Três amigas e o amor.
53 Ana/ Sílvia – O que faremos agora?
Quando Ana entrou no quarto, Marcelo a seguiu, sem disfarçar.
— Marcelo, eu não vou transar com você hoje de jeito nenhum. Você vai dormir na sua cama e eu na minha.
— Certo – ele assentiu com a cabeça e deu um passo na direção dela, que fingiu não perceber.
— Somos dois adultos civilizados e que podemos controlar nossas emoções e reações.
— Tudo bem – Mais um passo.
— Ter o total controle dos nossos desejos – a voz dela se tornava mais branda. – Nós somos pessoas sensatas... — agora, sussurrou, olhando nos olhos dele, que estendeu a mão e envolveu sua cintura e ela se deixou levar, perdida em um beijo intenso. – Nós não estávamos agindo com coerência – prosseguiu, quase sem ar, assim que se separaram.
— Ana, pare de falar. Você não está em um tribunal – segurando-a sua nuca e trouxe para um beijo.
Mais uma vez, o dia chegou para encontrá-los aconchegados na mesma cama. Ao abrir os olhos, Ana se remoeu de culpa por ter sido tão fraca e cedido aos seus impulsos, junto, veio a tristeza. O momento de separação está aproximando e eles não haviam discutido sobre o futuro.
Ouviu a respiração leve e ritmada de Marcelo em um sono tranquilo, sem culpa, sobre seu ombro. Um leve movimento e ele aconchegou ainda mais seus corpos e beijou sua nuca.
— Bom dia – A voz soou no ouvido dela
— Bom dia.
— O que faremos essa manhã?
— Não temos nada programado.
— Podemos ficar na cama o dia inteiro – Não havia receios na sua voz.
— Claro que não! Não foi para isso que viemos aqui. Além do mais tem a Sílvia. – Ana deu um pulo, libertando-se.
— Você acha que Sílvia não está desconfiada do que acontece aqui – Marcelo rebateu de forma descontraída, colocando os braços sobre a cabeça. – Além do mais, ela está bem ocupada com aquele holandês. Mas, se você quiser continuar agindo como se nada tivesse acontecendo...
— Você é um homem comprometido, está noivo!
— Mas tudo pode mudar
— Mudou?
— Ainda não.
— Então, acho melhor nós nos arrumarmos e tomarmos o café da manhã, enquanto esperamos por Sílvia.
— A outra moça saiu bem cedinho com o gringo – a dona da pensão avisou durante o café da manhã.
— E a senhora sabe onde eles foram? – Ana estava um tanto aflita com o sumiço da amiga.
— Eles foram na outra cidade, procurar a tal de internet para resolver um assunto de trabalho.
— Obrigada – Ana não acreditou na desculpa, cogitou que o seu sumiço tivesse a ver com sua descoberta de ontem, assim não tinha outra alternativa, a não ser esperar o seu regresso.
— Não vamos ficar aqui esperando por ela. Podemos fazer alguma coisa – sugerir Marcelo
— Como?
— Há um antigo farol aqui perto, é uma boa caminhada, mas o lugar é muito bonito, uma pequena enseada, praia quase deserta e eu sei que você gosta de andar.
Ana o encarou. Deveria ou não continuar com essa brincadeira fingindo que estava tudo bem quando não estava? Nada mudou, ele continuava noivo de outra mulher. O casamento do ano, a voz de Raquel ainda ressoava nos seus ouvidos e ela ali, transando com Marcelo como nada estivesse acontecendo. Como era estúpida, caído nessa cilada mais de novo e dessa vez bem consciente da situação! Mas, eles não tinham muito o que fazer naquela vila, então aceitou, com ressalvas.
Enquanto caminhavam pela areia da praia a caminho do seu destino, o velho farol, que já se via ao longe, aproveitando o sol ainda brando da manhã. Haviam levado alguns suprimentos e água para aguentar a empreitada.
— O farol está desativado há muito tempo – Marcelo quebrou o incomodo silêncio. Na memória de ambos vinha um outro passeio e em ambiente e sentimentos bem diferentes, onde em vez do mar estavam cercados de montanhas, e dentro dela existia a ilusão que tudo daria certo.
— É um lugar muito bonito.
— Eu cheguei a querer construir algo aqui, talvez uma casa, onde possa vir com a família e os amigos para passarmos um tempo, uma espécie de refúgio para nos esconder da confusão da vida moderna.
— Será muito bom para a sua família ter um lugar como esse – A voz dela saiu um tanto ríspida.
– Eu pensei... Ana, por favor, me dê um tempo para eu ajeitar minha vida.
Ela tirou os olhos da areia e voltou-se para ele.
— Eu não sei se poderia.
— Por quê?
— Porque você mentiu, me enganou. Nunca mais poderia confiar em você, sempre ficaria a dúvida.
— Eu sei que fui um idiota, que não devia ter enganado e iludido você dessa maneira.
— Mas você fez e eu descobri da pior maneira possível, não sei se terei forças para perdoá-lo.
— E o que eu posso fazer? Só posso pedir que me dê outra chance. Terminarei com esse noivado sem sentido. Outro erro meu, pois eu nunca amei Mariane.
— Imagino como ela deverá sofrer.
— Eu farei isso, independente da sua resposta. Não posso mais me aprofundar nessa mentira.
— Preciso de um tempo, Marcelo. Quando voltarmos, tenho que ficar longe de você para poder pensar e refleti.
— Eu posso esperar.
Mais tarde, de volta a pensão, Ana estava no quarto, perdida em pensamentos, enquanto Marcelo havia desaparecido para algum lugar, no momento em que Sílvia entrou chispando, parou em frente de Ana com um enorme sorriso e sacudindo um monte de papéis na sua mão. Assustada com a aparição repentina da amiga, Ana sentou na cama, interrogando-a com os olhos, esperando uma resposta.
— Ana, aqui! Descobrimos! –
Entregando a papelada a amiga atônita.
— Descobriu o quê? O que é isso?
— O pássaro, o tal papagaio, eu sabia que já tinha visto antes. É um pássaro raro, em extinção e está protegido por lei federal. É um crime inafiançável aprisioná-los, matá-los ou impedir sua procriação, pois, existem muito poucos deles. É a nossa solução para salvar esse lugar. Aquele local é um berçário, onde eles se reproduzem, não pode ser destruído, pois pode significar sua total extinção.
— Você acha mesmo, Sílvia?
Ana não acreditou, passando os olhos nos impressos de artigos científicos, leis ambientais federais e estaduais, fotos.
— Acho, se nós dermos uma mãozinha, fizermos barulho, sabe como é? Eu e Pete fomos até a cidade mais próxima e consultamos na internet. Levamos as fotos para comparar, é o mesmo bicho. Então, eu verifiquei a legislação, é isso! Eu imprimi alguma coisa para você, mas tem muito mais ainda.
— Sílvia, você foi incrível! Você descobriu a solução! Agora, tenho que pôr as mãos-a-obra. Vou estudar a legislação, preciso consultar alguém que tenha experiência com isso.
— Podemos consultar ONGs de defesa ambiental, acionar os meios legais e os órgãos públicos responsáveis.
— Mas vai haver muita pressão política e econômica, tem muito dinheiro envolvido nessa história, vai rolar muito suborno, para que essa descoberta não venha a público.
— Eu sei. Eu e Pete já conversamos, ele vai fazer uma reportagem sobre o lugar, já falou até com o editor dele.
— Mas, é melhor isso ficar somente entre nós, por enquanto. Ninguém deve saber até que esteja tudo pronto, e entrarmos com a documentação na justiça. A reportagem de Pete vai ajudar, porque eu acho, que os grandes grupos internacionais envolvidos não vão querer suas imagens manchadas por um crime ambiental.
— Você tem razão, essas empresas são muito ligadas à sua imagem junto à opinião pública e seus clientes. Vou pedir ao Pete para não falar nada com ninguém, por enquanto.
Silvia saiu correndo atrás de Pete, deixando Ana, sozinha no quarto, outra vez
— Você entende, Pete, que isso pode ser muito perigoso para você, caso, alguém fique sabendo disso. Alguém, que tenha interesse na construção desse hotel, pode desaparecer com você, por essa mata.
— Não se preocupe, Silvia. Não sou bobo, sei muito bem, o que pode acontecer, quando se tem muito dinheiro envolvido.
Pete passou os dedos entre os olhos de Sílvia para desfazer a ruga de preocupação.
— Obrigada, por me ajudar! E também, por ter me ensinado tantas coisas novas. Vou sentir saudades!
Passou a mão pelos cabelos dele com carinho.
— Eu também vou sentir saudades, mas podemos manter contato.
Segurou e beijou a palma da mão de Sílvia.
— Claro! Podemos começar a manter contato, esta noite mesmo. Vou sentir falta disso, também – Sílvia brincou, sorrindo maliciosa.
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