Três Príncipes, Três Princesas
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Notas iniciais
24 Semanas de Gestação
Edward
— Boa tarde, Bá.
— Boa tarde, senhor. O almoço já está quase pronto. Em cinco minutos poderá ser servido.
Ela pegou de minhas mãos o paletó e a maleta, sempre muito solícita, como só ela sabia ser.
Afrouxei e gravata enquanto pensava em mais uma maneira de tentar fazê-la parar de me chamar de “senhor”. Isso era irritante.
— Tudo bem, ainda tenho alguns assuntos a resolver. Não estou com fome. E minha esposa?
— Ela ainda não desceu, senhor. Segui suas ordens e não deixei que ninguém fizesse o menor barulho que fosse para não acordá-la.
Acenei em concordância, muito feliz por minhas ordens terem sido seguidas. Bella não havia dormido quase nada na noite passada. Os seis meses de gravidez estavam cobrando seu preço.
Graças a Deus, agora estávamos livres dos enjoos e da azia, no entanto, ela andava mais cansada, bem mais cansada. No final dos dias os pés e as pernas estavam tão inchados que só eleva-los não adiantava, então eu fazia a minha a minha parte, e os massageava muito para que ela relaxasse e o corpo voltasse ao normal.
Outra coisa que incomodava eram as câimbras, que na maioria das vezes, vinham nas poucas horas que ela conseguia dormir. Teve uma vez que acordei com ela sentada na cama gritando de dor por causa dos malditos nós na panturrilha. Era sofrido vê-la desconfortável e não poder fazer nada.
Eu me sentia “um merda” nessas horas.
A sede? Essa nem se fala. Estava em níveis indescritíveis e sempre vinha acompanhada da louca vontade de “fazer xixi” nas horas mais impróprias possíveis.
No domingo passado, tivemos que invadir a sacristia da igreja a qual frequentávamos, domingo de manhã. Porque Bella não conseguiu esperar até que a celebração acabasse.
Ainda bem que o padre era nosso amigo. Agora, os jornais não. No outro dia era manchete de capa, dos principais tabloides Angelinus e Forkianos, que a princesa- herdeira não era capaz de segurar a bexiga.
Isso atingiu Bella em cheio e me fez querer processar cada elo dessa imprensa marrom idiota.
— Tudo bem, Bá. Vou ver como ela está e, infelizmente, acorda-la. Ela precisa ir ao hospital agora à tarde.
— Sim, senhor. Ela havia me alertado para que não a deixasse passar do meio dia. Parece que ela tem coisas importantes a resolver lá hoje.
Ignorei o pequeno sentimento de desgosto ao saber que Bella não havia confiado somente eu mim, pois eu prometera que a acordaria no horário certo para que ela pudesse dormir mais um pouco. Porém, quem poderia culpa-la?
Ângela e eu, infelizmente, graças às dificuldades dessa fase da gravidez, havíamos conseguido que ela trabalhasse só um pequeno período de quatro horas por dia, no entanto eu queria mais. O afastamento total era meu ideal. Mas forçar, não estava em cogitação agora.
Ela estava se esforçando, fazendo a parte dela.
Graças a Deus, depois que Alice se conformou mais com a perda do útero e a bebê se recuperou, um pouco mais, minha mulher simplesmente decidiu que era hora de maneirar.
Simples assim.
Imagina como fiquei? Ainda não acredito.
— Tá bom, Bá. Pode terminar de cuidar do almoço. Vou acorda-la agora.
Subi os degraus que me separavam dela e lentamente abri a porta do quarto, o encontrando na mesma penumbra leve que o havia deixado horas mais cedo.
— Ah, Deus! Obrigado por isso.
Agradeci baixinho.
Bella estava deitada de lado, descoberta. A camisola lilás, bem clarinha, havia subido e se enroscava nas pernas desnudas e bem torneadas. As mãos descansavam sobre o ventre, agora bem proeminente, graças a lingerie já bem justinha.
Era a visão do céu, certeza.
Bem devagar, me aproximei da cama e sentei ao seu lado.
Instantaneamente, baixei a boca sobre seus cabelos.
— Boa tarde, minha vida. Você precisa acordar agora.
— Hmm. Não, não preciso.
Murmurou e fez careta ao perceber que era incomodada.
— Precisa sim. Você pediu para te acordar, princesa. E ainda tem que almoçar antes de sair.
— Vá embora, Edward. Eu não pedi nada.
Sorri quando ela pegou o travesseiro e se escondeu debaixo dele.
Como Charlie me alertou, várias vezes, Bella não era nada matinal e adicione a isso a fase mais manhosa da gravidez.
Eu estava amando tudo isso.
— Ah, princesa! Não faça assim. Porque juro que da próxima vez não te acordo mesmo. Bem melhor, porque não poderá se irritar, levarei essa nossa conversa em consideração, como desculpa.
— Essa conversa não vale. Estou dormindo. Sem condições de pensar nada coerente.
Sem me conter, gargalhei enquanto ela resmungava um “Vai, continua rindo da mãe dos seus filhos”.
— Tá bom então. Mas, se esforce e acorde enquanto preparo um banho para te alertar.
— Não vou tomar banho agora. Tomei ontem à noite.
— Ah, sua porquinha...
Comentei fingindo indignação, mas de verdade, eu estava demais, me divertindo com o “bom humor” dela.
— Não sou porquinha. Sou a favor da preservação da natureza. Tomei banho ontem à noite, Edward. Nem me sujei. Se lavar demais gasta.
Precisando ver o rosto dela, arranquei-lhe o travesseiro e o joguei do outro lado do quarto.
— Você está brincando, não está?
Ela abriu os olhos, a expressão era muito serena e até divertida.
Ela havia dormido bem depois que sai, do contrário, não sairia um sorriso tão fácil daquela face linda de princesa.
— Claro que não. Estou falando sério, muito sério. Se quiser escolher uma roupa para mim, tudo bem, mas banho não.
Abri a boca, continuando a fingir.
— Vou te denunciar para a vigilância sanitária, Isabella. Vai cuidar dos pacientes, que, diga-se de passagem, são criancinhas indefesas e não vai tomar banho? Um cúmulo. Meu hospital merece profissionais melhores.
— Ah, seu babaca!
Ela pegou o outro travesseiro, meu travesseiro, aliás, e o jogou em mim, toda brincalhona e divertida.
Eu amava quando ela estava assim. Significava que eu estava conseguindo alcançar meu objetivo: fazer com ela levasse a gravidez com mais leveza.
— Eu tomei banho depois que você saiu, seu chato. Meus pés estavam frios e não esquentavam. Então corri para o banheiro.
— Eu não vi. Então, não vale, continuo duvidando.
— Ah! Sai!
Ela me empurrou com os pés. Porém, fui mais ágil, segurei-os, e comecei a beija-los enquanto ela esperneava.
— Está com fome? Bá, está terminando o almoço.
Perguntei quando a fiz parar.
Deixei-a na cama e caminhei para o closet.
— Estou. Mas, queria uma coisa diferente.
— O quê?
Passei os dedos pelas roupas dela procurando algo que a deixasse confortável, mas que não marcasse demais. Bella estava ainda mais desejável e provocante com as novas curvas que adquirira. E eu não precisava que cada macho daquele hospital ficasse a devorando como lobos famintos o restante do dia em que eu não estaria por perto.
Ainda bem que eu tinha Stephan para cuidar do que é meu.
— Não sei. Acho que estou com vontade de comer a torta de pão da vovó Marie.
— Torta da sua avó?
Coloquei a cabeça de volta no quarto. Ela estava distraída olhando para o teto. Acho que nem percebia que alisava o ventre.
— É. É uma das especialidades dela. Sempre fazia quando eu ficava lá nas férias. Eu amo.
Sem fazer barulho, peguei o telefone que havia na última parede do closet e intercomuniquei com a cozinha, perguntando a Bá se ela sabia fazer e tal torta. Fiquei satisfeito quando ela disse que sim e que a receita era rápida, então a providenciaria imediatamente.
— Sua vó deve vir no fim da semana. Ela deve estar louca de vontade de ver o bebê, Alice e você.
— Eu sei. Mas eu queria agora. A boca está cheia de água.
Resmungou manhosa por achar que o desejo, tão simples, não seria realizado.
Mas, se Bella queria uma torta, ela teria uma torta. Pena que seria Bá a fazê-la.
Ela não havia pedido nada ainda, esse era o primeiro. Bella, não era dessas grávidas frescas que desejam coisas fora do comum. Bem que eu queria que ela me surpreendesse com algo maluco, porém, essa não era minha mulher.
Comedida e centrada, isso que Bella era.
— Espere só um pouquinho mais, princesa.
Disfarcei.
— Tá.
Respondeu não muito animada.
Voltei a passar as roupas, ignorando a vontade que sentia de poder dar lhe tudo o que desejasse. Infelizmente tinha coisas que não estavam em minhas mãos, mesmo sendo um futuro rei.
— Pode ser o vestido verde, com estampas pequenas, florais?
Escolhi um de manguinha, na altura dos joelhos. Bem comportado. Queria ver alguém ficar cobiçando-a agora.
Bella não respondeu.
Aumentei o tom de voz, talvez a distração tivesse impedido-a de ouvir.
— Amor, pode ser o vestido verde?
Mais uma vez, nada.
— Bella? Bella?
Assustado com o silêncio, corri para o quarto e o que vi me deixou em desespero.
Ela estava sentada, em posição de ioga, e segurava a barriga com as duas mãos. Os olhos estavam banhados de lágrimas.
Sem perceber, joguei o vestido no chão e “voei” para perto dela.
— O que foi? Princesa, o que foi? Está doendo? Está sentindo alguma coisa? Devo ligar para Ângela? Respire, pelo amor de Deus. Respire, Bella. Está doendo?
Eu era um mistura de desespero e insanidade. Não sabia o que fazer.
— Fale comigo, Isabella! Está doendo? O que devo fazer, princesa? Não me deixe à deriva.
Foi então que ela despertou do transe e olhou para mim. O balançar de sua cabeça, em negação a minhas perguntas, não aliviou meu coração.
— Então o que há? Você está chorando, amor. Onde dói?
Bem calmamente, ela pegou minhas mãos e levou-as ao ventre.
— O que foi? São os bebês? Está acontecendo algo com meus filhos? Bella, o que foi?
— Se acalme, Edward. Respire você. Se acalme e se concentre em suas mãos.
Os olhos dela se fixaram nos meus e ela respirava fundo e calmamente para que eu a imitasse.
E foi aí que senti, bem de leve, um movimento lento, mas contínuo, debaixo de minhas palmas.
Eles vinham de dois lugares diferentes, opostos.
— Isso... Isso...?
— Sim, são eles. Agora, que estão maiores, os movimentos ficam mais perceptíveis. Está sentindo?
Ah, eu estava. Mas, o bolo que se formou em minha garganta me impediria de pronunciar uma palavra. Por isso, só acenei uma concordância.
Aqueles eram meus filhos se mostrando, agora bem fortes, para mim.
Eu já havia os sentido outras vezes, mas nunca com tanta intensidade, antes era mais como um tremorzinho, agora não, aquilo era movimento, era real.
— O que está acontecendo? Eles estão agitados? Estão sentindo alguma coisa? Você está?
— Não, amor. Está tudo bem.
Bella colocou as mãos nos dois lados do meu rosto e beijou, com um selinho, minha boca.
— Estou com 24 semanas agora. Eles só estão começando a ficar grandes demais para o pouco espaço. Vão começar a ficar mais espevitados, dar cambalhotas, socos e chutes. Vão até soluçar. É o milagre da vida, Edward. Não estão sentindo nada de anormal, talvez um pouco de fome, mas isso já é costumeiro, não é?
Sem conseguir mais refrear meus instintos de pai e marido devotado, baixei a cabeça e beijei, ardorosamente, o abrigo de meus bebês.
— Então, meus amores, podem se acalmar. Não precisam chutar a mamãe, ela é meio relapsa com essas coisas mesmo, mas o papai vai salvar vocês.
— Edward!
Gritou ela quando, de surpresa, a peguei no colo e nos guiei para a cozinha.
Bella almoçaria de camisola mesmo.
Meus filhos estavam se mostrando, mais intensamente, para nós e nunca que os deixaria querer algo, que estivesse ao meu alcance, e não realizaria.
— Bá, meus filhos estão com fome. Sirva o almoço, por favor.
Donna sorriu quando entrei na sala com Bella no colo.
— Sim, senhor, é pra já.
— Vai me colocar na cadeira ou vou comer no seu colo mesmo?
— Vou te sentar ali, mas não se acostume. Gostei da ideia de alimenta-la em meus braços.
Ela se ajeitou e me acertou com o guardanapo.
— Fiquei sabendo que queria uma torta, princesa. Prove. Tenho certeza de que está tão boa quanto à de dona Marie.
Os olhos de Bella se abriram mais de apreciação quando Bá colocou um tabuleiro enorme na frente dela.
Tenho que confessar, estava com uma aparência deliciosa.
— Amo vocês, sabiam?
Ela se serviu com um pedaço generoso e gemeu quando degustou do alimento.
— Bom. Muito bom.
Ela sorriu docemente para Bá. Fazendo-a muito feliz.
Porém, eu conhecia a mulher com quem dormia.
Não era a torta da avó dela. Não com o toque de dona Marie.
E algo precisava ser feito a respeito disso. Não era aceitável que meus filhos passassem vontade de se deliciarem dos dotes culinários da bisavó.
Eu só não sabia quem teria maior surpresa naquele dia, Bella quando eu realizasse seu desejo, ou dona Marie por saber que a neta predileta desejava algo que só ela sabia fazer do jeito que ela gostava.
Alice
— Oi. Chegou cedo. Eu disse a Chay para avisa-la que te buscaria quando estivesse na hora.
Sem tirar a mão do vidro, que me separava de minha filha, olhei para Jasper e ofereci meu rosto para que ele beijasse.
— Desculpe-me. Estava ansiosa por vir logo.
Os lábios dele se demoraram em minha bochecha, inspirando, apreciando. Senti os pelos da nuca se arrepiarem, contudo, os ignorei. Eu ainda não estava pronta para pensar em mim ainda.
Minha filha era o importante agora.
— Como ela está hoje? Já falou com os médicos?
Voltei meus olhos para a sala branca e toda equipada.
— Ela está bem. Jake disse que os pulmões continuam progredindo e que ela já se fortaleceu muito nas últimas cinco semanas.
— Então poderemos mesmo leva-la para casa hoje?
Acenei em concordância pensando em como era bom vê-la livre do respirador mecânico e daquele monte de agulhas, tubos e fios que tanto macularam a pele de porcelana de meu bebê.
Só em lembrar o dia em que eu recebera alta e ela não, meus olhos enchem de lágrimas e uma angustia louca ameça vir à tona.
— E por que ele ainda não saiu de lá? O que estamos esperando?
— Bella. Ela ainda não chegou e Jacob quer mostra-la todos os avanços para ver se concorda com a alta.
Jasper suspirou e também colocou a mão no vidro, ao lado da minha. Era como se acariciássemos nossa filha.
— Vocês ainda não se acertaram?
Neguei com a cabeça. Se falasse alguma coisa era provável que não saísse uma palavra sem soluçar e chorar alto. Eu estava uma loucura de sentimentos e emoções.
— Não fique assim, Alice. Ela te perdoará. Perdoou a mim, a meu irmão. Você é irmã. Logo isso passa.
Passou o braço por meu ombro, deitei a cabeça em seu peito e me deixei ser consolada.
— Não, não será assim tão fácil, Jas. Eu ser irmã é totalmente o problema. Bella se doa demais por nós. Ela é exatamente como meu pai, perdoa, desculpa, esquece. Porém, quando perde a paciência, aí é de uma vez só. A decepção os domina, e eles são incapazes de esquecer. Rosie e eu já somos totalmente mamãe, brigamos gritamos, falamos o que deve e o que não deve. Mas depois, passou, esquecemos e voltamos a ser o que éramos. Bella, não.
Senti os olhos se enchendo de lágrimas.
— Ela me suportará, a partir de agora. Falará e conviverá comigo, porque é assim que deve ser. Porém, a amizade de irmã que compartilhávamos? Só o tempo e Deus para trazerem de volta, se trazerem.
— Estou aqui, Alice. Vou te ajudar com isso, prometo que vou. É por culpa minha que chegaram a essa situação. Então vou ajuda-la a consertar. Prometo.
Eu sabia que a culpa não era dele, ainda estava vívida em minha mente as palavras que disse a ela em sua casa. Porém, a covardia me proibiu de contradizê-lo. Eu precisava demais dele em volta de mim naquele momento.
Recordar o momento onde meu mundo nada perfeito ruirá de vez, ainda era doloroso demais.
Lembranças On
Alice 5 semanas atrás.
— Ai...
Gemi.
— Tudo bem. Fique quietinha e abra os olhos devagar.
Algo incomodava meu nariz e espetava meu braço. Uma pontada estranha doía em minha cabeça e as luzes fortes afetavam, em cheio, minha visão.
Eu estava no inferno?
— Água. Estou com sede.
— Tá. Vou levantar sua cama, um pouquinho, não se assuste.
O movimento fez com que outra dor profunda atingisse meu baixo ventre. Imediatamente, levei a mão a minha filha e, assustada, abri os olhos de uma vez.
— Meu bebê? O que aconteceu?
Tentei me sentar, porém mãos delicadas, de minha irmã, me fizeram encostar-me à cama, de novo.
— Seu bebê está bem, Alice. Levaremos você para vê-la assim que se fortalecer mais.
Um canudo foi colado em minha boca: água.
Só então, enquanto sorvia o líquido, fui capaz de observar tudo ao redor.
Eu estava no hospital, agulhas e fios saiam de várias partes de meu corpo. Mas, o mais assustador era que minha barriga havia quase que desaparecido, o bebê havia nascido e eu nem percebera. Não era assim que eu sonhava que aconteceria.
— O que aconteceu, Bells? Ainda não estava na hora.
Ela retirou o copo de perto de mim, deu-me as costas, o colocou na mesinha ao nosso lado, respirou fundo e só então me encarou.
Não me passou despercebido o quanto ela estava cansada, com olheiras e muito abatida.
— Você deu pré-eclâmpsia, juntando com estresse, uma hemorragia. Estava tendo sofrimento fetal e Ben optou por uma cesárea de emergência.
— Mas, não estava na hora. 31 semanas, 32? O bebê não estava pronto. Como isso pode acontecer? Quero vê-la.
Tentei forçar, outra vez, meu corpo para cima. Mais uma vez, ela me impediu.
— Jacob está cuidando dela. Se acalme. O pior já passou. Agora é só descansar e deixar que seu corpo se recupere.
— Se está tudo bem, por que está tão apreensiva e cansada? Você está mentindo, Isabella.
Ela permanecia de braços cruzados, numa postura muito defensiva. Não parecia nada tranquila.
— Preciso que se controle. Temos que conversar, mas só vou fazer isso se me prometer que se controlará e não desesperará.
Ela não estava de uniforme, porém me tratava como uma profissional, não como uma irmã.
O que estava acontecendo?
— Eu prometo.
Olhou-me intensamente, claramente em dúvida, e então, sem alternativa, se pôs a me contar da fatídica noite em que dei a luz a minha linda filha, segundo ela, porém também fora a noite em que perdera meu útero.
O fim de um sonho.
— Esta me dizendo que nunca mais poderei ter outro filho?
Ela negou. Os olhos muito atentos aos meus. As mãos, segurando o estetoscópio e o corpo ao lado da campainha de emergência.
Bella esperava por um ataque meu.
— Eu... Eu queria mais, Bella.
As lágrimas desceram sem que eu pudesse segurar. Eu não podia ficar nervosa, mas poderia chorar, não poderia?
Uma dor excruciante ameaçando me dominar.
— Eu sei, Lice. Eu sei. Lamento.
Ela tentou me tocar, porém, puxei os ombros para longe do alcance dela. Eu não precisava de sua pena, aliás, não precisava da pena de ninguém. Aquela não era eu.
Tranquei a dor em meu peito e vesti a carapaça de forte.
Eu fora treinada para ser rainha, sabia disfarçar qualquer sentiemto.
— Quem está com o bebê agora?
Engoli o choro.
— Jasper e Esme. Jacob permitiu que duas pessoas da família, desde que bem higienizadas, ficassem com ela o tempo todo.
Ela estava atenta a mim e parecia, verdadeiramente, chateada por eu não ter me desesperado, com ela esperava que dizesse.
— Jacob? Ele é que está cuidando dela? Não o quero. Quero você. Cuide da minha filha já que não foi capaz de cuidar de mim.
Os olhos dela se abriram mais perante minhas palavras.
Eu não estava muito coerente. E acabara de feri-la para me proteger.
— Jake está cuidando dela, dia e noite. Sou impedida de clinicar qualquer pessoa da família, Alice, você sabe disso.
— Não me importo. Chame Aro, chame Edward. Você não é a futura rainha? Se comporte como uma.
Foi instantâneo, a expressão dela mudou, de carinho e piedade para decepção.
Eu havia relembrando-a de tudo que havia falado de errado alguns dias atrás.
— Você está fora de si, Alice. Precisa descansar e relaxar para se recuperar. Vou mandar chamar Ben para te avaliar.
Triste e com muita raiva, ela deu-me as costas e se afastou. Incapaz de discutir ou me contradizer.
— Bella?
Ela não se virou, nem me respondeu.
— Você e Jasper precisam escolher um nome para o bebê. A intimidade os fortalece. Vou avisá-lo que você já acordou. Evite gritos e estresses. Sua filha precisa que você se recupere logo.
— Bella?
Voltei a chamar, ela continuou se afastando.
— Mamãe e papai vão entrar agora. Espero que fique bem. E...
Respirou fundo como se lhe doesse o que faria em seguida e verdadeiramente: doeu.
— Nada mudou, Alice. Serei sua rainha. Trate-me como uma ou a esmagarei como um inseto. Nossa pausa, pelo seu parto prematuro, acaba agora.
Ela não levantou a voz, nem se irritou. Só a decepção era palpável até na postura corporal dela.
Eu havia ferrado com tudo, de novo.
— Annie, irmã. O nome dela é Annie.
Bella não me olhou. Só saiu pela porta e me deixou sozinha com minha consciência gritando que agora, eu estragara com tudo mesmo.
Minutos depois, quando eu ainda avaliara o tamanho do estrago que causara, papai entrou e se sentou numa cadeira ao lado de minha cama.
Cinco minutos foi o tempo em que ele simplesmente me olhou em silêncio antes de desabar em mim tudo que eu não precisava ouvir naquele instante.
— Acho que eu deveria te agradecer, antes de qualquer coisa.
Prestei atenção nele. Charlie não me tocou, nem beijou. Ele estava tão distante quanto Bella.
— Você acabou de fazer com que sua irmã se sentisse com a missão cumprida. Acho que agora ela se afasta de vez, do hospital. Acho que Edward também te agradecerá.
Fiquei quieta, eu conhecia Charlie e sabia que o pior estava por vir.
— Acho que além de perder a pediatra não oficial de sua filha, também acaba de perder sua irmã. Mas, isso não importa, não é, Alice? Você não precisa de ninguém.
— Pai...
— Pai não. Cale a boca! Minha vontade é de ir embora e te deixar nesse caminho que escolheu, Alice. Porém, sua mãe insiste em você. E eu não desistirei de sua mãe. Não desisti quando queria, imagina agora que não quero?
Charlie se levantou e também se preparou para sair.
— Então, filha, decida o quer da vida. Quer voltar para Forkian, bom faremos isso. Quer ficar aqui, bom também, terá o que quer. Só pare de ferir as pessoas enquanto não decide por onde seguir. Você acaba de perder sua irmã. E eu? Bom, apronte mais uma das suas, e prometo, tiro até seu nome do meu testamento.
Estremeci por dentro. Charlie não estava brincando, ele nunca brincava.
— Ah, e seu marido? Bom, ele acaba de se apaixonar por sua filha. Então, isso significa que ele tem outras prioridades agora. Pensem bem, Alice. É isso que quer? A solidão é o que almeja? Porque se for, parabéns! Está próximo, muito próximo de alcançar seu objetivo.
E para deixar claro que não estava brincando, papai também me deixou sozinha.
Nem ele nem Bella me visitaram durante toda semana que eu permanecera internada.
Via minha irmã, vez ou outra, na UTI com Annie, ela sempre me colocava a par dos progressos de minha filha, porém, sempre era a médica Isabella que falava.
Eu havia perdido minha irmã e não via como começar a consertar tudo que estraguei.
Lembranças Off
Bella
— Boa tarde, boa tarde...
Cumprimentei a todos da UTI neonatal.
— Ê, ser parente do dono tem suas vantagens, ein Bellinha? Trabalha mais não, mulher?
— Trabalho não. Tenho prioridades agora.
De máscara, me aproximei de Jacob e lhe beijei no rosto.
Fazia mais de um mês que ele não “arredava pé” do hospital. Sempre ao lado de Annie. Só queria saber como ele convencera Leah de que precisava ficar aqui.
Só espero que ela não me culpe por isso também.
— E como está essa mocinha aqui?
Perguntei já a apalpando e conferindo a pulsação e a respiração.
— Pronta para ir para casa, aliás, ela e eu. Só esperando o aval da tia e dona dessa “coisa toda” aqui.
Auscultei.
— Bom, muito bom. Exames de hoje cedo?
— Todos dentro da normalidade. A respiração está melhor e ela mamou na mamãe muito bem, desde sexta feira.
Sorri ao pensar nela já se mostrando uma guerreira e vencendo todos os desafios que lhe foram impostos.
— Então, o que você diz, doutor Black?
— Eu digo que ela pode ir para casa. Mas, a chefe aqui é você. Então resolva.
Olhei para Alice e Jasper nos encarando com expectativas do lado de fora. Estrategicamente, eu havia entrado pelo outro lado, evitando assim, o contato com eles.
O distanciamento era o melhor para todos nós no momento.
— Tudo bem.
Peguei o prontuário e assinei a autorização para a alta.
— Libere-a. Mas, marque com os pais o dia em que retornará de sua folga, para que eles possam trazê-la para você. Precisamos ficar atentos a qualquer mudança.
— Sim, senhora, “chefa”.
Bateu continência e mesmo com a máscara, deu para ver que Jacob abria o maior de seus sorrisos.
— E vá para casa, Black. Você está de folga a partir de agora. Não me apareça aqui pelas próximas duas semanas.
Sai por onde entrei evitando, de novo, falar com Alice ou Jasper.
Eu voltaria para casa.
Estressar-me, estressar meus filhos e Edward estava fora de cogitação.
Eu era dona de mim agora.
Edward
Cheguei em casa, por volta das seis da noite, as luzes da frente estavam todas acesas e o carro de Bella já estava na garagem, como era de costume agora, graças a Deus.
— Sam, Stephan já deve estar no quarto dele, chame-o, reúna toda nossa equipe de segurança e informe-os dos acontecimentos de hoje. Diga a Stephan que o quero em meu escritório depois das onze.
— Sim, senhor.
Eu já pensava numa maneira de colocar Bella na cama e depois descer para falar com Stephan.
Nossas forças armadas haviam terminado a primeira parte da missão, os terroristas haviam sido expulsos de Volterra e se encontravam encurralados nas montanhas ao norte.
Uma grande vitória.
O problema era que eles voltaram a ameaçar, e dessa vez Bella era o único alvo. E nossa inteligência acreditava que eles já teriam seus representantes infiltrados em nosso reino.
Caça-los era meu objetivo de vida agora. A sensação ruim, que não me abandonava mais, me alertava que era isso que eu precisava fazer para voltar a ter paz.
— O avião já pousou?
— Sim, senhor. Acabei de falar com o comandante. Em dez minutos eles estarão aqui.
— Ok. Pode descansar agora. Não precisarei mais de você hoje.
Entrei, e ele se distanciou. Sam, era um homem de poucas palavras. Eu estaria mentindo se dissesse que não sinto falta de Stephan a meu lado dia e noite.
— Boa noite. Chegou cedo.
Olhei para minha linda esposa esparramada no sofá, envolta de um monte de papeis que supus, serem do hospital.
Se ela não ia até o trabalho ele vinha até ela. Menos mal!
— Queria ficar mais tempo com minha família.
Joguei o paletó, a pasta e a gravata em cima do aparador.
Ocultei o fato de que estava louco para tê-la em meus braços aplacando o medo que senti quando vi a gravação dos terroristas dizendo como cortariam, pedacinho por pedacinho, da princesa mais bela, desse reino.
Deus! Isso tinha que acabar.
— Jake e eu demos alta a Annie.
— Isso é bom. Muito bom.
Tirei as pastas que estavam ao lado dela, as joguei no chão, me sentei e puxei seus pés, muito inchados, para meu colo.
— Ficou lá muito tempo?
Perguntei fingindo pouco interesse.
— Cheguei duas horas e vim embora quatro. Só dei algumas altas e trouxe alguns casos para revisar. Não fiz extravagância. Sei de minhas responsabilidades, Edward.
— Eu sei que sabe.
Amoroso, puxei seu pé para perto de meu rosto e beijei toda parte de cima. O frescor e o cheiro me alertaram que ela já havia tomado banho, sem mim.
— Como foi no trabalho? E seu pai?
Fiz uma careta. Eu não queria chatea-la com problemas do reino. Ainda mais de Carlisle.
Se bem que ele andava bem calmo nas últimas semanas...
— Foi tudo bem. Papai está entretido com a aprovação do orçamento do ano que vem. Nem tenho o visto.
— Isso é bom.
Ele encostou-se ao sofá e gemeu se deliciando com minha carícia.
— Tem um carro chegando. Está esperando alguém?
Alertou-se quando ouviu o barulho do atrito dos pneus com as pedras do estacionamento lateral que só usávamos quando íamos chegar e sair logo em seguida.
— Não. Eu não. Você está?
Ela negou. Os cabelos presos, num rabo de cavalo, balançando conforme ela sacudia a cabeça.
— Você precisa abrir a porta, Edward. Bá foi ao supermercado. Estamos sozinhos aqui.
— Abra você. Estou muito cansado. Trabalhei o dia todo, enquanto você só fez duas horinhas naquele hospital para receber aquele salário daquele tamanho.
Brinquei e em troca recebi uma batida de pasta, que ela lia, nas costas.
— Eu estou grávida. Você podia colaborar, não é?
Levantou-se. Esperei até que ela estivesse longe de algo pesado que pudesse causar danos graves a minha cabeça.
— Gravidez não é doença.
Exclamei alto.
O olhar indignado e gélido dela, só não me fez tremer porque eu sabia que ela ficaria muito feliz quando descobrisse quem, insistentemente, batia na porta agora.
— Já vou, já vou. O imprestável do meu marido “morreu e esqueceu-se de deitar”, só um minuto, já vou...
— Linda!
Provoquei.
— Idiota!
— Gostosa!
Retruquei sorrindo a cada insulto irritado. Oh hormônios!!!
— Espero que seja uma visita muito legal, Edward Cullen, e que seja para mim, porque se não for, você é um marido que vai estrear o sofá do closet. Isso é uma promessa, viu?
Arregalei os olhos e rezei para que fosse quem eu esperava mesmo. Porque do contrário, eu era um homem que teria uma maldita noite.
— Vovó?!
O grito de surpresa dela me fez relaxar. Eu estava salvo.
Acho que até seria recompensado essa noite por bom comportamento.
Porque sim, eu era o “marido fodão” que realizava o desejo da esposa e dos filhos.
“Um viva” para Edward Cullen!
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