Três Príncipes, Três Princesas
80 Consequências
Notas iniciais
Bella
— Nós podemos mata-la agora? Estou louco para deslizar a faca por cada parte daquele corpo que o principezinho tocou. Vou adorar fatia-la em pedacinhos. Talvez possamos espalhar as partes por Ângelus para força-los a juntar, como se fosse um quebra cabeça ou uma caça ao tesouro.
— Agh! Não seja idiota! Não podemos fazer isso no momento. Não enquanto não fecharmos, por escrito, o acordo que no favorecerá.
Ai... Deus do Céu!
Fechei mais o corpo, em posição fetal, e coloquei minhas mãos, em sinal de proteção, sobre os joelhos. Tentando, ao máximo, criar uma cápsula protetora sobre meus bebês.
Eu sentia cada ponto do meu corpo, que fora ferido, doendo.
A cabeça, onde os cabelos foram puxados, latejava. As costelas, que foram arremessadas ao chão, com violência, queimavam. Os braços e as mãos, que tentaram minimizar cada queda, tenho certeza, sangravam e estavam cheias de terra e pedrinhas, que teimavam em me ferir mais, sempre que eu me mexia.
Eu não sabia em que lugar estava, isso era fato. Tudo era muito escuro e abafado. Só sons, alguns ao longe e outros mais próximos, me situavam que eu ainda estava viva apesar dos pesares.
As memórias estavam meio borradas, mas eu seria capaz de descrevê-las com precisão.
Assim que me arrancaram de meu carro, fui colocada em outro, sem cuidado algum ou piedade.
Depois me vendaram, com força e meus pulsos foram presos um ao outro, tão apertados que a cada pequeno movimento um atrito se gerava e queimava minha pele.
Meus pés ficaram livres só até o instante de chegarmos ao cativeiro, onde não precisariam mais que eu andasse, depois também foram imobilizados pelos tornozelos, igualmente apertados a ponto de machucar.
Falando em cativeiro, pelo que parece, eu nunca havia mesmo estado ali. Só sabia que era longe, muito longe de casa, pois para chegarmos trocamos de carro duas vezes. Passamos por caminhos movimentados e outros tantos silenciosos, que presumi serem estradas vicinais e rurais, tudo obviamente distinguido por sons, cheiros e sensações.
Por fim, fui, mais uma vez, retirada de um carro e colocada numa aeronave de pequeno porte barulhenta e insegura, porque só Deus sabe o quanto “sacolejei” naquela coisa.
Ele e meu estômago sabem, porque até o momento não consegui me recuperar. Mas, eu sabia que precisava me controlar, por Stephan. Eu prometera.
Então, depois do que parecera horas, o que não posso precisar, porque havia perdido totalmente a noção de tempo e lugar, pousamos.
Aos trancos, tropeços e empurrões me fizeram caminhar mais um pouco, até que finalmente, me jogaram ao chão desse lugar e prenderam meus pés.
Cerca de quatro pessoas vigiavam em volta do lugar que eu estava, isso eu sabia. As vozes e sotaques eram diferentes.
Imagino que seja uma cela, uma casa abandonada ou uma caverna, não sei ao certo. Só sei que a luz não entrava, o ar era rarefeito e o cheiro muito, muito ruim mesmo. Então, eu não sabia se era dia ou noite ou quanto tempo estava aqui.
Era abafado também. Uma sensação claustrofóbica dominava o ar como garras invisíveis em volta do meu pescoço, me impedindo até de respirar regularmente.
— Ela não faz barulho. Será que morreu? Poderíamos conferir?
— Fique onde está. Não temos ordem de entrar. Ela não terá contato com nenhum ser humano até a hora derradeira.
Fiquei mais imóvel ainda. Eu temia respirar e alertá-los para minha presença. Eu confiava que logo, logo seria retirada daqui e com vida. Se não por mim, pelos meus filhos, eu ficaria viva. Pelo menos até que eles estivessem em segurança.
Meus pequenos sabiam que nossa situação era complicada, claro que sabiam. Estavam quietinhos, o que também me assustava, mas não me renderia, não tão fácil. Não antes de entregar a Edward os amores da vida dele, em seus braços. Não antes de dizer a ele que o amava com todo coração.
Não antes de saber que Stephan estava bem...
Stephan, meu coração ainda sangrava só de lembrar...
Lembranças On
“- Se a princesa precisar de qualquer coisa ligaremos para a doutora Weber, já que ela é a médica dela. Muito obrigado pela sua presteza e atenção. Bree já está sabendo de tudo que fez por nós e lhe passará, o cheque com os honorários. Muito obrigado”.
— Posso saber por que tanta hostilidade? Vocês até que estavam se dando bem. O que aconteceu para tanta regressão?
Stephan não respondeu de imediato. Estava muito concentrado observando tudo a nosso redor antes de colocar o carro em movimento.
— Odeio quando ele aproveita as malditas brechas que Edward dá para “ficar cercando você”.
— Ele é casado, Stephan. Você está vendo coisas. E além do mais, pare de defender Edward, não preciso de você advogando em causa dele hoje.
— Muito mal casado, diga-se de passagem. E eu te avisei que aquelas fotos escondidas iam dar “merda”. Edward é um caso complicado você sabe. Ele... O que é isso?
Foi tudo muito rápido, só deu tempo de segurar na alça ao lado da cabeça de Stephan.
Um forte “fritar de pneus” atrás de nós, chamou a atenção de meus seguranças que logo se colocaram em alerta máximo.
Stephan, não vacilou. Acelerou o carro rapidamente e só respirou mais calmamente quando tudo pareceu mais tranquilo e o carro, que ele identificou, desapareceu de nossas vistas.
— Bastardo, idiota. Deve ter comprado à carteira.
Já Zafrina retirou a pistola do coldre, a engatilhou e para não perder nada de vista, se sentou de lado no banco e passou a observar, com mais cuidado, tudo que se passava do lado de fora do carro.
— Sente-se mais no meio, princesa. E, por favor, coloque o cinto de segurança.
Fiz o que ele pediu e quando nossos olhos se encontraram pelo retrovisor interno, percebi que Stephan aparentava uma preocupação desmedida.
— O que está acontecen... Ahh!
Sobressaltei-me, quando o toque do telefone de algum deles quebrou nossa troca de olhares e me impediu de indagá-lo sobre sua preocupação.
— Calma, está tudo bem. É só o telefone. Alias, é só o Sam.
Claro que era Sam. Resmunguei em pensamento.
Como Edward não conseguira falar comigo, não conseguira falar com Stephan, pois eu o proibira de atender as ligações dele, ele simplesmente, dera seu jeito.
— Até imagino qual seja o assunto. Atenda de uma vez.
Ela atendeu a ordem sem pestanejar.
— Fale...
Zafrina ficou em silêncio por alguns segundos.
— Ah! Mesmo? Sei... Adivinha?
Tapou, desajeitada, o telefone para que Sam não ouvisse que ela repassava tudo que ele falava.
— O quê?
Perguntei acariciando a barriga que insistia em doer, um pouquinho, na parte debaixo.
— O carro barulhento detrás? É o chefe. Ele quer que você faça o retorno e pare, do lado do canteiro mesmo. Só para que ele desça e entre aqui.
— Não! Quê? Podemos conversar em casa. Quero chegar logo para me deitar. Stephan, o que está fazendo?
Minhas palavras não valeram de nada. O bastardo do amigo de Edward, já sinalizava para estacionar.
— Bella, ele vai me infernizar o restante da vida se eu não obedecer. E além do mais, vocês precisam parar de criancice. Uma falta de conversa os trouxe a esse momento. Por que não aproveitam e se acertam agora? Perder tempo para que?
— Se isso te consola, princesa, Sam também não está feliz com esse arranjo. Ele está pedindo para que se acalme e... Stephan o quê...
De novo a tensão tomou conta do carro, mas dessa vez algo estava diferente.
— Bella, deite do banco, coloque as mãos sobre o rosto e fique imóvel, o mais imóvel que conseguir.
— O que está acontecendo?
— Shiii! Não fale. Só obedeça.
Fiz o que me pediu, enquanto via ele se deitar por sobre o banco de Zafrina e pegar mais uma arma no porta luvas. A que ele sempre portava também já estava engatilhada na outra mão.
Eu não via muito, só escutava, pois a posição que Stephan me instruirá me impedia de ver qualquer coisa.
Porém ouvia muito bem.
Portas bateram de carros a nossa frente e atrás de nós, estávamos cercados e, quem quer que fossem aquelas pessoas, já nos mandava descer e nos render.
— Stephan...
Ele acionou as travas das portas e apertou o botão vermelho de emergência, que ficava bem acima dos controles do ar condicionado.
— Princesa, nós estamos cercados. Terei que distraí-los até que o socorro nos alcance. Agora preciso que faça algo para mim...
— Stephan, você enlouqueceu? Vai distraí-los como? Eles não estão para brincadeira, vão atirar.
— Não temos tempo, Zafrina. As travas e a blindagem não vão aguentar, se eles quiserem mesmo entrar. Bella...
— Não, Stephan. Zafrina está certa. Fique onde está. Quem são eles? O que querem? É um assalto?
Minha voz saia baixa e um pouco trêmula. Stephan, porém, parecia seguro e totalmente consciente do que fazia.
— Não temos tempo para explicações agora, princesa. O armamento deles é pesado, armamento de guerra. Se atirarem contra o carro, colocará a todos em perigo. E isso está fora de cogitação. Então, eu vou descer, fechar a porta e entretê-los. Mas, preciso que faça algo para mim, antes. Por favor, eu preciso que faça isso antes de eu descer. Não me enfrente agora. Não pergunte mais. Sei o que estou fazendo. Pense em Edward, pense nos bebês, na segurança deles.
Tirei os braços, que encobriam meu rosto, e olhei para ele assentindo em concordância.
Ele era treinado para aquilo, sabia o que fazia.
— Quero que devagar, bem devagar, Bella, contorne a tornozeleira que Edward te deu e encontre o pingente de brasão dos Cullen. Consegue fazer isso por mim?
Não entendendo patavinas e tremendo demais, deslizei os dedos por sobre a perna até encontrar o que procurava.
— Encontrei.
— Isso, muito bom. Agora dê um puxão de leve, para que o pingente se solte do restante da joia. Mas, faça isso devagar, você não pode deixa-lo cair, é importante não perdê-lo agora, Bella.
Fiz exatamente o que ele pediu.
Stephan e Zafrina não tiravam os olhos do lado de fora.
— Consegui.
— Muito bom. Agora, por favor, Bells, coloque o pingente na boca e engula. Tem uma garrafinha de água aqui e pode te ajudar no processo. Pegue-a.
— Quê?
Perguntei assustada junto com Zafrina.
Sephan, mesmo que não aparentasse, estava perdendo o juízo, só pode.
— Droga! Não temos tempo, Bella. Sei que Edward já te contou o que tem aí nessa tornozeleira, só me obedeça e faça como te falei.
Ainda na dúvida, peguei a garrafa de sua mão.
— O rastreador fica no pingente e ele recarrega com o calor de seu corpo. Também possui uma bateria extra de 72hs, que está revestida duplamente e não causará nenhum problema a sua saúde.
— E por que ela tem de engolir?
Os estranhos, do lado de fora, se aproximaram mais do carro e passaram a ronda-lo. Eles não sabiam onde cada um estava sentado, mas não precisa ser um gênio para supor que eu estava no banco detrás.
— Porque se algo der errado e ela for levada a primeira coisa que farão será destruir o celular, relógio e cada joia que ela usar.
Não hesitei. Engoli o pingente. E sem que eles percebessem tirei do dedo, o anel de formatura, o de noivado e por fim, a aliança, coloquei num zíper interno da bolsa e a puxei para o piso do carro.
Edward entenderia assim que os vissem, ele, nosso casamento, nosso compromisso eram importantes demais para mim.
— Não! Droga! O que eles estão fazendo?
— O que foi?
Tentei levantar a cabeça, mas Zafrina se virou e me segurou abaixada.
— Eles perceberam o outro carro. Sam terá que recuar. O armamento é de guerra. A blindagem não aguentará.
— Não! Stephan chame Sam pelo telefone. Diga a ele para tirar Edward dali. Deus!
Ofeguei com a pontada de dor que veio a seguir. O medo cobrava seu pesado preço.
Meus meninos se agitaram e as contrações diminuíram seus espaços.
— Calma Bella! Calma! Fique abaixada. Vou distraí-los. Temos um protocolo a seguir numa ocasião como esta e tenho certeza de que Sam vai segui-lo. Mas, eles estão muito pertos, terei que ajudar.
Levantei um pouco a cabeça e vi Stephan com a mão na porta, pronto para descer.
— Stephan, por favor...
Ele me ignorou totalmente.
— Fiquem dentro do carro e não desçam, por lei nenhuma. Sei o que estou fazendo. Zafrina, se algo sair errado, diga a Edward que o dia em que ele conheceu Bella é o dia mais importante de nossas vidas. Não esqueça. É muito importante que saiba disso assim que você o encontrar.
Eles trocaram um olhar que significou algo para os dois, pois ela assentiu com um acenar de cabeça.
— Fique viva. Ele precisa de um de nós. E... Não hesite...
— Stephan...
Tentei de novo.
— Bella, se algo sair do controle, preciso que não vomite, ou “evacue”. Preciso que o rastreador fique dentro de você. E...
— Stephan, por favor... Por favor.
Lágrimas quentes deciam por meu rosto e eu implorava.
— Diga a Bree que ela é a mulher de minha vida.
— Não! Stephan? Stephan?
Ele não me deu ouvidos, nem me obedeceu, somente fez o que tinha planejado. E foi aí que tudo virou uma confusão.
— Stephan!!!
Gritei, quando uma rajada de tiros atingiram os vidros do carro, a porta, que Stephan nem conseguiu fechar, e também o corpo de meu amigo.
— Não! Pelo amor de Deus! Parem! Parem!
Levantei a cabeça e comecei a gritar. Zafrina tentava me conter, mas, foi em vão.
— Shiihh, Bella. Shiii!
Mas, foi impossível manter o controle. Eu queria descer e socorrê-lo. Mas, não conseguia, era tiro para todo lado.
E tudo só piorou quando abriram minha porta e me pegaram pelo cabelo.
— Ai! Ai!
Stephan estava no chão, havia deslizado pela porta. Saia sangue de um ferimento em seu pescoço e outro no ombro direito. Os olhos estavam fechados e o rosto pálido e contorcido numa expressão de dor.
— Soltem na. Soltem-na.
Zafrina havia descido também e quando tentou correr até nós, foi segura pelo braço.
— Parada aí, moça. Não queremos machucar ninguém inocente. O babaca ali deu uma de herói e deu no que deu. Só queremos a princesinha do futuro rei e seus herdeiros.
— Soltem-na, pelo amor de Deus. Ela está grávida. Levem-me, mas libertem-na. Vocês não têm ideia no que se meterão.
Zafrina esperneava e se debatia, mas era em vão.
O alvo era eu, Stephan não precisava estar passando por isso.
— Zafrina, pressione os ferimentos. Você precisa parar o sangramento até que a ajuda chegue. Olhe o pescoço. Atenção ao pescoço.
Foram as últimas palavras que disse antes de ser arrastada pelos cabelos e jogada ao banco traseiro de um carro.
Ainda pude ouvir mais quatro disparos e algumas explosões: os pneus.
Eles haviam danificado o único meio de ajuda a Stephan.
Deus, que ele não morra!
Entoei a prece em pensamento olhando pela última vez meu amigo ao chão.
Depois disso fui amarrada e vendada e tudo não passou de um escuro sem fim.
Lembranças Off
Edward
—Ai!
Senti a fonte da dor assim que franzir o cenho. O que era muito estranho porque eu não era de sentir dor alguma. Raramente pegava um resfriado.
— Graças a Deus! Graças a Deus!
Tentei abrir os olhos, para identificar o dono da voz aflita, contudo a luminosidade e algo em meu rosto, que eu ainda não sabia o que era, me impediram de seguir com o ato.
— Filho, é a mamãe. Abra os olhos. Precisamos que você acorde.
Esme era a voz desesperada. Eu estava desnorteado demais para entender o que estava acontecendo, mas a voz dela eu indentificara.
O que ela fazia em meu quarto? Onde estava...
— Bella? Bella?
Chamei baixinho, tocando sem muita coordenação, seu lado na cama: vazio.
— Onde ela está? Mãe, chame-a para mim. Tive um pesadelo terrível, preciso toca-la, vê-la.
Ouvi o soluço de alguém ao longe e pude jurar que era minha avó, porém, logo descartei essa hipótese: Dona Elizabeth nunca chorava.
— Filho, abra os olhos. Traga sua consciência para cá. Bella precisa de você, os bebês precisam de você urgentemente. Acorde, Edward! É uma ordem. Não temos tempo para sua inconsciência agora.
O tom dela mudou bruscamente, me assustando. De piedoso passou para urgente, exigente.
Forcei meus olhos a se abrirem. Eu estava em casa, no nosso quarto.
— Querido, não foi um pesadelo. Bella foi sequestrada. Ela espera por nossa ajuda. Edward, acorde!
Foi instantâneo e como flashes passando em imagens aceleradas, revivi o inferno de ver minha mulher sendo retirada de minha vida.
— Por Deus, mãe! Vou atrás dela. Foram os Volturis. Temos que ir para Volterra. Estamos perdendo tempo e...
Tentei me levantar, mas quando coloquei os pés para fora da cama, fui atingido por uma tontura que me fez parar.
— O quê...?
Meus olhos estavam pesados e eu me sentia fraco. Entorpecido, para ser mais exato.
Foi aí que o raciocínio voltou e pude me lembrar do porquê de estar assim.
— Quero Sam preso, torturado, o quero morto, condenado a prisão perpétua. Ele me atingiu. Se tivéssemos ficado poderíamos ter ajudado. Nós fugimos como covardes, mãe, deixando Bella a mercê dos terroristas. Ela não pode se defender.
Esfreguei a cabeça e apalpei a testa, que estava dolorida e provavelmente muito inchada.
A indignação e a raiva me fizeram levantar a voz e ignorar que o maior culpado daquilo tudo estar acontecendo, era eu.
— Deixe para prendê-lo depois que entender o que ele fez, irmão. Sam teve seus motivos. Agora por que não toma um banho e depois, desce para o escritório? Montamos a sede do QG de resgate lá.
Meus olhos buscaram a linda caixa de presente, na mesinha de cabeceira, do meu lado. Eu cuidaria de Sam mais tarde, Bella era minha prioridade máxima agora.
— O banho pode esperar, Emmett. Bella não. Vamos lá...
Com a expressão fechada e com muita pressa, passei por ele, Esme e sim, vovó Elizabeth.
Não saldei ninguém, não era hora de receber alguém com alegria. Não quando havia, “dado de bandeja”, minha mulher e meus filhos, a terroristas.
Tudo porque sou um maldito ciumento, possessivo que não controla a boca e os próprios atos.
O corpo e o coração queriam se fechar em autopiedade e chorar até que todo esse inferno passasse. No entanto, a mente, o foco e a praticidade me impulsionavam a agir.
Eu precisava, mais uma vez, consertar um erro. E dessa vez, prometi a mim mesmo e a Deus, que seria a vez derradeira. Nem que eu precisasse cortar minha “língua grande” eu nunca mais ofenderia Isabella Cullen, se é que ela continuaria sendo uma Cullen depois disso.
Com a decisão tomada, porém antes que deixasse o Edward responsável me dominar, me permiti mais um único minuto para me chafurdar em minha dor.
Parei em frente ao quarto que já estava pronto para receber meus filhos.
A porta nua, ainda livre do lindo enfeite com seus nomes escondido em nosso guarda-roupa, me fez lembrar o quanto Bella queria os chamar por seus nomes, mas se recusava a fazer isso, em voz alta, antes de contarmos a todos, principalmente a Charlie. Era a nossa surpresa especial do fim de semana. Resusei-me a pensar que nossos bebês talvez não pudessem vê-los jamais.
— Por favor, Deus, por favor...
Rezando, implorando por uma chance de fazermos isso, encontrei a testa na madeira, pintada de azul claro, e fechei os olhos.
— Amores, papai promete que trará vocês para casa logo, logo. Sejam fortes e não deem muito trabalho a mamãe. Vocês são os homenzinhos da família agora. Cuidem de nossa garota enquanto o papai não chega, tá? É nosso acordo.
— Filho...
Mamãe tentou me confortar deslizando a mão por meus cabelos.
Rapidamente, respirei fundo e levantei a cabeça.
— Vamos.
Repeli seu ato e me afastei, atravessando a passos rápidos o espaço que nos afastava do restante de nossas famílias.
Eu não precisava e não podia me dar o direito de ser consolado, a culpa era minha, inteiramente minha.
Bella sim, precisava de todo apoio, e ela não estava aqui para recebê-lo.
— Boa noite...
Entrei, de uma vez, no escritório calando imediatamente o burburinho de conversa.
Todos os olhares se voltaram para mim. Identifiquei alguns: raiva, piedade, desilusão...
— Levante-se daí. Esse lugar pertence a minha esposa.
Disse ácido, ignorando todos ao redor, ao ver Carlisle sentado na cadeira de Bella.
O que ele fazia aqui?
— Filho, eu...
O desprezei totalmente.
Alguém mais importante merecia completamente minha atenção: Charlie, que encarava a janela com o olhar distante, amargo e perdido, e que só se virou porque me ouviu entrar. Ele sim tinha direito a tudo de mim.
— Meu rei, o senhor não faz ideia de como lamento o que aconteceu. Eu juro que daria minha vida em troca da dela, se possível. Vou trazê-la de volta, nem que custe o resto dos meus dias. É a única coisa que posso garanti-lo.
A postura de Charlie era a mais diferente que eu já tinha visto em todos os nossos anos de convivência.
Ele parecia mais velho, mais apático, mais triste, distante e amargurado.
Preparei-me para sofrer sua ira... Eu merecia.
— Nós os traremos de volta, eu também te prometo isso. Já recrutei o restante de nossas tropas e Jacob já disponibilizou as dele. Só estamos esperando o comando. Não perca tempo, agora, com a culpa, Edward. As coisas aconteceram sem que pudéssemos prevê-las. Tragamos-nos para casa e depois discutiremos como você pode passar o restante de sua vida se redimindo. Sei que já está sendo bastante castigado. Além do mais, o poder estará nas mãos de Isabella, só ela saberá o que fazer com você.
E me pegando de surpresa, me puxou para seus braços, me abraçou com força, deu três tapinhas em minhas costas e cochichou: “Você é como um filho. Vejo muito de mim jovem em você. Só não cometa os mesmo erros de que eu me arrependo sempre”. Se afastando logo depois.
Demorei três segundos para me recuperar do ato inesperado dele.
— Ok. Quero saber se já entraram em contato. Alguém assumiu a autoria do ataque? O que pediram em troca de Isabella?
Amum, chefe de segurança, que estava ao lado de um enorme monitor, a qual Bella usava para estudar, tocou algumas imagens e logo o mapa de Volterra se abriu.
— Os Volturis mandaram uma mensagem através das redes sociais, como mensagem pessoal, a um de nossos canais, Senhor.
Volturis, como eu havia imaginado.
— O que diz?
— Que precisamos cessar fogo e, imediatamente, retirar as tropas do país deles se queremos Isabella viva de volta.
— E o que fizeram até agora enquanto eu dormia?
Olhei amargo para Sam parado num canto da sala, de braços cruzados e sisudo.
— Cessamos fogo, irmão. Mas, não autorizei a retirada das tropas, pelo contrário, nos realinhamos. Não podemos deixar que eles achem que estão no controle.
Não contrariei Jasper, mas tinha consciência de que eles estavam com todo o controle do mundo. Eu faria qualquer acordo para ter minha mulher e meus filhos sãos e salvos.
— Sabemos onde Bella está?
Jasper, tomou o lado de Amum, e tocou na tela dessa vez.
— Quando Stephan acionou o botão de urgência e Sam reportou o que estava acontecendo autorizei o cerco a todas as rodovias e ferrovias. Também cercamos os aeroportos, portos e o espaço aéreo. Porém, não fomos capazes de pegá-los antes que fugissem para cá.
Jasper, como chefe de inteligência, apontava e mostrava no mapa o que fez para tentar, em vão, evitar que o pior acontecesse.
— Eles sabiam exatamente o que fazer, irmão. Imagino que estavam em nosso território há muito tempo, esperando somente por um deslize nosso. Mais dia menos dia isso aconteceria, não se culpe, Edward.
Tentou colocar a mão em meu ombro para me consolar, o repeli também, sacudindo os braços.
— Prossiga, Jasper.
Ele voltou-me os olhos com profundidade, mas não disse nada. Só continuou a apontar para o mapa.
— Eles nos enganaram e trocaram de carro muitas vezes antes de fugir para propriedades rurais onde, numa pista de pouso irregular, pegaram um avião de pequeno porte que são usados para pulverização de fazendas. Nesse momento nós o tínhamos na mira, mas não autorizei nada que colocasse a vida de sua esposa e seus filhos em risco...
Não me comovi nem me espantei com o relato dele, mas algo em minha mente alertou que aquela era a oportunidade perfeita para que Jasper se livrasse de Isabella, de meus filhos e ficasse com o reino: Ele, porém, não a aproveitou.
Graças a Deus.
— Então, liberei o espaço aéreo e dois Migs 35 os ladearam até que pousaram em uma pista de pouso, também ilegal e recentemente construída, ao lado das montanhas onde encurralamos os Volturis em Volterra. Como eu disse, eles tinham tudo muito bem arquitetado.
Então era lá que ela estava, no covil dos lobos.
— Creio que tenho a solução para trazê-la de volta, mas preciso de sua autorização e também da localização exata de Isabella. Por isso estávamos te esperando. Quanto mais rápido agirmos, mais rápido são nossas chances, irmão.
— Jasper está certo, Edward. Não podemos perder tempo. Com a estratégia certa logo traremos Bella de volta.
— Eu concordo.
— Edward, eu acho...
Estendi a mão calando Carlisle. Emmett e Charlie tinham o direito de opinar. Ele não.
Quanto a Jasper, minha cabeça analisava, a mil por hora, as reais intenções dele e, confesso, falhava miseravelmente, em seu plano.
Eu não sabia ainda o que ele queria ou se seria capaz de confiar a vida de meus amores a ele.
— Vamos encontra-la primeiro, depois conversaremos melhor sobre o plano de ataque.
Aproximei-me da tela fazendo Amum recuar, digitei alguns códigos e endereços até acessar o programa de localização acionado pela tornozeleira.
— Onde está Stephan? Preciso dele para destravar o código de segurança.
Um silêncio doloroso tomou a sala e todos ao redor.
— Onde ele...
Só então, nesse momento, fui capaz de vasculhar a sala e não encontrar, em parte alguma, meu amigo.
De repente um flash de momentos dele sendo atingido, invadiu minha mente e me fez ofegar.
— Deus! Ele, ele...
E como num passe de mágica uma conversa que tive com Bella uma vez, no passado, veio a tona completamente:
“A tornozeleira é um rastreador e somente o chefe de segurança pode acioná-lo com minha autorização. Só eu tenho a senha que destrava o programa de acesso. Temos que estar em comum acordo quanto à necessidade de seu acionamento. Ele não foi criado para ser usado levianamente. É uma arma de proteção, só isso".
Stephan era meu chefe de segurança, somente ele tinha o código de acesso. Eu precisava dele para salvar minhas vidas... Eu precisava de meu melhor amigo.
Pela milésima vez, naquele dia, senti a bile subir e dessa vez só deu tempo de correr para o banheiro mais próximo e despejar lá, em forma de vômito, todo o meu desespero e medo daquela maldita situação.
Eu estava perdido...
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