Três Desejos
10 Capítulo Nove
Capítulo Nove
— Tudo bem, amor? — Poseidon perguntou assim que apareceram na sala de estar. — Você está um pouco pálida.
Atena se sentou no sofá, apoiando os cotovelos sobre as coxas e enterrando o rosto nas mãos. Soltou um longo suspiro, tentando se recompor o suficiente para que lhe restasse ao menos um pouco de dignidade.
— Eu estou bem, só passando por um choque — admitiu, apesar de tudo. — Isso é um pouco... surreal.
— Oh, um choque? — Poseidon não parecia se comover nem um pouquinho, sorrindo com ironia. — Quer um cobertorzinho?
— Ah, cale a boca — Atena rosnou, impaciente.
Já um pouco mais sério, Poseidon se sentou ao lado de Atena no sofá e colocou a mão direita sobre suas costas, fazendo círculos na área com o polegar. Petrificada como estava, Atena não conseguia se importar o suficiente com um contato como esse. Afinal, uma semana de convivência com Poseidon e o mesmo número de noites dividindo uma cama com ele foram suficientes para provar que, pelo menos enquanto estivessem naquela missão, ele não planejava fazer mal algum a ela.
— Isso é normal, Atena — ele disse, a voz repentinamente doce e suave. — Por mais incrível que pareça imaginar algo assim, nossos filhos tem uma vida curta e muitas coisas para fazer em pouco tempo. Eles precisam aproveitar enquanto podem.
— Eu sei, eu só... ah, eu desisto — Atena se rendeu, e, como que para provar o que dizia, deixou que sua cabeça caísse sobre o ombro de Poseidon, próximo ao seu pescoço. — É só que Annabeth é muito especial para mim. Talvez mais especial do que deveria ser. É estranho ver ela seguir um rumo tão normal na vida depois de todas as conquistas dela, e eu tenho medo de que ela não consiga se adaptar a essa vida calma. Ah, não sei. — ela confessou. — Às vezes eu penso que todas as minhas filhas vão ser castas como eu.
— Pois é — disse Poseidon num tom um tanto amargo, ao passo em que se surpreendia com a proximidade que Atena tinha de si. — Sabe o que eu acho? Você precisa se animar um pouco. O que acha de pegarmos mais uma garrafa de Au Paradis?
— Ah, você não vai me fazer esquecer meus problemas com bebida — Atena zombou. — É exatamente assim que as pessoas se tornam viciadas, porque problemas eu tenho de sobra.
— Você não parecia pensar assim no último jantar — Poseidon rebateu, levantando as duas sobrancelhas repetidamente, um sorrisinho se formando em seu rosto.
— Foi um momento de fraqueza — Atena admitiu, envergonhada. — Não vai acontecer de novo.
— Vai sim — Poseidon se levantou e foi até a cozinha, voltando logo depois com duas taças em mãos e uma garrafa meio empoeirada. — Você não vai recusar o melhor vinho do mundo, vai?
Atena trincou os dentes.
— Eu te odeio.
— Eu também — Poseidon ergueu a própria taça, já preenchida do líquido avermelhado. — Ao nosso ódio?
— À paz que você me deu nos últimos dias — disse Atena, levantando igualmente sua taça cheia. — Que você se torne menos insuportável pelos séculos seguintes.
Poseidon gargalhou.
— Nunca, amor.
Atena fez uma careta de desgosto que claramente não era destinada ao vinho.
— Você não vai mesmo desistir de me chamar assim.
— Desculpe, é automático — o tom de Poseidon parecia sincero. — Mas vai me dizer que você não gosta?
Tudo o que recebeu em resposta foram olhos cinzentos o encarando com fúria, e bochechas vermelhas, talvez de raiva, talvez de vergonha. De toda forma, Atena não se dignou a responder, apenas entornou o vinho tranquilamente.
— Quando você me olha assim e bebe vinho, parece uma vilã de capa de revista — Poseidon divagou.
Atena ergueu as sobrancelhas.
— Não sabia que existiam revistas de vilões.
— Não existem — Poseidon concordou. — Mas se existissem, você com certeza seria a modelo de capa.
Atena não tinha certeza, mas podia jurar que havia um tom de flerte em sua voz quando ele disse aquilo. Ela resolveu tirar sua dúvida:
— Devo entender isso como um elogio à minha beleza ou como uma referência à minha maldade?
— Um elogio, com certeza, amor — Poseidon piscou para ela e colocou sua taça sobre a mesinha de centro. — Preciso sair essa tarde — ele anunciou de repente, como se tivesse acabado de ter uma ideia. — Você precisa de mim aqui ou tudo bem?
Atena deu de ombros, sem se importar — ou ao menos sem demonstrar que o fazia. Era a primeira vez naquela missão que Poseidon saía, sem dizer para onde e sem ser para um lugar relacionado à própria missão.
— É fim de semana, temos o dia livre, de toda forma — ela respondeu e pigarreou timidamente antes de fazer a próxima pergunta . — Hum... você tem hora para voltar?
Poseidon não disfarçou um sorriso ao responder:
— Vou estar de volta antes das sete da noite — ele garantiu. — Tchau, amor.
Atena praguejou e esbravejou, mas Poseidon já não estava mais presente para ouvir.
***
Poseidon não retornou rápido como Atena imaginou. De fato, já passava das cinco da tarde quando ele deu alarde de sua presença na sala de estar — Atena estava no segundo andar, analisando alguns mapas feitos à mão da ilha de Castries.
— Atena?
— Estou aqui em cima! — a deusa gritou em resposta.
Os passos barulhentos de Poseidon foram audíveis na escada, e em seguida ele cruzava a porta do quarto, tendo em mãos uma caixa não muito grande envolta em um lindo e elaborado laço vermelho. Atena levantou a cabeça quando percebeu sua presença e franziu o cenho ao olhar para a caixa estendida à sua frente, mordendo, sem perceber, a tampa da caneta que segurava.
— O que é isso?
— Comprei um presente para você — Poseidon disse, um pequeno sorriso estampado nos lábios que ele mordia.
— Para mim? — Atena franziu as sobrancelhas, interessada.
— Uhum — Poseidon assentiu.
Com a curiosidade desperta, Atena engatinhou até o pé da cama, onde Poseidon estava com a caixa na mão estendida, tirou da mão do deus e a abriu. Para sua surpresa, havia ali dentro um lindo – simples, nada cheio de glitter e cortes complicados, mas lindo – vestido vermelho. Quando o tirou da caixa, foi possível reparar em seus detalhes: quase na altura do joelho (o que era extraordinariamente decente para uma roupa feminina comprada por Poseidon), com algumas pregas na saia, o busto nada elaborado, embora tivesse um decote em V largo, mesmo que não escandaloso, e mangas trabalhadas, onduladas, que caiam como uma mini echarpe sobre os ombros.
— É lindo — Atena disse sem pensar. — Mas por que você me deu isso?
— Vamos sair hoje à noite — Poseidon disse, e Atena não soube dizer se era um convite ou uma afirmação. — Estou com você há tempo o suficiente para saber que faz anos que você não sai para se divertir ou coisa parecida. E você mais do que ninguém precisa de um descanso. E então, o que você me diz?
Atena não pôde evitar corar levemente, olhando ora para o vestido, ora para Poseidon.
— Sair? — perguntou, por fim, como se não soubesse o significado daquela palavra. — Para onde?
— O lugar específico é uma surpresa — Poseidon disse. — Mas, no geral, posso te dizer: a primeira coisa em que pensei foi a França. Porém, estamos falando de você aqui, e eu sei que a França é clichê demais para você.
— Bem pensado — Atena respondeu, mas reparou que ele se referia a clichês românticos. Aonde aquela história estava indo?
— Então me veio: Inglaterra! — Poseidon sorriu como se tivesse descoberto o país, e não pensado em viajar até ele. — Não muito clichê, mas não tão isolada. Além do mais, eu conheço um lugar que você adora lá.
— Conhece? — Atena se perguntou como ele poderia saber de algo que ela adorava.
— Sim — Poseidon assentiu, e, para o absoluto espanto de Atena, segurou a mão dela junto à sua. — Eu não sei quanto tempo você demora para se arrumar, mas ainda temos algumas horas até lá. Só preciso que você esteja pronta às oito. E então, o que me diz?
Atena ainda estava meio desnorteada porque Poseidon havia pego sua mão, e talvez por isso tenha demorado um instante muito longo (durante o qual Poseidon mordia o lábio, parecendo ansioso) para responder:
— Tudo bem.
— Ótimo — Poseidon desvencilhou a mão da sua e sorriu. — Te encontro lá embaixo às oito, então.
E com isso, ele se virou e saiu do quarto.
Atena levou um tempo para conseguir se mover. Eram muitas coisas trabalhando juntas para deixá-la chocada no mesmo dia, e mesmo seu intelecto massivo não era páreo para tal. Se sentindo mais desorientada do que nunca, correu para o banheiro e começou a se preparar.
***
Se havia um momento em que Atena sentia que precisava da ajuda de Afrodite, o momento era aquele. Faltavam trinta minutos para as oito horas, e ela não fazia ideia de que maquiagem passar. Primeiro considerou não usar maquiagem alguma, como sempre fazia, mas então pensou melhor. Se Poseidon dera um vestido de gala como aquele, deveria usar pelo menos uma sombra decente nos olhos. O problema é que não sabia que raios de maquiagem fazer. Há muitos anos, talvez séculos, não tinha uma ocasião para se maquiar.
— Droga — ralhou, derrotada, sentando-se na enorme cama de casal e mal acreditando no que fazia.
Muitas lutas internas e uma Mensagem de Íris depois, Afrodite em pessoa se encontrava de pé no meio do quarto, absolutamente deslumbrante como sempre, envolta em um vestido rosa feito de tecidos leves e exibindo toda a sua longa cabeleira preta.
— Atena, querida! — ela exclamou. — Como senti sua falta! Papai está louco para...
— Shh! — fez Atena, tapando a boca de Afrodite por precaução. — Poseidon não pode saber que você está aqui. Isso se trata de uma missão ultra secreta.
— Oh, adoro missões secretas — Afrodite sorriu. — E então, o que temos aqui? Um problema com a make?
— Sim — Atena admitiu. — Eu não sei que maquiagem fazer.
— Se não for muita intromissão, aonde você vai? — Afrodite perguntou, já empurrando Atena para uma penteadeira no canto do quarto e abrindo as muitas paletas de maquiagem que surgiram magicamente à sua frente. — Não deveria estar salvando o mundo ou coisa parecida?
— Aonde nós vamos — Atena corrigiu. — Poseidon vai me levar a algum lugar, mas não sei...
— Você quer dizer um encontro? — Afrodite perguntou, tentando gritar enquanto sussurrava. — Vocês dois tem um encontro?
— Não é um encontro! — Atena protestou rapidamente. — Nós só vamos sair.
— Meus deuses, eu sabia! — Afrodite exclamou, se esquecendo de que tinha uma maquiagem para fazer e rodopiando por todo o quarto. — Eu sempre soube que vocês iam acabar juntos, eu sabia!
— Shhh, Afrodite! — Atena puxou a deusa de volta. — Ele pode te ouvir, sabia? Agora fique quieta e trate de fazer logo essa maquiagem.
— Tudo bem, mas quando você voltar para o Olimpo vai me contar tudinho, entendeu?
— Okay, só faça.
Com mãos habilidosas e experientes, Afrodite levou menos de 15 minutos para fazer uma maquiagem perfeita, enquanto atualizava Atena sobre a situação no Olimpo da única forma que sabia: por meio de fofocas. A deusa falou sobre quem estava dormindo com quem, qual era a última moda no Olimpo, casamentos que estavam por chegar... Falou sobre tudo, menos sobre as coisas que Atena realmente queria saber. No entanto, a deusa da sabedoria não podia reclamar. A maquiagem de Afrodite estava impecável ao final, e na medida do possível, Atena sabia o que estava acontecendo no Olimpo, então talvez a situação ainda estivesse sob controle.
— Obrigada, Dite — Atena se levantou e abraçou a irmã. — Eu não sei o que eu faria sem você.
— Ah, foi um prazer, querida — Afrodite se afastou, sorrindo. — Divirtam-se no encontro.
— Não é um...
Mas Afrodite já não estava mais no quarto.
***
Eram pontualmente oito horas quando Poseidon chamou Atena do andar de baixo. Além de ser surpreendida por tal pontualidade, um sentimento estranho que crescia em seu peito também a surpreendia. Algo que queimava, e arranhava, e trazia a sensação de que centenas de borboletas voavam por seu estômago. Não tinha certeza do que fosse, mas quase soava como... ansiedade. Mas só podia vir de sua imaginação, é claro, porque nunca, nem mesmo em um milhão de anos, se sentiria ansiosa para ver Poseidon.
Passou na frente do espelho do quarto uma última vez, arrumando os menores detalhes de sua roupa, e por fim sorriu para si mesma. Não estava tão ruim. Tomou coragem e abriu a porta, caminhando para o andar de baixo tão lentamente quanto pudesse. Poseidon estava de pé logo no final da escada e, para surpresa ainda maior de Atena, vestia um smoking completo, incluindo uma gravata — coisa que ele sempre fazia questão de enfatizar que jamais usaria, porque elas o enforcavam.
— Uau — disse Atena, sorrindo. — Alguma chance de que eu te veja vestido assim de novo?
— Sempre encantadora, Atena — Poseidon respondeu, retribuindo o sorriso. — Mas respondendo à sua pergunta, imagino que não. Aliás, o terno e essa mini forca já estão começando a me agoniar. Vou me livrar deles em breve.
Atena tentou ignorar a parte em que ele dizia que ela era encantadora e considerar apenas o humor da segunda sentença, mas ainda assim um leve rubor tomou conta de sua face, fazendo com que seu sorriso irônico falhasse.
— Eu imaginava — ela disse, acenando com a cabeça. — Já posso saber aonde vamos?
— Só quando chegarmos lá — Poseidon estendeu o braço para que Atena o acompanhasse. — Podemos ir?
— Claro — Atena encaixou o braço no seu, que era razoavelmente mais alto do que o dela.
Mesmo sob o terno grosso, ela podia sentir seus músculos debaixo do tecido, e Atena teve que respirar fundo para controlar o próprio nervosismo.
— E só para você saber — ele disse quase num murmúrio, muito próximo de seu ouvido, um sorriso enfeitando seu rosto. — Você está linda.
Tudo rodopiou ao seu redor antes que Atena pudesse fazer qualquer coisa além de sorrir, e em um segundo, estavam em meio a uma avenida movimentada e cheia de luzes. Atena reconheceu os arredores como sendo Londres, mas a deusa mal teve tempo de prestar atenção nos carros, nas luzes ou nas pessoas que caminhavam maravilhadas pelas calçadas, porque Poseidon segurou sua mão e a puxou delicadamente, para dentro de um estabelecimento que, a princípio, era apenas uma recepção elegante, onde um senhor de idade uniformizado aguardava de pé atrás de um balcão de mármore.
— Boa noite, senhor e senhorita — ele saudou, inclinando um pouco a cabeça para Poseidon, e em seguida para Atena. — Nomes, por gentileza?
— Sophie e Alexander Lewis — Poseidon respondeu.
Mais uma vez, Atena tentou ignorar o frio que lhe percorria a barriga, e que agora parecia muito mais com medo do que com ansiedade. Também tentou não reparar muito no fato de que ela e Poseidon compartilhavam do mesmo sobrenome na lista, ainda que fossem falsos. Era impossível ignorar tantas coisas ao mesmo tempo.
— Oh sim — o homem sorriu, erguendo a cabeça. — Mesa 7. Tenham uma boa noite.
— Gostei da escolha dos nomes — Atena comentou enquanto se dirigiam a uma porta de vidro escura no canto da sala. — Por que temos o mesmo sobrenome?
— Bem, eu sou seu tio, não sou? — Poseidon perguntou, e soou como se ele tivesse procurado por aquela desculpa há muito tempo. — E primo por parte de mãe, se preferir aproximar o parentesco. Mas em todo caso, eles só tinham mesas para casal disponíveis.
Atena rolou os olhos, mas não respondeu. Passando pela porta, o lugar era uma das maiores surpresas da noite. Não era um restaurante normal, como Atena pensou, a começar pela extensão. Era como um salão de baile imenso, como aqueles que se vê nos castelos em filmes, com algumas mesas espalhadas nas laterais e diversos casais dançando no grande espaço vazio do meio, ao som de uma música que não poderia ter sido composta depois dos anos 70. O teto abobadado era decorado por pinturas famosas em afresco, e sustentado por pilares de mármore que lembravam a arquitetura olimpiana. E o melhor de tudo: Atena conhecia aquele lugar. Era — ou ao menos fora, um dia — um bar temático, onde só se tocavam músicas antigas. Na época em que o visitara pela primeira vez com todos os deuses, em 1945, as músicas eram tão velhas que poucas podiam ser dançadas, mas fora divertido de toda forma.
— Isso é incrível! — não se conteve ao exclamar, com os olhos brilhando. — Você se lembrou!
— Não tinha como não lembrar — Poseidon sorriu ao ver que Atena parecia ter gostado do lugar. — Era o fim da Segunda Guerra Mundial, e nós dançamos juntos sem que você quisesse me matar, acredita em uma coisa dessas?
Atena deu um tapa leve em seu braço, mas riu.
— Eu cedi à tentação da bebida de Dionísio — disse balançando a cabeça, envergonhada, enquanto ele puxava sua mão até uma mesa perto do centro do salão. — Acho que exagerei na dose..
— Exagerou — Poseidon concordou. — Mas você conseguiu se divertir, imagine só.
— Mas como você se lembrou desse lugar?
— Além de tudo o que eu já disse? Eu morei em Londres nesses últimos cinco anos, enquanto o palácio estava em reforma. Passei muito por aqui — Poseidon sorriu. — De onde você acha que eu peguei o costume de te chamar de "amor" para todo lado?
— Oh, isso explica muita coisa.
Ele puxou a cadeira para que Atena se sentasse, e ela, com um agradecimento baixo, fez como mandava a educação. Poseidon se sentou logo à sua frente, e um garçom se aproximou assim que estavam acomodados. Poseidon conversou algo com ele enquanto Atena colocava sobre o encosto da cadeira a pequena echarpe preta que usava com o vestido, e que trouxera para o caso de esfriar ainda mais.
— O que você vai querer? — Poseidon perguntou.
Atena não prestou muita atenção ao que respondeu, tão maravilhada estava em ver aquele lugar tão lindo e cheio de pessoas novamente, tanto que, um segundo depois que o garçom se retirou, ela já não se lembrava mais do que havia pedido. Pouco importava, de todo modo. Se sentiria confortável a noite toda sem comer sequer um pedacinho de comida.
— Você gostou?
Percebendo que Poseidon falava com ela, Atena olhou para ele. Seus olhos verdes pareciam brilhar mais, ou talvez fosse só impressão. E, ela tinha que admitir, aquele smoking caía muito bem nele. Chegava a dar um ar mais jovial, se é que uma criança como Poseidon poderia parecer mais jovem ainda.
— Eu adorei — Atena disse, e era sincera. — Nem me lembro de qual foi a última vez que vim aqui. Acho que foi aquela, em 1945.
— E depois diz que não fica enfurnada no Olimpo o tempo todo — Poseidon respondeu. — Tem ideia de que se passaram 71 anos, Atena?
— Não é nada para um deus.
— Para uma vida de verdade, é.
O mesmo garçom voltou impossivelmente rápido trazendo o prato de Poseidon e o de Atena — que ela descobriu ser, afinal de contas, um ravióli à cogumelo, e uma garrafa não com vinho, mas com champanhe. Ele serviu a champanhe nas duas taças de vidro sobre a mesa e se retirou.
— De todas as comidas da face da Terra, Atena — disse Poseidon, — por que cogumelo?
— Eu não estava prestando atenção no pedido — Atena confessou. — Mas esse é um bom prato. Você não gosta?
— Cogumelo é um fungo para mim — disse Poseidon, torcendo o nariz. — Eu nunca vou comer essa coisa.
Parece que, uma vez incivilizado, para sempre incivilizado.
— E então... — Atena começou, sem saber ao certo como começar uma conversa pacífica com Poseidon. A maioria de suas conversas começavam com provocações e só assim seguiam adiante. — Como vão as coisas em Atlântida?
— Começando a ficar estáveis, agora — Poseidon disse, parecendo um tanto surpreso pela pergunta. — Uma parte considerável do reino foi destruída na guerra contra Oceano, mas estamos nas etapas finais da reconstrução.
— Eu ouvi dizer que você levou trezentos anos para construir o salão de jogos da última vez — Atena riu, bebendo um gole de champanhe. — Como pretende tornar os próximos duzentos e noventa e cinco anos suportáveis?
— Eu tenho algumas ideias — Poseidon abriu um sorriso de lado, sua comida ainda intocada. — Mas estou aberto à sugestões.
— Por que você não investe em uma biblioteca? — Atena sugeriu, só porque sabia que Poseidon não passaria mais que cinco minutos olhando para um livro sem querer fazer outra coisa.
— Eu tenho uma biblioteca — ele respondeu, no entanto, para sua surpresa. — Da qual eu já li todos os livros. Dificilmente tem algo ali que ainda me entretenha.
Atena estava tão boquiaberta que sequer sabia como responder àquilo. Poseidon pareceu entender sua expressão, porque ele gargalhou brevemente.
— Não me olhe assim. Você não é a única deusa culta do universo, amor.
— Eu nunca duvidei da sua cultura — Atena se inclinou para frente, interessada. — Só não pensei que esse fosse seu tipo de diversão.
— É um dos tipos — Poseidon admitiu, muito vago.
— E me diga — Atena empurrou a taça para o lado, subitamente desinteressada de tudo ao redor. — Do que mais você gosta?
***
No fim das contas, a ponta de curiosidade de Atena rendeu alguns bons minutos de uma conversa agradável e interessante que ela jamais imaginou que pudesse ter com Poseidon. Quando finalmente já não tinham mais fôlego ou assuntos para falar, a comida já estava acabada, os pratos recolhidos, e a garrafa de champanhe, vazia.
Fora do tempo em que estava irritando Atena com todas as provocações possíveis, Poseidon era um cara legal e até mesmo simpático, e durante aqueles poucos minutos, Atena compreendeu porque ele atraía não só um número infinito de mulheres, mas também de amigos. E ela também descobriu, para sua imensa surpresa, que eles tinham muitos gostos em comum. Poseidon era quase o que os mortais chamavam de um nerd, em todos os aspectos, e isso ela jamais imaginaria.
— Espere — ele disse de repente, erguendo a cabeça. — Eu não acredito.
— O que aconteceu? — Atena perguntou, preocupada.
— A música — Poseidon esclareceu. — Nós precisamos dançar essa, Atena.
Atena silenciou para prestar atenção, e não segurou uma gargalhada ao ouvir Time of my life ecoando pelo salão, e um grande número de casais se levantando para dançar.
— Lembra daquela festa? — ele perguntou. — Aquela comemorando não sei qual aniversário de Afrodite? Todos os deuses dançaram.
— O que? Quer dançar essa música? — Atena indagou, incrédula, ignorando a pergunta anterior. — Impossível.
— Ah, por favor, Atena — Poseidon se levantou, e sem esperar por mais, tomou a mão de Atena e a puxou para a pista de dança. — Você sabe dançar muito bem, disso eu me lembro.
— É só mais um dos meus charmes.
— Claro que sim.
Muitos olhares se voltaram para os dois deuses quando Atena cedeu e se levantou, não só pela beleza inumana de duas divindades, mas porque ambos dançavam com tanta graça que era impossível não chamar a atenção. Atena entendeu, por fim, o propósito do vestido rodado e até os joelhos — como o da protagonista do filme Dirty Dancing — que era o toque mais gracioso dos giros que dava durante a dança. Talvez Poseidon tivesse planejado aquilo por mais tempo do que ela imaginava.
Há realmente muito tempo Atena não se divertia daquele jeito. Vivia sempre tão preocupada com a própria imagem, com seu cargo no Olimpo, com a postura a manter perante todos, que se esquecia de viver um pouco para si mesma. E Poseidon conseguiu lembrá-la de tudo aquilo em uma noite. Ela se fez um lembrete mental de agradecer a ele mais tarde.
A música deu seus últimos toques, e palmas soaram pelo ambiente à medida que alguns pares saíam da pista, que ainda assim continuava cheia. Poseidon tinha ambas as mãos na cintura de Atena — fato que a deusa só chegou a perceber quando parou de dançar -, e ela, agora, mantinha uma mão em seu ombro. Seus olhares se cruzaram, e como se um imã os segurasse ali, não se afastaram mais.
Tudo pareceu congelar. De repente, Atena podia sentir cada molécula ao seu redor: o som penetrando seus ouvidos, o calor que a proximidade do corpo de Poseidon emanava. A ardência que parecia circundar a região onde as mãos dele estavam, e as malditas borboletas que insistiam em voar em seu estômago.
E então tudo aconteceu tão lentamente como se estivesse em câmera lenta. Poseidon aproximou o rosto do seu muito devagar, os lábios ligeiramente abertos, e Atena sabia o que estava prestes a acontecer. Ainda assim, contra tudo o que sua mente gritava para si, ela também se impulsionou para cima em direção à boca de Poseidon. E no momento em que seus lábios se tocaram, com tanta delicadeza que era difícil de acreditar, Atena podia jurar que não havia mais ninguém no salão com eles. Havia apenas os dois deuses, no meio de uma pista de dança, e as mãos de Poseidon tão deliciosamente apertando sua cintura. A cena se passava em um segundo literal, mas na mente de Atena, cada milésimo de segundo durava horas. Pela primeira vez desde que saíra da cabeça de Zeus, sua mente parou de funcionar. Ela já não sabia o que fazer. E talvez exatamente isso devesse acontecer. Uma pontinha racional lá no fundo calculava exatamente os movimentos: a mão no ombro de Poseidon deveria descer, empurrá-lo e depois machucá-lo tanto que ele iria direto para o Tártaro. Ao invés disso, aconteceu o oposto.
A mão no ombro de Poseidon subiu, para se enroscar naqueles cabelos negros lisos e deliciosamente macios, onde os dedos podiam percorrer livremente. A língua de Poseidon tocou sua boca, pedindo passagem, e Atena entreabriu os lábios sem hesitação alguma. Ela sentiu o gosto familiar que só os lábios dele tinham, e quando suas línguas se tocaram, pareceram se reconhecer, bailando uma dança unicamente deles. Uma das mãos de Poseidon subiu para suas costas, como se para impedir que ela escapasse dali — não que ela estivesse tentando. O aperto dele ali era quente e confortável, de um jeito que Atena jamais havia experimentado antes. Ele a segurava firme, mas ao mesmo tempo com tanto cuidado como se ela estivesse prestes a quebrar. Quase como se Atena pudesse desaparecer de seus braços a qualquer momento.
Ah, ela daria tudo para que aquele momento nunca acabasse. Pagaria o peso em ouro de quem pudesse mantê-la ali, com as mãos de Poseidon apertando sua cintura de modo carinhoso, suas línguas dançando de modo experiente, seu calor encobrindo qualquer frio que existisse.
Mas existia um monstro chamado consciência, e ele acordou cedo demais. Atena abriu os olhos, assustada, e empurrou o peito de Poseidon.
— Poseidon, eu... — ela já não sabia o que dizer. Sentia o desespero se apoderar de seu corpo. — Você sabe que eu não posso...
— Não pode o que? — Poseidon ainda a segurava pela cintura.
— Eu não posso fazer isso — Atena completou, se soltando por completo. — Eu não deveria ter...
Sabendo que não teria forças para terminar de falar — e, honestamente, sequer teria um argumento válido -, Atena desapareceu dali. Porque Poseidon iria convencê-la se ficasse um segundo a mais. Porque ela estava à beira das lágrimas. Porque cada pedaço de si desmoronava por dentro.
Porque Poseidon não podia descobrir que a única fraqueza de Atena era ele.
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