Três cartas para o futuro
1 Oneshot
Senku deixou o campus da universidade de Tokyo, e desceu a avenida agitada às nove da noite. Fazia aquele caminho todos os dias para seu pequeno apartamento, que não era longe dali. Estava usando um moletom off-white e calça jeans preta, perfumado por reagentes e produtos. Não era um rapaz de beleza chamativa, mas nem importava com aquilo. As únicas coisas que cativaram sua atenção era a faculdade, os projetos que conduzia para mudar a pegada ecológica mundial e seus amigos.
Caminhava despreocupadamente, ligando seus fones de ouvido bluetooth. Toda sexta-feira a noite tinha edições novas do podcast "No mundo da Lua", gravado por seu pai Byakuga Ishigami e Lilian Weingberg, um casal que se conhecera numa viagem há dois anos atrás.
"Boa noite terráqueos! Espero que estejam bem hoje. Eu sou o Byakuga-"
" E eu sou Lilian, e essa é mais uma edição mais que especial de No mundo da Lua!"
"Hoje, estamos transmitindo aterrissados no satélite natural da Terra!" — A voz melódica da jovem informou entusiasmada. Enquanto os ouvia, estavam numa missão da compania Soyuz, financiada por ninguém menos que srta. Weinberg, uma Taylor Swift inglesa.
As calçadas estavam infestadas de pessoas apressadas, afinal, quem não quer curtir o fim de semana? Por esse motivo o trânsito estava um caos. Ouvindo o casal tagarelar sobre informações da viagem, avistou uma fila quilométrica incomum na entrada do parque nacional. Arqueou uma sobrancelha, e estava decidido a desviar da multidão até que-
— Senku!!! — Seu melhor amigo, Taiju, berrava enquanto acenava e pulava para lhe chamar a atenção. Estava acompanhado de Yuzuriha, sua namorada. Nem os melhores protetores de ouvido podem impedir os gritos do moreno.
Os três eram amigos de infância, e passaram a maior parte do tempo juntos. Poderia ser na escola, ou acompanhando façanhas cientificas do Ishigami (a maioria não fora bem sucedida). Quando estavam no ensino médio, Taiju se declarou para a amada e estavam juntos desde então. Inseparáveis, se esforçaram para fazer faculdade juntos na Todai, e conseguiram. Mas o louro não se contentava com as horas exigidas no laboratório, e permanecia lá até que o expulsem.
Provavelmente estavam num encontro, e ele não queria atrapalhar ou ficar "sobrando". Se aproximou do casal, tirando os fones e o guardando no bolso do casaco. Havia uma decoração luminosa nas grades do parque, e o local parecia mais lotado do que o habitual — Muito burburinho, luzes e uma roda gigante. "Uma roda gigante?" Senkucompreendeu o que estava acontecendo, e sentiu uma vontade maior ainda de ir embora para casa.
— E aí! Saiu agora do laboratório? Você não quer ter uma vida não? — Gesticulou para o amigo. — Além do período integral, ainda fica de noite.
— Pensamos em te chamar para vir, mas com certeza sua resposta seria não. Foi mais fácil te esperar por aqui. — a garota sorriu em cumprimento.
— Dez bilhões de pontos para nossa futura pedagoga. Prefiro placas de Petri a essa multidão. Espero que se divirtam bastante, hoje. — Esquivou-se, pronto para tomar seu rumo.
— Não tão rápido, Senku. — Taiju o segurou, uma força bruta contra um esforço negativo. — Se lembra da sua promessa de sair hoje conosco?
— Mas é claro que não, seu brutamontes. Quando é que eu faria uma burrice dessas? — exasperou indignado com aquela pergunta, tentando em vão se soltar.
A fila andou, e eles acompanharam. Mais pessoas iam se juntando, contudo já estavam próximos da entrada. As grades verdes ostentavam luzes amarelas, e diversas barracas coloridas estavam dispostas na segunda passagem do parque. Muitos brinquedos chamativos e musicais carregavam a multidão, a alegria podendo ser palpável ali.
— Foi quando disse para Taiju que humanos comiam cerca de oito aranhas por ano, e ele começou a dormir com fita na boca. Em reparação, prometeu que sairia hoje com a gente.
Então ele se lembrou. Tinha sido muito engraçado, aquele mito ter sido levado a sério e as vendas com fita adesiva aumentar 300% na papelaria da faculdade, mas tinha sido há meses atrás. Estava confuso com esse detalhe, e não conseguia imaginar a razão por trás disso.
— Um moletom novo? Que bonito, quem te deu? — Yuzuriha se animou, e Taiju também observou a roupa do colega.
Um casaco canguru na cor creme, com uma equação no peito: E = m.c.
— Foi meu pai. Ele deixou na sofá da sala, para que eu encontrasse depois que ele tivesse saído.
Então percebeu que aquela sexta-feira era quatro de janeiro, o seu aniversário. Ficou sem graça, e repousou a mão no vão do pescoço. Ambos os amigos o encaram, já sabiam o que ele havia percebido, e estavam satisfeitos. Mais alguns segundos se seguira, e eles finalmente entraram. Taiju entregara três tickets dourados para a atendente de uma barraca, e eles ganharam uma espécie de "passe livre", que permitia que as filas fossem furadas.
Depois de algum tempo, Taiju avistou um passeio de pedalinho no lago do parque, com vários barquinhos de cisne espalhados pela água. Se animou, mas desanimara quando percebeu que os cisnes acomodavam apenas dois. Senku os confortou dizendo que iria procurar alguma barraca com comida, e que estavam livres para pedalar pelo lago. Tem coisa mais romântica que isso? A única companhia do jovem Ishigami eram placas de petri e tubos de ensaio. Nunca teve uma pessoa por quem sentiu atração romântica, e nenhuma que sequer tentou ficar para testar seu próprio coração. Com sua visão racional e cética, não se enxergava fazendo isso e a pressão social não o fazia se sentir obrigado a testar alguma coisa.
Entretanto, ao observar seu melhor amigo juntamente da namorada, ambos reluzindo de tanta felicidade e paixão, se pegou perguntando se ele tinha algum problema. Talvez, no âmago de sua alma, ele queria poder sentir aquilo. Praticamente todos os seus colegas já estavam namorando, e tem parceiros para dividir a vida. Criarão família em breve, e seguirão a vida. Mas e Senku? Iria morrer sozinho se continuasse daquele jeito. Se questionou se era um problema envelhecer sozinho.
As barracas se estendiam mais além, e o fluxo de pessoas se alternavam entre as que ofereciam comida e as que tinham brincadeiras. Observou cada uma delas, e em uma delas viu um rapaz alto de cabelos negros se esgueirando até um ruivo mais baixo, o abraçando por trás para ensina-lo a atirar corretamente num alvo vermelho. Estavam corados e risonhos, e o desdém de Senku percorreu sua mente. A homossexualidade já não era mais um tabu a ser escondido, mas uma demonstração a ser defendida. Vários eventos na universidade reforçavam isso, por mais que as vezes ele considerava que o capitalismo aproveitava essa pauta para lucrar em cima. Mas meneou, e se por acaso ele procurou a atração no gênero errado? A linha de raciocinio se dissolveu quando viu, por acaso, uma barraca feita de lona roxa com listras pretas, fechada com uma cortina de contas prateadas e fios dourados. Sentia um ar solitário dali, e parecia ter um fluxo negativo de visitantes.
Desacompanhada de placa, não conseguiu pensar no que poderia ser. Normalmente, não sentia tanta curiosidade ao ponto de ser tomado por impulsos. Mas talvez, ao completar vinte anos, precisava se sentir mais emotivo. Não conseguiu encontrar resposta lógica para aquilo, mas tinha que responder as dúvidas de hoje para seguir em frente. Um comichão de curiosidade acadêmica era satisfatoriamente encorajador para conduzir pesquisas, mas a própria sexualidade era um espinho no seu pé. Um débito consigo mesmo, nem que fosse para se declarar assexual aromântico — Ele andou pesquisando sobre isso no google enquanto caminhava pelas barracas.
Seus pés falharam por um instante, meneou, talvez por essa razão estivesse entrando na lona roxa. O cheiro de incenso de bejoim, mirra e sândalo adentrou suas narinas, o que surpreendentemente foi agradável. Velas vermelhas e pretas acesas, provavelmente são perfumadas também. Uma mesa redonda estava no centro da tenda, com um baralho perfeitamente alinhado e velas brancas de fogo azul.
Havia um rapaz sentado a mesa, de cabelos assimétricos repartidos no meio, nas cores preto e branco contrastando em cada repartição. Os olhos sagazes com delineados longos o fitaram, o que fez Senku pensar que se sentia encarado por uma raposa. O seu yukata de mangas longas era do mesmo tom arroxeado, com pétalas de sakura adornando o corpo todo, e uma faixa vermelha apertava a cintura delgada, salpicado com fios dourados trançados. A primeira instancia, pareceu impressionado por ver o veterano da universidade parado diante de si, mas logo voltou para sua postura intimista.
— Eu estava aguardando por você, jovem químico. — Um sorriso se alargou na boca da Kitsune.
— Hum, por mais que eu não acredite nessas coisas, desculpe a demora. — Conseguiu corresponder o sorriso, e se achegou até a mesa.
— Tudo bem, eu consigo ser paciente. — O tom de voz saiu cortante, e Senku se perguntou se foi proposital ou se foi apenas a carapuça que serviu.
— Bom, você deve conhecer a teoria da oferta e da procura, não é mesmo?
A beirada do Kimono caiu conforme o cartomante se inclinou para se apoiar no própria coxa. A pele branca salpicada com iluminador prata, e as orbes vermelhas encararam a clavícula a sua frente. Conseguiu se lembrar, que aquele homem era Asagiri Gen, o mentalista que participava de um Podcast famoso no campus.
— Conheço bem. Então, quanto vai me cobrar por uma tiragem?
— Ora — Asagiri lambeu os próprios lábios, o que arrepiou a espinha do estudante — Mesmo depois de dizer que não acredita no mundo espiritual, ainda quer as minhas respostas. Te peço algo equivalente, que me interesse tanto quanto te interessou ao ponto de vir até aqui.
Ishigami olhou ao redor, e meditou o que poderia impressionar o mentalista. Avistou algumas flores de Gardênia no chão gramado e um pilão em uma das caixas de objetos da tenda. As colheu, e macerou no pilão com um mix de castanhas que ia ser o seu jantar. A pasta tinha uma cor avermelhada. Usou o dedo para pegar um pouco, e se dirigiu para a pele exposta da clavícula de Gen.
— Conforme mais toque físico, ou outras substâncias, o pH altera e a cor se intensifica. — Senku limpou a digital na língua, e mostrou a cor se tornar escarlate como sangue na própria saliva.
Por um momento, Gen ficou surpreso, mas logo sua expressão voltou a ser gatuna novamente. Suas mãos trabalharam rapidamente em embaralhar o tarot, ilustrações brancas num fundo negro: Uma raposa com uma adaga japonesa segurado na mandibula, voando em folhas de outono e um fio vermelho. . O cartomante se levantou, movimentos leves e elegantes, e os olhos de Senku estavam fixos no meio sorriso ao ponto de nem perceber que três cartas foram depositadas de fundo para cima na mesa.
— Irei responder uma pergunta, pelo novo balm que acabou de me fornecer.
A unha vermelha e afiada dedilhou sobre a primeira da direita para esquerda, e a virou ao contrario. O eremita.
— A primeira carta... O Eremita. — A ilustração era de um velho de olhos fundos caminha numa trilha rochosa, iluminando o caminho com uma lanterna. — Mas repara, Senku — ele olha pra baixo, e não vê o que está ao redor. Ele não se perde, mas também não se conecta. —
Quantas verdades você já descobriu assim?
— Essa carta fala sobre busca, isolamento, sabedoria... e fuga. — Continua Asagiri — Você caminha com sua própria luz, mas não percebe as mãos que talvez estendam luzes também.
E mais: o Eremita aparece quando alguém acredita que não precisa de ninguém, quando no fundo está só testando se é verdade.
É... você pesquisa até sua própria alma como se ela fosse um experimento.
Gen fez uma pausa, o olhar meio travesso:
— Quer uma hipótese minha, cientista? Você não quer respostas do universo. Quer permissão para sentir sem que isso contradiga quem você é.
O mentalista se espertigou, e Senku jogou a cabeça para atras. Ele estava certo, olhava para si mesmo como se fosse um experimento. Puxou do bolso da calça um papel amassado, e esticou para a Kitsune. O toque gelado do químico reagindo com o calor atraente de Asagiri, causando eletrolise na mente de Ishigami. A folha de caderno continha um tanto consideravel de rabiscos, mas o torologo conseguiu reconhecer alguma fórmula entremeio aos garranchos.
— É o meu projeto mais promissor, um combustível verde que revolucionaria o mercado. Obtido a partir de esgoto, resolveria dois problemas num baque só. Mas ainda falta algo, que ainda não consegui encontrar. Não está tão longe, mas fazem semanas que ainda não descobri. Digo para todos que está tudo sob controle, que consigo resolver sozinho. Só que já não acredito na minha resposta mais.
— Hum... — O semblante de Gen parecia indecifravel, e encarou por longos segundos a folha de papel. — Meu caro, você acredita que o mundo gira em torno do seu próprio lápis.
Gen olha por longos segundos a folha, depois levanta os olhos lentamente.
— Você está tão acostumado a fazer o mundo girar na ponta do seu lápis...que esqueceu que até o sol precisa de órbita pra não se perder. Às vezes, Senku, o que falta na sua fórmula não é química — é confiança. Não em você. Nos outros.
Ele pousa a mão sobre a folha com delicadeza.
— Você se isola porque acha que, se alguém tocar nisso — no que você cria, no que você sente — vai estragar tudo. Mas veja, até o vidro mais puro precisa de impurezas para ser resistente.
Gen então desliza o dedo pelo topo do baralho e puxa a próxima carta. O olhar do estudante hipnotizado pelos gestos do mais velho. Se sentia alheio ao lado de fora, e por alguns instantes, se sentiu seduzido pelo mentalista, até pela forma que a carta pairava próxima ao rosto dele, o sentimento que nunca sentiu em toda a sua curta vida, desejo.
— Se revelou O louco. —Asagiri virou a carta para que o cliente a visse: Um jovem de roupas leves, com uma bolsa nas costas e uma flor na mão, caminha despreocupado rumo a um penhasco, sem olhar para onde pisa. Um pequeno cachorro o acompanha, latindo como se o alertasse. O céu atrás é dourado, mas o chão sob seus pés é incerto. — O Louco... o zero. Não é começo nem fim — é um salto.
Um passo no escuro, onde você não tem mapa, nem equação, nem certeza. Só impulso. Intuição. Fé.
Ele gira a carta lentamente.
— Essa carta te convida a saltar, mesmo que não saiba onde vai cair. Pode ser o salto que faltava na sua fórmula. Ou na sua vida.
E aí, cientista... vai ficar na margem? Ou vai pular?
Senku observou os lábios rosados, se movendo de forma presunçosa. O olhar vulpino de olhos o fitando arduamente. Levou a mão para o pescoço, o estralando ruidosamente. Se arrastou para o lado do cartomante, cuja diferença de idade era dez anos. Se inclinou até a face do mentalista, sentindo a respiração dele no próprio rosto. Seus braços envolveram a cintura delgada, o trazendo para mais perto de si, o máximo possível.
Asagiri estava ansioso. Acordou mais cedo naquele dia, cansado da semana dificil que se arrastara. Se sentia deslocado na vida, tantos anos solteiro e fazendo bicos. Vivia tranquilamente a sua vida, e de vez em quando visitava a mãe. Mas no fundo, ainda faltava algo, ele queria encontrar. Foi até o estúdio do podcast, gravou a matéria daquele dia e foi para casa se arrumar. Sentiu que devia vestir o seu melhor yukata e se arrumar da melhor forma que conseguisse. Perguntou aos búzios, o que era aquilo que ele estava sentindo. A resposta veio como um soco no estômago, daqueles que te deixa com formigamento depois. A memória se repassou enquanto observava o cliente com a respiração incerta, as sobrancelhas arqueadas e seu olhos vermelhos vidrados nele. "Esse pessoal das naturais da Universidade de Tokyo é peculiar mesmo, hein?" Ponderou.
Ishigami vasculhou na mente se aqueles incensos poderiam, chance mínima, de serem entorpecentes. Todo o seu corpo estava ardendo, e aquele que era conhecido por ser cético e pensar com a razão, estava prestes a perder o controle para os novos instintos primitivos que surgiam em si. Começou a pensar na próxima coisa que poderia oferecer para o clarividente. Qualquer coisa. Abruptamente, lançou a si e Gen para o chão. Os cabelos bicolores misturados na grama, seu corpo esguio encaixado perfeitamente em sua pegada, e seu joelho entreabrindo o caminho por baixo da roupa tradicional do mais velho. Os olhos celestiais se arregalaram, tampouco por reprovação, mas por querer tanto aquilo quanto o estudante. Mas, será que ele seria capaz de ceder aos desejos reprimidos e continuar? Nem mesmo o mentalista conseguiu ver.
Senku foi até o pescoço de Asagiri, aonde os cabelos brancos curtos o deixava vulnerável. Inalou pesarosamente o perfume da sua pele, o aroma oriental amadeirado com um floral branco. A sua mente divagava, e o coração parecia que ia pular da sua boca. Encostou os lábios na pele, o sabor do alcóol parecendo ser delicioso na língua, que serpenteou até que finalmente a boca se fechou e beijou intensamente. Um ruído abafado fora emitido por Gen, que se calou enquanto mordia a manga do seu yukata. Ishigami parecia faminto, um pouco desconcertado pela falta de experiencia, mas seguindo o fluxo de desejo que estava corroendo o corpo. Uma de suas mãos soltou a cintura de Gen, enquanto a outra o endireitava contra si. Os dedos livres se entrelaçaram nos cabelos pretos, firme mas sem machucar. Devagar, terminou o beijo com um selinho na clavícula, e sussurrou rouco no ouvido do mentalista:
— Eu não tenho cor favorita, só uma que me parece agradável de vez em quando. Hoje, talvez seja roxo. Mas eu ficaria satisfeito em me livrar dele.
A última carta desliza entre os dedos pálidos de Gen, que a segura por um segundo a mais — como se hesitasse, ou saboreasse o momento. O yukata amarrotado, os cabelos desalinhados, o rubor quente em suas bochechas — tudo nele exalava um ar de rendição elegante, mas não passiva. Ele ainda era o Kitsune no comando daquele jogo de sentidos, mesmo se tremesse um pouco nas pontas dos dedos.
A carta gira com leveza, como se não pesasse nada, embora carregasse uma resposta que Senku nunca ousara formular em voz alta:
— Os Amantes.
A imagem é vívida: duas figuras nuas em um jardim suspenso, separadas por uma árvore de raízes entrelaçadas. Acima delas, um ser alado, nem masculino nem feminino, observa com os olhos fechados. Atrás, um céu dourado banhado em tons de pôr do sol. Um detalhe chama a atenção: na mão da figura da esquerda, uma flor de gardênia. Na da direita, um frasco derramando algo escarlate.
Gen não sorri. Apenas respira fundo, depois fala com voz baixa, íntima, quase como se lesse a pele de Senku, não a carta:
— Os Amantes são escolha. Não de cabeça, mas de desejo. Essa carta não diz "vá" ou "pare", diz: sinta. Sinta mesmo que assuste. Mesmo que seja novo. Mesmo que não caiba nas fórmulas que você conhece.
Ele desliza a carta pela mesa em direção ao cientista, como se fosse uma chave.
— E quando ela aparece no fim de uma tiragem assim... — pausa, seu olhar ardendo — é um sim. Um sim dos antigos, dos que não precisam de explicação.
O ar na tenda parecia ter mudado. O incenso queimava mais denso, misturando o aroma de mirra e sândalo com uma eletricidade invisível, palpável. Os olhos de Gen não saíam de Senku, como se cada movimento do químico fosse um convite silencioso que o desafiasse a se entregar.
Senku sentiu o calor subir pelo corpo, uma mistura estranha de nervosismo e um desejo que não sabia como controlar. A mão de Gen, fria e firme, deslizou pelo braço dele, traçando linhas invisíveis na pele sob o moletom, como se quisesse marcar território e despertar sensações há muito adormecidas.
Sem dizer palavra, Gen se aproximou, o rosto a poucos centímetros do de Senku, o hálito quente misturando-se ao dele. O aroma de flores, de especiarias, parecia embriagá-los, e a respiração ficou mais pesada.
Então, de repente, os dedos de Gen buscaram o zíper do moletom. Com uma destreza graciosa, puxou lentamente, expondo a pele macia e quente da clavícula de Senku. O químico prendeu o ar, sentindo o toque como um choque.
A língua de Gen deslizou suavemente por aquela pele exposta, mordiscando levemente antes de subir pelo pescoço. Senku estremeceu, as mãos tremendo, enquanto um arrepio corria por toda sua espinha.
— Você é tão... intenso. — murmurou Gen, voz rouca, aproximando os lábios dos de Senku, que respondeu à altura.
O beijo foi voraz, uma mistura de urgência e delicadeza, como se os dois estivessem descobrindo o corpo um do outro pela primeira vez e, ao mesmo tempo, há muito tempo.
Mãos exploravam, agarravam, puxavam. O tecido da camisa cedeu sob os dedos de Gen, que desfez os botões com pressa. Senku deixou escapar um suspiro, finalmente entregando-se por completo àquele fogo que queimava em seu interior.
Eles caíram juntos na tenda, corpos se encaixando, pele contra pele, num ritmo desenfreado. O mundo lá fora deixou de existir. Só havia aquele momento, aquela conexão bruta e arrebatadora.
Gen roçou os lábios no pescoço de Senku, deixando uma trilha de beijos ardentes, enquanto Senku passava as mãos pelos cabelos bicolores do cartomante, puxando-o para mais perto, como se quisesse fundir suas almas.
Os suspiros se misturavam ao som das velas crepitando, e o aroma do incenso misturava-se ao perfume natural de desejo e descoberta. A noite era deles e nada mais importava.
Os corpos se entrelaçaram na penumbra quente da tenda, onde a luz trêmula das velas dançava em reflexos dourados sobre a pele entrelaçada. A respiração de Senku se misturava à de Gen, ritmada e suave, como se cada suspiro fosse uma pequena promessa compartilhada no silêncio da noite.
Gentilmente, Gen deslizou os dedos pela nuca do químico, como se temesse quebrar a delicadeza daquele instante que parecia suspenso no tempo. Senku fechou os olhos, deixando-se levar pelo toque, pelo cheiro e pelo calor que finalmente sentia despertar dentro de si um impulso que não precisava ser entendido, apenas vivido.
Sem pressa, eles se descobriram, se respeitaram e se permitiram sentir num toque aqui, um beijo ali, um arrepio compartilhado. Era mais do que corpo; era confiança, era o começo de uma história que não precisava de palavras. Marcas vermelhas e dentes por ali e aqui, e gemidos tímidos soavam como música na tenda.
Enquanto as roupas se soltavam aos poucos, a conexão entre eles só aumentava como uma equação perfeita, um experimento em que ambos eram reagentes e resultados, ingredientes de uma fórmula única. Senku, tão acostumado a analisar tudo, deixou-se surpreender pelo caos belo do sentimento. Deixou sua mão escapar para baixo, Gen soltara um choro esganiçado pelo estímulo, aumentando os gemidos e se agarrando contra o mais novo conforme a velocidade aumentava, ansiando por mais, beirando o clímax. Mas, de repente, apenas parou. Ishigami se sentia extasiado, e guiou Asagiri para a sua própria intimidade.
— Oferta e procura, minha raposinha. — O sarcasmo saiu sensual, e Gen sentiu que poderia gozar só em ouvir aquilo.
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Mais tarde, quando o silêncio tomou conta da tenda e o incenso se apagava devagar, eles ficaram ali, abraçados, olhos nos olhos, sem precisar dizer nada.
Na manhã seguinte, Senku sentou-se à mesa da cozinha de seu apartamento, ainda com a lembrança da noite quente fresca na pele. O celular vibrou com uma mensagem do pai:
"Fala Senku! Vou passar o dia na casa da Lilian. Acho melhor te deixar sozinho para resolver o b.o. do trabalho da faculdade."
Senku sorriu, teclou uma resposta rápida e voltou a olhar pela janela.
Ele sabia que sua vida tinha acabado de ganhar uma nova variável — imprevisível, vibrante, necessária.
E assim, entre química e sentimento, Senku e Gen começavam a escrever juntos um capítulo que nem a ciência ousava prever.
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