumar um marido. Não quero que minha neta seja filha de mãe solteira. No meu tempo is...
— Você disse certo mãe — Sakura a interrompeu — "No seu tempo". As coisas mudaram. Posso criar Sarada muito bem sozinha.
— Por que não deixa ela passar uma semana aqui? Ela vai ficar muito mais tranquila.
Sakura olhou a mãe com um olhar fusilante.
— Mas ela já vive bem comigo e é uma criança muito tranquila... E mesmo com a senhora insinuando que a vida dela é incompleta sem o Anton, eu digo que ela é muito feliz.
O programa começou. A abertura épica de um cupcake voando e colorindo toda a tela de rosa era formidável para Sakura.
A apresentadora e uma das juradas, Tsunade, era sua imagem de perfeição.
Sakura tinha a coleção de livros de Tsunade, ela era a Rainha do açúcar, mestre dos doces, o terror dos participantes do programa e dona da língua mais afiada para degustar cada prato.
Ela amava o modo como a confeiteira fazia um bolo ou mexia uma calda na panela. Era como dançar em frente ao fogão e ainda parecer mágica.
A mãe de Sakura continuou falando no ouvido da mesma durante todo o restante do programa.
E quando finalmente deu a hora de buscar Sarada na escola, Sakura se despediu dos dois e foi embora.
No carro, ela não aguentou segurar um choro que estava preso em sua garganta.
Desabou em cima do volante, o molhando com suas lágrimas.
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No dia seguinte, Sakura levou Sarada para a casa de seus pais. Ela passava o sábado com eles enquanto Sakura trabalhava.
A menina adorava os avós e eles a amavam e eram muito bons com ela.
Isso era um alívio para Sakura.
"Se minha mãe tratar a minha filha bem, eu não me importo com o resto".
No caminho para o trabalho, um filme se passou pela mente de Sakura. Ela começou a pensar nas palavras da mãe e de repente se viu pensando no ex marido.
"Anton, por que?"
Ela não sabia onde ele estava e nem o que estava fazendo, mas seu rosto jamais saiu de suas lembranças.
Sakura balançou a cabeça como tentando se livrar dos pensamentos e pisou no acelerador.
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— Sakura, venha cá, por favor.
Anko chamou Sakura para conversar em sua sala e isso a deixou ligeiramente nervosa.
— Sim, senhora?
— A partir de segunda feira você vai cumprir o horário vespertino e noturno — disse Anko, sem tirar os olhos do caderno onde escrevia desesperadamente.
Sakura piscou o olho duas vezes para ver se não tinha entendido errado.
— Mas, ah... Como assim?
— Uma das camareiras da noite pediu demissão ontem. Precisamos do maior número de camareiras possível cobrindo o andar da família Uchiha.
— Sim, mas por que à noite? Durante a noite eu fico com a minha filha — murmurou, Sakura — Eu já cubro o andar deles de manhã.
— Sim, mas agora preciso que cubra durante a noite. Não se preocupe, não será uma mudança fixa, é temporário. Até encontrarmos outra pessoa ou os hóspedes irem embora.
— Entendo... — Sakura suspirou e deu de ombros. Sabia que essas mudanças poderiam acontecer, mas nunca pensou que seria de forma tão brusca.
— É só isso. Conto com você.
Sakura não sabia o que pensar. Teria que mudar toda a sua rotina por uma semana ou mais...
Passou o expediente inteiro pensando em como contaria isso para a mãe. Ela com certeza acharia que aquilo era um abuso.
Então de repente se lembrou de algo que deveria ter feito naquele dia.
"Os doces"
Sakura esperou o horário de almoço e subiu os lances da escada de emergência para falar com Jiraya.
O barman estava sentado em uma cadeira de frente para o seu bar.
— Olá Jiraya!
— Ah — Jiraya deu um pulo de surpresa ao ver Sakura — Olha quem veio finalmente!
— Cheguei um pouco tarde, me desculpa.
— Sem problemas.
Ele se levantou e foi até o balcão. Sakura observou que as suas cestas não estavam mais no balcão.
— Jiraya, cadê as duas cestas?
— Estão aqui — disse ele, tirando debaixo do balcão as duas cestas vazias — Ah e aqui está a grana.
Sakura olhou para as várias notas e moedas brilhantes que Jiraya entendeu para ela e ficou sem acreditar.
— O-o que é isso?
— O que é isso? — Jiraya deu risada — Nunca viu tanto dinheiro vivo assim?
— Você conseguiu vender todas as mercadorias em um dia? — Sakura estava quase gritando, então tapou a boca e olhou para os lados.
— Vou te contar como foi — sussurrou Jiraya — Mas você tem que prometer que não vai mais gritar e sente-se. Você não vai acreditar.
Ele serviu um copo d'água com limão para ela e começou a contar:
— Sakura, foi mais ou menos assim... Eu passei o resto do dia fazendo o meu trabalho e ajudando o pessoal do salão de festas. Então anoiteceu e o pessoal começou a subir para o salão e para o bar. Algumas bebiam, outras só dançavam e teve até algumas pessoas que perguntaram dos doces, mas quando eu dizia que o pagamento deveria ser feito na hora, com dinheiro, todos desistiam.
— É sério? — Sakura se espantou.
— Sakura, o pessoal desse hotel só manda colocar na conta para pagar no cartão de crédito ilimitado depois.
— Mas e aí?
— Bom, foi aí então que os Uchihas chegaram no salão — Jiraya se sentou atrás do balcão e apoiou o rosto na mão esquerda — Povo diferente... Só falavam entre eles, mas os outros empresários sempre faziam questão de cumprimentá-los e outros sempre tentavam um lugar na mesa deles.
— É, o Kabuto disse que eles são importantes — comentou Sakura.
— Passou algum tempo e um deles veio até o meu balcão e ficou aí nesse lugar que você está — Jiraya apontou para Sakura — e ficou só olhando para os meus copos, com o olhar bem distante. Eu tive que chegar nele e perguntar se ele queria alguma coisa, então ele só pediu água gelada com limão. Depois de um tempo com o mesmo copo na mão, ele me perguntou o que eram os doces e pareceu gostar do desenho no pote do bolo. Ele ficou um bom tempo admirando a etiqueta.
Sakura sentiu o seu coração bater mais forte enquanto Jiraya falava.
— Ele então perguntou quanto custava e também se era muito doce, pois ele não gostava de sobremesas muito doces.
— E o que você disse pra ele? — Sakura perguntou, ofegante com a narrativa.
— Eu disse a ele que o sabor era PERFEITO e EQUILIBRADO. Não era exageradamente doce e também não era sem graça, equilibrado. Sei disso porque eu provei um.
— Ah, você comeu? — Sakura riu.
— Eu não resisti. Você tem um talento natural, parabéns!
— Muito obrigada... Mas continua, continua!
— Ele comprou o bolo de morango com massa branca e creme! Ele comeu o bolo na minha frente e disse: "Tem razão. É bem equilibrado" e saiu da mesa!
Jiraya se levantou e bateu palmas.
Sakura por sua vez ficou de boca aberta.
— Eu recebi um elogio de um dos hóspedes de ouro?
— Sim, bebê. Veja só, você não é fraca não.
— E depois?
— Bom, como eu disse... Esse pessoal é muito importante. Como alguns ouviram o que ele disse e viram que ele comprou de fato o doce, eles começaram a comprar também. Quando eu vi... As cestas já tinham esvaziado.
Sakura se levantou com as duas mãos no rosto.
— Minha nossa... Foi tudo graças a esse homem!
— É... Por aí — disse Jiraya — Mas eu nunca vi aquilo. Vendi tudo em menos de meia hora. Fiquei abismado.
Sakura começou a ficar ansiosa, seus dedos se entrelaçavam desesperados.
— Você trouxe novas cestas para mim, não é?
— S-sim.
— Que bom, porque eu não sei o que farei se aquele povo mimado aparecer e os seus doces não estiverem aqui.
— Pode deixar que eu vou buscar agora mesmo no carro.
— E fique ciente que você deve aumentar a quantidade de produção. Daqui a pouco eles vão começar a reclamar que o estoque acaba rápido.
— Tem certeza Jiraya? — Sakura estava um pouco receosa de ter esperança — Mas e se esse primeiro dia de vendas não foi apenas sorte?
Jiraya se levantou de seu banco e caminhou até ela, então colocou o braço em volta do pequeno ombro dela e a levou para uma caminhada pelo salão brilhoso.
— Eu percebi que você tem baixa auto estima — disse ele — Sabe, seus doces são a melhor coisa que eu já comi. Juro que senti como se estivesse no paraíso quando coloquei na boca o primeiro pedaço do bolo, meu Deus.
Um choro emocionado começou a subir pela garganta de Sakura, então ela se desvencilhou rapidamente do abraço do Barman.
— Muito obrigada Jiraya... Er, é melhor eu ir buscar as cestas então.
Ela abriu a porta e desceu correndo as escadas.
Sakura passou a vida inteira escondendo de todos que sonhava em ter a própria confeitaria e ser como a Rainha do açúcar. Sua família era do ramo da advocacia. Não, nem pensar que ela queria acabar como um dos primos.
Ela descia as escadas de forma tão rápida e desastrada que em alguns degraus quase tropeçava.
"Ai céus... Ai céus... Será que eu vou conseguir realizar o meu sonho? Calma Sakura, foi apenas o primeiro dia de vendas. Não crie expectativas!"
As escadas do hotel, depois de dois lances, faziam uma curva. Sakura descia vários degraus, dava uma volta na curva e depois continuava.
Foi então que em uma dessas curvas da escada, Sakura acabou esbarrando em alguém.
O choque foi rápido e certeiro!
Os dois não estavam esperando encontrar outra pessoa ali, então foi um esbarrão de corpos seguidos de surpresa.
Sakura se desequilibrou com o estrondo e ia cair de costas nos degraus, mas um braço firme a segurou pela cintura e a puxou para perto.
Ela só teve tempo de lembrar de respirar e olhar para cima para ver em quem tinha esbarrado.
— M-me desculpa... Eu não...
A voz de Sakura sumiu quando ela encontrou um par de olhos tão escuros quanto uma obsidiana... Olhos que sugaram suas palavras como o aspirador que passava nos tapetes dos quartos.
Sua pele era clara como marfim e seus cabelos tão escuros moldados em fios lisos...
Aqueles olhos a analisaram de cima abaixo e depois, Sakura sentiu o braço se afastar de sua cintura.
O homem arrumou a gravata que havia ficado levemente amassada, deu uma última olhada em Sakura e continuou seu caminho, subindo as escadas.
Sakura ficou parada como que em transe, se perguntando se aquele homem foi fruto de sua imaginação.
"Aquilo realmente aconteceu?"
Ela decidiu dar aquele encontro como alucinação de sua ansiedade com as vendas, afinal, quem no mundo poderia ser tão lindo?
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