Três Príncipes, Três Princesas
64 Ouça isso...
Notas iniciais
Esme
Era isso, eu estava irritada, muito irritada, diga-se de passagem.
Minha família estava de cabeça para baixo e, pela primeira vez em anos, eu não sabia que decisão tomar, que rumo seguir com eles para que tudo voltasse a ser como antes.
E, infelizmente, eu só conseguia ver um culpado nisso tudo.
— Bom dia.
— Bom dia.
Respondi sem levantar os olhos da xícara de café que eu adoçava com toda atenção do mundo.
O homem que discordara totalmente da opinião dos filhos por puro interesse financeiro, parecia alheio à gravidade das ameaças a minhas noras.
— Jasper e a mulher?
— Já saíram. Alice na frente e Jasper atrás dela, gesticulando e discutindo por alguma coisa que não consegui entender.
— Eu queria que eles parassem com isso. Jasper está impossível e insuportável esses dias.
— Eu quero é novidade...
Resmunguei ainda sem levantar os olhos.
— Amor, pare de ser evasiva comigo. Eu não fiz nada. Tenho me comportado bem. Pare de me ignorar.
Puxei a mão que ele tentava segurar para acariciar.
— Você já pensou se Edward conversa com sua mãe? O inferno que se tornaria nossas vidas. Elizabeth pode ser um amor com os netos, mas conosco ela não seria complacente, Carlisle.
— Ah! De novo isso. Esse assunto já está encerrado e resolvido. As tropas já estão a caminho de Volterra e logo o porta-aviões atracará na costa também. Edward e Jasper terão a guerra que querem e mamãe nem ficará sabendo dos imprevistos que nos levaram a isso.
Perdendo totalmente o desejo de fazer as pazes, ele colocou, com brusquidão, o guardanapo sobre o colo e passou a apreciar o desjejum.
— Guerra que querem? Guerra que querem? Achei que esse era um assunto de família. Achei que estava de acordo com as ideias e preocupações de seus filhos.
— Mas eu estou, mulher!
Aumentou a voz e se levantou emanando raiva por todos os poros.
— Eu só queria resolver a situação de outra maneira, mas, seus impacientes e imaturos filhos resolveram usar a mesma tática dos terroristas, ameaças. Então, não tem outro jeito. Melhor assim porque acabamos com esse assunto de vez. Agora que colocamos tudo em pratos limpos, será que podemos tomar café em paz ou terei que fazer isso no trabalho?
Rá, ele continuava gritando. Como se eu fosse surda e burra.
— Tenha um bom dia, majestade. Diga a sua secretária que seu café deve ser sem açúcar e bem forte, porque esse mau-humor e essa falta de educação só podem sem curados assim.
— Esme...
Levei minha xícara à boca já com a atenção voltada para os bolinhos de milho, a minha frente.
— Passe bem, senhor meu marido.
Coloquei um ponto final, naquela conversa.
A ele coube respirar fundo e se retirar. Mais tarde e com a cabeça cheia pelo remorso e vontade de fazer as pazes, Carlisle se desculparia e tudo voltaria ao normal.
Eu tinha que levar em consideração que meu marido não tinha noção dos porquês dos medos insanos de Edward. Contudo, ele também tinha que levar em consideração, que em algum momento, o reino não estaria mais em suas mãos e que era obrigação dele ensinar ao novo rei que sacrifícios e atitudes drásticas às vezes são essenciais para a salvação do reino e seus aliados.
Alice
— Alice...
Passei, o quão rápido minha barriga me permitia, por minha secretária sem nem ao menos cumprimenta-la.
Eu precisa trancar aquela maldita porta antes que o “bastardo gritador” me alcançasse.
— Eu não estou para ninguém e não deixe ninguém entrar sem minha autorização.
Creio que ela tenha murmurado um “sim senhora”, mas não tenho certeza. Eu precisava fechar aquela porta.
— “Merda, Alice”! Meu pé.
“Merda” digo eu. Por que aquilo não fechava?
Reclamei mentalmente forçando tudo o que podia, enquanto Jasper empurrava do outro lado e a calçava com o pé.
— Ah! O que você quer, Jasper?
Desisti quando o cansaço foi demais.
— Falar com você. Por que está fugindo de mim?
— Não estou fugindo. Só tenho muito trabalho para colocar em dia, uma coleção para lançar e um desfile de caridade para organizar para as festas de fim de ano e isso tudo antes do bebê nascer. Agora será que pode sair daqui? Preciso mesmo me concentrar.
Joguei a bolsa e o casaco sobre o sofá para somente depois encontrar o conforto de minha poltrona.
— Vamos ao hospital primeiro. Faz tempo que você está fora e não vejo meu filho. Quero fazer isso agora.
— Vai ficar querendo. Só saio daqui depois das dezoito horas. Agora suma e me deixe trabalhar em paz.
Olhando-me intensamente, ele encostou-se à porta, levantou o pé direito, cruzou os braços e dobrou, de leve, a cabeça para a direita.
Senti-me como uma presa, minutos antes de ser atacada. Só que infelizmente, para ele, a antiga Alice que havia conhecido, não existia mais.
— Você está sendo negligente. Não tem recebido o acompanhamento necessário. Isso pode ter sérias consequências. Eu não te perdoarei se algo acontecer ao meu filho.
— Nem eu te perdoarei!
Gritei perdendo a paciência e deixando que os hormônios falassem por mim.
— Esse bebê está no seu limite assim como eu. Consultei-me com a obstetra de Rosie em Forks. Estamos bem, completamente bem. Só precisamos de paz e sossego para que tudo fique melhor. Mas, você não colabora, não faz a sua parte, Jasper.
— Você se consultou com um estranho? Fez uma ultra? O que está me escondendo, Alice? Eu sabia que aquelas suas irmãs são uma péssima influência. Por que não me contou? O que deu nos exames?
Ignorando toda a parte de paz, que eu disse, ele se aproximou e firmou as duas mãos em minha mesa.
— Eu não fiz ultra nenhuma. Nem exames. Só tirei algumas dúvidas com a obstetra de Rosie. Pelo amor de Deus homem, saia daqui. Eu estou tão cansada!
Pousei uma mão na barriga, a outra foi imediatamente para a cabeça quando uma pontadinha bem lá no fundo ameaçou me incomodar.
— O que foi? Está sentindo algo? Precisa de um médico? Quer que eu ligue para o doutor Riley? Ele nos atenderá, basta eu pedir.
— Eu quero que você vá para o raio que o parta, inferno!
Gritei mais alto ainda, o surpreendendo outra vez.
— Tá, tá bom. Eu estou saindo. Só se acalme, okay? Seu nervoso não é legal para nosso filho e...
— Saia de uma vez!
Atravessei o cômodo e abri a porta, com brusquidão, o deixando muito confuso com meus rompantes. A velha Alice nunca agiria assim.
— Alice, eu...
Tentou falar, contudo, e graças a Deus, ele já estava do lado de fora. Então fechei a porta com força e passei a chave.
Quero ver como ele me irritaria agora...
Bella
— Bom dia, Bree. Estou aguardando um telefonema da doutora Jéssica. Avise-me o quanto antes ela ligar.
— Sim, senhora.
Passei por ela sentindo a tristeza de perceber a recepção vazia. Graças a minhas férias forçadas em Forkian eu não tinha nenhum paciente agendado pelas próximas semanas, já que não contávamos com o adiantamento do nascimento de Lizzie.
— Bree, providencie, por favor, um café da manhã completo para nós. Saímos muito cedo e estamos famintos.
— Sim, alteza. Algo em especial?
Rolei os olhos para o “alteza” dela.
Edward levantou as sobrancelhas para mim, em indagação a pergunta de minha secretária.
— Humm...
Eu nem estava com tanta fome assim, o jejum por conta dos exames e o presente enjoo matinal, não me deixavam pensar em algo apetitoso para àquela hora.
— Um café e um croissaint de queijo.
— Só? Amor?
Neguei com a cabeça e entrei em minha sala. Será que todo homem acha que gravidez é sinônimo de apetite desregulado?
Edward estava me deixando louca, desde que descobrira da gravidez. Ele vinha querendo me “empanturrar” de comida.
Em Forkian ele até se segurava mais, mas bastou que colocássemos o pé em casa ontem à noite, para que ele enchesse Bá de ordens quanto a minha alimentação.
Até minha babá se assustou com tal comportamento.
— Traga leite, pães, suco de laranja, bolos diversificados, queijos e frutas, muitas frutas, Bree. Frescas e bem nutritivas.
Voltei a revirar os olhos, exacerbada quando o ouvi refazendo meu pedido, enquanto me sentava e ligava o computador, por pura força do hábito.
— Pronto. Podemos relaxar e esperar agora. O que está fazendo?
Dei de ombros para dizer que não estava fazendo nada.
— Você convidou seu tio e mais toda a diretoria do hospital para tomarem café na minha sala? Porque Edward, você pediu comida para um batalhão.
Sem me dar muita atenção, ele atravessou o cômodo, agarrou minha mão e me levou até o sofá.
Sem esperar por autorização, empurrou meu corpo para que eu me sentasse, retirou meus sapatos, também se sentou e por fim, puxou meus pés para seu colo.
— Estou faminto, princesa.
— Ainda bem que alguém está.
Murmurei já de olhos fechados. A cabeça já descansava no encosto do assento.
— Você também está, anjo. Não negue. Só te vejo de mau- humor por fome ou sono. Qual dos dois te atormenta mais hoje?
— Odeio acordar cedo.
Reclamei o ouvindo rir e massagear meus pés.
— Eu sei. Mas, era preciso, minha vida. Ângela disse que seus exames tinham que ser feitos em jejum. E que não era aconselhável ficar mais do que o necessário sem se alimentar.
— Eu sei. Mesmo assim é um saco.
Eu estava me saindo uma manhosa de primeira. E Edward não ajudava. Ele parecia se divertir e adorar minha ceninha de garota de Charlie.
— Venha aqui, minha linda. Você pode dormir um pouquinho enquanto Bree não chega e a doutrora Stanley não nos chama.
Fui, de muito boa vontade, para o colo dele e me aninhei ali.
— Eu queria Ângela.
— A obstetra de Rósalie?
Acenei em concordância já sentindo a mente nublada pelo sono.
— Por quê? A doutora Stanley não é boa? Não tem outra opção num hospital desse tamanho? Podemos consultar com quem você quiser.
— Jéssica é boa. Só não suporto sua índole. Ela fofoca demais. Aproveite esse nosso tempo, ligue para seu advogado e peça para que ele prepare um bom termo de confidencialidade, inclusive com uma multa milionária. Precisamos nos precaver de alguma maneira ou hoje a tarde mesmo todo reino já saberá de nosso segredo.
Creio que tenha dito isso em voz alta, o cafuné dele em meus cabelos era tão bom...
— Tem outro obstetra bom aqui no hospital, o doutor Ben, mas duvido que você aceite que outro homem veja as sua mulher em trajes mínimos ou até mesmo a toque.
— Não! Nunca! Nem pensar! Fora de cogitação.
— Viu? Foi o que imaginei... Por isso eu queria Ângela aqui. Estudei com ela. Sei o quanto é competente e centrada. Mas, uma garota grávida de primeira viagem, não pode ter tudo o que quer, não é?
Ele ficou um tempinho a mais, calado. Cheguei mesmo a pensar que eu estava dormindo e conversando em meu sonho.
Até que ele se manifestou bem baixinho fazendo assim com que eu me entregasse de vez tamanha segurança que me passou.
— Durma agora, princesa. Descanse, que terei tudo pronto para quando começarmos seu pré- natal.
Durma porque estarei aqui zelando pelo seu sono e de nosso pequeno milagre.
Sem mais delongas, segui seu conselho.
Edward
Devagar, mas bem devagarzinho mesmo, inclinei o corpo por sobre o de Bella e peguei a almofada que estava do outro lado.
Depois, com mais cuidado ainda, fui deslizando o corpo por baixo do dela até conseguir sair totalmente dali.
Substitui meu colo pelo tal objeto e o calor dos meus braços pelo paletó que eu usava.
— Não. Edward?
— Shi! Pode dormir, anjo. Estou aqui.
Era incrível como ela pressentia minha ausência. Eu quase morria de tanto orgulho dessas suas pequenas dependências.
Beijei sua testa e fiquei alguns segundos perto até que ela voltasse ao sono profundo.
Mas... Eu precisava agir.
Abaixei a luz do ambiente onde ela estava e sem fazer barulho voltei para sua mesa. Logo eu estava com o celular em mãos, cochichando.
— Edward, meu sobrinho, quanto tempo. Ainda se lembra de que tem um tio que trabalha no mesmo hospital em que você busca sua mulher quase todos os dias?
Hunf! Eu já esperava por isso. Tio Aro era o meu tio preferido e saber que eu vinha negligenciando nossa relação, não era algo de que eu me orgulhava. Contudo, minha vida andava tão corrida.
— Oi tio. Claro que eu me lembro do senhor. Sempre que Bella chega em casa estressada ou no seu limite de cansaço, me lembro de que ela tem um chefe carrasco e que devia aliviar a barra por ela ser a esposa de seu sobrinho predileto.
Ele gargalhou.
— Então isso é uma ligação para reclamação? Filho, lamento te informar, mas Bella é uma das melhores. Perdoe-me, mas vou sugar tudo que posso dela antes que você invente de trancá-la em sua torre de vez.
Ah, se ele soubesse como sonho com isso.
— Mas, deixando as brincadeiras de lado, está tudo bem? Fui informado de que vocês passaram pelo laboratório hoje mais cedo? Ainda estão aqui? O que foi, sobrinho?
Fofocas, como Bella bem disse.
— Não é nada de grave, tio. Bella só está fazendo uns exames de rotina. Mas, quanto à ligação o senhor está certo, preciso de um favor.
— Eu sabia. Se estiver ao meu alcance lógico que te ajudarei.
Respirei fundo, o mais complicado seria não revelar a tio Aro meus motivos. Seria injusto com minha família e a de Bella se ele descobrisse da gravidez antes deles.
— Tio, como o senhor sabe, chegamos de Forks ontem e...
— Ah, é verdade. E como estão Rósalie e Emmett? Minha sobrinha-neta é mais Cullen ou herdou a “feiura” dos Swans?
— Eles estão bem, todos bem. Logo Emm e Rosie trarão Lizzie para serem apresentada ao restante da família.
Ignorei a provocação. Se tinha um defeito que as Swans não tinham era quanto a aparência.
Oh genética...
— Mas, tio, voltando ao meu pedido, estivemos com Rosie no hospital e percebi que ela foi atendida por uma obstetra, Ângela Weber, que é amiga de minha esposa. Aliás, elas estudaram juntas e Bella só tem elogios a fazer da garota. E estive pensando que se fizéssemos uma proposta boa, talvez Ângela deixasse Forkian e se juntasse ao corpo clínico de Ângelus. Seria um bom investimento para nós já que ela teria o aval e a recomendação de minha esposa.
Aro não respondeu imediatamente o que só me fez pensar que ele estava ponderando ou juntando os pontos.
— Rotina é? Sei.
Juntando os pontos, definitivamente, juntando os pontos.
— Tio...
— Tudo bem, Edward. Não vou especular. Te conheço e esperarei sua hora. Só preciso saber se a contratação dessa moça é um pedido ou uma ordem. Porque você sabe, se for um pedido serei mais maleável e aceitarei um não dela como resposta. Agora se for uma ordem...
Voltei a olhar para onde Bella dormia tranquilamente. Eu faria qualquer coisa por ela.
— É uma ordem, tio. Eu quero que Ângela Weber empregue o corpo clínico do HoCedeA, a partir da semana que vem.
— Considere feito, filho. Agora encerre essa ligação e me deixe trabalhar. Eu tenho uma obstetra nova para contratar e uma antiga para acalmar. Porque sim, Jéssica Stanley vai surtar quando souber dessa nova aquisição.
— Tudo bem, tio. Vá trabalhar. Obrigado por tudo e deixe um dia nessa semana para que possamos almoçar. Scot ligará para o senhor.
— Tudo bem, vou aguardar. Até mais, Edward.
— Tenha um bom dia, Tio.
Desliguei o telefone exatamente quando bateram na porta.
Já era hora.
— Entre, Bree.
Cochichei já a ajudando com as sacolas.
— Pode colocar em cima da mesa de Bella mesmo.
— O senhor não prefere que eu sirva ali perto dos sofás e...
Ela se calou de uma vez quando viu Bella dormindo. Sua expressão um misto de preocupação e temor.
— Ela está bem? Nunca vi a doutora tão abatida? Posso descobrir outro médico que esteja livre para atendê-la com mais urgência.
Bella estava ligeiramente abatida, devido os enjoos, mas nada tão preocupante.
Ela estava mesmo era cansada e com sono. Nada que o restante da semana em casa não resolvesse.
— Está tudo bem, Bree. Bella só não dormiu muito bem. Vamos aguardar a doutora Stanley mesmo.
Ela concordou com um aceno de cabeça, mas nem de longe se pareceu convencida.
— O senhor precisa de mais alguma coisa?
Perguntou quando retirou todas as coisas das embalagens e as expos na mesa.
— Sim, por favor, peça para que Stephan venha até aqui. Alerte-o de que Bella está dormindo, não quero que ela acorde com os estardalhaços dele.
— Sim senhor. Eu estarei lá fora, qualquer coisa é só chamar.
A face dela corou quando citei meu segurança. Eu não sabia “em que pé” andava a relação deles, se é que se poderia chamar aquilo de relação, mas pelo que parece às coisas não andavam bem. Bree não parecia muito animada em falar com ele.
— Mandou me chamar?
Stephan entrou sem bater, mas pelo menos não gritou. Sussurrou para ser bem mais exato.
— Ligue para Scot e peça que ele mande um termo de confidencialidade para mim agora no seu email. Depois imprima. Ligue para nosso melhor advogado, explique meu pedido e peça que ela faça com que o termo tenha a maior legalidade possível.
Os olhos de Stephan foram para Bella e depois de voltaram para mim, por um segundo vi seriedade em suas feições.
— Não sou sua secretária, Cullen.
Míseros milésimos de segundos eu disse?
— Mas, vou fazer o que você me pede, porque sou um garoto bom e estou louco para saber o que você e a doce princesa de Charlie escondem.
— Minha princesa.
Reclamei entre dentes.
— Como eu disse, a doce princesa de Charlie.
Desisti. Ele era um caso perdido. Eu que não começaria uma discussão naquele instante.
— Vá Stephan, preciso desse documento com urgência.
— Já vou, já vou. Não se pode nem tomar café mais na vida...
Ele agarrou uma maçã do montante de frutas e saiu resmungando baixo, porta a fora.
Com tudo ajeitado e dado tempo de Bella descansar um pouquinho, era hora de acordá-la.
E que Deus me ajudasse...
Bella
— Princesa, você precisa acordar agora.
A voz pesarosa de Edward tentava me alcançar. Eu sabia que devia acordar, mas estava tão bom meu sono.
— Está tão bom aqui.
Murmurei já lamentando o alerta de minha consciência. Depois de acordada voltar a dormir seria impossível.
— Eu sei e lamento fazer isso com você. Prometo-te que logo estaremos em casa e então poderá dormir o resto do dia. Proíbo até os pássaros de cantarem para não te incomodarem, se quiser. Mas agora, infelizmente, você precisar abrir estes lindos olhos castanhos para mim.
Pedindo assim e com tantos métodos de convencimento não tive como negar.
Abri os olhos e o encarei.
— Oi, minha vida.
— Oi. Já estamos na hora? Jéssica já ligou?
— Ligou...
Respondeu me ajudando a sentar e se abaixando para calçar meus sapatos em mim.
Tem como não amar?
— Eu disse a ela que esperasse uns quinze minutos.
— Quinze minutos? Amor, ela vai se estressar. Jéssica é maníaca com horários e cronogramas.
— Que se dane.
Deu de ombros despreocupadamente.
— Ela tem que entender que minha mulher e meu filho precisavam descansar e comer. E falando nisso, agora você não me escapa.
Levando-me pela mão, nos sentamos em frente a minha mesa.
Havia comida demais ali.
— O que mais lhe apetece?
Dei uma avaliada em tudo e decidi por algo insosso que não colocasse meu estômago sensível em risco.
— Iogurte com uma fruta. Melão de referência.
Estiquei a mão para pegar, mas ele foi mais ágil. Despejou uma pequena quantidade de fruta em um recipiente e depois despejou o líquido grosso, de morango como eu gostava, por cima.
— Aqui.
— Hum! Muito bom. Obrigado.
Ele beijou meu nariz e então passou a fazer um prato para si.
— Fome?
Perguntei enquanto ele colocava um pouco de tudo em seu prato.
— Muita fome.
O que era uma baita mentira. Ele não havia colocado comida para ele, tá só um pouco talvez, porém o real objetivo era me distrair enquanto, vez ou outra, colocava colheradas de comida em minha boca. Sempre com a desculpa de que aquilo estava muito bom e que eu precisava provar.
Edward era uma figura.
— Não aguento mais, Edward. Tá bom. Precisamos ir agora.
— Só mais um pouquinho, princesa.
— Não. Tá bom, anjo. Vamos de uma vez ou a ansiedade fará tudo voltar pelo mesmo caminho que entrou.
Ele torceu o nariz e me avaliou intensamente.
Aproveitei seu descuido e corri para o banheiro para escovar os dentes e pentear os cabelos. Eu precisava ficar um pouco mais apresentável para encarar Jéssica Stanley.
— Só um minuto.
Edward disse quando voltei a minha sala, era a vez dele usar o banheiro.
Bree já estava ali recolhendo toda nossa bagunça.
— Como está tudo, Bree?
— Está tudo em ordem, doutora. Os materiais que a senhora pediu já chegaram. O senhor Aro, também já recebeu o pedido da senhora e do senhor Black sobre a substituição das luzes da ala pediátrica. Já temos pacientes agendados para o mês que vem. E também estou com os livros que o doutor Black mandou comprar para a nova pesquisa de vocês.
— Muito bom. Entregue os para Zafrina. Devemos começar com as pesquisas semana que vem. Preciso me lembrar de ajeitar a biblioteca lá de casa para isso.
Ela continuou citando mais algumas coisas que havia ajeitado para nossa volta, quando Edward reapareceu.
— Podemos ir?
— Claro.
Peguei minha bolsa e lhe ajudei a vestir o paletó, vulgo meu cobertor.
— Obrigada por tudo, Bree. Tenha um bom dia.
— Para vocês também, doutora.
Maravilha, estávamos de volta ao doutora. A presença de Edward a intimidava tanto que agora levaria mais uns seis meses até que voltasse a convencê-la a me chamar de Bella.
Ah, esse meu lindo marido...
Edward
Passamos por alguns corredores, subimos dois andares até alcançarmos a ala mais adulta do prédio.
Era gritante a mudança na decoração e nos ares. Tudo parecia mais sério. Odiei isso. Preciso dizer a tio Aro para pegar leve no consultório da doutora Weber.
— Esperem aqui.
Avisei a equipe de segurança que nos seguia. Bella fez careta de descontentamento, nem me importei.
Uma coisa era ela odiar chamar atenção, outra era eu descuidar dela. Ainda mais com essas novas ameaças rondando nossas cabeças.
— Altezas, é um prazer recebê-los aqui. A doutora Stanley já os aguarda. Podemos deixar a parte burocrática para quando saírem.
A secretária adiantou quando Bella ameaçou pegar sua documentação na bolsa.
— Seus exames, princesa. O laboratório acabou de nos entregar.
Bella pegou das mãos dela um grosso envelope.
O que fez lembrar...
— Aqui. Tudo pronto e em tempo recorde. Seu advogado manda dizer que os honorários serão levados a Scot.
Fiz gesto de negação para Bella, quando me indagou silenciosamente. Não tínhamos tempo para explicações naquele momento.
Stephan e sua boca grande.
— Precisam de alguma coisa? Água, suco, café?
— Não, obrigada. Estamos bem.
Bella respondeu enquanto a insistente mulher segurava a porta para que entrássemos. Não me passou despercebido nem a minha mulher, que ela me olhava de um jeito nada educado.
— Doutora Cullen, príncipe Cullen é um prazer recebê-los em meu humilde consultório.
Que de humilde não tinha nada.
Eu não sabia o que era pior, se a sala em cores berrantes em amarelo e verde ou a mulher com um uniforme muito justo e bem decotado na parte de cima. Tão vulgar que Alice infantaria se a encontrasse alguma vez.
Definitivamente, precisávamos de Ângela Weber aqui. Aquela mulher não traria meu filho ao mundo nem por decreto.
— Obrigada, Jéssica. O prazer é todo nosso.
Bella se adiantou quando apertamos sua mão e ocupamos as cadeiras bem em frente à mesa dela.
— Então doutora, algo em especial a traz aqui?
Eu podia ver o brilho nos olhos dela. Era lógico e óbvio que ela desconfiava, afinal estávamos em uma consulta com uma obstetra.
Bella estava certa, ela não era confiável. Creio que não nos resguardaria por um minuto de fama assim que a notícia da gravidez viesse à tona.
— Sim. Eu fiz uns exames e gostaria que você confirmasse minhas suspeitas, Jéssica.
Bella tentou lhe entregar os exames, porém, fui mais rápido e os tirei de seu alcance. Precisávamos acertar alguns pontos antes.
— Só um minuto, amor.
Retirei o documento que Stephan havia me entregado e o entreguei a tal doutora.
— Antes preciso que leia isso e assine, doutora. Não quero que leve para o lado pessoal, só que em si tratando de nossas posições, pecamos pelo cuidado.
Ela levantou as sobrancelhas e passou a ler o documento com total atenção. A raiva e a incredulidade começando a minar sua falsa aparência de ingênua.
— Isso não é necessário, alteza. Eu nunca...
— Cullen, doutora Stanley. Chame-me de Cullen e minha esposa de senhora Cullen, por favor. Essas formalidades podem ser evitadas quando não estamos em público. E eu sei que nunca falaria nada do que se passar aqui, mas, nossa equipe é chata e essas formalidades são exigidas em demasia. Então, se isso te incomodar demais, creio que teremos de procurar outra profissional que não se importe de...
— Não! Eu não me importo. Perdoem-me se dei a impressão errada. É só que eu não esperava, mas é claro que eu vou assinar.
Bella olhou para mim e escondeu a diversão que sentia com a situação.
Eu não era de intimidar as pessoas com meu nome e minha posição, mas creio que faria isso e muito se a circunstância envolvesse meu filho e minha mulher.
— Pronto. Agora podemos começar.
Respondeu a doutorazinha depois de assinar as três vias do documento. Entreguei uma para ela, que foi prontamente guardada em um montante de papel em cima de sua desorganizada mesa.
— O que a trouxe aqui, pinces..., ah digo, senhora Cullen?
Voltou à pergunta anterior.
Era hora de respirar fundo e me preparar para ser dominado pelas emoções.
— Estava sentindo algumas coisas e minha menstruação estava atrasada. Fiz um teste de farmácia e deu positivo para gravidez. Minha médica de Forkian me deu os pedidos, fiz alguns exames e gostaria que fossem avaliados por uma especialista.
— Hum! Isso é interessante. Tem alguma dúvida quanto à gravidez?
Apertei a mão de Bella enquanto ouvia o diálogo das duas. Por que ela não abria o envelope de uma vez.
— Na verdade não. Mas, como não sou obstetra, gostaria que você avaliasse e dissesse que passos devo seguir a partir de agora.
— Certo. Então vamos lá.
Por fim, ela pegou o envelope a passou a avaliar, com atenção, os tais exames. Em alguns ela fez círculos em alguns números, em outros ela só passou os olhos e os ignorou.
Precisava demorar tanto?
— Então?
Perguntei incapaz de esperar mais. Era a terceira vez que ela olhava cada folha?
— Mais grávida impossível. Olhe só para esse Beta HCG?
Olhei para onde ela havia circulado um valor de 430mIUml. Aquilo parecia bom, pois, a morena espevitada e escandalosa mostrava os dentes como uma hiena.
— Parabéns, vocês estão muito grávidos.
Tomando-me de surpresa Bella puxou meu rosto para si e me beijou.
— Obrigado, vida. Muito obrigado. É nosso sonho, príncipe. Nosso pequeno sonho.
— Nosso grande sonho, amor. Grande sonho.
Encostei minha testa na dela e acariciei seus cabelos. Não tínhamos dúvidas quanto aquilo, mas ouvir outra pessoa falar tornava tudo mais real.
— Hum, mas temos um pequeno problema aqui.
Tenso, imediatamente voltei os olhos para Jéssica. O que ela queria dizer com “problema”?
— O que foi doutora?
— Anemia, senhor Cullen. Bella está anêmica e precisará tomar medicação para que o bebê se desenvolva bem.
— Ela tomará, pode prescrever aí. Aproveite e prescreva também as tais vacinas e vitaminas que toda grávida tem de tomar.
Ela e Bella arquearam as sobrancelhas para mim.
O quê? Eu era um tio agora e em breve, muito em breve um pai. Já estava lendo algumas coisas. Eu precisava estar atento.
— Tudo bem, senhor Cullen. Eu farei isso. Agora que tal tentarmos ouvir o coraçãozinho desse pequeno?
— Podemos? Ele é muito pequeno.
— Quão pequeno?
Perguntou olhando diretamente para Bella.
— Quatro semanas, eu presumo, Jéssica.
Quatro semanas? Isso nos levava de volta a comemoração do aniversário dela.
Ah, se eu soubesse que aquelas roupas fariam milagre já as teria comprado há tempos.
Uma comemoração memorável que nos remeterá a um presente mais memorável ainda.
— Não tão pequeno. Vá até o banheiro e vista isso, por favor.
Meio apreensiva, Bella se dirigiu para uma porta no canto esquerdo bem ao fundo da sala.
Jéssica se afastou para o lado oposto e passou a ligar alguns monotores e ajeitar uma maca e mais alguns instrumentos que não identifiquei a necessidade.
— Venha, Bella. Deite-se aqui.
Rapidamente me levantei e a guiei até onde a médica apontou.
Bella estava vertida de calça e blusão verde, com o nome e logomarcas do hospital.
Até naquele verde pálido ela era bonita.
— Vou fazer um Doppler abdominal, já que o embrião ainda é novo e não seria identificado num transvaginal. Vou abaixar um pouco sua calça, levantar sua blusa e então espalharei um pouco de gel, não dói, só é frio.
Embrião era a “porra” do pai dela com dor de barriga. Isso era jeito de falar de nosso bebê? Aquela mulher não seria médica de Bella nem aqui, nem na China.
— Sente-se aqui, Edward.
Apontou para um banquinho perto da cabeça de Bella. Apressei-me para lá e segurei sua mão, não para sustentá-la, para me sustentar.
Bella era a forte naquele momento.
— Olhem para a tela.
Apontou para um amontoado de imagens desconexas.
— Hum, muito pequeno mesmo. Vamos tentar ouvir que será melhor.
Ela passou a deslizar o pequeno aparelho, que em minha opinião mais parecia uma lanterna do que qualquer outra coisa, na barriga de Bella.
— Agora sim, ouçam.
E então meu mundo parou, pois a mais linda melodia encheu o ambiente.
Olhei para Bella e ela me encarava, os olhos molhados e brilhantes de tanta emoção.
— Grave isso, doutora. É lindo, o som mais lindo...
Sem conseguir me conter, levantei-me e beijei os lábios de minha linda.
Era minha hora de agradecer.
— Obrigado, minha vida. Muito obrigado.
— Nosso filho, nosso filho. Símbolo de nosso amor, nosso casamento. Nosso pequeno milagre, Edward.
Assenti incapaz de falar, eu só queria levá-la para casa e abraçá-la para toda vida.
Porém, a tal doutrora estava mesmo disposta a atrapalhar nosso momento.
— Ôou! O que temos aqui?
Eu começava a odiar as interjeições dela. O que aquilo significava? Era hora de dizer algo assim.
— Está percebendo isso, senhora Cullen?
Um medo insano se apossou de mim e só fui capaz de olhar para Bella que encarava o tal monitor com tanta intensidade que fez meu coração parar de bater...
Algo estava muito errado...
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