Três amigas e o amor.

18 Ana – Desaparecido


O despertador tocou, impiedosamente às 7 da manhã, Ana o desligou e gemeu inconformada, havia demorado a pegar no sono mais uma vez pensando em Marcelo, imaginando o porquê ele não a procurou, pois já fazia quase uma semana que eles mal se falavam. Ela queria dormir um pouco mais, mas não podia, tinha que ir para o trabalho, enchendo-se de coragem e levantou para se aprontar para mais um dia. O banho quente ajudou a despertar, assim como uma boa xícara de café. Na rua, o movimento matutino do vai e vem das pessoas apressadas indo para os seus empregos e obrigações era intenso. Durante o trajeto na condução até o trabalho, considerou a possibilidade de esquecer Marcelo de uma vez por todas, deixar para lá, já que estava desperdiçando muita energia com essa história, no entanto, quando se lembrava do seu cheiro e das suas mãos a tocando, o gosto da sua boca, fraquejava.

Ana chegou ao escritório no horário de sempre, encontrou Clara, uma das secretárias, já sentada à sua mesa.

— Bom dia, Ana! – Clara a cumprimentou um pouco animada demais para aquela hora da manhã.

— Bom dia, Clara! — retribuiu o cumprimento, porém sem tanta empolgação.

— Isso é para você – Clara entregou a ela uma pilha de documentos para serem analisados.

— Tudo bem — Ana suspirou, conformada, ao ver todo aquele trabalho.

Assim, Ana foi para a sua mesa e começou a olhar as pastas e papeladas, geralmente, de pequenos processos maçantes. No começo, o trabalho rendeu bem, mas depois começou a sentir-se cansada, sua visão começa a embaralhar as pequenas letras, sabia o que precisava de uma boa xícara de café antes de prosseguir. No meio da manhã, concentrada na leitura, levou um susto, quando seu telefone tocou, atendeu com uma pontinha de esperança, contudo, ficou decepcionada ao ver o nome na tela.

— Alberto, como vai?

— Eu estou bem. E você, Ana?

— Bem.

— Que ótimo. Ana, vou direto ao assunto, sabe como eu sou?

— Sim, eu sei, Alberto

— Quer sair comigo qualquer dia desse? – Ela já previa isso.

— Eu não sei se uma boa ideia, porque você acabou de se divorciar – Ana respondeu vacilante, apesar de não saber o futuro da sua relação com Marcelo.

— Não pense que quero usar você como uma espécie de tábua de salvação, mas eu considerei os velhos tempos.

— Antes de você terminar comigo – Ana rebateu de um jeito irônico.

— Talvez essa tenha sido uma das maiores burrices que eu fiz na vida. Mas, por acaso, existe outra pessoa, Ana?

— Eu não sei... nós estamos ainda no início, não sei se vai dar certo – Ela foi sincera.

— Entendo, mas eu só queria dizer a você que ainda me lembro como o nosso namoro foi bom. E que até hoje, não sei porque nós terminamos.

— Porque você me acusou de não lhe dar mais atenção. E logo depois que nós terminamos, você começou a namorar com Júlia.

— Foi só por isso. Eu fui um idiota! Mas, escute, caso não der certo com esse cara, me procure para podermos sair – Alberto insistiu.

— Pode deixar, eu me lembrarei.

Na hora do almoço, andando de volta para o escritório, Ana tentou falar com Raquel, mas caiu na caixa-postal, depois, ligou para Sílvia, que atendeu na 2ª chamada.

— Oi, Silvia! Como você está?

— Um pouco melhor, agora. Estou ansiosa pela viagem e rever Pedro, e, finalmente, conversamos cara a cara. Mal posso esperar. Estou até aprendendo um pouco de francês para poder me virar por lá – ela afirmou, esperançosa.

— Está ocupada? Pode conversar agora? — Ana precisa desabafar, pois com sua cabeça estava cheia de dúvidas e incertezas

— Claro, Ana! Estou no intervalo do almoço, pode falar. Não diga que tem novidade sobre o tal Marcelo?

— Não, ele não me ligou desde que transamos, já deixei um monte de recado, acho que acabou.

— Eu lamento muito, Ana. Talvez esteja ocupado ou tenha acontecido algo urgente.

—Ou, simplesmente, ele não está tão a fim de mim.

— Eu não sei o que dizer, mas foi muito estranho, ele chamar você para sair, no mesmo dia, em uma segunda-feira, depois de ficar o fim de semana inteiro sem ligar? Isso é muito esquisito, Ana – Silvia declarou, desconfiada de toda aquela história.

— É um pouco, mas Marcelo me explicou que teve que viajar com urgência a trabalho. O que eu sei que o que aconteceu entre nós dois, naquela noite, foi maravilhoso, incrível mesmo. Sabe como é? Ele tem uma pegada, rolou uma química, tudo foi perfeito, a terra tremeu, eu vi estrelas – Ana fechou os olhos e relembrou as sensações daquela noite, ainda podia sentir a sua boca na pele dela, abrindo caminho, um arrepio desceu por sua espinha, mas Sílvia não sabia sobre o que ela estava falando, pois, algo parecido jamais havia acontecido com ela.

— Então, e agora?

— É isso que não entendo, tudo parece perfeito e maravilhoso, nós nos entendemos tão bem na cama e fora dela, mas, de repente, ele some, me deixando perdida.

— Eu não sei, Ana, mas pode haver algum segredo por trás desses sumiços! Tipo ele ser comprometido ou algo parecido.

— Como se ele for casado ou faça algo ilegal, eu já pensei sobre isso.

— Então, não se envolva tanto e tão rápido, você mal conhece o cara – Silvia nunca se arriscava, estava em um relacionamento estável a vida inteira.

— Eu sei disso, mas é difícil, porque eu já estou envolvida. Eu fiquei de quatro por ele, literalmente – Ana confessou, de um jeito triste.

— Sim, eu já percebi isso, mas, cuidado. Vá com calma, você nem sabe quem é esse cara misterioso. Agora, tenho que desligar, as aulas vão começar. Beijos e me liga se tiver mais novidades — desligaram, enquanto uma campainha soava ao fundo.

Já havia passado quase uma semana, sem Ana ter notícia de Marcelo. Apenas duas ou três conversas apressadas e furtivas pelo telefone, ele explicando que não podia falar, parecia viver em reuniões intermináveis.

E as raras vezes que Ana ligava, caía na caixa-postal, ela deixava pequenos recados, dizendo-se com saudades e pedindo para ele retornar, o que dificilmente acontecia. Então, ela começou a achar que Marcelo a estaria evitando. Será que era isso? Ele estava esperando, que ela parasse de ligar e o esquecesse? Portanto, ela parou de telefonar, pensando que não precisava correr atrás dele, como uma chata insistente. Todavia, apesar de tomar essa decisão, Ana sofreu, ficou triste ao ponto de as pessoas do seu trabalho perceberem seu desânimo, mas ela resolveu levar a vida em frente e tentar esquecê-lo, de uma vez por todas. Pensou até em aceitar o convite de Alberto para sair.

Mas, para o seu espanto, na quinta-feira à noite, ela estava em casa, já havia tomado banho e colocado seu velho pijama favorito, quentinho e confortável, sentou-se para assistir televisão, trocando de canal, sem se interessar por nada, quando o seu telefone tocou, surpreender-se ao ver o nome na tela.

— Não acredito! — exclamou alto para si mesma, um tanto exaltada. Primeiro, pensou em não atender, para o seu próprio bem, mas o telefone tocou mais uma, duas vezes, no terceiro toque, ela não resistiu.