Três Batidas do Destino

1 Capítulo 1: Véspera de Natal


- Chegamos ao fim de mais uma edição do Plantão de Notícias. Em nome de toda a nossa equipe, desejamos a você uma excelente noite e uma celebração maravilhosa — seja com a família, amigos, seu animal de estimação ou em sua própria companhia. Sintam-se todos abraçados. Obrigado pela audiência e um feliz Natal. Boa noite!


As luzes do estúdio baixam gradualmente, destacando a silhueta imponente de Matt Thomas. Enquanto a equipe o auxilia com o microfone, ele revisa seu tablet uma última vez, cercado por elogios pelo tom intimista e a quebra de formalidade que marcaram o fechamento


Matt despediu-se dos diretores e saiu do estúdio. No camarim, trocou o terno emprestado pelo seu pesado casaco de inverno, preparado para o frio rigoroso lá fora. Ao pegar o celular na mochila, ligou para Sarah, sua esposa há cinco anos.


— Oi, amor! — ele disse.


— Você estava lindo... — Sarah atendeu prontamente, a emoção quase palpável em sua voz.


— Confesso que, hoje, tudo o que eu mais quis foi terminar logo o trabalho — Matt respondeu, um suspiro de cansaço na fala. — Já está pronta?


— Só te esperando para abastecermos o carro com as travessas de quitutes — ela disse, a ansiedade evidente.


— Travessas? Senhora exagero — Matt riu.


— Você sabe que gosto que as pessoas se sirvam à vontade. Te espero! — Sarah encerrou a ligação.


Matt ficou com um semblante pasmo, imaginando o volume que a esposa chamava de "travessas".


— É... tá bom!, ele pensou, balançando a cabeça!


Pelos corredores decorados da emissora, ele caminhava cumprimentando os funcionários. Recebia abraços calorosos das copeiras que, apesar da experiência de vida, cochichavam entre si sobre a beleza singular do homem que comandava o início das noites, tanto nos televisores quanto nas plataformas digitais. Apesar de estar na sede principal, ele sabia que sua imagem chegava simultaneamente a cada afiliada da rede. Diante do profissionalismo e do charme do âncora, Matt já acumulava fã-clubes organizados por suas telespectadoras mais assíduas.


O estacionamento deserto do Estúdio Central Metropolitan Mídia tornava a caminhada inquietante, especialmente sob o frio daquela noite. Entre as fileiras de carros, seguranças patrulhavam com rádios em punho, enquanto câmeras de vigilância monitoravam cada centímetro do asfalto.


Matt, com seu porte físico imponente e a barra de ferro que carregava discretamente, dificilmente seria o alvo principal de um assalto.


— Que susto, cara! — exclamou o guardas de estatura mediana, corpo acima do peso e cabelos longos presos com elástico, surgindo de trás de um Dodge. — Qualquer dia desses você acerta um de nós com essa merda.


— Relaxa, meu irmão — respondeu Matt, com um sorriso de canto.


— Não deixa o pessoal da segurança ver isso, não. É justa causa na certa.


— Com o estacionamento vazio assim, você acha que vou andar de mãos vazias? Até alguém chegar, eu já era.


— Você é grande, Matt, mas uma bala atravessa o peito do mesmo jeito — o segurança riu baixo, observando o jornalista entrar no carro.


— Deixa eu confiar na minha barra. Feliz Natal — despediu-se Matt, dando partida.


Nas ruas, a cautela era regra: a garoa fina tornava a pista escorregadia. Pelo retrovisor, ele encarava os próprios olhos castanhos e o semblante fechado, que lhe conferia um ar de poucos amigos. Isso confirmava certos comentários dos colegas de trabalho, que viam Matt como um cara fechado, dedicado ao telejornal e introspectivo. No rádio, cantarolava suas músicas favoritas; entre letras esquecidas e um timbre duvidoso, ficava claro que o homem de 32 anos acertara na mosca ao escolher o jornalismo em vez dos palcos.


— Sarah, cheguei, amor! Não acredito que ainda não está pronta... — Matt anunciou-se ao entrar, seguindo direto para a cozinha.


Serviu-se de um copo de suco enquanto examinava as travessas que a esposa mencionara. O aroma da comida despertou seu apetite; ele levantou discretamente as folhas de papel-alumínio para furtar alguns salgados, degustando-os como se fossem os últimos do planeta. Debruçado sobre a bancada, Matt observava a casa confortável que adquirira com Sarah quando ainda eram noivos. Visualizou o futuro: a escada tomada por brinquedos e crianças correndo entre a decoração natalina. A árvore próxima aos degraus, com seus presentes meramente decorativos, chegava a ser irritante, mas ele respeitava o tempo de Sarah para concluir o mestrado antes de aumentarem a família.


O silêncio foi interrompido por passos delicados no corredor. Ao se virar, Matt paralisou. Sarah estava magnífica: o vestido vermelho vibrante criava um contraste perfeito com sua pele retinta, e os cachos emolduravam seu rosto como uma coroa. A visão foi tão impactante que ele sentiu uma reação imediata sob o tecido da calça.


— Espero que não estejamos atrasados — disse ele, a voz mais rouca, enquanto seus olhos percorriam cada curva da esposa.


— Estamos, meu amor! Seu irmão já ligou várias vezes. — Sarah aproximou-se e deslizou a mão pela frente da calça dele, sentindo o volume e aplicando um leve aperto. — Acho melhor você acalmar seu amigo antes — sussurrou ela, com um sorriso travesso.


— Falando desse jeito, fica difícil... — Matt suspirou, o desapontamento nítido por ter que sair. — Preciso de um banho e uma roupa casual. Talvez eu quebre a tradição e use preto neste Natal, o que acha?


Por um segundo, ele cogitou seriamente sabotar o próprio carro ou inventar uma emergência de última hora; qualquer desculpa servia para não sair dali. Observou Sarah naquele vestido e a imaginou sobre o balcão da cozinha, onde pretendia entregar a ela todo o desejo acumulado do dia..


Sob o olhar atento da esposa, ele despiu-se ali mesmo, deixando um rastro de roupas pelo chão enquanto a provocava com um sorriso audacioso. O compromisso na casa do irmão perdia o brilho diante do perfume dela, que lhe aguçava os instintos.


— Vou avisar ao Sam que chegaremos atrasados. Suas blusas de gola rolê estão na segunda gaveta. Não demora! — Sarah respondeu, embora seus olhos entregassem a vontade de segui-lo até o chuveiro.


Ao entrar no quarto e ver a camisola de seda azul-royal estendida sobre a cama, o jornalista hesitou. Com o celular na mão, oscilou entre a luxúria e o dever familiar. Por fim, suspirou e deixou o aparelho na mesa de cabeceira, seguindo para o closet.


— Segunda gaveta... — resmungou com um sorriso de canto. — Um closet deste tamanho e meu espaço se resume a três portas e quatro gavetas. Mulheres...


Minutos depois, o aroma amadeirado de Matt anunciou sua presença antes mesmo de ele surgir na sala. Desceu as escadas vestindo jeans escuro e a blusa preta que Sarah indicara, com o blazer cinza dobrado no antebraço enquanto ajustava o relógio no pulso. Sarah, que organizava os panos de prato sobre as travessas, analisou com aprovação como o corte valorizava o porte físico do marido.


— Vamos, querida. Faltam poucas horas para voltarmos e então... — Matt deixou a frase no ar. Tomou a mão de Sarah e piscou de forma sugestiva, aproximando os dedos dos cabelos dela.


— Nem ouse tocar nos meus cachos! — ela riu, esquivando-se. — Levei a tarde toda para arrumá-los.


Matt ergueu as mãos em sinal de rendição. Já aprendera a lição: o altar de cachos de Sarah era sagrado e só poderia ser profanado após a festa.


— Está bem! Mas saiba que, quando voltarmos, não sobrará um cacho modelado para contar a história.


Sarah gargalhou da ousadia. Pegou sua bolsa e as travessas sobre o balcão, seguindo o marido rumo à celebração, enquanto ele equilibrava o restante da ceia


No trajeto, o casal admirava as decorações natalinas, apreciando o luxo nas fachadas dos prédios — em especial os hotéis, que transbordavam turistas. A grande árvore montada no parque central exibia luzes de LED, feixes coloridos e um espetacular show de águas sincronizado a trilhas que variavam do clássico ao eletrônico. Sarah capturava tudo em seu celular, planejando postar em suas redes sociais.


— A quantidade de papais-noéis que transitam pelas ruas é impressionante — comentou ela com certo espanto. — As crianças devem ficar perdidas com tantos "bons velhinhos".


Matt sorriu da observação, soltando uma das mãos do volante para tocar a dela.


— Daqui a pouquíssimo tempo teremos nosso pequeno, ou pequena, e saberemos como é a sensação natalina aos olhos da nossa prole.


Sarah sorriu tímida, perdendo-se por um instante na imagem de si mesma como mãe.


As ruas permaneciam movimentadas, mesmo sob o frio cortante e a garoa fina que insistia em cair. Era um choque de realidade: enquanto as casas abrigavam famílias em ceias fartas, vultos reviravam caçambas de lixo em busca de alimento, à margem de qualquer magia. Sarah sentiu o peito apertar ao observar um casal vestindo roupas gastas. Caminhavam com três crianças e um bebê que, sentado no carrinho, batia palmas com um entusiasmo puro, como se vivesse uma celebração particular.


— Matt, pare o carro, por favor! — Sarah pediu, já destravando a porta.


— Sarah, o que foi? Calma — Matt respondeu, apreensivo ao encostar o veículo.


— Olhe pelo vidro traseiro — ela sugeriu, apontando. — O que você vê, senhor Matt Thomas?


— Uma família... — ele murmurou, observando a esposa secar o canto dos olhos. — Sarah, você sabe que não pode ajudar o mundo todo.


— Estamos levando além do que combinamos com seu irmão. — Ignorando o pragmatismo do marido, ela saltou do carro. — Ei! Por favor, esperem! — gritou, caminhando apressada.


As crianças se encolheram, buscando a proteção da mãe. Sarah levou a mão ao peito, sentindo o coração acelerado enquanto Matt aproximava o carro lentamente.


— Boa noite. Eu sei que pode parecer estranho, mas eu gostaria de oferecer algo... Na verdade, me desculpem, eu nem sei se estão precisando de alguma ajuda.


— Vamos, amor — disse o jovem pai com um semblante humilde, mas endurecido, tentando guiar a esposa pelo ombro.


— Não, espere ela falar — a mulher interveio, com a voz embargada. — Eu não sei quem a senhora é, mas a verdade é que estamos passando necessidade. Não temos nada em casa. Saímos para caminhar no frio apenas para que as crianças vissem as luzes e sentissem que o Natal é lindo.


— Não queremos caridade — o homem retrucou com a voz altiva. — Depois de amanhã, as crianças nem se lembrarão de que o Natal existiu.


Matt desceu do carro e interveio com suavidade:


— Calma, amigo. Como homem, eu entendo sua hesitação. Fomos criados para sermos o pilar, para sermos fortes... Mas, se permitir, gostaríamos apenas de dividir nossa ceia com vocês.


Ao ouvir as palavras dele, a mãe ajoelhou-se no asfalto molhado, sendo amparada pelo filho mais velho. Quando os pequenos perguntaram quem era aquela mulher, ela respondeu em um sussurro: "É um anjo enviado para abençoar nosso Natal".


Matt abriu o porta-malas e entregou as primeiras travessas à mulher. Ao notar o peso do vidro e a dificuldade dela em equilibrar tudo, o marido da jovem devolveu o bebê ao carrinho e correu para ajudá-la. O aroma suculento que escapava do papel-alumínio dominou o ar frio.


— São travessas de vidro. Como faço para devolver? — a jovem perguntou, sorrindo ao ver os filhos devorarem alguns salgados ali mesmo.


— Não precisa se preocupar com isso — disse Matt.


— Eu faço questão, senhor. Posso ser humilde, mas pratico o que ensino aos meus filhos: devolver o que é emprestado é uma regra — afirmou ela, com a voz agora confiante. — Pode anotar meu número? Eu entrego na praça central quando a senhora puder.


Sarah salvou o contato. Ao atualizar o aplicativo, surgiu a foto de perfil: a família reunida sob o nome "Ingrid".


— Enviei um "oi" para você — disse Sarah, despedindo-se com abraços apertados. Matt acenou, observando a mãe repreender docemente os filhos que já pediam mais comida.


De volta ao carro, o silêncio era reflexivo. Sarah notou, pelo status de Ingrid, que ela trabalhava como faxineira e usava o número para divulgação. Enquanto Matt dirigia, ocasionalmente desviando o olhar para a esposa fixa na tela do celular, um pensamento o inquietava: como explicaria ao irmão que a ceia havia sido doada no caminho? Mas, ao olhar para o rosto sereno de Sarah, ele soube que aquela era a única decisão possível.


— Você ficou sentida pela família, né? — perguntou Matt, com um tom de preocupação.


— Me desculpe, amor… eu… — Sarah fez uma pausa, buscando as palavras certas. — Fiquei sentida por todos, é claro. Mas ver aquele bebê batendo palminhas, e depois imaginar que os pais estavam caminhando apenas para cansar os filhos e fazê-los dormir logo... Sabe, eu fico pensando que, se minha mãe não tivesse se esforçado tanto, eu não seria quem sou hoje.


Matt, observando que a rua estava calma, ligou a seta e encostou o carro. Virou-se para Sarah, fixando o olhar no dela.


— Nunca se desculpe, principalmente comigo, por nada que você faça com a intenção de ajudar alguém.


Sarah permitiu que algumas lágrimas deslizassem silenciosamente pelo rosto. Matt abriu o porta-luvas, retirou alguns lenços de papel e secou a face da esposa com toques delicados, beijando-a em seguida.


— Minha pisciana favorita. Já ia me esquecendo: durante uma pausa antes do jornal começar, consegui montar uma playlist com algumas músicas que me fazem lembrar de você. Escute um pouco e me dê sua avaliação, se bem que já estamos tão próximos...


O clima de carinho foi subitamente cortado por luzes de faróis que se aproximavam. Pelo retrovisor, Matt viu um carro que seguia em altíssima velocidade.


— Será que esse idiota não sente o chão escorregadio? Espero que não provoque um acidente... — disse Matt, dando partida e percorrendo as últimas quadras que antecediam o condomínio do irmão